A dança do sr. Padre Cruz

Este curioso vídeo de um sacerdote que dança no presbitério de uma igreja ao som de palmas e guitarradas tornou-se viral na Internet, principalmente nos domínios de língua espanhola. Aparece quase sempre com o título de “Lady Padre”, sendo frequentemente apresentado como uma gravação feita numa paróquia mexicana. Depois de uma leitura breve de alguns comentários associados a este vídeo, percebe-se facilmente que a confusão deve relacionar-se com o facto de o ritmo musical, bem como as voltas realizadas pelo padre com sua colorida casula, fazerem lembrar a dança do El Jarabe Tapatío. A popularidade do vídeo foi tal que saltou das redes sociais para os jornais, acabando até em títulos de referência como o El País ou a Fox News, por exemplo.

Um visionamento mais atento do vídeo afasta, de imediato, qualquer ideia de uma eventual inculturação nativa mexicana na pastoral católica daquele país. É que os paroquianos estão a cantar em português, aliás com sotaque europeu. As bandeiras que fazem também parte daquela coreografia improvisada, e aparentemente espontânea, estão escritas em português. O próprio cântico é bastante popular em Portugal no encerramento das Eucaristias do tempo pascal. Ou seja, isto terá acontecido num templo católico português e, se não estamos em erro, aquele deve ser o sr. Padre Cruz. Não se trata de um sacerdote desconhecido que prega em alguma pequena paróquia remota do interior de Portugal. Este sacerdote é uma figura pública bastante carismática, com presença regular na televisão.

pe.cruz
tviplayer.iol

Tudo leva a crer que aquele filme tenha sido gravado no final de uma Eucaristia, após a saída da maior parte dos fieis da igreja. Ainda assim, não é aceitável que, fiéis e sacerdote, se comportem daquela maneira dentro de uma igreja, principalmente em frente do altar-mor e junto ao Sacrário. Todos nós temos os nossos excessos e os nossos momentos infelizes e, nesta perspetiva, só temos de seguir em frente e evitar repetir os erros. Esperemos que os visados neste filme também pensem assim.

O grande problema dos dias de hoje não está propriamente nos abusos litúrgicos em si mesmos, que podem acontecer de forma isolada, mas antes na sua persistência consentida e voluntariosa. Abusos e heterodoxias que acontecem com muitos clérigos e leigos, que dessacralizam, não só a liturgia, mas os rituais católicos em geral. Pior ainda, muitos defendem efetivamente a introdução desses mesmos erros, como se de virtudes se tratassem, apresentando-os como modelos a seguir. Por essas e por outras coisas, a nossa geração perdeu o sentido de sacralidade.

Ainda bem que a Ressurreição de Cristo é causa de alegria e de júbilo, motivo de festa que deve continuar depois da Missa, dentro e fora da igreja. Não obstante, há modos diferentes de expressar essa alegria, destinados a sítios que são diferentes. A igreja, o Templo de Deus, é o lugar sagrado por excelência, e a Eucaristia é o momento mais alto da relação de Deus com o homem. Aí, a nossa alegria deve ser expressada em silêncio ou então de forma solene.

A Eucaristia é a celebração de um sacrifício, é a imolação do Cordeiro de Deus entregue para salvação dos homens. A Eucaristia não é uma mera recordação da Última Ceia de Cristo, nem tampouco uma recordação da Paixão de Cristo. É o próprio Cristo que está a ser imolado na consagração da hóstia e do vinho, é um reviver de todo o mistério da Sua Paixão. Esta verdade de Fé não depende de interpretações subjetivas, ela é fundamental para a nossa salvação eterna, ou acreditamos, ou não. Deste modo, se as danças, ao som de palmas e de guitarradas, não eram adequadas à Última Ceia de Cristo, também não o são durante a celebração da Santa Missa. Não são atitudes que se coadunem com o sofrimento de Cristo no Getsêmani, nem nos lugares ou momentos onde foi julgado, flagelado, coroado de espinhos, ou carregou a cruz e foi crucificado. Na sua essência, a Eucaristia é exatamente a mesma coisa.

 

Basto 3/2016

 

 

 

 

 

 

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