Pax Romana – conversão vs encontro

A abordagem mediática dos acontecimentos é tão superficial que, se não formos atrás dos pormenores, corremos o risco de não perceber os fenómenos históricos contemporâneos.

A Bielorrússia atual, na sua aliança com Rússia de Putin, é uma remanescência contemporânea do Império Soviético. É um país europeu (embora pouca gente repare nisso) de dimensão considerável, que fica precisamente entre a insurreta Ucrânia – que tem andado a tomar “remédio para a tosse” desde 2013 – e as rebeldes repúblicas do Báltico – que sabem perfeitamente que, se começarem a tossir, não falta “remédio” na “farmácia” do lado.

Um pequeno grande detalhe

Este detalhe passou quase despercebido nas entrelinhas da imprensa mundial do dia 13 de março de 2015 – lá anda sempre o número “13” atrás de nós, como se fosse uma constante matemática na folha de cálculo escatológico.

Um presente, com ou sem cartão acompanhante, transporta sempre uma mensagem. É por isso que é tão difícil escolher o presente ideal. Quando se trata de um presente oficial, oferecido publicamente num encontro diplomático entre dois representantes de estados ou nações, o simbolismo da oferta ganha um estatuto público e, por vezes, representa um marco histórico. A esse nível, a oferta encerra sempre uma mensagem política, de maior ou menor profundidade, que se presta a interpretações.

Por ocasião da visita oficial do Secretário de Estado do Vaticano, o Cardeal Pietro Parolin, à Bielorrússia, o Presidente Aleksandr Lukashenko ofereceu, à Santa Sé, um belo ícone do Imaculado Coração de Maria. Uma peça valiosa, feita na tradicional filigrana local, bem ao estilo ortodoxo, mas com uma particularidade: jamais foi visto um ícone semelhante àquele numa igreja ortodoxa bielorrussa, pois seria considerado uma heresia inconcebível.

O ícone, conforme estava destinado, seria posteriormente entregue ao Bispo de Roma, pelas mãos do Arcebispo Claudio Gugerotti, Núncio Apostólico da Igreja Católica na Bielorrússia.

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Este acontecimento histórico pode ter várias leituras, mas há duas alternativas que se levantam de imediato.

A primeira, a mais otimista e ingénua, interpreta, neste gesto, uma vontade nacional de submissão religiosa à Sé Romana, traduzida num desejo de adesão ao credo católico, com os olhos postos na mensagem de Fátima. Por outras palavras, uma vontade de colaborar com o Santo Padre no “triunfo do Imaculado Coração de Maria” em território bielorrusso.

A segunda leitura, a mais realista, é a de que quem manda nos territórios sob influência russa – quer ao nível político, quer religioso – está muito satisfeito com os sinais oriundos do pontificado de Francisco, principalmente no que concerne à questão da necessidade de “conversão da Rússia” e arredores. É um sinal de que respeitam as crenças e devoções que devem continuar connosco…

De facto, no topo da hierarquia católica, a palavra “conversão” passou a ser utilizada apenas para consumo interno. Paralelamente, na relação com o mundo não católico, esse termo, que já era usado com alguma timidez, foi agora substituído pela palavra “encontro”. Porém, temos de reconhecer que não foi bem isso que se pediu em Fátima nem em qualquer outra das aparições marianas aprovadas pela Igreja.

O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

Nª Sª de Fátima, 1917

O “encontro”, mais do que não contribuir para a conversão, elimina essa possibilidade, através de uma equiparação das partes e mútua aceitação dos pontos de partida, evitando tocar nos aspetos de diferenciação. A pretexto de um determinado projeto de paz, que por sinal é duvidoso, a Igreja Católica aceita posicionar-se ao mesmo nível de outros credos, no mesmo patamar de substância e autoridade.

Elimina-se tudo aquilo que possa gerar conflitualidade para se proporcionar uma paz que, apesar de não ser a ideal, parece aceitável e mais fácil. As ideias de que existe uma única Fé verdadeira, uma única Igreja legítima, fora da qual não há salvação, e um único Vigário de Cristo na Terra são prejudiciais à paz imperial da Nova Ordem Mundial. São anacronismos, fundamentalismos que devem ser rejeitados para promover a paz. Um ideal de paz projetado com base em desígnios humanos que, portanto, não poderá ser bem sucedido.

Seja qual for a leitura que se faça do discreto episódio histórico apresentado em epígrafe, ninguém fica indiferente à evidência de um notável conhecimento da mensagem de Fátima nas esferas políticas e diplomáticas daquela zona do mundo. Bem superior ao das elites políticas da Europa Ocidental.

 

Basto 6/2016

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