Para quando será possível praticar “Amoris Laetitia” em Portugal

Cabeça de São João Batista
Autor espanhol desconhecido, século XVII

 

Vi ainda que a mulher estava embriagada com o sangue dos santos e com o sangue dos mártires de Jesus.

Fiquei espantado, ao ver tão grande prodígio. (Ap 17, 6)

O que é Amoris Laetitia?

Deixemo-nos de eufemismos, falácias ou outras falsidades intelectuais e falemos verdade, em nome de Deus.

Praticar Amoris Laetita, no sentido pretendido do conceito, significa obter/dar absolvição sacramental e receber/dar a Sagrada Comunhão apesar do adultério. É uma prática pastoral que, na sua essência, está em profunda contradição com a doutrina da Igreja Católica mas que o Papa Francisco tenta orgulhosamente impor, de forma incansável e obsessiva, desde o início do seu sinistro pontificado.

Jesus disse: «Quem se divorciar da sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher se divorciar do seu marido e casar com outro, comete adultério.» (Mc 10, 11-12)

Dois milénios depois de Cristo, chega uma doutrina nova e antagónica, que propõe uma pastoral contrária ao ensinamento de Jesus e da sua Igreja – não é que não estivéssemos avisados (1Tm 6, 3-4). Está aí, foi formalmente aprovada pela Igreja Católica e já está a ser universalmente praticada a uma escala crescente e difícil de quantificar. Um enorme sacrilégio, alegadamente inspirado pelas “surpresas do Espírito Santo”, como se as Pessoas da Santíssima Trindade pudessem entrar em contradição… Que disparate tão grande, que blasfémia tamanha!

O adultério é um pecado extremamente grave que nos afasta da Graça de Deus, portanto qualquer caminho penitencial terá de orientar-se sempre no sentido da conversão do pecador. Só o profundo arrependimento, a contrição e o propósito de mudança de vida poderão reaproximar da Graça de Deus aqueles que caíram ou permanecem no grave pecado do adultério. Todavia, o Papa insiste que os sacerdotes devem conceder a absolvição aos adúlteros não arrependidos e oferecer-lhes a Sagrada Comunhão, ainda que estes continuem obstinados na sua condição de pecado. Que Papa é este? O que pretende ele oferecer a tantas almas em risco de perdição eterna?

Assim, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor. Portanto, examine-se cada um a si próprio e só então coma deste pão e beba deste vinho; pois aquele que come e bebe, sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a própria condenação. Por isso, há entre vós muitos débeis e enfermos e muitos morrem. Se nos examinássemos a nós mesmos, não seríamos julgados; mas, quando somos julgados pelo Senhor, Ele corrige-nos, para não sermos condenados com o mundo. (1Cor 11, 27-32)

A prática da Amoris Laetitia alastra-se de forma viral pelo mundo inteiro. Há cada vez mais dioceses e conferências episcopais que disponibilizam a nova misericórdia de Francisco a todos aqueles que recusam receber a misericórdia de Cristo. Isto é, em si, um ato de justiça divina de dimensão apocalítica, até onde chegará este castigo? Até quando durará este flagelo? São necessárias muitas orações e penitência pelos pecadores que caíram nesta cilada de Satanás.

Quando rezardes o terço dizei depois de cada mistério: Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno; levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem.

(N.ª S.ª de Fátima aos pastorinhos em 1917)

Vivemos atualmente um tempo de profunda “desorientação diabólica”, um tempo em que, mais do que nunca, necessitamos de recorrer ao Imaculado Coração de Maria, o nosso “refúgio”, o caminho que nos “conduzirá até Deus” (nas palavras de Nossa Senhora de Fátima). Um tempo em que tantos dos pastores da nossa Igreja já não são capazes de desempenhar verdadeiramente as funções para as quais foram mandatados por Cristo. Um tempo de apostasia. Um tempo que, em termos escatológicos, faz parte dos últimos tempos.

Como é que nós rezamos hoje, se é que ainda rezamos? Pedimos ainda perdão pelos nossos pecados ou pedimos agora a Deus que aceite as nossas iniquidades? Que esperamos nós obter quando nos aproximamos do confessionário, o perdão dos nossos pecados ou a desvalorização da nossa culpa? Para que servem os nossos sacerdotes? Permita Deus que eles continuem a conduzir-nos pela única “porta estreita” (Mt 7, 13), ainda que nós não o mereçamos.

portas.abertas
Papa Francisco, 18/02/2016 in TV2000

De todas as portas que têm sido abertas, algumas propõem caminhos estranhamente fáceis e perigosos, avessos à vontade de Deus. Ainda assim, o cristão continua dono da sua liberdade, pois, apesar de tudo, ninguém lhe retirou ainda o direito de optar pela porta estreita, pelo caminho da cruz.

A prática da Amoris Laetitia, feita de acordo com a interpretação que o Papa Francisco deseja, representa a porta larga, a “entrada do sepulcro”, – recorrendo às palavras do ex-cardeal Bergoglio – mas, neste caso, do sepulcro eterno. Bergoglio é hoje Papa, supostamente a pedra que nos impede de cair no sepulcro eterno. Que Deus nos acuda!

Chegou a vez de Portugal?

Muitos fiéis portugueses continuam numa espécie de limbo, à espera das tais “portas” que autorizem a prática da Amoris Laetita também no nosso país. Faz lembrar os anos em que o aborto era ainda ilegal e mal visto em Portugal, quem o quisesse praticar teria de ser muito discreto ou então procurar uma alternativa para lá da fronteira. Hoje, infelizmente, o nosso país orgulha-se de possuir uma das políticas abortivas mais avançadas do mundo. Será que Portugal irá posicionar-se também na vanguarda desta loucura satânica de legitimar a conciliação entre o adultério e o “corpo, sangue, alma e divindade de Jesus Cristo”? Permitirá algum dia Nossa Senhora, rainha e padroeira do povo seu protegido, que a Igreja Portuguesa adote institucionalmente esta impostura sacrílega pseudo-misericordiosa?

O Semanário Ecclesia, propriedade da Conferencia Episcopal Portuguesa (CEP), na sua última edição, deu um enorme destaque editorial à controversa exortação apostólica do Papa Francisco, mostrando, em vários artigos, uma forte simpatia por esta nova pastoral obscena de simbiose entre o Santíssimo Sacramento e o adultério. Vejamos alguns excertos, por exemplo este (depois do minuto 18:00):

“A grande questão dos quatro cardeais que queriam que o Papa dissesse ‘sim’ ou ‘não’, mas isto não tem sim ou não, o princípio é exatamente não ficar num sim ou não, nos que podem ou não podem, os bons e os maus. Não, todos estão no caminho, nem sequer há bons, todos estamos no caminho.”

“A Comunhão tem muitos graus de pertença, de participação, mas a questão é também perceber que a Comunhão sacramental não é um bónus para os bons, é um remédio para os pecadores, um alimento para os pecadores.”

(Pe. Vasco Pinto Magalhães SJ, página 35)

Pois sr. Pe. Magalhães, mas foi precisamente Cristo que nos exortou a dizer claramente “sim, sim” e “não, não”, advertindo que “tudo o que for além disto procede do espírito do mal” (Mt 5, 37). Aliás sr. Padre, essa advertência, no capítulo 5 do Evangelho segundo São Mateus, surge apenas cinco versículos depois do esclarecimento taxativo de Jesus Cristo acerca do problema – que afinal é bem antigo – “dos divorciados recasados” (Mt 5, 32). E já agora, sr. Padre, talvez seja melhor voltar ler a carta dos 4 cardeais, desta vez com mais atenção, porque, se não estamos em erro, em nenhum ponto se sugere que os fiéis sejam distinguidos entre “os bons e os maus”. Nessa carta, apenas se pede, em tom de humildade, uma simples clarificação para evitar as evidentes interpretações abusivas que se multiplicam por todo o lado e que estão em absoluta contradição com o infalível magistério da Igreja. Interpretações que, de forma não assumida, contestam, por exemplo, aquilo que São João Paulo II pregou há poucos anos em Portugal… Como esse ensinamento não foi revogado, então Nossa Senhora nos dê boa memória.

Nossa Senhora da Boa Memória
Nossa Senhora da Boa Memória – Sé de Braga

Sobre o facto de a “Comunhão Sacramental” ser “um alimento para os pecadores”, falta acrescentar uma pequena palavra à sua frase: “arrependidos”. Faz toda a diferença!

Outra citação interessante é esta:

Sem dúvida, assim o têm pensado Conferências Episcopais, grupos de Bispos e dioceses que têm refletido e aceite as suas propostas e diretrizes, convertendo-as em linhas renovadoras da Pastoral Familiar.

Também entre nós, um grupo de Bispos decidiu aprofundar os ensinamentos da Exortação e propor caminhos para a concretização das suas orientações. O grupo dos Bispos das dioceses do Centro do País que, desde há muitos anos, se reúne mensalmente, estudou este Documento. Perante as dificuldades atuais com as quais as Famílias se debatem, tem encontrado e proposto caminhos que, concretizados em cada uma das Igrejas Particulares vão, certamente, dar frutos.

(“A Família da Amoris Laetitia“, página 38)

Esta notícia não é bem uma novidade, pois não? A vontade dos bispos da Região Centro – que Deus tenha misericórdia para com eles – parece que já existia bem antes da conclusão do chamado Sínodo da Família. Deve ser portanto anterior à publicação da controversa exortação apostólica que, de forma perversa e subtil, tem minado as bases da doutrina cristã, no que diz respeito ao matrimónio e à família. A única novidade aqui é a rigidez da cabeça da serpente, que talvez não tenha sido ainda completamente esmagada pela Conferência Episcopal Portuguesa.

Depois vem a opinião do sr. Pe. Miguel Almeida, outro jesuíta:

Compete à Igreja acompanhar, discernir e integrar estas situações incompletas para que se caminhe para a completude.

(Pe. Miguel Almeida SJ, Página 43)

Com o devido respeito sr. Padre, essa a filosofia contribui, acima de tudo, para a “completude” da ditadura relativista, atacando incisivamente o último reduto da razão humana que é a moral cristã e posicionando consequentemente a humanidade no caminho da “completude” do mistério da iniquidade, que “já está em ação” (2Ts 2, 7) há bastante tempo. Ao nível individual, a prática do sacrilégio proposto e incentivado pelo Papa Francisco conduz as almas à “completude” da perdição, que é a condenação eterna.

Outro excerto:

Reconhecemos que este caminho de conversão proposto pela Amoris Laetitia levará o seu tempo, pois estão causa pessoas com rotinas, hábitos, porventura desatualizadas e sobrecarregadas, mas importa não esquecer a linha de rumo da Exortação Apostólica, que passa, em primeiro lugar por uma nova leitura a fazer por muitos membros do clero, ocupados com tarefas secundárias relativamente à sua missão fundamental, delegando, de modo a libertarem tempo para acolher, perceber, integrar, fazer direção espiritual, preparar as homilias, colocar no centro o Senhor Ressuscitado, humanizar o serviço paroquial.

(Manuel Marques, Departamento Nacional da Pastoral Familiar, Página 46)

Observe-se como, de repente, a necessidade de “conversão” – e isto tem sido uma constante no pontificado de Francisco – deixou de ser um propósito para quem caiu em pecado, para se transformar num objetivo estratégico a atingir nos pastores da Igreja. Os pastores são quem terá agora de converter-se, mais precisamente à doutrina do Papa Francisco, para poderem aceitar misericordiosamente a permanência no pecado, ainda que este seja grave. O pecado que, também agora, deixou de ser considerado pecado para passar a ser apenas uma mera “situação irregular”, a qual acabará necessariamente por regularizar-se no final deste processo de “discernimento”, após a conversão dos pastores. Isto até daria para rir se não fosse tão trágico…

Não será isto uma inversão diabólica de toda a lógica da conversão? Não é isto algo profundamente iníquo e uma completa adulteração da essência do sacramento da reconciliação? De onde virá esta nova misericórdia, de Deus ou de Satanás?

Logo a seguir, no mesmo artigo da revista da Igreja Portuguesa, surge aquilo que parece ser alguns piedosos insultos, também eles característicos da nova pastoral, tais como: “pessoas (…) porventura desatualizadas” ou “membros do clero, ocupados com tarefas secundárias“… Mas a quem se referem eles afinal? Aos bispos e sacerdotes que ainda acreditam na Verdade Cristã a respeito do matrimónio e da família? Ao ainda vivo Santo Padre Bento XVI que nunca aceitou esta heresia? Ao Patriarca de Lisboa?

D. Manuel Clemente é um daqueles que, graças a Deus, tem repetidamente interpretado a exortação apostólica à luz do tradicional magistério da Igreja.

Se os piedosos insultos forem destinados também a ele, a situação torna-se paradoxal, uma vez que é ele quem preside à conferência dos bispos portugueses, a proprietária do semanário em análise…

insultar
Papa Francisco a 12/02/2017, vídeo RR V+

Vejamos apenas mais uma citação, esta referente ao período Pós-Alegria do Amor:

Também neste tempo foi evidente uma forte reação de alguns setores da Igreja que têm invadido os meios de comunicação social e a Internet com acusações ao Papa, desmentindo qualquer novidade desta exortação apostólica relativamente à «Familiaris Consortio» de São João Paulo II, publicada em 1981.

Argumentam que este Papa não pode desmentir ou contradizer o ensinamento de São João Paulo II – de que só os divorciados recasados que vivam continência sexual podem receber o sacramento da Eucaristia –  e questionam ou ignoram o percurso de discernimento sugerido pelo Papa, quando tal proposta resultou do relatório final do Sínodo Ordinário dos Bispos aprovado pelos padres sinodais por larga maioria em 24 de outubro de 2015, que nos seus pontos 84 a 86 o incentiva.

Esperemos que nos anos vindouros se avance mais nestes assuntos e que as conferências episcopais de mais países, inclusive a portuguesa, (até agora só da Argentina, Malta e Alemanha) publiquem orientações de como praticar a «Amoris Laetitia».

(«Amoris Laetitia», um ano depois!, Página 55)

Como podemos reparar no excerto acima transcrito, um órgão de comunicação social sob a tutela da Igreja Portuguesa acabou de publicar um texto onde não só se admite que é possível “desmentir ou contradizer o ensinamento de São João Paulo II” sobre o matrimónio, como até se assume que isso já aconteceu graças à exortação apostólica de Francisco. Estas afirmações são muito graves, como é grave tudo aquilo que tem vindo a acontecer na Igreja desde 2013 para cá, mas os portugueses continuam a assobiar para o lado como se isto não lhes dissesse respeito. Quem irá defender a Fé herdada dos nossos egrégios avós?

Nossa Senhora de Fátima salvai-nos e salvai Portugal das funestas intenções deste Papa!

Basto 4/2017

10 thoughts on “Para quando será possível praticar “Amoris Laetitia” em Portugal

  1. Graças a Deus pelas “pessoas (…) porventura desatualizadas” que não foram influenciadas pelas heresias reinantes e pelos “membros do clero, ocupados com tarefas secundárias“ tais como a defesa da Verdade.

  2. É a inversão total da santidade. É a apresentação de Deus apenas para nos servir.

    É preocupante quando vemos que a frase que vem no ponto 47 da EVANGELII GAUDIUM: «A Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos.» tem como nota de rodapé uma explicação alterada de Santo Ambrósio e São Cirilo de Alexandria que dá um sentido diferente aos textos originais. Como se pode ver aqui:
    http://rorate-caeli.blogspot.com/2017/03/francis-falsified-footnotes-he-mangles.html

    É também preocupante como ainda há pouco tempo se declarou Santo João Paulo II para passado pouco tempo já se estar a contradizer o que ensinou.

    Com este acesso à comunhão relativiza-se logo 3 sacramentos: penitencia, matrimónio e eucaristia.

    Temos ainda a questão de como ficam os cânones do Concílio de Trento relativos à eucaristia:
    880. Se não convém que alguém se aproxime de algumas funções sagradas a não ser santamente, por certo, quanto maior for o conhecimento de um homem cristão a respeito da santidade e divindade deste celestial sacramento, com tanto maior cuidado se deve acautelar a fim de que não se aproxime, sem grande reverência e santidade, para recebê-lo [cân. 11]; ainda mais quando lemos aquelas palavras do Apóstolo, cheias de temor: Aquele que come e bebe indignamente, come e bebe o seu juízo, não distinguindo o corpo do Senhor (l Cor 11, 29). Assim, quem quiser comungar, deve lembrar-se do preceito: Prove-se o homem a si mesmo (1 Cor 11,28). O costume da Igreja manifesta que esta prova é necessária, para que ninguém, ciente de [estar em] pecado mortal, ainda que lhe pareça estar contrito, se aproxime da Sagrada Eucaristia sem preceder a confissão sacramental. Assim o manda este santo Concílio a todos os cristãos e àqueles sacerdotes, aos quais por ofício incumbe celebrar, contanto que não lhes faltem confessores (copia confessoris). E que, se por necessidade urgente um sacerdote tiver celebrado sem a prévia confissão, confesse-se o mais cedo possível.

    Cân. 11. Se alguém disser que só a fé é suficiente preparação para se receber o santíssimo sacramento da Eucaristia — seja excomungado. E para que não se receba indignamente tão grande sacramento e cause a morte e a condenação, determina e declara o mesmo santo Concilio que aqueles que se sentem com consciência oprimida pelo pecado mortal, ainda que se julguem sumamente contritos, se puderem encontrar confessor, estão necessariamente obrigados a fazer primeiro a confissão. E se alguém presumir ensinar, pregar ou afirmar com pertinácia o contrário, ou também o defender publicamente em discussões — seja imediatamente, por este fato, excomungado [cfr. n” 880].

  3. Patriarca de Lisboa em entrevista à Rádio Renascença (10/04/2017):

    RR: A questão dos divorciados recasados gera confusão, depois dos dois últimos sínodos. Como é que se desfaz esta ambiguidade?

    D. MANUEL CLEMENTE: Creio que se desfaz esta ambiguidade se as pessoas realmente receberem a “Amoris Laetitia” [exortação apostólica sobre a família, divulgada em 2016, depois do sínodo dos bispos dedicado ao tema]. A “Amoris Laetitia” tem vários capítulos, tendo um eixo fundamental: a proposta familiar cristã, do princípio ao fim. Em cada capítulo, o Papa aborda a família, ou seja, o matrimónio como Jesus Cristo o propõe – insolúvel e fecundo. O Papa até tem o cuidado de dizer: é isto que eu quero.

    RR: Mas depois há o famoso capítulo VIII.

    D. MANUEL CLEMENTE: O Papa olha para a realidade como nós a olhamos: famílias que começaram tão bem e depois as coisas não continuaram assim, havendo ruturas e novas ligações ao sacramento. No capítulo VIII, o Papa insiste muito no discernimento das situações, algo que já vem de João Paulo II. O Papa aconselha a acompanhar as pessoas porque são pessoas batizadas, membros da Igreja, nunca deixaram de ser. Há é uma questão de não coincidência sacramental, dado que o sacramento é viver sempre em Cristo. O Papa diz: vamos acompanhar essas pessoas, são membros da Igreja, porque elas próprias vão também progredindo na compreensão das suas vidas, o que foram e são agora. É, então, que diz, numa nota de rodapé, que, durante este acompanhamento de casos particulares, pode haver uma outra participação nos sacramentos. Mas, como estamos a ver, é um longo percurso…

    RR: Algum destes casos particulares já aconteceu na sua diocese?

    D. MANUEL CLEMENTE: Que eu tenha acompanhado, não. Aliás, devo dizer que na maioria dos casos que aparecem nesta casa, na Cúria Patriarcal de Lisboa, para serem acompanhados, em muitos casos não houve [validade do matrimónio]. As pessoas casaram, mas ou não tinham disposições ou não sabiam em consciência o que estavam a fazer ou havia impossibilidades físicas ou psicológicas para não ter existido o sacramento.

    Agora, o Papa admite que haja alguns casos em que, mesmo não se podendo declarar a nulidade daquele matrimónio, com o andamento da vida, com a impossibilidade de regressar atrás, com a inocência das pessoas sem subjetividade de culpa, embora objetivamente a situação não seja regular, que se possa admitir os sacramentos. Mas, como estamos a ver, é um longo caminho que não é coisa para se resolver sem mais porque, no fundo, o que se quer é a coerência sacramental, vida em Cristo, que tem que ser uma só, e cada ato tem que coincidir com os outros.

    http://rr.sapo.pt/noticia/80829/patriarca_nem_sempre_o_que_a_igreja_tem_para_propor_e_aquilo_que_a_sociedade_quer_saber_no_momento

  4. Parece mesmo estar-se a tentar conciliar situações inconciliáveis.

    O catecismo indica:
    1650. ….Se os divorciados se casam civilmente, ficam numa situação objectivamente contrária à lei de Deus. Por isso, não podem aproximar-se da comunhão eucarística, enquanto persistir tal situação. Pelo mesmo motivo, ficam impedidos de exercer certas responsabilidades eclesiais. A reconciliação, por meio do sacramento da Penitência, só pode ser dada àqueles que se arrependerem de ter violado o sinal da Aliança e da fidelidade a Cristo e se comprometerem a viver em continência completa.

    É, portanto, erróneo julgar a moralidade dos actos humanos tendo em conta apenas a intenção que os inspira, ou as circunstâncias (meio, pressão social, constrangimento ou necessidade de agir, etc.) que os enquadram. Há actos que, por si e em si mesmos, independentemente das circunstâncias e das intenções, são sempre gravemente ilícitos em razão do seu objecto; por exemplo, a blasfémia e o jurar falso, o homicídio e o adultério. Não é permitido fazer o mal para que dele resulte um bem.

    Considerando que no sacramento da penitência se dê a absolvição do pecado sem o propósito de emenda e se considera isso como certo. Não havendo alteração de comportamentos no dia a dia o casal irá ter momentos em que volta a pecar, cometendo adultério. Nesse caso:
    – A primeira absolvição faz com que esses actos já não sejam pecado?
    – É necessário voltar a fazer o sacramento da penitência?

    Se é necessário voltar a fazer o sacramento de penitência não difere muito do que já existe. Se se tiver o propósito de emenda e se tentar viver em continência completa é possível a absolvição. Se em algum momento se voltar a cair em pecado não conseguindo a continência completa pode-se voltar ao sacramento da penitência para retomar o caminho. É esta a misericórdia actual.

    Pergunto, com o novo remédio o que altera é a necessidade de propósito de emenda e viver em continência completa? Sendo assim, este remédio o que alcança? A salvação da alma ou a felicidade na terra?

    • Precisamente Francisco!

      Admitindo que esta nova “pastoral” pudesse estar certa, seria afirmar que toda a “praxis” da Igreja esteve errada até então, uma vez que estamos perante duas práticas pastorais em absoluta contradição. Uma coisa não pode ser e não simultaneamente, é um princípio básico da filosofia. Que posição teriam, neste novo paradigma doutrinal ou pastoral, todas aquelas pessoas que, numa fase da sua vida, receberam a graça da reconciliação com Deus e conseguiram corrigir-se do adultério? Terão descoberto o caminho da santidade ou terão sido os maiores idiotas da história da Igreja? Pessoalmente acredito que encontraram o caminho da santidade.

      Esta nova doutrina não tem o mínimo de consistência doutrinal, portanto só pode ser falsa… Utilizar os argumentos de João Paulo II na “Familiaris Consortio” de 1981 para justificar o seu contrário é pura aldrabice teológica.

      • No meu comentário não coloquei bem a indicação que no parágrafo “É, portanto….resulte um bem.” é do ponto 1756 do catecismo. O resto do texto é o meu comentário.

        Pois, voltamos outra vez ao mesmo ponto que temos visto nos últimos 50 anos: diminuição da santidade. Na nova proposta o importante parece ser o aqui e agora, não nos vem referido o que acontece à alma. Como em qualquer remédio, qual é o seu efeito e que efeitos secundários poderá ter?

        E a questão da reconciliação com Deus sem uma real alteração do comportamento?

        Na forma actual o que se podia realçar mais seria fazer como vem no Evangelho: “quantas vezes se deve perdoar? 70 vezes 7.”. Ou seja, tendo propósito de emenda e vivendo em continência perdoar sempre que se cai e pretende retomar o caminho. A meta é sempre a santidade e a plena comunhão com Deus. Aí está a verdadeira caridade.

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