POSTERIORIS CCCLI: o paradoxo do latim na Igreja Católica

latim

 

O latim, língua oficial da Igreja Católica, é um símbolo da unidade universal da Igreja a partir de Roma, a cidade eterna, caput mundi, que quer dizer “capital da Terra” (e não apenas da Igreja). A Santa Sé escolhida por Deus. A sede do poder temporal e espiritual do Reino de Cristo neste mundo.

O latim é uma língua clássica e erudita, cuja utilização confere solenidade, grandeza e importância aos atos e documentos em que é empregada.

Embora bastante conhecido e sistematicamente estudado em todas as épocas, o latim deixou de ser aprendido de forma nativa como idioma materno, tendo desaparecido do uso vernacular quotidiano das pessoas. É por isso mesmo que é considerado uma língua morta, cuja evolução estacionou há várias centenas de anos atrás.

O latim, por não estar sujeito à evolução natural ou à variação geográfica dos termos e das expressões característica dos idiomas vivos, possui uma elevada precisão semântica. Esta particularidade filológica e linguística fez do latim, durante muitos séculos, um símbolo e uma custódia da integridade e da imutabilidade dos ensinamentos cristãos na Igreja Católica.

Os documentos magisteriais emanados da Santa Sé são redigidos em latim por forma a afirmar com exatidão e com solenidade os ensinamentos da Igreja em todos os lugares e preservar a sua clareza ao longo do tempo.

O magistério da Igreja é infalível quando afirma, de forma sincrónica e diacrónica, um determinado ensinamento de Fé ou de moral (costumes). Neste sentido, o latim é um instrumento ou um veículo que garante a clareza e a precisão dos ensinamentos da Igreja válidos para todos os lugares na mesma época e para todas as épocas.

A nova era do latim

Seguindo os procedimentos habituais da Igreja, a controversa exortação apostólica Amoris Laetitia do Papa Francisco foi já traduzida para latim e publicada nos “Atos da Sé Apostólica” (boletim oficial da Santa Sé). Este procedimento, porém, cria um paradoxo inusitado e perigosíssimo para todo o edifício moral cristão edificado ao longo de dois mil anos, principalmente porque mina um dos principais pilares do Templo de Deus, o do matrimónio e da família cristã.

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Acta Apostolicae Sedis in sítio oficial do Vaticano

O ambíguo e polémico capítulo VIII da Amoris Laetitia – na interpretação que o Papa Francisco pretende que lhe seja dadae, em particular, a sua nota de rodapé nº 351 contradizem diretamente o ensinamento moral do tradicional magistério da Igreja. Desta forma, a função do latim, neste caso, não será a de consolidar o infalível magistério da Igreja, mas, pelo contrário, relativizá-lo, abrindo uma brecha no edifício bimilenar, cujas consequências estão já à vista de todos e são de natureza apocalítica.

De facto, se um pecado tão grave quanto o adultério passa a poder, à revelia da doutrina, obter aprovação pastoral, em função da vontade ou da consciência do pecador, que outros pecados não poderão ser também agora, por analogia, relativizados e acolhidos pela nova misericórdia que prescinde do arrependimento?

Texto da nota de rodapé 351 em latim:

351. Quibusdam in casibus esse etiam potest subsidium Sacramentorum. Quapropter, «sacerdotibus memoramus confessionale esse non debere aulam tormenti, sed locum Dominicae misericordiae» (Adhort. Ap. Evangelii gaudium [24 Novembris 2013], 44:AAS 105 [2013], 1038). Dicimus pariter Eucharistiam «non esse praemium perfectorum, sed debilium munificum remedium et alimoniam» (ibid., 47: 1039).

(in Amoris Laetitia em latim, Acta Apostolicae Sedis, sítio oficial do Vaticano)

Tradução oficial para português:

[351] Em certos casos, poderia haver também a ajuda dos sacramentos. Por isso, «aos sacerdotes, lembro que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor» [Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novembro de 2013), 44: AAS 105 (2013), 1038]. E de igual modo assinalo que a Eucaristia «não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos» [ Ibid., 47: o. c., 1039].

(in Amoris Laetitia em português, sítio oficial do Vaticano)

As interpretações anti-doutrinais e, portanto, cismáticas desta nota de rodapé contradizem incisivamente todo o ensinamento da Igreja a respeito do matrimónio até ao pontificado de Francisco, em particular naquilo que fora reafirmado e clarificado nas exortações apostólicas Familiaris Consortio de São João Paulo II e Sacramentum Caritatis de Bento XVI, também elas registadas em latim, vários anos antes da Amoris Laeitia.

Na Igreja não há lugar a verdades subjetivas ou a relativismo moral. Das duas uma: as orientações pastorais de Francisco I alinham-se com os ensinamentos de São João Paulo II, de Bento de XVI e de toda a tradição católica ou, então, estão erradas e portanto não devem ser seguidas. Pelo contrário, devem ser corrigidas.

Nesta época que é de “desorientação diabólica” mas simultaneamente de misericórdia, Deus dá aos seus ministros e leigos, pelo menos por mais algum tempo, a liberdade de resistir à tentação fácil do “poderia” introduzido pela perigosíssima nota de rodapé nº 351 da exortação apostólica Amoris Laetitia. Talvez o verbo não tenha surgido no modo condicional por mero acaso do destino.

Basto 10/2017

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