Greco-Católicos Ucranianos: a peça fundamental

Disse-lhes Ele: «Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar.» (Jo 21, 6)

Quem são?

A Igreja Greco-Católica Ucraniana é uma igreja particular oriental, sui juris, em plena comunhão com Roma desde a União de Brest que ocorreu em 1595. Assumem-se ortodoxos, pois pertencem à tradição litúrgica bizantina, mas professam a Fé Católica e obedecem ao Papa. Por outras palavras, são ortodoxos católicos ou católicos orientais. No meio ortodoxo, são normalmente conhecidos como “uniatas” (ou Igreja Uniata), sendo este termo utilizado com conotação negativa.

Os católicos orientais são, infelizmente, bastante desconhecidos da maior parte dos católicos de Rito Latino e o seu papel é muitas vezes subvalorizado porque são menos numerosos e porque, enfim, parece que “não são carne nem são peixe” – um raciocínio que não podia estar mais errado. Apesar da tradição ortodoxa, eles são católicos de pleno direito, pelo que qualquer um dos seus bispos ou cardeais pode ser nomeado para o exercício de cargos de destaque dentro da Cúria Romana, podendo inclusivamente ser eleito Papa. Uma possibilidade que, de resto, já foi ficcionada na literatura e no cinema através do livro “As Sandálias do Pescador”, de Morris West, e posteriormente no filme homónimo.

Mais do que serem católicos de pleno direito histórico e institucional, eles são-no por direito de sangue. Os católicos orientais foram severamente perseguidos e levados quase à extinção, principalmente durante a era soviética, pela simples razão de se terem recusado a cooperar com o regime comunista, ao contrário do que acabaria por acontecer, por exemplo, com a Igreja Ortodoxa Russa. A igreja mártir da Ucrânia, os católicos ucranianos, em especial os de rito oriental, foram dos grupos religiosos mais fustigados em toda a era soviética. A sua valentia e heroísmo, a sua Fé e a sua obediência ao Bispo de Roma, produziram longas listas de mártires durante um dos períodos de maior hostilidade contra a Santa Igreja Católica Apostólica Romana em toda a sua história. O seu sangue derramado foi uma das maiores fontes de Graça Santificadora da Igreja durante o séc. XX.

Nós sentimos que somos o fruto do sangue dos mártires. A frase de Tertuliano “O sangue dos mártires é a semente dos cristãos” tornou-se verdade na nossa Igreja durante a minha própria história.

(D. Sviatoslav Shevchuk, in Salt and Light, 2013)

De todas as 23 igrejas católicas orientais, sui juris, a Igreja Greco-Católica Ucraniana, com uma população estimada que já deve ultrapassar largamente os oito milhões de fieis, é de longe a maior, continuando a crescer a um ritmo entusiasmante, não só dentro da Ucrânia, como também por toda a sua diáspora espalhada pelo mundo. Este crescimento e expansão geográfica provocam uma grande azia dentro da Rússia.

Enquanto a Igreja Católica Latina agoniza, com os seminários e conventos fechados, sem padres para as paróquias, profundamente descaracterizada devido à infiltração do modernismo teológico e de práticas cada vez mais heterodoxas e duvidosas, a Igreja Greco-Católica Ucraniana floresce, conservando a sua Fé Católica e toda a sua tradição bizantina, impermeável às tendências modernistas que devastaram os católicos ocidentais, de Rito Latino. Os seus seminários estão cheios e o número de padres, cerca de 300 no início dos anos 90, ultrapassa hoje os 3000, na sua maioria, jovens.

Todavia, mesmo sendo a segunda maior comunidade católica depois da Igreja Católica Latina e uma das mais promissoras, contrariamente às suas longas e justas expectativas, a Igreja Greco-Católica Ucraniana ainda não foi elevada pela Santa Sé à categoria de Igreja Patriarcal Autocéfala, o que a colocaria, em termos estatutários, ao nível de outras igrejas orientais incomparavelmente menos relevantes pela sua dimensão. E porquê? Para não prejudicar o diálogo ecuménico entre as Igrejas Católica e Ortodoxa Russa ou, com efeito, o relacionamento diplomático entre a Santa Sé e a Federação Russa.

Os católicos orientais da Ucrânia não têm ainda um Patriarca formalmente instituído, no fundo, pelas mesmas razões que levaram João XXIII, tal como os seus sucessores, a não realizar o solene ato de “consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria” nos termos em que fora pedido por Nossa Senhora de Fátima. Ou seja, pelas mesmas razões que fizeram João Paulo II, em 1982 e 1984, optar por consagrar a “humanidade” e o “mundo” ao Imaculado Coração de Maria, evitando sempre a palavra “Rússia” no derradeiro momento.

O líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, D. Sviatoslav Shevchuk, é o Arcebispo-Maior de Kiev-Halich e toda a Rus. Imagine-se o que representaria, para a Igreja Ortodoxa Russa, a sua elevação à categoria de Patriarca (Católico) de toda uma região de tradição bizantina que é o berço da cristianização de grande parte dos povos eslavos , incluindo a própria nação russa. O líder da Igreja Ortodoxa Russa assume-se como Patriarca de Moscovo e de toda a Rus, o que também inclui a Ucrânia. A palavra “Rus”, referindo-se a uma antiga grande região da Europa do Leste, ou aos seus povos, está na origem etimológica da própria palavra “Rússia”.

Os católicos de rito oriental, em geral, e os Greco-Católicos Ucranianos, em particular, são indesejados, na sua natureza e na sua essência, pelas autoridades religiosas das igrejas ortodoxas separadas de Roma desde o Grande Cisma do Oriente  (1054). Esta hostilidade sente-se particularmente na Rússia, onde habita a maior comunidade ortodoxa a nível mundial e onde o forte nacionalismo passa também pela religião. Aí, os Greco-Católicos são vistos como uma fabricação ocidental, um instrumento subversivo utilizado pelos católicos para se infiltrarem no “território canónico” dos ortodoxos.

No chamado “território canónico” da ortodoxia, cuja liderança é reclamada – de forma mais ou menos assumida – por Moscovo (a “3.ª Roma”), a Ucrânia tem uma importância estratégica fundamental, por diversas razões:

  • É o maior estado europeu (depois da Rússia), tendo sido a segunda república mais importante no seio da União Soviética.
  • Com mais de oito milhões de russos, é o país onde se pode encontrar a maior comunidade de etnia russa fora da Rússia.
  • Os idiomas ucraniano e russo, sendo da mesma família linguística, são mutuamente percetíveis, o que reforça a proximidade étnica e cultural das duas nações.
  • Fez parte – e teoricamente, ainda faz – da área de influência do Patriarcado de Moscovo.
  • Em termos de predominância religiosa e cultural, a Ucrânia encontra-se na linha de charneira entre os “territórios canónicos” católico latino e ortodoxo. Sendo um país maioritariamente ortodoxo, faz fronteira com países onde predomina a tradição católica latina.
  • Kiev, atual capital ucraniana, foi onde ocorreu a conversão de São Vladimir o Grande ao cristianismo, no ano de 988, seguida da conversão em massa das tribos conhecidas como os Rus de Kiev. Ou seja, é o berço da cristianização da Rússia e arredores.
Vasnetsov_Bapt_Vladimir
Fresco da Catedral de Kiev alusivo ao batismo de São Vladimir o Grande (Viktor Vasnetsov, 1890)

Por que razão se sentiram os nossos irmãos Greco-Católicos Ucranianos profundamente desiludidos com a atitude do Santo Padre na Cimeira Cubana?

Durante o pontificado do Papa Francisco, os católicos ucranianos tinham já pedido ao Santo Padre para ser mais incisivo e condenar objetivamente as intromissões da Rússia no seu país, ainda assim, Sua Santidade optou sempre por uma posição equidistante em relação ao conflito ucraniano. Das vezes que se referiu ao assunto, fê-lo como se de uma guerra civil se tratasse, em que a Rússia não tinha nada a ver com aquilo. Este era o ponto de partida…

Depois, para uma comunidade católica cheia de traumas provocados pela ditadura comunista, o lugar escolhido para este encontro não lhes podia criar grandes expectativas. O Bispo de Roma e o Patriarca de Moscovo escolheram Cuba, um país que de “neutro” não tem nada, pois é ainda governado pela ditadura marxista e, historicamente, o principal aliado do URSS fora da Europa. Como se isso não bastasse, a Cimeira Cubana aconteceu praticamente no 70º aniversário do Pseudo-sínodo de Lviv, um esquema montado pelo regime comunista soviético, com a conivência da Igreja Ortodoxa Russa, que quase levou a Igreja Greco-Católica Ucraniana à extinção.

Havia, ainda assim, alguma esperança, todavia, esta transformou-se em pura desilusão e amargura no momento em que foi publicada a declaração conjunta, assinada pelos dois líderes religiosos, e se deram a conhecer os parágrafos que a eles diziam respeito.

25.       Esperamos que o nosso encontro possa contribuir também para a reconciliação, onde existirem tensões entre greco-católicos e ortodoxos. Hoje, é claro que o método do “uniatismo” do passado, entendido como a união de uma comunidade à outra separando-a da sua Igreja, não é uma forma que permita restabelecer a unidade. Contudo, as comunidades eclesiais surgidas nestas circunstâncias históricas têm o direito de existir e de empreender tudo o que é necessário para satisfazer as exigências espirituais dos seus fiéis, procurando ao mesmo tempo viver em paz com os seus vizinhos. Ortodoxos e greco-católicos precisam de reconciliar-se e encontrar formas mutuamente aceitáveis de convivência.

26.       Deploramos o conflito na Ucrânia que já causou muitas vítimas, provocou inúmeras tribulações a gente pacífica e lançou a sociedade em uma grave crise económica e humanitária. Convidamos todas as partes do conflito à prudência, à solidariedade social e à atividade de construir a paz. Convidamos as nossas Igrejas na Ucrânia a trabalhar por se chegar à harmonia social, abster-se de participar no conflito e não apoiar ulteriores desenvolvimentos do mesmo.

27.       Esperamos que o cisma entre os fiéis ortodoxos na Ucrânia possa ser superado com base nas normas canónicas existentes, que todos os cristãos ortodoxos da Ucrânia vivam em paz e harmonia, e que as comunidades católicas do país contribuam para isso de modo que seja visível cada vez mais a nossa fraternidade cristã.

28.       No mundo contemporâneo, multiforme e todavia unido por um destino comum, católicos e ortodoxos são chamados a colaborar fraternalmente no anúncio da Boa Nova da salvação, a testemunhar juntos a dignidade moral e a liberdade autêntica da pessoa, “para que o mundo creia” (Jo 17, 21). Este mundo, onde vão desaparecendo progressivamente os pilares espirituais da existência humana, espera de nós um vigoroso testemunho cristão em todas as áreas da vida pessoal e social. Nestes tempos difíceis, o futuro da humanidade depende em grande parte da nossa capacidade conjunta de darmos testemunho do Espírito de verdade.

(Declaração Conjunta de Havana, in Radio Vaticano, 12/02/2016)

Este documento, para além de rejeitar completamente a necessidade de conversão da Rússia, desvalorizou a fidelidade de mais de 400 anos dos Greco-católicos Ucranianos ao Bispo de Roma, que se separaram da ramo ortodoxo cismático a que pertenciam para se reunirem à Igreja Católica Romana. De certo modo, desaconselhou mesmo o seu exemplo.

O “uniatismo do passado” era entendido como a conversão à Fé Católica e a reunião à única instituição fundada por Cristo que mantém intacta a linha de sucessão que remonta a apóstolo São Pedro, o primeiro Papa. É uma pena que o Santo Padre rejeite, desta forma, o “uniatismo do passado,” uma vez que ele custou muitas vidas na Ucrânia e noutros países da Europa do Leste. A fidelidade a Roma foi paga com o sangue de muitos fiéis na Ucrânia.

Mais curiosa ainda é a ideia obscura de que a Cimeira Cubana outorgou à Igreja Uniata o direito de existir, como se, algum dia, esse direito pudesse vir de Havana…

Não devemos pedir a ninguém o direito de existir, somente Deus estabelece isto e sobretudo faz mal à compreensão da verdade a escassa clareza sobre a questão do uniatismo e o uso genérico do termo “expressões eclesiais”, sem referências precisas à Igreja Greco-católica ucraniana: Porque na terminologia da teologia ecuménica moderna, este termo é usado para as comunidades cristãs que não conservaram a plenitude da sucessão apostólica. Ao invés disto, nós somos uma parte integrante da comunhão católica.

(D. Sviatoslav Shevchuk, in Radio Vaticano, 24/02/2016)

De facto D. Sviatoslav Shevchuk tem razão, se esta Igreja existe dentro da comunhão Católica e da sucessão Apostólica é porque Deus assim o quis. Mais até, conforme foi pedido através de Nª Sª de Fátima, chegou o momento em que Deus quer que também a Rússia retorne definitivamente a esta comunhão.

A mensagem de Fátima fala de “conversão” e não de “cultura del encuentro”. Conversão pressupõe adesão a algo, neste caso a Fé Católica. A “cultura do encontro” rejeita linearmente a necessidade de conversão de alguma das partes, rejeita a reunião e solidifica formalmente a separação em prole de uma mera convivência comum.

D. Sviatoslav Shevchuk, o líder dos católicos ucraianos, nasceu e cresceu sob a ditadura comunista soviética. Com apenas 46 anos de idade, este destemido arcebispo é um dos mais jovens bispos de toda a Igreja Católica. É doutorado em Teologia Moral, fluente em várias línguas e teve um passado pastoral contemporâneo do então Arcebispo Bergoglio na Argentina. Teve uma intervenção brilhante no Sínodo da Família em defesa dos valores morais tradicionais contra a agenda imoral que aí teimou impor-se.

Os cristãos Greco-Católicos da Europa do Leste são uma peça fundamental na compreensão da mensagem de Fátima porque sofreram e resistiram aos horrores do comunismo soviético e são uma pequena amostra daquilo que a conversão da Rússia deverá ser um dia, após a o triunfo do Imaculado Coração de Maria.

Basto 6/2016

2 thoughts on “Greco-Católicos Ucranianos: a peça fundamental

  1. D. Sviatoslav em entrevista à Rádio Renascença:

    • Muitos dos seus fiéis referem-se a si como patriarca, mas na verdade não tem esse título, mas sim o de arcebispo-maior. Consta que isso é para não irritar a Igreja Ortodoxa da Rússia…

    “O Patriarcado é uma fase normal e orgânica de uma Igreja Católica de Rito Oriental e nós já atingimos essa fase de desenvolvimento. Os nossos fiéis estão a rezar pelo Patriarcado. Nas nossas relações com o Santo Padre estamos a tentar ser bons católicos, de acordo com a nossa tradição, mas em plena comunhão com o sucessor de Pedro, à imagem do que acreditamos ter sido a Igreja no primeiro milénio.

    Claro que os nossos irmãos ortodoxos têm uma eclesiologia diferente. Eles entendem o papel do sucessor de Pedro de outra forma e negariam qualquer forma de supremacia do Papa na Igreja Universal. Em todo o caso, estamos a tentar ser nós próprios, estamos a tentar testemunhar e revelar a realidade da Igreja indivisa do primeiro milénio.”

    • A vossa existência é invocada muitas vezes pelos ortodoxos como um obstáculo ao aprofundamento das relações ecuménicas. Teme que a Igreja Greco-Católica da Ucrânia venha a ser sacrificada em nome da melhoria das relações com Moscovo?

    “De todo. Estamos a tentar ser nós próprios e falar em nome do nosso povo. Se sentirmos que as coisas não estão a ser bem interpretadas, então tentamos transmitir a realidade do que se passa no nosso país hoje.”

    • A Ucrânia continua em guerra. Quando é que vai haver paz?

    “Nós rezamos pela paz. Trabalhamos pela paz. Defendemos a paz. E penso que Deus abençoará a nossa nação e o nosso povo com a sua bênção divina, e essa bênção trará a paz.”

    http://rr.sapo.pt/noticia/66995/

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