Conversão da Rússia, a quê?

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A hermenêutica dominante – ou talvez imposta – na Igreja Católica acerca da mensagem de Fátima é a de que estamos perante um facto consumado que vale a pena recordar e celebrar.

Quase um século depois de Nossa Senhora ter profetizado a conversão da Rússia, na Cova da Iria, em Fátima, e dado o clima de festa que agora se vive em torno do centenário das aparições, talvez seja o momento para analisar o alcance dessa conversão.

A Rússia converteu-se a quê?

Já aqui se falou antes sobre este assunto, em particular sobre algumas consequências dessa anunciada conversão, ou da falta dela. Em síntese, o que nós podemos atualmente constatar é que as duas Igrejas, Católica e Ortodoxa Russa, continuam separadas, quer no campo institucional, quer no doutrinal. O paradoxo é tanto maior quanto mais reparamos que se alguma Igreja se converteu em algo radicalmente diferente daquilo que era em 1960 – data indicada por Nª Sª para a abertura do envelope do 3º Segredo de Fátima -, essa Igreja não foi a Ortodoxa Russa. Se a nação russa mudou alguma coisa ao nível religioso, as nações ocidentais, tradicionalmente católicas, parecem ter mudado muito mais…

Deixemos, por agora, a questão religiosa e centremo-nos na sucessão de paradigmas políticos e ideológicos nessa nação à qual se exigia a conversão.

Fátima, mesmo na hermenêutica oficial, visava derrotar o  comunismo, em especial na Rússia, tida como principal origem dessa onda revolucionária contrária à Fé. O comunismo, bem como outras ideologias que lhe eram associadas (socialismo, marxismo, ateísmo, materialismo, coletivismo, etc.), opunha-se à religião e à ordem social estabelecida, visando destruí-las, substituí-las.

Se fizermos uma análise social puramente dialética, os padrões da sociedade russa do início do séc. XX, intrinsecamente religiosa, seriam a tese que a revolução comunista, a antítese, visava destruir.

O comunismo na União Soviética foi, durante décadas, um regime hostil à religião, tentando aniquilá-la definitivamente. Proibiu o culto, fechou e destruiu igrejas, perseguiu os religiosos e promoveu o materialismo ateu. Durante as primeiras décadas da era Soviética, a culto religioso foi completamente interditado. No entanto, mais tarde, acabaria por ser legalizado, mas sempre fortemente condicionado e controlado pelo regime.

Toda a gente reconhece que, após o colapso da União Soviética, a religiosidade aumentou exponencialmente na Rússia. Abrem-se novas igrejas, reconstroem-se as que tinham sido devastadas pelo regime comunista e a religião vive novos dias naquele território. Mais do que isso, ao contrário das modernas democracias laicas ocidentais, na Rússia existe hoje uma ligação estreita entre o poder político e o clero. Chegou-se ao absurdo, impensável em 1960, de ser o líder político da Rússia quem dá lições de moral e religião aos líderes políticos ateístas dos países ocidentais…

Muitos cristãos tradicionais, no mundo ocidental, chegam mesmo a considerar Vladimir Putin como o último governante cristão, alimentando a crença num mítico “grande monarca” esperado para os últimos tempos bíblicos!

O que se sucedeu então? A Rússia abandonou o comunismo ateu e converteu-se ao cristianismo, enquanto que o Ocidente se converteu ao materialismo ateu? Talvez, mas algumas coisas continuam a não bater certo no meio disto tudo. Não seria de esperar, hoje, que uma Rússia convertida condenasse veemente o regime comunista sanguinário do passado soviético?

A Igreja Ortodoxa Russa elogia frequentemente o passado comunista

Por exemplo, a 22 de janeiro de 2015, época natalícia no calendário ortodoxo, o Patriarca Kirill, perante a Duma do Estado, afirmou o seguinte:

Quando se começa a falar dos tempos soviéticos, alguns idealizam-os, outros demonizam-os. Contudo, nessa época, havia algo que gerou esses tempos, e será que podemos aceitar isso claramente, incorporando-o na nossa filosofia de vida? Isso era: solidariedade.

E aqueles membros Komsomol (jovens comunistas) que uniram plantações, construíram a BAM (principal linha ferroviária Baikal – Amur) sem receberem qualquer recompensa ou privilégio em retorno? Isso é o sentido de trabalho em equipa, o sentido de  querer fazer algo de bom pelo país.

(Patriarca Kirill in RISU, 26/01/2015)

Apelou ainda, nesse mesmo discurso, a uma “cooperação entre as forças políticas” em prol de uma ideia de unidade e continuidade histórica, contra as tendenciosas desinterpretações do passado.

O líder da nação lamenta o colapso da URSS e reafirma-se comunista:

Por exemplo, no dia 25 de abril de 2005, perante a Assembleia Parlamentar Russa, no seu discurso anual dirigido à nação, transmitido em direto pela televisão, Vladimir Putin afirmou categoricamente o seguinte:

Deixem-me lembrá-los de como começou a história da Rússia moderna. Em primeiro lugar, deve ser reconhecido – e eu já disse isso antes – que o colapso da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século.

E, para o povo russo, isso tornou-se num verdadeiro drama. Dezenas de milhões de cidadãos nossos e companheiros russos viram-se fora da Federação Russa.

(Vladimir Putin in BBC Brasil, 25/01/2015)

Existem muitas outras intervenções sugestivas da parte dos atuais líderes políticos russos e, em particular, do presidente Putin. Entre outras, no dia 26 de janeiro de 2016, em Stavropol, o todo poderoso Vladimir Putin confessou descaradamente o seguinte:

Gostava e ainda gosto das ideias comunistas e socialistas. Se olharmos o “Código [Moral] do Construtor do Comunismo”, que circulou largamente pela União Soviética, ele é bastante similar à Bíblia.

Ao contrário de muitos funcionários – e eu não era um -, do ponto de vista do Partido, eu era um membro ativo, eu não deitei fora o meu cartão de membro partidário, não o queimei. O Partido Comunista da União Soviética colapsou, mas a minha identificação está lá em algum sítio.

(Vladimir Putin in Russia Beyond the Headlines, 25/01/2015)

O Código Moral do Construtor do Comunismo foi um compêndio de princípios morais aprovado pelo Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1961, amplamente difundido na propaganda do regime. Uma espécie de “catecismo” com os 12 “mandamentos” comunistas.

Para além de não ter nada de “bíblico” nem de cristão, este manual foi contemporâneo de uma das maiores campanhas de perseguição religiosa levadas a cabo em toda a era soviética, liderada por Nikita Khrushchev.

PRINCÍPIOS DO “CÓDIGO MORAL DO CONSTRUTOR DO COMUNISMO” (Wikipedia)

  1. Lealdade à causa comunista, amor à pátria socialista e aos países socialistas.
  2. Trabalho consciente para o benefício da sociedade. Quem não trabalha, não come.
  3. Todos têm o dever de se preocupar com a preservação e com o crescimento do domínio público.
  4. Elevado sentido de dever público, intolerância ao desinteresse público.
  5. Coletivismo e ajuda mútua. A camaradagem é: um por todos e todos por um.
  6. Respeito mútuo entre as pessoas: o homem é um amigo, companheiro e irmão para o homem.
  7. Honestidade, veracidade, pureza moral, simplicidade e modéstia na vida pública e privada.
  8. Respeito mútuo na família. Preocupação com a educação das crianças.
  9. Atitude intransigente perante a injustiça, o parasitismo, a desonestidade e a especulação.
  10. Amizade e irmandade entre todos os povos da URSS. Intolerância ao ódio nacional e racial.
  11. Intolerância com os inimigos do comunismo. Paz e liberdade das nações.
  12. Solidariedade fraterna com os trabalhadores de todos os países em todas as nações.
código moral do construtor do comunismo
Postais elucidativos de alguns dos princípios definidos no Código Moral do Construtor do Comunismo

Independentemente das opiniões que cada um possa ter, qualquer análise objetiva da evolução histórica e conjuntural da nação russa no último século deve ter sempre presente os princípios básicos que fundamentam o comunismo. Neste sentido, seria erróneo esperar que um eventual renascimento futuro do comunismo na Rússia, ou em qualquer outro lugar, viesse para hostilizar a religião. Numa ótica de entendimento dialético comunista, será mais lógico esperar que o eventual reaparecimento do comunismo resulte da síntese entre as duas teses antagónicas do passado. Um comunismo de cara lavada, de discurso aprazível, capaz de integrar a própria Igreja institucional na sua rede de influência, subjugando-a e servindo-se das suas enormes potencialidades.

A aproximação entre a doutrina cristã e o comunismo já foi experimentada anteriormente. No passado soviético mais tardio, muitos clérigos influentes da Igreja Ortodoxa, entretanto legalizada, eram membros do Partido Comunista. Na América Latina, a luta de classes é, desde há muito tempo, fomentada pelos padres e teólogos da Teologia da Libertação.

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Pérez Esquivel, 1992

Que esperar do comunismo moderno?

A cor vermelha foi muito estigmatizada no passado, se calhar é melhor optar por outra, ou por outras, quanto mais colorido melhor! Os arcos-íris estão na moda e o verde ecológico também.

Agora fala-se menos de luta armada, de ditadura do proletariado, de comités centrais, de Marx, de Lenin, ou de Mao, para se falar mais do ambiente, da Terra, dos agricultores, das mulheres, dos males do capitalismo e até de Jesus Cristo. A própria Igreja Católica, de forma mais ou menos inconsciente, acaba por entrar na onda e, quando nos damos conta, estamos todos a cantar a mesma música…

O comunismo, fortemente condenado por sucessivos Papas, é completamente incompatível com o cristianismo, qualquer tentativa de aproximação das duas coisas resulta na adulteração da Verdade cristã.

Basto 6/2016

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