Na casa de Meu Pai

Tissot
James Tissot, 1886-94

No dia 27 de dezembro de 2015, muitos fieis, por esse  mundo fora, ficaram algo perturbados com uma frase infeliz pronunciada pelo Papa Francisco durante a homilia da Santa Missa para as Famílias. O Santo Padre referia-se à narração do episódio bíblico da perda e reencontro do Menino Jesus no Templo entre os doutores.

Provavelmente, por esta sua «escapadela», também Jesus teve que pedir desculpa a seus pais (o Evangelho não diz, mas acho que podemos supô-lo).

(Papa Francisco, homilia sobre a Sagrada Família, 27/12/2015)

O Santo Padre tentou, de alguma forma, enquadrar esta narração no contexto da celebração do Jubileu da Misericórdia, apresentando Jesus como alguém que também precisou de pedir perdão, apresentando-o como um exemplo para os cristãos. Contudo, esta abordagem do Santo Padre, vazia de fundamentação documental, não passou, como o próprio admitiu, de uma mera presunção, que aliás contradiz o ensinamento tradicional da Igreja sobre esta narração bíblica apresentada pelo evangelista São Lucas.

Ingres_Jesus-among-the-doctors
Ingres, 1862

Jesus é Deus, a perfeição total, a sabedoria absoluta sobre o passado, presente e futuro, portando não comete erros nem se arrisca em “escapadelas” ou aventuras. Jamais faria algo relativamente ao qual pudesse vir a arrepender-se, e não o fez.

Quando a Mãe o abordou, a Sua resposta foi mansa e educada mas, ao mesmo tempo, repleta de toda a autoridade divina que provinha do Pai.

Três dias depois, encontraram-no no templo, sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. Todos quantos o ouviam, estavam estupefactos com a sua inteligência e as suas respostas.

Ao vê-lo, ficaram assombrados e sua mãe disse-lhe: «Filho, porque nos fizeste isto? Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura!» Ele respondeu-lhes: «Porque me procuráveis? Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?» (Lc 2, 46-49)

Deus revelou-se, neste episódio, na pessoa de Jesus, na sua divina infância. A sua atitude, a sua inteligência e as suas respostas assombravam todos os presentes, incluindo os seus pais. Jesus era o ungido de Deus, a quem tinha sido confiada a missão messiânica, portanto o templo, a casa do Pai, era o Seu lugar natural. Ele devia ocupar-se das coisas do Pai com toda a autoridade que lhe era conferida por direito divino. Estes seriam, de facto, os primeiros passos da sua missão messiânica.

Mas eles não compreenderam as palavras que lhes disse.

Depois desceu com eles, voltou para Nazaré e era-lhes submisso. Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração. (Lc 2, 50-51)

Maria não compreendeu instantaneamente toda a grandeza daquela misteriosa resposta de Jesus, mas aceitou-a humildemente e com alegria, guardando-a como um tesouro no seu coração.

Essa “escapadela” é, no fundo, o 5º Mistério Gozoso do Santíssimo Rosário.

Basto, 2/2016

One thought on “Na casa de Meu Pai

  1. A abordagem do Papa Francisco faz lembrar a pintura blasfema produzida pelo artista Max Ernest, em 1926:

    Repare-se no pormenor do halo caído, no chão, ou seja a sua santidade. O Menino Jesus é também aqui reduzido pelo artista apenas à sua natureza humana, portanto falível.

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