Cristo “que se fez diabo”?

Duccio di Buoninsegna, cerca de 1308-11
Duccio di Buoninsegna, cerca de 1308-11

No dia 4 de abril, na capela da Casa de Santa Marta, o Santo Padre fez outra daquelas homilias que causam arrepios na espinha. Recorreu mais uma vez à figura da serpente para explicar o seu entender a respeito do verdadeiro significado da cruz, símbolo dos cristãos. Mas desta vez foi longe demais ao sugerir que, por nós, “Cristo tornou-se diabo” na cruz.

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Papa Francisco, Meditação Matutina na Capela da Domus Sactae Marthae, “No Sinal da Cruz” – Santa Sé, 4 de abril de 2017

 

A cruz então, afirmou, «para algumas pessoas é um distintivo de pertença: “Sim, eu trago a cruz para mostrar que eu sou um cristão”». E «está bem» mas «não só como distintivo como se fosse uma equipa, o emblema de uma equipa»; mas, disse Francisco, «como a memória dele [Jesus] que se fez pecado, que se fez diabo, serpente, por nós; ele humilhou-se até ao ponto de aniquilar-se totalmente».

(in News.va, 04/04/2017 – tradução)

Terá sido esta a doutrina que inspirou Antonio Vedele?

O exotismo doutrinal desta afirmação até mereceu destaque de primeira página na imprensa italiana.

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Capa do jornal Libero Quotidiano de 06/04/2017

 

Basto 4/2017

8 thoughts on “Cristo “que se fez diabo”?

  1. O ponto a que chegámos é, realmente, catastrófico. O católico em geral, para quem o Papa é uma figura tão importante, não está preparado para ouvi-lo com desconfiança; ao contrário, sempre o ouve com caridade. No entanto, esta expressão foi longe de mais.
    Nós, os fiéis, não somos, nem temos de ser teólogos e, por isso, não nos cabe argumentar necessariamente nesse domínio. Mas somos dotados de “sensus fidei”, o sentido da fé. O “sensus fidei” é uma extensão da virtude sobrenatural que é e Fé. Dotados, pois, deste sentido, reconhecemos elementos que nos soam mal, quando não estão em harmonia com a expressão da fé. E nestes casos, é mesmo a nobre doutrina da Igreja que o prevê, temos a obrigação de corrigir caritativamente o erro, mesmo que se trate de um sacerdote, um bispo ou um papa.
    Creio que a nenhum ouvido católico soará bem a expressão aplicada pelo Papa a Jesus: “aquele que se fez pecado, que se fez diabo, que se fez serpente por nós”! O contexto deste excerto é o de que vendo um crucifixo, fazendo o sinal da cruz ou usando-o ao pescoço devemos “em memória daquele que se fez pecado, se fez diabo, se fez serpente por nós”. É horrível… Em que medida é que Jesus se fez diabo ou pecado ou serpente? O papa, chamado a atenção, deveria rectificar-se e, humildemente, pedir desculpa aos crentes por criar horrendos equívocos, explicando o que quis dizer.

    Sobre “sensus fidei”, numa época em que nós estamos tão desprotegidos pela hierarquia e temos de nos abrigar, podemos ou devemos mesmo, ler o que diz a doutrina:
    http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/cti_documents/rc_cti_20140610_sensus-fidei_po.html#1._O_sensus_fidei_como_instinto_da_f%C3%A9
    (particularmente, a título de exemplo, no §63 diz-se: “Advertido pelo seu sensus fidei, cada fiel pode chegar a refutar o seu assentimento a um ensinamento dos seus legítimos pastores se ele não reconhece neste ensinamento a voz de Cristo, o Bom Pastor.”)

    Pedro

    • A situação que estamos a viver é verdadeiramente apocalítica. O mais catastrófico de toda esta situação não é o que este Papa diz ou faz, mas o facto de tudo isso agradar à generalidade das pessoas, cristãos incluídos. Deste modo, ele só pode sentir-se motivado a continuar no mesmo caminho.

      Concretamente em relação a esta homilia, não é a primeira vez que Francisco se refere ao episódio bíblico protagonizado por Moisés, o que é normal.

      O que perturba é mais o estilo literário das suas homilias e intervenções, cheias de ambiguidades que mais parecem segundos sentidos. E depois, de vez em quando, lá sai uma destas, o Cristo que “se fez diabo”. Que horror…

  2. Por acaso teria o texto em português? A expressão significa que Cristo foi odiado por nós: “Odiaram-me sem motivo!” Os Fariseus demonizaram Jesus. Muitas vezes O chamavam de possesso. Jesus sofreu isso por nós.
    A expressão também pode significar que a salvação é Obra exclusiva de Cristo Crucificado. São Paulo disse: “nós pregamos a Cristo crucificado!”
    Na Cruz temos a Revelação do Amor de Deus por nós. É o Amor gratuito de Deus por nós que salva.

    • Gerson, eu não falo italiano. Quando procuro as fontes originais para testar a veracidade de alguns escândalos, utilizo as ferramentas virtuais de tradução e confronto os resultados com as traduções entretanto publicadas em inglês e em espanhol.

      Na página “news.va” aparece um texto em português acerca dessa homilia, porém, essa parte foi cuidadosamente omitida, ao contrário do que acontece na versão italiana da mesma página.

      De qualquer modo, essa parte é muito fácil de traduzir, “diavolo” é diabo, não há volta a dar em relação a isso.

  3. Com relação à frase destacada, entendo que o Papa Francisco falou alegoricamente.
    Em sua homilia, quando coloca a frase “que se fez pecado” alude ao fato de que Jesus assumiu em si todos os pecados da humanidade. Ao referir-se “que se fez diabo, serpente por nós” lembra que Jesus tomou para si todas as seduções do Adversário que levou o homem à perdição. Se o homem peca, ali o diabo faz moradia.
    Jesus, em se fazendo pecado e diabo, pela cruz, destruiu o pecado e a morte e fez nascer a vida e a imortalidade.
    Ensina o Magistério da Igreja: Pelo diabo, o pecado e a morte entraram no mundo. O homem foi constituído por Deus em estado de santidade e estava destinado a ser plenamente divinizado por Deus na glória. Pela sedução do diabo, o homem quis ser como Deus, mas sem Deus, e antepondo-se a Deus, e não segundo Deus (CIC 398). Por consequência da desobediência, Adão e Eva perdem de imediato perdem a graça da santidade original (CIC 399). Por conseguinte, pelo pecado cometido “a morte entra na história da humanidade”. (CIC 400).
    Alicerçado por esses ensinamentos do Magistério, poderíamos enxergar desta maneira a colocação do Papa com referência as frases pecado e diabo.
    Quanto à inserção da palavra “serpente por nós, há todo um contexto da palavra serpente utilizada na Bíblia. Procurei fundamentar as palavras do Papa, com base no relato do Frei Mauro Strabeli, em seu livro Bíblia: perguntas que o povo faz, Editora Paulinas, sobre a serpente de bronze levantada por Moisés em uma haste, a mando de Deus, para que todo que a contemplasse, após a picada da serpente, viveria (Nm 21, 4-9):
    “Há toda uma narração histórica atrás desse fato que explica o sentido do gesto de Moisés. E no centro dessa história está serpente.
    A serpente era considerada divindade que dava a vida. Tal ideia era difundida na antiguidade entre os sumérios, mesopotâmicos, judeus e mesmo entre os romanos.
    Por ser considerada símbolo da vida ou de morte, a serpente aparece muito na literatura sagrada de todos os povos antigos.
    Na Bíblia era aparece várias vezes e quase sempre ligada a esse binômio: vida-morte.
    O temor que o homem tem da serpente levou-o a adorá-la, transformando o medo em submissão na tentativa de escapar do perigo que ela representava.
    A serpente era considerada como divindade na Grécia, no Egito, na Babilônia e em Canaã. Uma divindade ligada à vida.
    É nesse contexto que devemos inserir o relato de Nm 21, 4-9.
    Entre os sumérios era conhecida a figura da serpente enrolada numa varinha como sinal da vida e até hoje é a insígnia da classe médico-farmacêutica.
    O redator do texto faz um relato para explicar tudo isso, usando o conhecido símbolo da serpente. Diz ele que a vida foi conservada, não pela deusa-serpente, mas por Javé que é o Deus da vida e a pedido de Moisés. Foi Javé quem conservou a vida de todos os que lha pediam e não a serpente. A picada dessas cobra fora castigo para os revoltados, diz o autor.
    Com esse relato, o redator sacerdotal do livro dos Números explica a causa, o porquê da tradição sobre as mortes no deserto causada pelas cobras: também demitifica a divindade pagã, pondo a origem e manutenção da vida do homem em Javé, que é o Deus da vida.
    A narrativa bíblica é, sem dúvida, figurada, simbólica, traduzindo, porém, uma realidade. Assim também o entendeu Jesus: Como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim o Filho do homem deve ser erguido, para que todo o que crer nele tenha a vida eterna (Jo 3, 14-15).”
    Para encerrar, lembremos as palavras do Papa na homilia: “A única salvação está em Cristo crucificado, porque somente Ele, como a serpente de bronze, foi capaz de tomar para si todo o veneno do pecado e nos curar”.

    Dagoberto

    Mais informações sobre a homilia do Papa:
    http://www.acidigital.com/noticias/papa-francisco-quem-nao-olha-para-a-cruz-e-a-aceita-nao-pode-ser-salvo-52724/

    • Temos de admitir contudo que esta é uma alegoria radicalmente inovadora e chocantemente perturbadora, embora eu compreenda o seu ponto de vista, Dagoberto. Mesmo alguém com o seu conhecimento teológico terá sérias dificuldades em citar uma frase registada nos 2000 anos da nossa Igreja onde se diga que Jesus “se fez diabo” na cruz. Isto porque foi precisamente na cruz que Cristo provou a sua inigualável santidade.
      Depois temos ter em conta o contexto histórico (ou a idade da Igreja) em que esta frase é proferida. Estamos numa fase da Igreja em que temos dois Papas vivos, com duas doutrinas opostas. Por exemplo, no caso do matrimónio, o Papa Francisco aprova as relações adúlteras e promove constantemente o acesso à Sagrada Comunhão pelas pessoas que vivem em adultério. No entanto, a grande maioria da Igreja vê nisso uma forma de defender a família e o matrimónio. Não serão os seus esforços na defesa da família e do matrimónio também meramente alegóricos? Não estou a afirmar, estou a questionar!
      Até o Papa Francisco corrigir os seus graves erros doutrinais (ou pastorais), eu sinto-me forçado a desconfiar das suas pregações e alegorias, apesar de todo o respeito institucional que mantenho por ele.

  4. A serpente de bronze não continha o veneno. Da mesma forma Deus assumiu a natureza humana mas sem o pecado.
    Nosso Senhor carregou os nossos pecados e os redimiu na Cruz, em nenhum momento Nosso Senhor esteve em pecado, os nossos pecados foram no peso da Cruz.

    O termo “se fez diabo” é demasiado forte e ambiguo. E já vem depois de outras explicações do Evangelho complicadas de compreender.

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