“Virgen Desatanudos” – perigos e excessos de uma devoção moderna

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Schmidtner, por volta de 1700

É difícil contar, ou mesmo estimar, as muitas devoções marianas existentes por esse mundo fora. Algumas são ancestrais, com origem incerta, outras surgiram mais tardiamente, por exemplo, depois de aparições confirmadas pelas autoridades eclesiásticas. Enquanto umas são de cariz popular, ligadas à tradição cultural e etnográfica, outras personificam ensinamentos profundos de natureza doutrinal e dogmática.

Uma lista incontável de títulos e advocações dirigidas àquela que é a maior de todos os seres humanos, a que foi concebida sem pecado original e escolhida para ser a Mãe de Deus. De um modo geral, todas eles honram as características de Nossa Senhora enquanto mulher e enquanto mãe de Deus e dos homens.

Quando ouvimos uma nova referência à Virgem Maria, seja ela relacionada com uma determinada capela ou igreja, ou então presente numa festa, numa novena, ou ícone menos conhecido, a nossa mente assimila-a instantaneamente e adota-a de forma natural e afetuosa. Mas há pelo menos uma que causa estranheza. Quando o cristão se depara, pela primeira vez, com algo chamado Virgen Desatanudos, a situação é diferente, até parece que a engrenagem mental empanca momentaneamente. A incredulidade do momento obriga a pessoa a confirmar o que acabara de ler ou ouvir ainda antes de processar a informação, uma vez que tal designação provoca, no mínimo, perplexidade…

Assume-se como uma variante da devoção à Imaculada Conceição, a quem se reza para desatar os nós da vida conjugal, da família e dos povos”. Os “nós” são os problemas, no entendimento dos seus devotos.

 

Origem da devoção

Esta devoção remete-nos para um ícone pintado por Johann Schmidtner, possivelmente entre o séc. XVII e XVIII, que se encontra exposto na Igreja de San Peter am Perlach, no centro da cidade bávara de Augsburg, na Alemanha. Terá sido em 1986 que o então Pe. Jorge Mario Bergoglio conhecera e se deixara fascinar por esta representação de Maria, localmente denominada Knotenmadonna (Senhora dos Nós), para depois a difundir, a partir de Buenos Aires, por toda a América Latina, onde é hoje muito popular, por exemplo, na Argentina e no Brasil.

O padre jesuíta argentino encomendou, posteriormente, uma cópia do quadro para ser colocada na Igreja de San José del Talar, onde agora se situa o Santuário de La Virgen que Desata los Nudos. Hoje, sem dúvida, um dos mais populares centros de peregrinação da Argentina, com destaque nos dias 8 de cada mês.

Esta devoção, assim como a sua crescente popularidade, estão intimamente ligadas ao Papa Francisco que a tem por favorita. A ele se deve a sua difusão universal. Até já lhe chamaram elogiosamente o Papa desatanudos.

Apesar de não ser a regra geral, a constatação de alguns abusos verificados nesta devoção e na sua iconografia recomenda prudência e zelo cristão para se evitarem heterodoxias e sacrilégios desnecessários.

 

O nome da devoção

Nos países de Língua Espanhola, onde ela é mais popular, é conhecida por várias designações, umas mais felizes do que outras:

A ambiguidade do neologismo popular “desatanudos”, que deriva da justaposição das palavras “desata” e “nudos” (“desata”+”nós”), parece uma chalaça, pois pode ser lida de duas maneiras: “desata-nudos” ou “de-satanudos”. A primeira dispensa qualquer comentário, mas em relação à segunda, a questão muda seriamente de figura…

A palavra “satanudos” não faz parte do léxico espanhol, mas o radical “udos”, à semelhança do que acontece na Língua Portuguesa, pode atribuir um sentido de propriedade, como ocorre, por exemplo, na relação entre as palavras “barriga” e “barrigudos”.

Felizmente, os devotos de Língua Portuguesa, regra geral, conhecem-na por “Desatadora dos Nós”, evitando a justaposição dos termos. Pois, quando isso não acontece, o resultado é Virgem Desatanós, cuja sonoridade, por proximidade homófona, lembra diretamente o diabo.

Enfim, um conjunto de designações que merecem atenção e cuidados acrescidos por parte dos seus devotos.

 

Abusos gráficos

A maioria dos ícones de Nossa Senhora Desatadora dos Nós – graças a Deus – não merece grandes reparos ou críticas. No entanto, em alguns casos, é possível encontrar graves abusos de autor, insultuosos para a Mãe de Deus e para a Fé Católica, que obviamente denunciam o atrevimento artístico e a insensatez de quem percebeu completamente a peculiar ambivalência semântica de uma designação como Virgen Desatanudos e ousou brincar com isso. Só podem tratar-se de trabalhos de pseudo-artístas insensíveis, sem respeito nem escrúpulos, que visam zombar da Fé dos cristãos devotos de Nossa Senhora.

Em causa estão invulgares imagens que representam uma senhora com os ombros despidos, segurando a parte superior do vestido para não mostrar os seios, e denunciando perversidade nas expressões faciais (1), acompanhada de outros elementos atípicos que compõem o quadro como, por exemplo, a serpente exageradamente grande que não é esmagada mas antes acariciada (2), os anjos impúdicos (3), etc. Ou seja, insultos velados ao bom nome de Maria feitos através da arte gráfica, representando aquilo que é exatamente o significado inverso da sua Imaculada Conceição.

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Estamos a falar, em termos objetivos, de incursões artísticas verdadeiramente satânicas na iconografia católica.

Por exemplo, em 2014, a então Presidente da Argentina, Cristina Kirchner, consciente ou inconscientemente, insultou a Mãe de Deus, o Santo Padre e, com ele, toda a Igreja Católica, ao chegar à Santa Sé com a oferta de um ousado ícone tridimensional da Virgen Desatanudos que reproduzia o cântico do “aleluia”.

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Sitio Andino, 20/09/2014

Simplesmente, um horror… Mas pior ainda é vermos o Santo Padre, aparentemente feliz, a agradecer aquela oferta horrenda (convém relembrar que a imagem acima é uma escultura onde, apesar da ilusão ótica, a serpente encontra-se, de facto, à frente da ousada mulher aí representada). Onde poderá ter ido parar tal obra de mau gosto? Esperemos que não esteja no altar de uma capela de Roma!

Se aquilo acontecesse em determinadas paróquias portuguesas, a senhora Cristina poderia vir a precisar de escolta policial até ao aeroporto! Talvez, mas é melhor não por as mãos no fogo…

Há outras similares, infelizmente.

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Parque Temático Terra Santa, Buenos Aires

Isto é algo que, em rigor, se pode catalogar no âmbito dos “pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria”.

 

Formas de culto

O culto da Desatadora de Nós na Igreja Católica presta-se, muitas vezes, a práticas bastante duvidosas, heterodoxias, senão mesmo a abusos litúrgicos.

– O Sr. Pe. Hélio entusiasmou-se…

Fora da Igreja, é frequentemente associada a rituais mágicos ou outros que misturam a religião com o ocultismo.

 

Cuidado adicional

Em Portugal, na gíria popular, “dar o nó” significa casar-se, sendo bastante frequente dizer-se “vou” ou “vamos dar o nó” em vez de “vou” ou “vamos casar”. Deste modo, no contexto cultural lusitano, torna-se algo absurdo rezar pelos “problemas da vida conjugal” à “desatadora dos nós”.

Em caso de dúvidas, o melhor será mesmo rezar diante da tota pulchra tradicional imagem da Imaculada Conceição de Maria.

Basto 5/2016

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