Amoris Laetitia – Evolução ou subversão da linguagem?

Cisnes relfetindo elefantes (1973)
Salvador Dali, 1937

A literatura subversiva, sendo contrária à ordem estabelecida, normalmente visa destruir conceitos, quebrar paradigmas, sendo muito característica de períodos históricos revolucionários ou pré-revolucionários. Muitas vezes, a única maneira através da qual se consegue furar a ordem estabelecida, para tentar impor uma nova, é optando pela suavização da linguagem, ou pela substituição lexical de algumas palavras-chave, ou ainda recorrendo à manipulação do significado de conceitos fundamentais dados por adquiridos. Por vezes,  serve-se até de simbologia alegórica, presente em contos aparentemente ingénuos ou em fábulas quase infantis. É ainda o caso de alguma poesia, música de intervenção e outras expressões artísticas. O que não é muito comum é vermos este tipo de contra-poder ser exercido por quem está, de forma livre e voluntária, à frente do poder. Daí as dúvidas…

A exortação apostólica Amoris Laetitia tem dado muito que falar e, com certeza, vai continuar a dar ainda mais nos próximos tempos. As opiniões variam muito, formando um largo espectro que vai desde quem a vê como uma reafirmação da doutrina tradicional da Igreja até aqueles que a entendem como uma revolução.

Ainda há poucos dias, o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura publicou a tradução de um “guia de estudo” da Alegria do Amor, contudo, à boa maneira dos nossos dias, às inúmeras questões que a exortação apostólica levanta, ele responde com ainda mais questões…

Mas vamos, por agora, centrar-nos meramente na utilização de algumas palavras-chave aí empregues para se referirem, em termos semânticos, a situações que, à luz do magistério tradicional da Igreja, têm avaliações radicalmente diferentes das que este documento aparentemente lhe atribui.

Subversão da linguagem, falta de jeito, misericórdia (?), astúcia, ou seja por que razão for, o documento presta-se a várias interpretações, mas o cristão não pode acabar mais confundido do que estava antes da sua publicação. Uma pastoral errada pode conduzir muitas almas à perdição eterna. E não se trata aqui apenas de alguns casos particulares à procura de uma nova “pastoral”, mas de todos os outros que perdem a noção da gravidade do pecado, deixando de o evitar pois, na pior das hipóteses, apenas correm o risco de cair num caso particular… Parece que a nova ideia de misericórdia pretende eliminar o Inferno, mas se calhar acaba antes por esconder o verdadeiro caminho para o Céu.

Glossário de alguns termos confusos na Amoris Laetitia:

  • “situações chamadas «irregulares»” (Parágrafos 297, 301) – é aquilo que o magistério da Igreja denomina como “situação de adultério público e permanente”, referindo-se a uma situação pecaminosa grave que se inclui na categoria dos pecados mortais. Na Amoris Laetitia, a palavra “irregular” aparece entre aspas e antecedida pela palavra “chamadas”, sugerindo dúvidas sobre a irregularidade dessas mesmas “situações”, o que pode levar, de facto, os fieis a relativizar a irregularidade dessas relações, no entanto, o ensinamento tradicional da Igreja é claro e objetivo sobre a ilicitude do adultério.

 

  • “discernimento” (termo que aparece mais de 30 vezes em todo o documento) – se não possuir uma base doutrinal sólida, o leitor pode acabar confundido, entendendo o “discernimento” como a aceitação “pastoral” daquilo que até agora significava “obstinação no pecado”. Algo que se enquadra na classe dos pecados contra o Espírito Santo, os únicos para os quais não há perdão. O termo “discernimento” não é novo, já foi utilizado várias vezes, por exemplo, pelo Papa João Paulo II, na exortação apostólica Familiaris Consortio, embora aí tivesse um significado diferente, onde justificava precisamente a não admissão à comunhão eucarística das pessoas que se encontram objetivamente em situação de pecado grave.

 

  • “matrimónio apenas civil” (Parágrafo 293) – o matrimónio é um sacramento cristão e, portanto, necessariamente religioso. Se uma união é apenas civil, então nunca foi matrimónio. Do ponto de vista cristão, só pode ser considerada uma relação imoral, ilícita, cuja sexualidade se enquadra no âmbito do pecado da fornicação. Necessita de ser regularizada à luz do ensinamento magisterial da Igreja.

 

 

A Verdade é só uma e prevalecerá para sempre, sólida e sublime, resistindo à evolução das mentalidades e da linguagem.

Um cisne jamais será um elefante.

 

Basto 5/2016

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