O “marketing de Deus”

marketing

Não sabemos se estamos a viver uma mudança de paradigma na Igreja Católica, mas uma coisa é certa, o que vemos através da comunicação social é verdadeiramente perturbador.

Qual será a melhor reposta que a Igreja pode dar à grande crise de valores que vive a humanidade? Qual será a melhor solução para que Cristo passe a reinar nos corações das pessoas do mundo inteiro? Qual será o melhor caminho para renovar a Igreja?

Assim à primeira vista, a chave necessária parece estar na Graça de Deus. Obtém-se através da penitência, oração, conversão, participação nos sacramentos, educação católica, evangelização e por aí adiante… Mas para isso é necessário acreditar que a Fé Católica é a única Verdade que conduz à salvação e que a Igreja Católica, instituição fundada pelo próprio Cristo, se rege por leis divinas, dependendo dessa mesma Graça de Deus.

Agora, para quem entende a Igreja Católica Romana como uma espécie de empresa multinacional, ou uma ONG com fins humanitários e sociais, a solução terá de ser necessariamente diferente. Nesse caso, definem-se os objetivos a alcançar, encontra-se o parceiro adequado, delineia-se a estratégia para cativar um mercado específico ou um público-alvo, e põe-se o marketing a funcionar. Mas haverá maior sacrilégio do que reduzir Deus à condição de produto comercial? Haverá maior desconsideração pela Fé Cristã do que transformá-la numa propaganda ideológica social ou política aprazível?

O jornal argentino La Nacion, em novembro do ano passado, dedicou um interessante artigo à empresa de Buenos Aires, a mesma que viria a ser responsável pelo projeto “Vídeo do Papa” e também, em parceria com os Jesuítas portugueses, pelo desenvolvimento da aplicação Click to Pray. A empresa chama-se La Machi e opera no setor da comunicação publicitária e do marketing, assumindo-se como “agência de boas causas especializada na comunicação religiosa e cuidado da criação”. O referido jornal argentino explica que ela ganhou a fama de ter no Papa Francisco o seu “principal cliente”.

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Logótipo oficial da empresa La Machi

Apesar de, por enquanto, o seu mercado situar-se principalmente no catolicismo, o seu nome e o seu logótipo são inspirados em crenças religiosas tribais chilenas. Uma machi é uma curandeira, física e espiritual, conselheira e protetora do povo indígena Mapuchi.

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Três machis em 1903

O jornal diz que a empresa aceitou fazer o “marketing de uma das instituições mais poderosas do mundo [entenda-se Igreja Católica]”, neste sentido, Juan Della Torre, fundador da empresa, “propôs-se a restabelecer o vínculo entre a Igreja Católica e os seus seguidores”, sustentando que “a Igreja e o marketing falam a mesma linguagem”… Uau! Antes de mais, devemos admirar a ousadia do empresário que se propõe a recuperar aquilo que milhares de clérigos da hierarquia católica viram desaparecer ao longo das últimas décadas. Trata-se de uma missão titânica, sem dúvida alguma. Como é que ninguém se tinha ainda lembrado disto antes?

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Destaque da jornal La Nación, novembro de 2015

Foram necessários dois milénios para se chegar à conclusão de que a crise de Fé do homem contemporâneo era afinal uma tendência de mercado passível de inversão. Necessita de um bom estudo de mercado para melhor entendimento das tendências do consumidor contemporâneo, uma atualização do produto de acordo com os preferências atuais e já está… Quem sabe até se não haveria vantagens na criação de um cartão que premiasse a fidelidade, à semelhança das gasolineiras e dos supermercados?

Para já, esta estratégia está a ser um sucesso. Os índices de popularidade do Santo Padre tocam as nuvens, mesmo entre os setores tradicionalmente indiferentes e até inimigos da Igreja Católica. O novo produto Click to Pray tem, logo à partida, o sucesso garantido e, se calhar, já ninguém se admirará muito se, entretanto, resolverem criar uma versão para a Play Station ou para a Wii.

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Ligação à aplicação Click to Pray

O outro produto que se encontra já consolidado no mercado, o Vídeo do Papa, vai agora na sua terceira publicação e está a ter um grande sucesso entre os católicos, apesar de não ser propriamente católico. Se, mais para a frente, houver alguma cerimónia semelhante à da entrega dos oscares de Hollywood, Jesus Cristo arrisca-se a ser nomeado para o prémio do melhor personagem secundário dos vídeos papais. Tendo em conta, evidentemente, os vídeos de janeiro e de março, uma vez que no de fevereiro Ele esteve completamente ausente. Como a série ainda vai no início da primeira temporada, pode ser que, mais para a frente, Cristo acabe por despertar mais interesse no diretor cinematográfico…

O “marketing de Deus” está a funcionar e o mercado continua a aderir muito positivamente, falta-nos apenas conhecer o grau de satisfação do próprio Deus. Afinal de contas, Ele é o principal visado de toda esta campanha!

Basto 3/2016

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