Ainda sobre a tal “grande maioria” de matrimónios nulos

Já não é novidade para ninguém que o Santo Padre está mesmo convencido de que uma grande maioria dos matrimónios sacramentais são nulos”. Apesar de essa opinião parecer completamente ridícula e absurda, ele é o Papa e – outra vez – quem somos nós para julgar?

matrimónios nulos
Abertura do Congresso Pastoral da Diocese de Roma, 16/06/2016 in The Vatican

Como entende que os sacramentos são “nulos”, o Papa insiste que devem ser resolvidos rapidamente, de forma simples, segura e tendencialmente gratuita, porque – e isto pode parecer ainda mais absurdo – a “salvação das pessoas” depende da universalização e da celeridade dos processos de nulidade matrimonial! Até parece que a salvação da humanidade chegou apenas em dezembro de 2015 com a publicação do Motu Proprio Mitis Iudex Dominus Iesus e o consequente início da corrida generalizada à nulidade matrimonial.

São muitos os fiéis que desejam “salvar-se” dos seus “matrimónios sacramentais nulos” por esse mundo fora, a “justiça” tem de chegar a todos. O Santo Padre pede que se avance com celeridade.

matrimónios nulos2
O Santo Padre pede que acelerem processos de nulidade matrimonial in The Vatican, 10/11/2014

O vigário geral da diocese do Algarve, o Pe. Carlos César Chantre, talvez tenha percebido já, de algum modo, aquilo de que se queixava o Papa Francisco na abertura do Congresso Pastoral da Diocese de Roma em 2016. Durante o curso de formação de “agentes de pastoral familiar”, referiu-se especificamente aos casamentos celebrados nas décadas de 50 e 60 para identificar a tal “grande maioria” de “matrimónios sacramentais” alegadamente nulos que preocupam Santo Padre.

“(…) os casamentos que aconteceram nas décadas de 50 e 60, na maior parte deles, os seus protagonistas não estavam devidamente informados sobre o significado do casamento(…)”. “Portanto, muitos destes sacramentos, provavelmente são nulos”.

(Pe. Carlos César Chantre in Folha do Domingo, 21/03/2017)

Esta justificação para a nulidade do casamento foi considerada por Francisco como um “vício” de forma presente “na origem do consenso matrimonial”, não obstante o facto de o Santo Padre exortar frequentemente os fiéis para o perigo do “legalismo” e do querer ter “tudo claro e seguro”. Tal vício de forma, de acordo com o Papa, resulta do “contexto cultural e humano” em que muitos matrimónios foram celebrados, onde se destaca particularmente a falta de fé que, em última análise, também justifica a nulidade.

O juiz, ao ponderar a validade do consentimento dado pelos esposos, deve ter em conta o contexto de valores e de fé – ou da sua carência ou ausência – em que a intenção matrimonial se formou.

(Papa Francisco aos membros da Rota Romana, in Radio Vaticano, 23/01/2015)

matrimónios nulos3
Papa Francisco dirigindo-se aos membros da Rota Romana in The Vatican, 24/01/2015

Retomando o raciocínio do sr. Pe. Chantre a respeito da prática matrimonial nas décadas de 50 e 60, somos obrigados a constatar que tais casamentos, válidos ou não, felizmente já ultrapassaram as bodas de ouro ou de diamante, tendo escapado assim à presente tempestade pastoral. Os processos prescreveram e já nem vale a pena questionar sequer a legitimidade dos filhos…

O artigo da Folha do Domingo relativo à diocese do Algarve contém ainda outros aspetos interessantes que merecem uma leitura atenta, entre os quais destaca-se uma preocupação transmitida pelos formadores convidados.

“Falamos em situações matrimoniais irregulares – e é um termo canónico –, mas quem está recasado, separado ou foi abandonado como é que se sente quando ouve esta expressão?”

(in Folha de Domingo, 21/03/2017)

Provavelmente sentir-se-á bastante confuso porque as palavras de Cristo no evangelho são bastante diferentes. Aliás, já aqui tínhamos demonstrado antes o perigo que representa a evolução da linguagem e dos conceitos no léxico católico.

Jesus disse: «Quem se divorciar da sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher se divorciar do seu marido e casar com outro, comete adultério (Mc 10, 11-12)

A palavra “misericórdia” está na moda, mas convém lembrar que, de todos, Cristo é o mais misericordioso e também o mais justo. E já agora, Ele condenou especificamente o adultério e não apontou o dedo a ninguém que tenha sido “abandonado” – é necessário dissociar conceitos que são diferentes para salvaguardar a Verdade.

Voltando atrás, se quisermos mesmo entrar pela via relativista e falaciosa do questionamento universal da validade dos sacramentos, também o sacramento da Ordem teria de ser questionado. Então, se os padres, no momento em que foram ordenados, não conheciam a doutrina católica – nomeadamente todos aqueles que agora pregam doutrinas exóticas-, se não tinham Fé suficiente ou não conheciam a verdadeira missão sacerdotal, a validade dos seus votos não deveria ser também ponderada? E no caso se constatar nulidade sacerdotal, não deveriam estar calados e deixar os fiéis seguirem a Verdade de sempre? Pois, talvez seja melhor evitarmos a volatilidade da via relativista que, em última análise, conduz ao caos, para aceitarmos definitivamente a solidez do magistério da Igreja, sempre infalível.

Finalmente, devemos agora perguntar: mas como é que tanta gente, nos nossos dias, ainda se preocupa em verificar a nulidade do seu matrimónio? Não será isso, em si, uma das formas de “legalismo” condenadas por Francisco? A pessoa poderá sempre voltar a casar-se porque já nem sequer o próprio Papa vê no adultério um problema maior, na pior das hipóteses, a pessoa cai em “situação irregular” – antigamente chamado pecado mortal – que facilmente poderá ser regularizada depois de um “discernimento acompanhado por um pastor”. Ou então, caso prefira, poderá sempre optar por uma solução concubinatória e tirar partido dos benefícios espirituais da convivência fora do casamento. Não é assim a nova pastoral à la carte ou escapou-nos alguma coisa?

Pós-texto

Nossa Senhora disse em Fátima, de acordo com a vidente Jacinta, que “muitos casamentos não são bons, eles não agradam a Nosso Senhor”. O Papa Francisco apresenta esta solução pragmática, promovendo a corrida à nulidade matrimonial! É incrível mas é verdade, como também é verdade que, diariamente, em Fátima, reza-se pelas intenções do Papa Francisco… E nós perguntamos: que intenções são essas?

Recordemos, uma vez mais, o calendário mariano da pastoral da nulidade matrimonial. O Santo Padre anunciou o seu novo projeto pastoral de universalização da nulidade matrimonial precisamente no dia da Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria, em 2015, e ordenou que fosse publicado no dia da Solenidade da Imaculada Conceição desse mesmo ano. A quem terá agradado mais esta nova pastoral da nulidade matrimonial, a Nossa Senhora de Fátima ou à Virgem Desatanudos?

Esperemos que daqui a algumas semanas, quando o Papa Francisco vier a Fátima, se faça alguma luz sobre esta e outras questões relacionadas com os tempos apocalíticos em que vivemos.

 

Basto 3/2017

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s