Para 2017, mais do mesmo: política de esquerda embrulhada em linguagem de piedade católica

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Por Christopher A. Ferrara

Enquanto católicos do mundo inteiro, desde cardeais até aos simples fiéis nos bancos das igrejas, olham para este pontificado com crescente alarme e consternação, não há sinal algum de que Francisco vire uma nova página com o início do novo ano.

Como parte do seu programa de tentar refazer a Igreja à sua própria imagem, Francisco nunca perde uma oportunidade de condenar os católicos ortodoxos nas suas declarações, sermões e observações casuais, os quais, incansavelmente, promovem itens da agenda política e social que nenhum democrata consideraria ofensiva. Tais itens são geralmente transmitidos no contexto de piedosas referências a Nosso Senhor e Sua Mãe.

A véspera de Ano Novo de 2016 não foi exceção. A homilia de Francisco nas Vésperas e Te Deum começa de forma promissora, num tom de boa piedade católica, com uma citação da Sagrada Escritura: “Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob o domínio da Lei, para resgatar os que se encontravam sob o domínio da Lei, a fim de recebermos a adoção de filhos.” (Gl 4, 4-5).

Mas já sabemos o que vem a seguir, depois de quase quatro anos de experiência nessa mistura latino-americana de piedade populista e política de esquerda conhecida como Bergoglianismo: o Evangelho será transformado num manifesto de justiça social e os fiéis católicos que defendem a ortodoxia serão novamente caricaturados. Pois o homem é incansável na busca da sua “visão” da Igreja. Deste modo, lemos nos seguintes parágrafos:

“Em Cristo, Deus não Se mascarou de homem, fez-Se homem e partilhou em tudo a nossa condição. Longe de se encerrar num estado de ideia ou essência abstrata, quis estar perto de todos aqueles que se sentem perdidos, mortificados, feridos, desanimados, abatidos e amedrontados; perto de todos aqueles que, na sua carne, carregam o peso do afastamento e da solidão, para que o pecado, a vergonha, as feridas, o desconforto, a exclusão não tenham a última palavra na vida dos seus filhos.

O presépio convida-nos a assumir esta lógica divina: não uma lógica centrada no privilégio, em favores, no compadrio; mas a lógica do encontro, da aproximação e da proximidade. O presépio convida-nos a abandonar a lógica feita de exceções para uns e exclusões para outros. O próprio Deus veio quebrar a cadeia do privilégio que gera sempre exclusão, para inaugurar a carícia da compaixão que gera a inclusão, que faz resplandecer em cada pessoa a dignidade para que foi criada. Um menino envolto em panos mostra-nos a força de Deus que interpela como dom, como oferta, como fermento e oportunidade para criar uma cultura do encontro.”

Observe-se a transformação subtil do Cristo Redentor, que se tornou homem para libertar a humanidade caída pelo peso do pecado, da vergonha e do desespero, como lemos no primeiro parágrafo, no Cristo ativista social do segundo parágrafo, que veio para “abandonar a lógica feita de exceções para uns e exclusões para outros“, para “quebrar a cadeia do privilégio que gera sempre exclusão, para inaugurar a carícia da compaixão que gera a inclusão” e para criar “uma cultura do encontro”.

Não, Cristo não veio para abolir privilégios, condenar a “exclusão” ou promover a “inclusão” e uma “cultura do encontro”. A sua missão não envolveu nenhum desses slogans de esquerda. Esse é o falso cristo da Teologia da Libertação. O Cristo verdadeiro recusou tal missão de justiça social em favor da Sua vocação divina: redimir, através do Seu sacrifício de valor infinito, o homem caído. Com esse sacrifício, Ele conquistou para os homens a graça de obedecer aos Seus mandamentos para que, conforme São Paulo alertou aos Filipenses, eles pudessem “com temor e tremor trabalhar pela [sua] salvação.” (Fl 2, 12)

Conforme o próprio Nosso Senhor disse aos discípulos que murmuravam contra a mulher que havia gasto um caro perfume nos Seus pés sagrados em vez de vendê-lo e dar o dinheiro aos pobres: “Porque afligis esta mulher? Ela praticou uma boa ação para comigo. Pobres, sempre os tereis convosco; mas a mim nem sempre me tereis. Derramando este perfume sobre o meu corpo, ela preparou a minha sepultura (Mt 26, 10-13).”

É claro que os cristãos têm o dever de ajudar os pobres e aliviar o seu sofrimento; e a Igreja sempre ensinou que os bens desta terra têm um destino universal e não pertencem exclusiva e absolutamente a seus possuidores imediatos. Mas Cristo não veio para extinguir a pobreza – que é inextinguível – para redistribuir a riqueza, ou para promover a “inclusão” – tal como as fronteiras abertas e a sociedade plurirreligiosa que Francisco exige para sua “cultura do encontro”.

Depois, inevitavelmente, vem uma condenação dos católicos ortodoxos, que Francisco agora parece incluir em praticamente todas as declarações sobre qualquer assunto – as quais, de alguma forma, sempre regressam ao mesmo assunto. Diz Francisco:

“Quando chega ao fim mais um ano, paremos diante do presépio para agradecer todos os sinais da generosidade divina na nossa vida e na nossa história, que se manifestou de inúmeras maneiras no testemunho de tantos rostos que anonimamente souberam arriscar. Agradecimento esse, que não quer ser nostalgia estéril nem vã recordação do passado idealizado e desencarnado, mas memória viva que ajude a suscitar a criatividade pessoal e comunitária, pois sabemos que Deus está connosco. Deus está connosco!”

Nostalgia estéril e recordações vazias de um passado idealizado e desencarnado – é assim que Francisco caracteriza incessantemente os defensores da ortodoxia católica e a tradicional disciplina que protege a verdade salvadora de Cristo perante os compromissos que condenam almas. E quem serão aqueles que “anonimamente souberam arriscar” para promover a “criatividade comunitária”, os quais, segundo Francisco, são aqueles cujo “testemunho” é verdadeiramente cristão? Como se nós não soubéssemos: são aqueles que, com ele, aceitam que adúlteros públicos em “segundos casamentos” recebam a Sagrada Comunhão – a grande obsessão deste bizarro pontificado.

Virando-se para os jovens, Francisco conclui com mais do “Evangelho social” que ignora o bem-estar eterno das almas:

“Criamos uma cultura que por um lado idolatra a juventude procurando torná-la eterna, mas por outro, paradoxalmente, condenamos os nossos jovens a não possuir um espaço de real inserção, porque lentamente os fomos marginalizando da vida pública, obrigando-os a emigrar ou a mendigar ocupação que não existe ou que não lhes permite projetar o amanhã. Privilegiamos a especulação em vez de trabalhos dignos e genuínos que lhes permitam ser protagonistas ativos na vida da nossa sociedade. Esperamos deles e exigimos que sejam fermento de futuro, mas discriminamo-los e «condenamo-los» a bater a portas que, na maioria delas, permanecem fechadas.”

Esta é então  a esperança de Francisco para os jovens durante o próximo ano: não que sejam libertados, pela graça de Deus, de uma cultura corrompida e voltem as costas ao pecado, olhando para o seu destino eterno, mas antes que encontrem bons empregos. Cristo não estabeleceu a Sua Igreja sob a liderança terrena do Vigário de Cristo para que o Papa pudesse exigir o pleno emprego dos jovens, a “inclusão” e a “cultura do encontro”. O ofício petrino é a pedra sobre a qual a fé e a moral assentam e através da qual são preservados – como tem sido transmitido através dos séculos – para a salvação das almas. Mas Francisco – e isto deve ser dito – não parece muito interessado nos atributos desse ofício.

E parece que podemos esperar mais da mesma propaganda vazia de justiça social em 2017. A não ser que aconteça uma milagrosa mudança de coração, Francisco continuará a empregar a linguagem da piedade católica e os nomes de Cristo e de Sua Santíssima Mãe para promover os mesmos objetivos sociopolíticos que seriam agradáveis a Hillary Clinton, enquanto condena os católicos que procuram perseverar na fé integral dos seus antepassados.

É arriscado fazer previsões, contudo, mesmo a partir de uma perspetiva humana falível, este absurdo não pode continuar por muito mais tempo sem uma correção dramática proveniente do alto. O Ano de Nosso Senhor 2017 promete ser preenchido com esse tipo de drama.

Nossa Senhora de Fátima, defendei a Vossa Igreja!

A edição original deste texto foi publicada pelo Fatima Center a 3 de janeiro de 2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com (citações na tradução oficial do Vaticano)

Nota da edição: o conteúdo do artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

 

Basto 1/2017

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