A Igreja que Stalin não conseguiu matar: a Igreja Greco-Católica Ucraniana prospera setenta anos depois da reunificação forçada

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O arcebispo Sviatoslav Shevchuk (ao centro) participa numa cerimónia, na Catedral Patriarcal da Ressurreição de Cristo, em Kiev, onde foi entronizado como líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, a 27 de março de 2011. Estima-se que a Igreja Greco-Católica Ucraniana tenha mais de 5 milhões de fiéis. REUTERS/Kinstantin Chernichkin

Por Nadia M. Diuk

24 de março de 2016 (Atlantic Council) – Há setenta anos atrás, de 8 a 10 de março de 1946, sob as ordens de Josef Stalin, realizou-se um “sínodo” ilegal do clero controlado pelo Kremlin, em Lviv,  depois de esta cidade ter sido absorvida pela União Soviética como parte do assentamento da Segunda Guerra Mundial . O objetivo do encontro era acabar com a existência independente da Igreja Católica Greco-Católica Ucraniana, ou melhor, “reuni-la” com a Igreja Ortodoxa Russa. Na base do astuto estratagema estava a origem desta Igreja, a qual resultou da união de Brest, em 1595, quando milhares de fiéis juntamente com os seus clérigos – a circunscrição metropolitana de Kiev-Halych – separaram-se da ortodoxia oriental para se submeterem à autoridade e à proteção pastoral do Papa católico latino de Roma.

Os três séculos e meio que se seguiram fizeram desta Igreja um próspero centro espiritual, intimamente ligado aos crescentes movimentos sociais e intelectuais que tentavam definir uma identidade para as emergentes populações ucranianas que viveram sob a sucessiva dominação de impérios e estados naquela região.

Em meados do século XX, a Igreja Católica Greco-Católica Ucraniana (IGCU) incluía mais de 3.000 paróquias, 4.440 igrejas, 5 seminários e 127 mosteiros. Mais de três milhões de crentes eram atendidos por 3.000 sacerdotes, 10 bispos e o metropolita [equivalente a arcebispo] que liderava a Igreja. Mas como o regime de Stalin pretendia subjugar e absorver os ucranianos ocidentais, era óbvio que esta grande e vibrante instituição, que respondia a uma autoridade exterior ao Estado, continuaria a cultivar o mesmo patriotismo e espírito de independência que tinha sido tão problemático durante a primeira ocupação soviética entre 1939-1941. Além disso, durante a II Guerra Mundial, embora o regime comunista soviético se tivesse afastado do ateísmo rígido, depois de perceber que a religião poderia desempenhar um papel no apoio ao esforço de guerra, o imperativo de controlar todas as instituições religiosas manteve-se. A “reunificação” da IGCU com a Igreja Ortodoxa Russa surgiu como a solução. Reuniu-se um “sínodo” sem a participação dos bispos da IGCU; os que foram forçados a participar, votaram e a Igreja foi oficialmente absorvida pela Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Moscovo, juntamente com a maior parte dos seus pertences. Num movimento cínico que reforçou a decisão, o anúncio foi feito no primeiro domingo de Quaresma, no 350º aniversário da União de Brest. Como resultado, a IGCU tornou-se a maior igreja clandestina do mundo.

Seguiram-se severas repressões. Sacerdotes católicos ucranianos foram espancados, torturados e condenados a longas penas de prisão. Dezenas de milhares de leigos tiveram o mesmo destino. O metropolita da IGCU, Josef Slipiy, foi enviado para um campo de trabalhos forçados na Sibéria. A igreja desceu às catacumbas: realizavam-se celebrações nas florestas ou, havendo coragem, em habitações particulares. As crianças eram batizadas em segredo e os ritos religiosos realizavam-se na clandestinidade, enquanto o Estado soviético continuava o seu ataque aos sacerdotes, monges, freiras e fiéis católicos, oferecendo refúgio na Igreja Ortodoxa Russa ou, em alternativa, repressão como preço para a recusa no corte da ligação ao bispo de Roma.

Ainda assim, a chama da resistência resistiu e forneceu inspiração com histórias de brutalidade e coragem partilhadas entre os membros confiáveis da família e transmitidas de geração em geração. A Ucrânia Ocidental, com suas aspirações e apoio a uma Ucrânia independente, manteve-se como um viveiro de sentimentos anti-soviéticos e de diversidade religiosa. Quando a longa luta da igreja clandestina terminou finalmente, em 1989, sobravam apenas trezentos idosos sacerdotes.

A vitalidade da igreja reafirmou-se rapidamente com o apoio da diáspora, os milhares de ucranianos que tinham fugido da sua terra natal durante a guerra rumo à América do Norte, à América Latina, à Europa e até à Austrália.

Hoje, com um centro espiritual em Roma, com a recentemente reestabelecida Universidade Católica Ucraniana em Lviv e a com recém-construída catedral em Kiev, a Igreja tem 33 eparquias e exarcados e 53 bispos em quatro continentes, com mais de 3.000 sacerdotes cuja idade média ronda os 38 anos.

A influência desta Igreja na vida social e política da Ucrânia tem sido evidente desde a independência. Estudantes da Universidade Católica Ucraniana de Lviv foram alguns dos primeiros a deslocar-se até Kiev, em 2004, para apoiar as ideias e aspirações da Revolução Laranja contra um regime autoritário. E em 2013-14, a Revolução da Dignidade da Ucrânia foi impregnada com os valores morais e atitudes tolerantes propostos pela Igreja. O seu clero foi uma presença diária em Maidan durante os três meses de luta. Juntamente com as outras igrejas e denominações religiosas da Ucrânia, a IGCU ajudou a criar um ambiente ecuménico e diversificado para os movimentos sociais na Ucrânia. Como um baluarte contra o autoritarismo, este espírito de ecuménico da Ucrânia continua a ser o melhor instrumento na luta para se tornar um estado próspero e democrático.

A edição original deste texto foi publicada pelo Atlantic Council no dia 8 de março de 2016. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do texto acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 3/2017

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