Cardeal Burke Repete: Rússia deve ser explicitamente consagrada ao Imaculado Coração

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Por Christopher A. Ferrara

Numa entrevista exclusiva ao The Wanderer, o Cardeal Raymond Burke apelou uma vez mais à consagração explícita da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, pelo nome, como Nossa Senhora de Fátima pediu quase há um século atrás (1929) depois de prometer à Irmã Lucia de Fátima, há exatamente um século (1917), que voltaria para fazer esse pedido quando “chegou o momento.”

No decorrer da entrevista, na qual o cardeal também discutiu a “batalha final” sobre o casamento e a família agora em curso no seio da Igreja (graças ao falso sínodo), bem como na sociedade civil, o cardeal deparou-se com a seguinte questão sobre a alegação de que a Irmã Lúcia confirmou que a cerimónia realizada por João Paulo II em 25 de Março de 1984, na qual qualquer menção à Rússia fora deliberadamente omitida, satisfez de algum modo o pedido de consagração dessa mesma nação não mencionada:

Questão: De acordo com documentos de Fátima… A Ir. Lúcia escreveu, em 29 de agosto de 1989, que a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria feita pelo Papa São João Paulo II em 25 de março de 1984 cumpriu o pedido de Nossa Senhora. No Fórum da Vida em Roma, há cerca de três meses atrás, você exortou os fiéis católicos a “trabalharem para a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria”. O que é que a consagração a que você apela implica; é mais do que o Papa simplesmente nomear a Rússia de forma explícita?

Primeiro que tudo, para a alegação de que a Lucia “escreveu” em 1989, que a cerimónia de 1984, que deliberadamente não mencionou a Rússia, era uma consagração da Rússia, o artigo “Cronologia de um encobrimento” de um encobrimento publicado pelo The Fatima Center, explica:

Em Setembro de 1985, numa entrevista à revista Sol de Fátima (publicada em Espanha pelo Exército Azul), a Irmã Lúcia confirmou que a consagração ainda não tinha sido feita porque a cerimónia de 1984 não mencionara a Rússia e os Bispos Católicos de todo o mundo não tinham participado. Ainda no mesmo ano, o Cardeal Édouard Gagnon reconheceu noutra entrevista que a consagração ainda não tinha sido feita conforme fora pedida. Mais tarde, protestou pelo facto de as suas observações terem sido publicadas, embora não desmentisse tê-las feito.

Durante muitos anos, uma prima da Irmã Lúcia, Maria do Fetal, referiu-se publicamente ao facto de a Irmã Lúcia dizer que a consagração não tinha sido feita. Maria do Fetal continuou a manter esta posição até meados de 1989, altura em que a alterou, de repente, de acordo com as “instruções” do Vaticano reveladas pelo Pe. Coelho.

Além disso, ninguém contesta que a Irmã Lúcia insistiu que a cerimónia conduzida por João Paulo II em 1982, que também acabou por não mencionar a Rússia nem envolver os bispos de todo o mundo, não cumprira o pedido de Nossa Senhora. Na verdade, nada menos que o L’Osservatore Romano publicou o seguinte testemunho do sacerdote amigo e confidente de Lúcia, Pe. Umberto Maria Pasquale, S.D.B., a 12 de maio de 1982, cerca de dois meses depois da cerimónia de 1982:

Eu queria esclarecer a questão da Consagração da Rússia, recorrendo à fonte. Em 5 de agosto de 1978, no Carmelo de Coimbra, tive uma longa entrevista com a vidente de Fátima, Irmã Lúcia. A determinado momento disse-lhe: “Irmã, gostaria de lhe fazer uma pergunta. Se você não puder responder-me, que assim seja! Mas se puder responder a isto, eu ficaria muito agradecido por me esclarecer um assunto que para muitas pessoas não parece claro… Alguma vez Nossa Senhora falou consigo sobre a consagração do mundo ao Seu Imaculado Coração?” -“Não, Padre Umberto! Nunca! Na Cova da Iria, em 1917, Nossa Senhora prometeu: virei pedir a consagração da Rússia… para evitar a propagação de seus erros pelo mundo, guerras entre várias nações e perseguições contra a Igreja... Em 1929, em Tuy, tal como tinha prometido, Nossa Senhora voltou para me dizer que tinha chegado o momento de pedir ao Santo Padre pela consagração desse país (Rússia)”…

Então, o que mudou entre o momento da primeira cerimónia fracassada em 1982 e a segunda em 1984? Nada, exceto a abrupta e duvidosa mudança de posição atribuída à Irmã Lúcia, que nunca, nem uma única vez, foi autorizada a falar diretamente ao público sobre o assunto.

De qualquer forma, em resposta à pergunta do The Wanderer sobre se a consagração implica “mais do que o Papa simplesmente nomear a Rússia de forma explícita“, o Cardeal Burke deu esta esclarecedora explicação:

É exatamente isso; é tão simples como isso, ou seja, cumprir explicitamente o pedido de Nossa Senhora exatamente como ela o solicitou. Não há dúvidas de que o Papa São João Paulo II estava bem ciente da gravidade da situação, da necessidade de consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Ele tencionou precisamente fazer isso em 25 de Março de 1984. Pela minha parte, eu acredito que ele tê-la-ia feito explicitamente, exceto que naquela ocasião alegou-se que, a fim de promover uma relação mais amigável com os países do Bloco do Leste, o nome da Rússia não deveria ser mencionado em particular.

Eu acredito que era intenção do Santo Padre – que ele fez, de facto – consagrar a Rússia. No entanto, também é minha convicção de que, dada a situação em que nos encontramos hoje, a consagração da Rússia deve ser feita explicitamente, exatamente como Nossa Senhora pediu (sem negar, de nenhum modo, a intenção de João Paulo II incluir a Rússia quando consagrou o mundo ao Seu Imaculado Coração). A minha intenção não é lançar acusações contra ninguém, mas antes responder ao tempo presente que é tão grave que impele a necessidade de realizar o que Nossa Senhora pediu exatamente conforme ela o pediu.

A repetição que eu peço desta consagração não é, de modo algum, para pôr em causa o que disse a Ir. Lúcia sobre o cumprimento de João Paulo II do que Nossa Senhora pediu. É simplesmente para responder mais uma vez a esse pedido e consagrar a Rússia de forma explícita. Ao mesmo tempo, é direito e dever dos fiéis pedir ao Papa Francisco para fazer essa consagração…

Com todo o respeito pelo cardeal, que confirma o que é óbvio – que a Consagração da Rússia precisa de mencionar a Rússia ao invés de não a mencionar deliberadamente – ele parece estar a tentar ter as duas coisas: que a intenção de João Pulo II de consagrar a Rússia bastou, concordando com a alegada observação da Irmã Lúcia (contrariada pelo seu próprio testemunho publicado), mas que a Rússia deverá, contudo, ser consagrada pelo nome. Isto é semelhante a declarar que a remoção de uma vesícula biliar é suficiente numa apendicectomia de emergência, porque a enfermeira disse que sim, mas, ainda assim, é melhor remover também o apêndice.

Pense-se na consagração da Rússia como o equivalente eclesial a uma apendicectomia de emergência, urgentemente necessária para prevenir e envenenamento fatal de todo o corpo da Igreja, que nenhum razoável observador do cenário eclesial pode negar que está sob ameaça neste exato momento. Que a Consagração vai finalmente ter lugar é certo, pois a Igreja é indestrutível e a vontade divina não pode ser frustrada, mas apenas (por vontade permissiva de Deus) impedida por um tempo pela perversidade humana. O que não é certo é quanta agonia a Igreja terá que sofrer antes que o remédio divino seja, finalmente, aplicado.

A edição original deste texto foi publicada pelo Fatima Center no dia 8 de agosto de 2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do texto acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original. A imagem foi adicionada na presente edição, não fazendo parte da publicação original.

A petição dirigida ao Santo Padre pela consagração da Rússia pode ser assinada aqui.

Basto 8/2017

5 thoughts on “Cardeal Burke Repete: Rússia deve ser explicitamente consagrada ao Imaculado Coração

  1. Olá, Basto, boa noite.

    Conhece o português Carlos Evaristo que foi tradutor de uma entrevista com a Irmã Lúcia?
    Eu vi o vídeo que você postou sobre uma reportagem jornalística com falas dela sobre a consagração e conversão da Rússia que realmente parece que foram censuradas. Porém, umas das testemunhas oculares daquele dia, Carlos Evaristo, confirma o que foi dito.
    E você já viu esse vídeo com a Maria dos Anjos? Ela também confirma que ouviu da vidente de Fátima que a conversão já havia sido feita.
    Acho tudo isso muito estranho. A realidade diz outra coisa, inclusive desertores russos que conheciam os bastidores da URSS também confirmam uma estratégia de fim da URSS para ganhar tempo e atacar o ocidente no melhor momento e sem falar que a paz que viria ao mundo após a conversão nunca chegou. Vou deixar o link do vídeo abaixo.

    • Boa noite, Samanta. Sim, Carlos Evaristo é uma personalidade que aparece com alguma frequência na televisão portuguesa, nos programas de entretenimento da manhã ou da tarde. Tornou-se bastante mediático por altura do centenário das aparições de Fátima, acabando até por fazer um trabalho meritório na recolha e divulgação de elementos históricos, culturais e etnográficos de algum modo ligados a Fátima e à religião em Portugal. Nas suas prestações televisivas, aparece mais como um contador de histórias do que propriamente como um investigador académico ou jornalístico, e muito menos como um especialista em religião…

      Tirando isso, não lhe reconheço a mínima legitimidade para ser o porta-voz da Irmã Lúcia, vidente de Fátima. Aliás, nesse vídeo que a Samanta refere, Evaristo aparece com uma tal falta de humildade, quase a roçar num narcisismo bacoco, que o torna bastante desinteressante.

      Talvez Evaristo saiba mais do que nós, uma vez que teve o raro privilégio de conversar com Lúcia. Talvez até tenha provas do que diz, mas se as tem que as apresente. Nos poucos segundos de vídeo conhecidos desse diálogo com a Irmã Lúcia, não é possível extrair a prova das declarações que ele atribui à vidente de Fátima, como eu tentei explicar no curto vídeo que a Samanta também menciona, portanto restam-nos apenas as palavras de Evaristo.

      Pessoalmente, entendo que cada um é livre de acreditar ou não nas palavras de Evaristo. E quando atribui declarações à Irmã Lúcia, elas são credíveis na medida em não entrem em contradição com a mesma Irmã Lúcia em anteriores documentos que oficialmente aprovados pelas autoridade eclesiásticas, ao contrário do que acontece com os duvidosos documentos produzidos por Carlos Evaristo (penso que não obteve qualquer aprovação eclesiástica dos mesmos).

      Relativamente à má qualidade sonora do vídeo, que o tornam praticamente impercetível e, deste modo, inútil, creio que não se trata de censura mas apenas de má qualidade das filmagens ou má conservação das fitas magnéticas. Seria bom que algum laboratório tentasse recuperar ou melhorar esse(s) vídeo(s) para poderem ter alguma validade na sustentação ou refutação da “tese Evaristo”, como eu prefiro chamar a essas alegadas declarações da Ir. Lúcia.

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