A Alegria do Amor em Espanha

No passado dia 14 de abril, a Conferência Episcopal Espanhola apresentou publicamente a exortação apostólica Amoris Laetitia. O painel de apresentadores era composto por seis grandes personalidades, representantes da hierarquia religiosa espanhola e também académicos, liderados por D. Carlos Osoro Sierra, arcebispo de Madrid e vice-presidente da Conferência Episcopal Espanhola.

No que concerne ao tema quente da exortação apostólica, a comunhão a divorciados “recasados”, é possível deduzir, partir das declarações dos presentes, uma aceitação natural dos avanços heréticos da hermenêutica kasperiana. Este facto confirma-se na resposta à primeira questão levantada pelos jornalistas (a partir do minuto 54:58) que foi, justamente, sobre a “ambiguidade” do texto que poderia permitir o seguinte paradoxo:

Pode acontecer que numa paróquia se dá a comunhão a um divorciado “recasado” […] enquanto na paróquia ou diocese ao lado não, […] como se vai resolver esta situação no dia-a-dia?

A questão criou algum desconforto nos presentes – pelo menos aparentemente – cuja reação fez lembrar uma batata quente, de mão em mão, que acabaria inevitavelmente no fim da mesa. Coube ao jesuita Pablo Guerrero, professor de Teologia Pastoral na Universidade Pontifícia de Comillas, apresentar uma resposta, a qual não foi contestada pelos restantes elementos que compunham o painel:

Isso é como sugerir que seria em função do critério do padre e não é. O Papa, num claro exercício da sinodalidade e comunhão com todo o corpo de bispos da Igreja, o que propõe ao pastor de cada diocese é formar os seus sacerdotes num conjunto de critérios comuns para evitar tal arbitrariedade. Nenhum sacerdote se deve sentir dono da Palavra de Deus .

Ou seja, depreende-se das suas palavras, que sim, só faltaria definir os critérios de elegibilidade dos divorciados “recasados” que poderão aceder à comunhão.

Num registo diferente, ainda esta semana, também em Espanha, no Seminário Metropolitano de Oviedo, o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé contestou categoricamente essa possibilidade. O Cardeal Gerhard Müller reafirmou, mais uma vez, o magistério tradicional da Igreja neste domínio, fazendo questão de diferenciar o que é “excomunhão canónica” e “excomunhão sacramental” para refutar a tese kasperiana desta forma:

Eles [os divorciados “recasados”] não estão excomungados canonicamente, no entanto não poderão comungar sem antes regularizarem a sua vida e receberem o sacramento da Penitência.

[Tem havido alguma confusão, no entanto] a Igreja não é dona da Graça, apenas administra os sacramentos, estando vinculada e obrigada a caminhar nessa linha. A Igreja não tem autoridade para alterar este caminho dos sacramentos.

A “nova pastoral da família” promovida pelo Papa Francisco começou a gerar controvérsia em Espanha ainda antes da publicação da exortação apostólica, por exemplo,  nas dioceses de Alcalá y Getafe.

Já aqui se falou antes no trabalho ingrato da brigada de limpeza da Amoris Laetitia, cujas esfregonas se gastam intensivamente desde o dia 8 de abril, mas vale ainda a pena ouvir os sinceros esforços do excelente teólogo Pe. Santiago Martin na Magnificat TV.

 

Basto 5/2016

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