2017, e agora?

2017

O ano de 2017 chegou finalmente e vai já adiantado. As expectativas criadas em torno deste ano aumentam à medida que ele avança em direção às datas celebrativas dos grandes centenários. De facto, este não é um ano qualquer, é aquele em que o ciclo dos séculos se renova face a um conjunto de acontecimentos históricos que, em épocas diferentes, marcaram fortemente a Igreja e o mundo, deixando consequências profundas e persistentes que se estenderam no tempo até à atualidade.

É como se estivéssemos num ano em que diversas rodas dentadas de tamanhos diferentes, engrenadas no complicado mecanismo do relógio do devir universal, ficassem momentaneamente sincronizadas para depois continuarem a contagem do tempo por mais uma nova série de anos ou de séculos até à eternidade. Faz lembrar a singularidade daqueles instantes cósmicos, tão raros, nos quais vários planetas do sistema solar, com órbitas e velocidades de translação diferentes, ficam momentaneamente alinhados durante o movimento perpétuo.

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100 anos das aparições de Fátima

Os católicos celebram o primeiro centenário das aparições de Nossa Senhora do Rosário de Fátima que tiveram lugar de 13 de maio a 13 de outubro de 1917. A maior epifania mariana dos últimos séculos, onde a humanidade recebeu uma mensagem de aviso relativamente à aproximação de grandes tribulações para a Igreja e para o mundo. Mas a mensagem de Fátima é também de esperança e de certeza.

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Fátima, 1917

Quase um século depois, as profecias de Fátima ainda não foram completamente cumpridas, conforme confirmou o Santo Padre Bento XVI, e à medida que o tempo passa, aproxima-se do anunciado “triunfo do Imaculado Coração de Maria”. O Santo Padre Bento XVI espera que isso aconteça para breve, tendo confessado publicamente esse desejo junto aos pés de Nossa Senhora.

Possam os sete anos que nos separam do centenário das Aparições apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima Trindade.

(Sua Santidade Bento XVI, em Fátima, a 13 de maio de 2010)

Neste ano de 2017, o Santuário de Fátima, localizado no mesmo sítio onde os pastorinhos perceberam o valor da Eucaristia e ouviram falar da natureza dos pecados que mais almas conduzem ao inferno, prepara-se para receber, em clima de festa, um Papa que não se cansa de promover a comunhão de adúlteros, desvaloriza os comportamentos homossexuais e rejeita a necessidade de conversão à Fé Católica. Deus tenha piedade de nós.

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300 anos da Nossa Senhora da Conceição Aparecida

A imagem da padroeira da maior nação católica do mundo, cuja festa litúrgica se celebra a 12 de outubro, foi encontrada em 1717 no rio Paraíba, no atual estado de São Paulo.

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Nossa Senhora da Conceição Aparecia – Santuário Nacional

O facto de as aparições de Fátima terem ocorrido durante o segundo centenário de Nossa Senhora da Conceição Aparecida – para quem acredita em variáveis aleatórias – é uma coincidência notável.

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100 anos da Revolução Russa

O ano de 1917 foi também o ano das revoluções russas. A Revolução de Fevereiro (ocorrida a 8 de março, no calendário ocidental) destruiu a monarquia dos czares e a Revolução de Outubro (a 8 de novembro, no calendário ocidental) instalou o regime comunista e materialista sanguinário, inaugurando um período de revoluções semelhantes por todo o mundo, cujas consequências, em tantas nações, persistem ainda hoje.

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Cartaz comunista de Vladimir Lenin

Ninguém percebe muito bem qual é a natureza do regime político que governa hoje a Rússia, ou para onde ele caminha. Atendendo às profecias de Fátima, a única certeza que temos hoje é a de que a Rússia ainda não se converteu à Fé Católica, mas dá-se ao luxo de criticar agora – e com alguma razão – a rejeição generalizada dos valores religiosos nos países tradicionalmente católicos.

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100 anos do reaparecimento do ícone de Derzhavnaya

No dia 2 de março 1917 (15 de março no calendário ocidental), depois da Revolução de Fevereiro, no dia em que o czar Nicolau II abdicou do trono russo, Evdokia Adrianova, uma mulher humilde da localidade de Pererva, na região de Moscovo, viu e ouviu Nossa Senhora durante um sonho. Foi-lhe dito para se deslocar até à aldeia de  Kolomenskoye onde iria encontrar um velho ícone na igreja local (esse ícone parava em parte incerta desde o período da Invasões Francesas).

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Ícone de Nossa Senhora Derzhavnaya

A simbologia deste acontecimento é muito forte. No dia em que o monarca foi forçado a abdicar do trono russo, uma revelação mística leva à recuperação do importante ícone da Nossa Senhora Soberana. A Rainha aparece para tomar o lugar do destituído monarca daquela nação. Está sentada no trono com o Menino ao colo, segurando o ceptro na mão direita, o globo terrestre na esquerda e ostenta uma coroa e um manto imperiais.

Esta “aparição” de Maria a uma devota ortodoxa russa regista-se no mesmo ano em que, precisamente no outro extremo do Continente Europeu, acontecem as aparições de Fátima onde as frequentes referências à Rússia revestem-se de uma urgência inusitada.

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500 anos da Reforma Protestante

A publicação das 95 Teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg, na Alemanha, no dia 31 de outubro de 1517, marca o início de uma das mais persistentes, violentas e dilacerantes investidas para destruir a Igreja Católica. A Reforma Protestante separou milhões e milhões de fiéis da Igreja Católica, levando a que várias gerações de nações inteiras se afastassem da Fé verdadeira de Jesus Cristo. Hoje, as suas heresias e heterodoxias persistem, tendo-se até agravado nas últimas décadas.

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Lutero 2017

Cinco séculos depois, a Igreja Católica, para além de ter deixado de apelar à conversão dos Protestantes, celebra efusivamente a sua separação. É o próprio Papa que, unindo-se àqueles sacerdotes e sacerdotisas, bispos e bispas ilegítimos, incita os católicos a participarem na grande festa de aniversário do cisma, rasgando-se em elogios ao heresiarca Martinho Lutero e ao seu legado.

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Papa Francisco no encontro ecuménico de luteranos e católicos alemães em Roma a 13/10/2016 – Rome Reports

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300 anos da fundação da maçonaria

A fundação da Grande Loja de Londres e Westminster (mais tarde chamada Grande Loja de Inglaterra), no dia 24 de junho de 1717, dia de São João Batista, corresponde ao estabelecimento institucional da franco-maçonaria. Foi na taverna Goose and Gridiron, junto à igreja de São Paulo, na cidade de Londres, que quatro lojas maçónicas se reuniram para se constituírem numa Grande Loja.

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A maçonaria foi condenada por vários Papas. Os seus princípios e valores são incompatíveis com a Fé Católica, os seus desígnios para a humanidade são inconciliáveis com os desígnios de Deus.

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100 anos da Declaração de Balfour

A declaração de Balfour, assinada a 2 de novembro de 1917 pelo Secretário dos Assuntos Estrangeiros britânico, Arthur James Balfour, dirigida ao Barão Rothschild, líder da comunidade judaica do Reino Unido, lançou as bases para a legitimação do movimento sionista e para a criação de um estado judaico na Palestina. Mais tarde seria fundado o Estado de Israel.

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Declaração de Balfour e o respetivo signatário

Ao longo de todo o séc. XX, este território recebeu várias vagas migratórias de população judaica proveniente de diversas origens geográficas. Algo como um retorno às origens.

Este território não é um lugar indiferente, é a Terra Santa, o berço do Cristianismo.

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60 anos do Tratado de Roma

No dia 25 de maio de 1957, seis países da Europa assinaram, em Roma (na mesma cidade onde se localiza sede da Igreja Católica), o tratado que fundou a Comunidade Económica Europeia, hoje União Europeia. A União Europeia é uma comunidade internacional laica e materialista que promoveu, durante 60 anos, ideologias e políticas não cristãs e anti-cristãs nos seus estados-membros, em substituição dos valores cristãos. A Europa fora outrora o grande bastião da Cristandade.

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Assinatura do Tratado de Roma

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50 anos da primeira visita de um Papa a Fátima

No dia 13 de maio de 1967, o Papa Paulo VI era o primeiro pontífice romano a pisar o solo de Fátima, por ocasião da celebração do meio centenário das aparições. Este era o Papa que sentiu, de algum modo, a presença do “fumo de Satanás no templo de Deus”.

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Papa Paulo VI em Fátima a 13 de maio de 1967

Passados mais 50 anos, Portugal prepara-se agora para receber no Santuário de Fátima o Papa que afirma transportar consigo “a história do fracasso de Deus“.

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E muito mais…

Por todos estes aspetos e mais alguns, 2017 promete ser um ano memorável nesta espiral contínua do tempo que avança a um ritmo alucinante. Ainda agora o ano começou e já deu tanto que falar, quem sabe o que mais estará para vir? O futuro a Deus pertence, portanto sigamos o Seu conselho e continuemos a olhar para a figueira…

Nestes tempos loucos em que vivemos, têm acontecido tantas coisas em catadupa na Igreja e o mundo que se tornam praticamente impossíveis de assimilar, mas dá sempre para perceber a orientação das correntes, para onde se encaminham.

Basto 1/2017

A ‘Alegria do Amor’ na Sicília

Na arquidiocese de Palermo, na Sicília, Itália, uma comissão nomeada pelo Mons. Corrado Lorefice, arcebispo local, prepara o documento “Critérios Diocesanos para o discernimento eclesial dos casais divorciados ou em coabitação” para ser publicado na Páscoa.

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La Fede Quotidiana, 28/01/2017

Mons. Corrado Lorefice é o arcebispo metropolita de Palermo e primaz da Sicília desde 2015.

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AGI News, 27/01/2017

 

Basto 1/2017

79 anos depois

Nesta noite de 25 para 26 de janeiro, há 79 anos, o céu do Hemisfério Norte foi “alumiado por uma luz desconhecida”. No dia seguinte, os jornais da Europa e da América do Norte descreviam as reações de espanto e de temor das pessoas durante a noite anterior.

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The New York Times, 26 de janeiro de 1938

O fenómeno meteorológico foi visível em muitos países da Europa, desde Portugal até à Áustria, e até mesmo no Norte de África; também foi observado na América do Norte, nomeadamente em várias regiões do Canadá e nas Bermudas. Bloqueou as transmissões de rádio entre Londres e Nova Iorque e afetou os sistemas de comunicação telefónica e de rádio dentro de vários países europeus como a França ou a Itália.

É a chamada “Aurora Boreal de Fátima”, internacionalmente conhecida como a “Fatima Storm”. Fosse uma aurora boreal, uma tempestade eletromagnética ou outra coisa qualquer, a verdade é que correspondeu exatamente àquilo que tinha sido anunciado em Fátima aos pastorinhos em 1917. A própria Ir. Lúcia, única sobrevivente dos videntes naquela altura, interpretou o acontecimento como o “sinal” de Deus anunciado na Cova da Iria.

A guerra vai acabar. Mas, se não deixarem de ofender a Deus, no reino de Pio XI começará outra pior. Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre.

(Nª Sª de Fátima aos pastorinhos em 1917)

Poucas semanas depois, no dia 12 março do mesmo ano, as tropas nazis da Alemanha de Hitler invadem e anexam a Áustria, numa ação militar que seria o prelúdio da II Guerra Mundial. É também fascinante que Nossa Senhora, em 1917, se tenha referido ao Santo Padre Pio XI pelo respetivo nome, o qual chegaria ao trono de São Pedro apenas cinco anos depois das aparições de Fátima.

Olhando para trás, podemos concluir que o mundo de então não deixou de “ofender a Deus” e por isso viu o “grande sinal” que anunciava a aproximação das calamidades previstas na profecia condicional de 1917. Mas se compararmos o mundo de 1938, o estilo de vida da população das nações tradicionalmente católicas e as características da Igreja dessa época, com o atual estado das coisas, como podemos nós não temer agora castigos ainda piores? Tal otimismo seria pura insensatez.

Basto 1/2017

Porque é que mais e mais sacerdotes não suportam o Papa Francisco

Foi rotulado como um reformador destemido, mas levantam-se questões acerca da sua avaliação

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Por Daminan Thompson

UK, 14 de janeiro, 2017 (The Spectator) – A 2 de janeiro, o Vaticano publicou uma carta do Papa Francisco aos bispos do mundo, na qual lhes lembrava que deviam mostrar “tolerância zero” perante o abuso de crianças. No dia seguinte, a revista americana Week publicou um artigo que contava a história de “Don Mercedes” – Pe. Mauro Inzoli, um padre italiano com paixão por automóveis caros e rapazes menores de idade.

Em 2012, o Papa Bento XVI destituiu Inzoli das suas faculdades sacerdotais, afastando-o de facto. Em 2014, no entanto, as sua faculdades sacerdotais foram-lhe restituídas – pelo Papa Francisco, que o advertiu para se manter afastado de menores.

Depois, finalmente, as autoridades civis italianas apanharam esse abusador de adolescentes no confessionário. No ano passado Inzoli foi condenado a quatro anos e nove meses de prisão por delitos de pedofilia. O Vaticano, sob a “tolerância zero” de Francisco, recusou-se a fornecer as provas que os procuradores queriam.

Se o papa Bento XVI tivesse demonstrado uma atitude tão hipócrita em relação a um clérigo abusador de crianças, o telhado teria caído sobre ele: teria sido expulso do cargo em vez de renunciar.

Mas a maioria dos meios de comunicação mundiais tem um estereótipo de Francisco como um reformador destemido, batalhando contra mafiosos do Vaticano, pedófilos e “fundamentalistas”. Essa perceção tornou fácil, para os aliados do Papa, manter o nome de Mauro Inzoli fora dos meios de comunicação de língua inglesa até à semana passada.

Essa perceção pode mudar em 2017. Por mais de dois anos, os líderes católicos têm travado discussões acerca de um plano – dissimuladamente apoiado pelo Papa – para permitir que os divorciados-e-recasados recebam a Sagrada Comunhão nas Missas. Os meios de comunicação seculares têm tratado esse tema, compreensivelmente, como um assunto interno. É difícil fazer manchetes sobre uma controvérsia que até os teólogos têm dificuldades de entender.

No entanto, no final do ano passado, a questão da comunhão começou a sobrepor-se a outras controvérsias, e tudo isto levantou questões não só sobre o entendimento do Papa, mas também sobre seu estado de espírito.

Um homem que, quando assumiu o cargo, parecia cativantemente informal – pagando sua própria conta do hotel, recusando-se a morar no Palácio Apostólico, fazendo telefonemas de surpresa a pessoas comuns – agora representa uma figura menos simpática.

O seu corte com a tradição papal foi muito mais significativo do que deixar de viver nos apartamentos papais ou não viajar de limusina. Ele desafiou a convenção de que um papa, uma vez eleito, deixa de envolver-se nas desagradáveis políticas da cúria.

O Papa Bento XVI respeitou essa convenção. Os liberais, que estavam preocupados com a possibilidade de o Rottweiler abrigar rancores antigos, assistiram com espanto – e alívio – à sua transformação num eremita virtual. Isso criou o caos divisivo que conduziu à sua resignação – mas até o fim, Bento XVI foi sempre “o Santo Padre”.

Esse título quase caiu em desuso dentro do Vaticano de Francisco, pelo menos na conversa do dia-a-dia. E, quando se ouve, é com uma pitada de sarcasmo. Por exemplo: “Como diz o Santo Padre tão sabiamente, todos nós temos uma tendência natural para comer fezes.”

O padre em questão não é fã de Francisco. Mas o facto é que o Papa o disse – em público. No mês passado, ele pediu aos meios de comunicação social para pararem de espalhar histórias falsas porque “as pessoas têm uma tendência para a doença da coprofagia”. O que significa comer fezes.

Porque é que ele disse isso? O blogue tradicionalista Rorate Caeli sugeriu que “o envelhecimento ou uma questão médica subjacente” seria responsável pela sua “raiva persistente, rancor, vituperação, uso de palavras grosseiras (que é conhecido por ser cada vez mais frequente em privado)”.

Novamente, isto é um oponente a falar. Não há provas de que o Papa esteja mentalmente doente. No entanto, muitos funcionários do Vaticano testemunham as suas explosões de temperamento, rudeza em relação a subordinados e linguagem vulgar.

Ele consegue também ser genial, engraçado e compassivo. Mas esse lado da sua personalidade é cada vez mais reservado para o seu círculo próximo e seus aliados.

Todos os papas têm círculos próximos, como toda a gente sabe. O que distingue Francisco dos seus recentes antecessores é a natureza das alianças que forma. É muito mais brutal no exercício do seu poder do que, digamos, o Papa João Paulo II, que certamente tinha em si uma veia autoritária.

“Bergoglio divide a igreja entre aqueles que estão com ele e aqueles que estão contra ele – e se ele acha que tu estás no segundo campo, então ele virá atrás de ti”, diz um padre que trabalha na cúria.

A edição original deste texto foi publicada em The Spectator a 14 de janeiro de 2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

 

Basto 1/2017

“Sim” ou “Não”, para mim é tudo igual. Em Florença, a “Amoris Laetitia” funciona assim

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Por Sandro Magister

ROMA, 19 de janeiro, 2017 (Settimo Cielo – L’Espresso) – As dos bispos de Malta são as mais recentes das instruções que alguns bispos têm dado nas suas dioceses sobre a forma de interpretar e implementar a Amoris Letitia.

Instruções que muitas vezes se contradizem, de modo que numa diocese a comunhão para os divorciados recasados que vivem more uxorio é permitida, enquanto noutra diocese, talvez até mesmo numa vizinha, não é.

Mas há mais. Acontece mesmo que em algumas dioceses o “sim” e o “não” são oficialmente permitidos, os dois juntos.

É o caso, por exemplo, da Arquidiocese de Florença.

Aqui o arcebispo, o cardeal Giuseppe Betori, iniciou um “perurso de formação diocesano” para instruir sacerdotes e fiéis sobre a interpretação correta da Amoris Laetitia.

Na primeira etapa da formação, no dia 8 de outubro passado, para uma introdução geral ao documento do Papa Francisco, Betori trouxe o cardeal Ennio Antonelli, seu predecessor como arcebispo de Florença e então presidente, de 2008 a 2012, do Pontifício Conselho para a Família, uma autoridade na matéria.

Antonelli estabeleceu instruções em perfeita continuidade com o magistério dos papas anteriores e, portanto, descartou a comunhão para os divorciados e recasados que vivem more uxorio. E manteve esta firme proibição apesar de, alguns dias antes, na diocese de Roma, o cardeal vigário Agostino Vallini ter dado o sinal verde para a comunhão com a aprovação de Francisco:

Em Roma sim, em Florença não. Eis como a Amoris Leritia está a dividir a Igreja

Depois disto, uma vez por mês, Betori traz outros oradores para explicar, um após o outro, os vários capítulos da Amoris Laetitia.

Mas a quem deverá ser confiada, a 25 de março, a tarefa de estabelecer as diretrizes para a interpretação do oitavo capítulo, o mais controverso?

Ao monsenhor Basílio Petrà, presidente dos teólogos moralistas italianos, que é um dos mais fervorosos defensores da abertura da comunhão aos divorciados recasados.

Num extenso comentário sobre a exortação sinodal publicada em abril passado na revista “Il Regno“, Petrà até declarou “desnecessário” consultar um sacerdote e o foro interno sacramental, ou seja, a confissão, para “discernir” se uma pessoa divorciada que voltou a casar pode receber a comunhão.

Escreveu o seguinte:

“De facto, é possível que uma pessoa não tenha a consciência moral adequada e/ou não tenha a liberdade de agir de forma diferente e que, apesar de fazer algo considerado objetivamente grave, pode não estar cometendo um pecado grave no sentido moral e, portanto, não tem o dever confessar-se para receber a Eucaristia. A Amoris Laetitia, no nº 301, alude claramente a esta doutrina.”

É como dizer: toda a gente é livre de agir por si mesmo, seja ele “iluminado” ou inconsciente.

O dia 25 de março está apenas a dois meses de distância. E até lá, por enquanto, tanto para os clérigos como para os fiéis, o que deve continuar a ser aplicado é o “não” ditado e fundamentado pelo cardeal Antonelli.

Mas depois de 25 de março, o “sim” terá também valor oficial. Na mesma diocese. E depois fica-se surpreendido quando surgem os “dubia” sobre a claridade da Amoris Laetitia?

A edição original deste texto foi publicada no blogue Settimo Cielo a 19 de janeiro de 2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 1/2017

Bênção dos mísseis na Crimeia

A Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo benzeu o novo sistema de mísseis de defesa antiaérea ‘S-400 Triunfo’ e os militares das Forças Armadas da Federação Russa presentes na anexada Península da Crimeia. A cerimónia de bênção dos mísseis realizou-se no passado dia 14 de janeiro e foi presidida pelo Metropolita Platon (Udovenko) de Kerch e Feodosia. Pelo que se sabe, este equipamento militar terá chegado à Crimeia no final de 2016.

Este tipo de acontecimento não é uma novidade. Em 2014, por exemplo, os mísseis intercontinentais que seguiam para a parada militar das celebrações do Dia da Vitória também receberam a bênção de padres ortodoxos.

 

Basto 1/2017

Apelo à oração pelo Papa para que defenda o Matrimónio

Neste dia 18 de janeiro, em que antigamente se celebrava a festa da Cátedra de São Pedro, três bispos do Cazaquistão laçam um apelo universal à oração para que o Santo Padre confirme a imutável prática da Igreja relativa à verdade sobre a indissolubilidade do matrimónio.

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Após a publicação da Exortação Apostólica Amoris laetitia, em algumas igrejas particulares, foram publicadas normas aplicativas e interpretações, segundo as quais os divorciados que atentaram o matrimónio com um novo parceiro apesar do vínculo sacramental com o qual estão unidos aos seus legítimos cônjuges, são admitidos aos sacramentos da Penitência e da Eucaristia sem cumprirem o dever divinamente estabelecido de cessarem a violação do seu vínculo matrimonial sacramental.

A convivência more uxorio com uma pessoa que não seja o legítimo cônjuge é ao mesmo tempo uma ofensa à Aliança da salvação, da qual o matrimónio sacramental é sinal (cf. Catecismo da Igreja Católica, 2384), e uma ofensa ao carácter esponsal do próprio mistério eucarístico. O Papa Bento XVI pôs em relevo essa mesma correlação: «A Igreja corrobora de forma inexaurível a unidade e o amor indissolúveis de cada matrimónio cristão. Neste, em virtude do sacramento, o vínculo conjugal está intrinsecamente ligado com a união eucarística entre Cristo esposo e a Igreja esposa (Ef 5, 31-32)» – Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, 27.

Pastores da Igreja que toleram ou até autorizam – mesmo que em casos singulares ou excecionais – que divorciados assim chamados “recasados” possam receber o sacramento da Eucaristia sem que tenham a “veste nupcial”, a despeito de que o próprio Deus na Sagrada Escritura (cf. Mt 22, 11 e 1 Cor 11, 28-29) o tenha prescrito com vista a uma participação digna no banquete nupcial eucarístico, colaboram, desta forma, com uma ofensa contínua contra o vínculo do sacramento do matrimónio, contra o vínculo nupcial entre Cristo e a Igreja e contra o vínculo nupcial entre Cristo e a alma que recebe o Seu Corpo eucarístico.

Diversas igrejas particulares emanaram ou recomendaram as seguintes orientações pastorais formuladas assim ou de modo similar: «Assim, se esta escolha [viver em continência] for difícil de pôr em prática para a estabilidade do casal, a Amoris laetitia não exclui a possibilidade de ter acesso à Penitência e à Eucaristia. Isto significa uma certa abertura, como no caso em que há a certeza moral de que o primeiro matrimónio foi nulo, mas sem que haja qualquer prova para o demonstrar em sede judicial […] Portanto, não pode ser outro senão o confessor que, a um certo ponto, em consciência, depois de muita reflexão e oração, assume a responsabilidade diante de Deus e do penitente, e solicita que o acesso aos sacramentos aconteça de forma reservada.»

As mencionadas orientações pastorais contradizem a tradição universal da Igreja Católica, que através do ininterrupto ministério Petrino dos Sumos Pontífices sempre guardou fielmente e sem sombra de dúvida ou ambiguidade, tanto na doutrina como na prática, tudo o que diz respeito à verdade sobre a indissolubilidade do matrimónio.

As referidas normas e orientações pastorais contradizem também na prática as seguintes verdades e doutrinas que a Igreja Católica tem continuamente e de forma segura ensinado.

  • A observância dos Dez Mandamentos de Deus, e em particular do Sexto Mandamento, é obrigatória para qualquer pessoa humana sem exceção, sempre e em qualquer situação. Nestas matérias, não podem ser aceites casos ou situações excecionais ou que se fale em termos de um ideal mais pleno. São Tomás de Aquino diz: «Os preceitos do Decálogo contêm a própria intenção do legislador, isto é, de Deus. Portanto, os preceitos do Decálogo não admitem dispensa alguma» (Summa theol., 1-2, q. 100, a. 8c).
  • As exigências morais e práticas decorrentes da observância dos Dez Mandamentos de Deus e, em particular, da indissolubilidade do matrimónio, não são simples normas ou leis positivas da Igreja, mas a expressão da vontade santa de Deus. Sendo assim, não se pode falar, neste contexto, do primado da pessoa sobre a norma ou a lei, mas deve falar-se, em vez disso, do primado da vontade de Deus sobre a vontade da pessoa humana pecadora, para que esta seja salva, cumprindo com a ajuda da graça a vontade de Deus.
  • Acreditar na indissolubilidade do matrimónio e contradizê-la com os próprios atos, considerando-se, ao mesmo tempo, livre de pecado grave, de modo a tranquilizar a própria consciência apenas pela fé na misericórdia Divina, é um auto-engano, contra o qual avisou Tertuliano, uma testemunha da fé e da prática da Igreja nos primeiros séculos: «Alguns dizem que para Deus é suficiente que se aceite a Sua vontade com o coração e com a alma, mesmo que as ações não correspondam: pensam, deste modo, poder pecar mantendo íntegro o princípio da fé e do temor a Deus: isto é exatamente como se alguém pretendesse manter um princípio de castidade, violando e corrompendo a santidade e a integridade do vínculo matrimonial» (Tertuliano, De paenitentia 5, 10).
  • A observância dos Mandamentos de Deus e, em particular, da indissolubilidade do matrimónio, não pode ser apresentada como um ideal mais pleno a ser alcançado de acordo com o critério do bem possível ou factível. Trata-se sim de um dever ordenado inequivocamente pelo próprio Deus, cujo desrespeito implica, de acordo com a Sua palavra, a condenação eterna. Dizer aos fiéis o contrário seria enganá-los e empurrá-los para desobedecerem à vontade de Deus, colocando desta forma em risco a sua salvação eterna.
  • Deus dá a cada homem a ajuda necessária para guardar os Seus mandamentos, sempre que ele Lho peça retamente, como a Igreja infalivelmente ensinou: «Deus jamais nos pede coisas impossíveis, mas quando pede uma coisa, aconselha que apenas façamos aquilo que pudermos, e que peçamos aquilo que não tivermos a possibilidade de fazer, pois Ele sempre nos ajuda com Suas graças para que consigamos fazer aquilo que Ele nos pede» (Concílio de Trento, sess. 6, cap. 11); e «Se alguém disser que é impossível ao homem, ainda que batizado e constituído em graça, observar os mandamentos de Deus, seja excomungado» (Concílio de Trento, sess. 6, cap. 18). Seguindo esta doutrina infalível, São João Paulo II ensinou: «A observância da lei de Deus, em determinadas situações, pode ser difícil, até dificílima: nunca, porém, impossível. Este é um ensinamento constante da tradição da Igreja» (Encíclica Veritatis Splendor, 102) e «Todos os cônjuges são chamados, segundo o plano de Deus, à santidade no matrimónio, e esta alta vocação realiza-se na medida em que a pessoa humana está em condições de responder ao comando divino com espírito sereno, confiando na graça divina e na vontade própria» (Exortação Apostólica Familiaris consortio, 34).
  • O ato sexual fora de um matrimónio válido e, especialmente, o adultério, é sempre objetivamente um pecado grave, e nenhuma circunstância ou fim pode torná-lo admissível e agradável aos olhos de Deus. São Tomás de Aquino diz que o Sexto Mandamento é obrigatório, mesmo no caso em que, com um acto de adultério, se pudesse salvar um país da tirania (De Malo, q. 15, a. 1, ad 5). São João Paulo II ensinou também esta verdade perene da Igreja: «Os preceitos morais negativos, ou seja, os que proíbem alguns atos ou comportamentos concretos enquanto intrinsecamente maus, não admitem qualquer exceção legítima; eles não deixam nenhum espaço moralmente aceitável para a «criatividade» de qualquer determinação contrária. Uma vez reconhecida, em concreto, a espécie moral de uma ação proibida por uma regra universal, o único ato moralmente bom é o de obedecer à lei moral e abster-se da ação que ela proíbe» (Encíclica Veritatis splendor, 67).
  • Uma união adúltera de divorciados “recasados” civilmente, “consolidada”, como se diz, no tempo, e caracterizada por uma assim dita “comprovada fidelidade” no seu pecado de adultério, não pode alterar a qualidade moral do seu ato de violação do vínculo sacramental do matrimónio, ou seja, do seu adultério, que é sempre um ato intrinsecamente mau. Uma pessoa que tem uma verdadeira fé e temor filial a Deus nunca pode ter “compreensão” com atos intrinsecamente maus, como é o caso dos atos sexuais fora do matrimónio válido, uma vez que estes atos ofendem a Deus.
  • Uma admissão dos divorciados “recasados” à Sagrada Comunhão constitui, na prática, uma dispensa implícita de cumprimento do Sexto Mandamento. Nenhuma autoridade eclesiástica tem o poder de conceder tal dispensa implícita nem mesmo num só caso ou numa qualquer situação excecional e complexa, nem que seja com a finalidade de alcançar um bom fim (como por exemplo a educação da prole nascida duma união adúltera), invocando para a concessão de tal dispensa o princípio da misericórdia, da “via caritatis”, o cuidado materno da Igreja, ou afirmando, em tal caso, não querer pôr tantas condições à misericórdia. São Tomás de Aquino disse: «por nenhum fim alguém pode cometer adultério; pro nulla enim utilitate debet aliquis adulterium committere» (De Malo, q. 15, a. 1, ad 5).
  • Uma normativa que permite a violação do Sexto Mandamento de Deus e do vínculo sacramental do matrimónio apenas num único caso ou em casos excecionais, para evitar, presumivelmente, uma mudança geral das normas canónicas, significa sempre, porém, uma contradição da verdade e da vontade de Deus. Consequentemente, é psicologicamente enganador e teologicamente errado falar, neste caso, de uma normativa restritiva ou de um mal menor em contraste com a normativa de carácter geral.
  • Sendo o matrimónio válido entre batizados um sacramento da Igreja e, pela sua natureza, uma realidade de carácter público, um julgamento subjetivo da consciência sobre a nulidade do próprio matrimónio, por contraposição à respetiva sentença definitiva do tribunal eclesiástico, não pode ter consequências para a disciplina sacramental, que tem sempre um carácter público.
  • A Igreja e, especificamente, o ministro do sacramento da Penitência, não têm a faculdade para julgar o estado da consciência dos fiéis ou a retidão de intenção da consciência, uma vez que «ecclesia de occultis non iudicat» (Concílio de Trento, Sess. 24, cap. 1). O ministro do sacramento da Penitência não é, portanto, o vigário ou o representante do Espírito Santo, de modo que possa entrar com a Sua luz nas dobras da consciência, pois Deus reservou para Si o acesso à consciência: «sacrarium in quo homo solus est cum Deo» (Concílio Vaticano II, Gaudium et spes, 16). O confessor não pode arrogar-se a responsabilidade diante de Deus para dispensar implicitamente o penitente da observância do Sexto Mandamento e da indissolubilidade do vínculo matrimonial através da admissão à Santa Comunhão. A Igreja não tem o poder de fazer derivar com base numa pretensa convicção da consciência sobre a invalidade do próprio matrimónio no foro interno, consequências para a disciplina sacramental no foro externo.
  • Uma prática que permite que as pessoas divorciadas civilmente, e assim ditas “recasadas”, recebam os sacramentos da Penitência e da Eucaristia não obstante a sua intenção de continuar a violar o Sexto Mandamento e o seu vínculo matrimónio sacramental, é contrária à Verdade Divina e alheia ao sentido perene da Igreja Católica e ao comprovado costume recebido e fielmente preservado desde os tempos dos Apóstolos, e recentemente confirmado de modo seguro por São João Paulo II (cf. Exortação Apostólica Familiaris consortio, 84) e pelo Papa Bento XVI (cf. Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, 29).
  • A prática mencionada seria para todo o homem que raciocina uma rutura clara e, portanto, não representaria um desenvolvimento em continuidade com a prática apostólica e perene da Igreja, visto que contra um facto evidente não vale qualquer argumento: contra factum non valet argumentum. Uma tal prática pastoral seria um contra-testemunho da indissolubilidade do matrimónio, e uma espécie de cooperação por parte da Igreja na difusão da “praga do divórcio”, sobre a qual alertou o Concílio Vaticano II (cf. Gaudium et spes, 47).
  • A Igreja ensina através daquilo que faz, e deve fazer aquilo que ensina. Sobre a ação pastoral em relação às pessoas em uniões irregulares dizia São João Paulo II: «A ação pastoral procurará fazer compreender a necessidade da coerência entre a escolha de um estado de vida e a fé que se professa, e tentará todo o possível para levar tais pessoas a regularizar a sua situação à luz dos princípios cristãos. Tratando-as embora com muita caridade, e interessando-as na vida das respetivas comunidades, os pastores da Igreja não poderão infelizmente admiti-las aos sacramentos» (Exortação Apostólica Familiaris consortio, 82).
  • Um acompanhamento autêntico das pessoas que se encontram num estado objetivo de pecado grave, e o correspondente caminho de discernimento pastoral, não podem subtrair-se a anunciar a essas pessoas, com caridade, toda a verdade sobre a vontade de Deus, a fim de que se arrependam de todo o coração dos atos pecaminosos de viver juntos, more uxorio, com uma pessoa que não é o seu legítimo cônjuge. Ao mesmo tempo, um acompanhamento e discernimento pastoral autênticos devem encorajá-las a que, com a ajuda da graça de Deus, parem de cometer tais atos no futuro. Os Apóstolos e toda a Igreja, ao longo destes dois mil anos, anunciaram sempre aos homens toda a verdade de Deus no que diz respeito ao Sexto Mandamento e à indissolubilidade do matrimónio, seguindo o aviso de São Paulo Apóstolo: «Jamais recuei quando era preciso anunciar-vos toda a vontade de Deus» (Act 20, 27).
  • A prática pastoral da Igreja sobre o matrimónio e o sacramento da Eucaristia tem tal importância, e consequências de tal modo decisivas para a fé e para a vida dos fiéis, que a Igreja, para permanecer fiel à palavra revelada por Deus, deve evitar nesta matéria qualquer sombra de dúvida e confusão. São João Paulo II formulou esta verdade perene da Igreja assim: «É minha intenção inculcar em todos o vivo sentido de responsabilidade, que sempre nos deve guiar ao tratar das coisas sagradas; estas não são propriedade nossa, como é o caso dos Sacramentos; ou então têm direito a não serem deixadas na incerteza e na confusão, como são as consciências. Coisas sagradas — repito — são uns e outras: os Sacramentos e as consciências; e exigem da nossa parte serem servidas com verdade. Esta é a razão da lei da Igreja» (Exortação Apostólica Reconciliatio et paenitentia, 33).

Não obstante as repetidas declarações a respeito da imutabilidade da doutrina da Igreja em relação ao divórcio, numerosas igrejas particulares aceitam-no agora através da prática sacramental, e esse fenómeno está em crescimento. Apenas a voz do Supremo Pastor da Igreja pode evitar definitivamente que no futuro se venha a caracterizar a situação da Igreja dos nossos dias com a seguinte expressão: “O mundo inteiro gemeu e percebeu com espanto que tinha aceitado o divórcio na prática” (ingemuit totus orbis, et divortium in praxi se accepisse miratus est), recordando um dito análogo com o qual São Jerónimo caracterizou a crise ariana.

Tendo em conta este perigo, que é real, e a ampla disseminação da praga do divórcio dentro da vida da Igreja, que é implicitamente legitimada pelas mencionadas normas e orientações de aplicação da Exortação Apostólica Amoris laetitia, uma vez que essas normas e orientações de algumas igrejas particulares se tornaram, num mundo globalizado, de domínio público, e uma vez que as muitas súplicas feitas em privado e de modo confidencial ao Papa Francisco, por parte de muitos fiéis e Pastores da Igreja, se mostraram ineficazes, somos forçados a fazer este urgente apelo à oração. Como sucessores dos Apóstolos, também nos impele a obrigação de levantar a voz quando se encontram em perigo as coisas mais sagradas da Igreja e a salvação eterna das almas.

As seguintes palavras de São João Paulo II, com as quais ele descreveu os ataques injustos contra a fidelidade do Magistério da Igreja, sejam para todos os Pastores da Igreja, nestes tempos difíceis, uma luz e um impulso para uma ação cada vez mais unida: «Não raro, de facto, o Magistério da Igreja é acusado de estar superado já e fechado às instâncias do espírito dos tempos modernos; de realizar uma ação nociva para a humanidade, e inclusive para a própria Igreja. Ao manter-se obstinadamente nas próprias posições — diz-se —, a Igreja acabará por perder popularidade e os fiéis afastar-se-ão cada vez mais dela» (Carta às Famílias, Gratissimam sane, 12).

Considerando que a admissão dos divorciados ditos “recasados” aos sacramentos da Penitência e da Eucaristia, sem que lhes seja pedido o cumprimento da obrigação de viverem em continência, constitui um perigo para a fé e para a salvação das almas, e ainda uma ofensa à santa vontade de Deus, tendo também em conta que tal prática pastoral, por consequência, jamais pode ser uma expressão da misericórdia, da “via caritatis” ou do sentido maternal da Igreja para com as almas pecadoras, fazemos este apelo à oração profunda solicitude pastoral, para que Papa Francisco revogue de forma inequívoca as orientações pastorais já introduzidas em algumas igrejas particulares. Tal ato da Cabeça visível da Igreja confortaria os Pastores e fiéis segundo o mandamento que Cristo, Supremo Pastor das almas, deu ao apóstolo Pedro e, através dele, a todos os seus sucessores: «Confirma os teus irmãos» (Lc 22, 32).

Que as vozes de um Papa Santo e de uma Doutora da Igreja, Santa Catarina de Sena, sirvam para todos, na Igreja dos nossos dias, de luz e fortalecimento:

«O erro ao qual não se resiste, será aprovado. A verdade que não se defende, será oprimida» (Papa São Félix III, † 492). «Santo Padre, Deus escolheu-Vos para coluna da Igreja, de modo que sois o instrumento para extirpar a heresia, confundir as mentiras, exaltar a Verdade, dissipar as trevas e manifestar a luz» (Santa Catarina de Sena, † 1380).

No ano 638, quando o Papa Honório I adotou uma atitude ambígua diante da difusão da nova heresia do monotelismo, São Sofrónio, Patriarca de Jerusalém, enviou um bispo desde a Palestina até Roma dizendo-lhe estas palavras: “Vai à Sé Apostólica, onde estão os fundamentos da santa doutrina, e não cesses de rezar até que a Sé Apostólica condene a nova heresia.” A condenação veio depois, em 649, por obra do Papa santo e mártir Martinho I.

Fizemos este apelo à oração, cientes de que teríamos cometido um acto de omissão caso não o tivéssemos feito. É Cristo, Verdade e Supremo Pastor, Quem nos julgará quando vier. A Ele pedimos com humildade e confiança que retribua todos os pastores e todas as ovelhas com a coroa imperecível da glória (cf. 1 Pe 5, 4).

Em espírito de fé e com afeto filial e devoto, elevamos a nossa oração pelo Papa Francisco: “Oremus pro Pontifice nostro Francisco: Dominus conservet eum, et vivificet eum, et beatum faciat eum in terra, et non tradat eum in animam inimicorum eius. Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo Ecclesiam Meam, et portae inferi non praevalebunt adversus eam“.

Como meio concreto, recomendamos rezar todos os dias esta antiga oração da Igreja ou uma parte do santo rosário com a intenção de que o Papa Francisco revogue de modo inequívoco aquelas orientações pastorais que permitem que os, assim chamados, divorciados “recasados” recebam os sacramentos da Penitência e da Eucaristia sem que cumpram a obrigação de viver em continência.

18 de Janeiro de 2017, antiga festa da Cátedra de São Pedro em Roma.

† Tomash Peta, Arcebispo Metropolita da arquidiocese de Santa Maria em Astana

† Jan Pawel Lenga, Arcebispo-Bispo emérito de Karaganda

† Athanasius Schneider, Bispo auxiliar da arquidiocese de Santa Maria em Astana

Basto 1/2017

Antonio Spadaro no Algarve

O sr. Pe. Antonio Spadaro, homem forte da máquina de informação do Vaticano, veio ao Algarve dar um contributo para a “atualização” do clero das dioceses do Sul. Este jesuíta italiano, próximo do Papa Francisco, é um dos grandes promotores das inovações teológicas radicais promovidas pelo atual pontífice.

Não esconde o seu apreço pela nova misericórdia e critica quem, de alguma forma, a põe em causa, recorrendo aos mais absurdos argumentos. No caso dos “dubia” colocados pelos quatro cardeais, chegou até a recorrer à matemática para defender a abertura da Sagrada Comunhão a adúlteros nos termos propostos pelo Santo Padre.

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Twitter de Antonio Spadaro SJ

 

Curiosamente, e provável que ele não saiba, há quem recorra precisamente a esse mesmo argumento matemático para se referir ao que “tem a ver” com o diabo… Mas ele insiste, e até vai mais longe quando nos lembra – e nisto tem razão – que o Papa já respondera aos “dubia” na carta enviada aos bispos argentinos, remetendo-nos assim para a respetiva leitura.

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Twitter de Antonio Spadaro SJ

Agora deslocou-se a Portugal, à “periferia” da Europa, onde aproveitou para, de algum modo, começar a preparar a vinda do Papa Francisco em maio com a sua, já conhecida, “terapia”.

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Twitter de Antonio Spadaro SJ

O sr. Pe. Spadaro deve estar a adorar o sol de inverno na Praia da Rocha, dadas as fotos e comentários que tem publicado sobre a sua passagem por Portugal.

 

Basto 1/2017

A ‘Alegria do Amor’ na Alemanha

O acesso à Sagrada Comunhão em estado de pecado mortal já é permitido também na Alemanha. A justificação é, mais uma vez, a controversa exortação apostólica Amoris Laetitia do Papa Francisco.

O bispo Karl-Heinz Wiesemann de Speyer, Alemanha, anunciou em entrevista, a 17 de dezembro, que iria publicar orientações sobre como os padres da sua diocese deviam acompanhar os católicos divorciados recasados que querem receber os sacramentos. Wiesemann disse que o Papa Francisco tornou isso possível em casos individuais, após o acompanhamento apropriado por um padre.

(in National Catholic Reporter, 21/12/2016)

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Church Militant em 22/12/2016

De acordo com o National Catholic Reporter, Speyer é já a segunda diocese alemã a pôr em prática a ‘Alegria do Amor’ depois de, no mês anterior, o arcebispo Stephan Burger, de Freiburg, ter dito que considerava a admissão de divorciados recasados aos sacramentos como uma das mensagens centrais da Amoris Laetitia.

 

Basto 1/2017

Papa poderá visitar Moscovo, é uma questão de tempo

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Como tínhamos já aqui referido e analisado, uma eventual visita papal à Rússia parece cada vez mais possível e até bastante provável. Existe mesmo a possibilidade de tal viagem estar já a ser planeada à porta fecha, uma vez que este é um assunto em relação ao qual o Papa Francisco prefere manter descrição. Assim aconteceu também quando preparou o inédito encontro com o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, em Havana, em Fevereiro do ano transato.

Em maio do ano passado, o proeminente cardeal francês Jean-Louis Tauran, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso e camerlengo da Câmara Apostólica, afirmava que Francisco poderia vir a ser o primeiro pontífice romano a visitar a Rússia e a China.

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Crux Now em 28/05/2016

“Sim… talvez, mas há várias nuances a considerar.”

(Cardeal Jean-Louis Tauran in Crux Now, 28/05/2016)

A principal “nuance” é reconhecidamente o “problema” dos Greco-Católicos da Ucrânia…

Praticamente um ano depois da cimeira cubana, quem nos dá agora razão é o arcebispo de Moscovo, D. Paolo Pezzi, que é também o presidente da Conferência de Bispos Católicos da Federação Russa. Este arcebispo italiano, em entrevista à agência noticiosa católica italiana SIR, considera que a viagem papal é agora possível devido ao encontro de Havana e às suas consequências no relacionamento entre as duas igrejas, embora não se sinta capaz de arriscar uma data.

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Servizio Informazione Religiosa em 11/01/2017

“Eu não posso dizer quanto tempo levará. Mas isso não é mais visto como uma questão problemática.”

“Eu penso que depois de Cuba, nomeadamente das suas consequências, que tiveram um impacto na Igreja Ortodoxa da Rússia, hoje é possível dizer que a visita do Papa à Rússia deixou de ser um problema.”

(Declarações do Mons. Paolo Pezzi ao SIR em 11/01/2017)

As relações entre o Vaticano e as autoridades políticas e religiosas russas nunca estiveram tão boas. Através dos vários encontros realizados em Roma ou nas Caraíbas, as cartas enviadas, os presentes trocados ou as permutas de arte, Francisco é de facto um Papa que parece agradar às autoridades do gigante eslavo.

Talvez Francisco consiga fazer aquilo que os papas anteriores desejaram e não conseguiram. Contudo, se um Papa acabar mesmo por visitar a Rússia, este ou outro, nessa altura teremos inevitavelmente de avaliar as razões que tornaram isso possível. Será esse evento a derradeira e esperada evidência da anunciada “conversão da Rússia” profetizada em Fátima? Ou, em alternativa, estaremos perante o apogeu das consequências negativas resultantes da não consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria dentro do prazo indicado por Nossa Senhora?

O Papa Francisco rejeita categoricamente a necessidade de conversão à Religião Católica e, em vez disso, promove incansavelmente a sua “cultura do encontro”, reservando a necessidade de conversão para a Cúria Romana e para os fiéis católicos em geral, mas em especial para aqueles que resistem… Basicamente, a conversão consiste na adesão à Fé Católica, enquanto a “cultura do encontro” pressupõe uma desvalorização da Fé Católica em favor de um consenso mais alargado, ou mesmo universal, onde há lugar para todas as crenças e não crenças… A conversão ocorre naquele que adere à Fé, enquanto a tal “cultura do encontro” implica algum grau de afastamento da Fé por parte daquele que a possui…

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Qual seria o resultado final a esperar de toda esta “cultura do encontro” se algum dia conseguisse uma aceitação universal? Um mundo onde todas as religiões são iguais? Um mundo sem religião? Que paraíso é esse que esta doutrina nos quer vender? Onde é que esse paraíso se encontra, neste mundo ou no Outro? É uma ideologia que não faz o mínimo de sentido à luz da Fé Católica!

Se algum dia um Papa for bem-vindo na Rússia, esperemos que isso seja sinal de conversão generalizada dessa nação, da sua reunião verdadeira à Igreja de Roma e nunca o resultado da conversão da própria Igreja Católica naquilo que a Rússia desejava que Ela fosse. Isso seria o desprezo total da Igreja pela mensagem de Fátima e talvez a gota necessária para fazer transbordar a copo da Paciência Divina.

 

Basto 1/2017

A ‘Alegria do Amor’ em Malta

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Manchete do Catholic Herald em 13/01/2017

Bispos de Malta dizem aos recasados: tomem a Comunhão se se sentem em paz com Deus

Os bispos dizem que evitar o sexo talvez seja ‘humanamente impossível’

(Manchete do Catholic Herald em 13/01/2017)

Ignorando a doutrina católica, os bispos de Malta acabam de publicar um documento intitulado ‘Normas para a Aplicação do Capítulo VIII da Amoris Laetitia onde autorizam a comunhão a pessoas que vivem em adultério.

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Normas para a Aplicação do Capítulo VIII da Amoris Laetitia – Arcebispo de Malta e Bispo de Gozo

Esta atitude radical da Igreja de Malta foi universalmente elogiada pelo Vaticano, quando lhe atribuiu destaque na sua publicação oficial, o L’Osservatore Romano (página 7).

Ainda esta semana, o Cardeal Burke, patrono da Ordem de Malta, preocupado com a proliferação deste tipo de leituras heréticas da exortação papal, tinha avisado que se algum dia a interpretação da diocese de San Diego se universalizar, “então acabou o ensinamento da Igreja sobre o matrimónio”. Felizmente ainda não se universalizou mas já chegou a Malta, e logo durante a Epifania.

 

Basto 1/2017

Papa Francisco irá a Fátima “como peregrino”

A informação partiu da Conferência Episcopal Portuguesa mas o Vaticano confirmou. Se estiver certa, é de facto uma excelente notícia para os portugueses e para o mundo em geral.

“[Papa] Vem como peregrino na esperança e na paz, como nós também somos convidados a sê-lo, em oração, nesta atitude de apelo que a mensagem [de Fátima] tem à conversão, ao nosso compromisso social.

(Pe. Manuel Barbosa, Secretário da CEP, à Agência Ecclesia a 10/01/2017; a Santa Sé confirmou entretanto esta informação ao republicá-la no dia seguinte na Radio Vaticano)

O Santo Padre não pretende, portanto, marcar presença em Fátima para promover qualquer tipo de ideologia, mas antes vir como um “peregrino” de Nossa Senhora e, com Ela, apelar “à conversão”. O “compromisso social” dos pastores da Igreja é o de guiar os fiéis, exortá-los a afastarem-se do pecado e mostrar-lhes o caminho da salvação eterna.

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Intenções de oração de janeiro de 2016: diálogo inter-religioso, ou seja evangelização (imagem editada para evitar eventuais “dubia”)

 

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Intenções de oração de fevereiro de 2016: um apelo à conversão (imagem editada para evitar eventuais “dubia”)

 

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Intenções de oração de maio de 2016: as mulheres (imagem editada para evitar eventuais “dubia”)

A mensagem de Fátima é, no fundo, a doutrina católica de sempre, apresentada de forma simples e clara, sem complicações e sem ambiguidades. É tão fácil de entender que chegou até nós através de três crianças humildes que ainda não sabiam ler e escrever. Esperemos que o Papa Francisco não a complique durante a sua peregrinação…

Uma coisa é certa, esta é a terra onde, de uma forma ou de outra, “se conservará sempre o dogma da Fé”, o resto não sabemos porque Nossa Senhora pediu às crianças para guardarem segredo.

 

Basto 1/2017