João Batista abriu a boca para falar

João.Batista.Pierre Puvis de Chavannes.jpg
Pierre Puvis de Chavannes, 1869

 

Como os tempos atuais são de pura confusão, “confusão diabólica”, se quisermos recorrer aos termos utilizados pela Ir. Lúcia, ninguém ficará surpreendido quando ler as palavras do Arcebispo de Braga publicadas há pouco mais de quatro meses no sítio oficial da arquidiocese, depois de ler a exótica e surpreendente informação aí publicada durante a semana passada. Relembremos que D. Jorge Ortiga foi um dos bispos portugueses que, em 2015, perseveraram na Fé, resistindo às fortes pressões ideológicas do momento.

Excertos da homilia de D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas, por ocasião da celebração da Solenidade do Nascimento de São João Batista:

(A homilia é muito bela e poderosa, merecendo ser lida na sua totalidade e divulgada.)

Abri a boca para falar

[…]

Alguns impõem as suas ideologias e critérios de vida. Os cristãos assistem passivamente e deixam que a sociedade se desenvolva sem alma nem sentido.

João Baptista dá o exemplo. Herodíades pensava que seria capaz de calar para sempre aquele que expressava a voz da Verdade e da consciência humana. Quis silenciar João Baptista porque ele falou e não se calou. O seu martírio suscitou, naquele tempo, horror mas aumentou a fama de João, tornando-o conhecido dentro da comunidade cristã, bem como no mundo pagão. Flávio José, um escritor pagão, dizia que ele era um “homem bom que levava os judeus ao exercício das virtudes”.

Poderia contemporizar ou até deixar correr sem erguer a sua voz para proclamar a verdade e denunciar os erros daquela época. Nada o detinha! Só se apaixonava pela verdade.

Era este exemplo que gostaria de deixar, este ano, na festa de São João. Zacarias perdeu a voz mas recuperou-a para falar da verdade no templo. João não se intimidou e proclamou a doutrina, correndo risco de vida. Dois exemplos a alertar a Igreja de hoje para a necessidade de perder o medo de vir para a praça pública. A sociedade vai evoluindo em muitos aspectos positivos mas ninguém ignora como as ideias contra a nossa cultura e um verdadeiro humanismo se impõem e crescem. Há uma estratégia com objectivos bem delineados e sempre apoiados por grupos de pequenas dimensões que não desistem e vão impondo os seus critérios e modos de edificar a sociedade.

Respeito pessoalmente a liberdade e não condeno quem tem projectos e luta por eles. Só que me impressiona a passividade e a inércia da multidão que murmura em silêncio mas não ousa levantar a voz. É necessário soltar a língua dos católicos para que falem, escrevam e se sirvam dos meios de comunicação social. Com frequência pede-se aos bispos que intervenham. É o seu papel e não sei se, de facto, estamos a ser a voz crítica que as circunstâncias exigem. Só que a Igreja não é apenas os bispos. Há muitos cristãos que deveriam falar no âmbito restrito dos círculos de amigos mas também procurar as praças públicas da comunicação social que, talvez com um espírito temerário, não deixarão de dar espaço e oportunidade.

[…]

Gosto da figura de São João Baptista. Foi um percursor porque ensinou e baptizou. Mas a grandiosidade da sua vida residiu em não ter medo de se confrontar com os comportamentos imorais e de erguer a voz contra eles. Custou-lhe caro. Mas a sua vida passou para além dele mesmo. Poderia ter sido um profeta como tantos outros que existiam na época. A coragem de falar e de mostrar a verdade das suas convicções ultrapassou-o e é por isso que estamos aqui hoje, não só para o recordar mas também para o imitar. Levemos para a vida esta coragem de falar em nome da Igreja a que pertencemos e mostremos a verdade, ainda que não seja fácil. Descubramos caminhos novos para estar na sociedade, talvez na vida política, mas ousemos ser o que a fé nos exige: testemunhas com o silêncio da vida e apóstolos que se fazem ouvir, a propósito e a despropósito, em todas as ocasiões e momentos.

(D. Jorge Ortiga, Homilia na Solenidade do Nascimento de São João Batista, 24/06/2017 – o sublinhado é nosso)

Dito isto, cabe-nos perguntar:

  • Quando João Batista ergueu a sua voz para “proclamar a verdade” e a “doutrina”, referia-se mais precisamente a quê?
  • Quando João Batista ergueu a sua voz para “denunciar os erros daquela época”, condenava exatamente o quê?
  • Em que é que os erros da nossa época diferem dos da época de João Batista?
  • Se naquela altura “João não se intimidou e proclamou a doutrina”, o que faz temer hoje os pastores da Igreja? Porque não “abrem a boca para falar”?

 

Basto 11/2017

10 thoughts on “João Batista abriu a boca para falar

  1. Basto 13 de Novembro de 2017 / 23:16

    Agradecemos, mais uma vez, ao Francisco por nos ter dado a conhecer este belo texto de D. Jorge Ortiga.

    • francisco 14 de Novembro de 2017 / 14:08

      Ad maiorem Dei gloriam.

      É realmente um belo texto, infelizmente pela prática parece apenas referir-se à ordem temporal. Não esperava que fosse por aqui que começasse em Portugal a aplicação da nova misericórdia.

      Como Deus escreve direito por linhas tortas, aqui fica do Evangelii Nuntiandi do Papa Paulo VI:
      “Sem confusão nem ambiguidade
      32. Não devemos esconder, entretanto, que numerosos cristãos, generosos e sensíveis perante os problemas dramáticos que se apresentam quanto a este ponto da libertação, ao quererem atuar o empenho da Igreja no esforço de libertação, têm freqüentemente a tentação de reduzir a sua missão às dimensões de um projeto simplesmente temporal; os seus objetivos a uma visão antropocêntrica; a salvação, de que ela é mensageira e sacramento, a um bem-estar material; a sua atividade, a iniciativas de ordem política ou social esquecendo todas as preocupações espirituais e religiosas. No entanto, se fosse assim, a Igreja perderia o seu significado próprio.”

      • Basto 14 de Novembro de 2017 / 15:40

        Esperemos que não seja só literatura. Hoje vivemos num novo paradigma católico em que se acredita que é possível conduzir uma nova pastoral, oposta à doutrina, sem modificar a doutrina. Como se isso, em si, não fosse já uma nova doutrina.

  2. Basto 14 de Novembro de 2017 / 9:58


    D. Jorge Ortiga confirma a abertura dos sacramentos aos divorciados:
    “O Arcebispo de Braga considera que «um período de dois anos» pode ser um bom tempo de discernimento para as famílias em situação irregular, e reafirma que apenas pretende seguir «as indicações do Papa Francisco na Amoris laetitia, nomeadamente no capítulo VIII».”
    https://familiacrista.paulus.pt/arquidiocese-de-braga-abre-a-porta-dos-sacramentos-aos-recasados
    A questão que agora se levanta é porquê esperar dois anos? Será que 24 meses de “discernimento” podem validar uma relação adúltera? Se isto não tivesse a ver com a Verdade Cristã mas apenas com a misericórdia, nesse caso, dois ou três meses de “discernimento” seria ainda mais misericordioso.
    O documento com as orientações da arquidiocese para os divorciados recasados chamar-se-á ironicamente “Construir a Casa sobre a Rocha”.

    • francisco 14 de Novembro de 2017 / 14:43

      Mudaram a Rocha, na prática já não é bem a mesma. A Santa Missa passa mais a convívio e reunião da comunidade e por isso acaba por se considerar como estando colocado de fora da comunidade por não poder comungar, quando na verdade é o pecado o que nos coloca longe de Deus.

      Continuando com bons textos temos também do Papa Paulo VI, audiência geral 20 de Maio de 1970:
      “A hora da coragem
      …a hora que soa no quadrante da história exige, efectivamente, de todos os filhos da Igreja, uma grande coragem e, de modo muito especial, a coragem da verdade, que o Senhor em pessoa recomendou aos seus discípulos, quando lhes disse: « Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não; … » (Mt 5, 37).

      Este dever, o de professar corajosamente a verdade, é tão importante, que o próprio Senhor o definiu como a finalidade da sua vinda a este mundo.

      Hoje, mais do que nunca, esta verdade da fé apresenta-se como a base fundamental sobre a qual devemos construir a nossa vida. É a pedra angular.

      E que verificamos a este respeito? Verificamos um fenómeno de timidez e de medo; mais ainda, um fenómeno de incerteza, de ambiguidade e de cedimento.

      A verdade cristã, portanto, sofre actualmente perturbações e crises pavorosas. Intolerante, em relação ao ensinamento do magistério instituído por Cristo, como tutela e lógico desenvolvimento da sua doutrina, que é a de Deus (cfr. Jo 7, 12; Lc 10, 16; Mc 16, 16), há quem procure uma fé cómoda, esvaziando a fé íntegra e verdadeira daquelas verdades que não parecem aceitáveis à mentalidade moderna, e escolhendo, por iniciativa própria, algumas verdades que são consideradas admissíveis. há também quem procure uma nova fé, principalmente no que diz respeito à Igreja, tentando adaptá-la às ideias da sociologia moderna e da história profana (e assim repete o erro de outros tempos, modelando a estrutura canónica da Igreja, segundo as instituições históricas vigentes); há ainda quem deseje confiar numa fé puramente naturalista e filantrópica, numa fé utilitarista, ainda que baseada nos autênticos valores da mesma fé — os da caridade —, tornando-a culto do homem e transcurando o seu primeiro valor, o amor e o culto de Deus; há, por fim, quem, com uma certa desconfiança das exigências dogmáticas da fé e com o pretexto do pluralismo, que permite estudar as inexauríveis riquezas das verdades divinas e exprimi-las com diversidade de linguagem e de mentalidade, queira legitimar as expressões ambíguas e incertas da fé e limitar-se a procurá-la para não ter que a afirmar e pedir a opinião dos fiéis, perguntando-lhes em que realidades querem crer e atribuindo-lhes um indiscutível carisma de competência e de experiência, que expõe a verdade da fé ao perigo das mais estranhas e volúveis arbitrariedades.

      Devemos ter, como dissemos, a coragem da verdade.
      …Não é um desporto agradável, mas uma profissão da fidelidade que devemos a Cristo e à sua Igreja e, hoje, é um grande serviço prestado ao mundo moderno que, talvez mais do que supomos, espera de cada um de nós este testemunho benéfico e confortador.

      Vale a pena ler tudo aqui:
      https://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/audiences/1970/documents/hf_p-vi_aud_19700520.html

      • Basto 14 de Novembro de 2017 / 15:58

        Os críticos do Santo Padre Paulo VI, com ou sem razão (sou bastante limitado neste domínio para formar opinião), acabam sempre por esbarrar contra algum pedaço de rocha magisterial de solidez inquestionável. Ainda durante esta semana pensei nisso… E se há de facto um documento magisterial verdadeiramente sólido e corajoso contra todas as correntes da época e das épocas, esse documento é a “Humanae Vitae”. É um verdadeiro batólito magisterial com uma solidez intransponível que continua a travar de forma implacável os avanços da mundo moderno e contemporâneo.

  3. Romão 14 de Novembro de 2017 / 13:57

    Daqui a dois anos ainda pode acontecer muita coisa no mundo e na Igreja que ajude ao Senhor Arcebispo de Braga mudar de opinião! Mas é inacreditável que seja a Arquidiocese de Braga, a Roma Portuguesa, a primeira diocese a querer implementar Amoris Laetitia em Portugal!

    • Basto 14 de Novembro de 2017 / 15:41

      É verdade, quem diria..

  4. Geraldo 18 de Novembro de 2017 / 9:52

    EM MUITAS PESSOAS, COMO NOS COMUNISTAS, GOVERNOS, ADJUNTOS E PESSOAS MATERIAL-ATEÍSTAS E MAIS QUE ODEIAM A IGREJA, CATÓLICA, PARECERIAM-ME SER AS FALANGES INFERNAIS ENCARNADAS EM SERES AMBULANTES…
    Nossa Senhora veio à montanha de La Salette e advertiu-nos:
    “No ano de 1864, Lúcifer, juntamente com um grande número de demônios, será solto do inferno. Eles vão pôr fim à fé pouco a pouco, mesmo naqueles que se dedicam a Deus. Eles irão cegá-los de tal maneira que, a menos que recebam uma graça especial, essas pessoas irão assumir o espírito desses anjos do inferno; várias instituições religiosas perderão toda a fé e perderão muitas almas.
    Livros maus serão abundantes na terra e os espíritos das trevas espalharão por toda parte um relaxamento universal em tudo que concerne ao serviço de Deus. Os chefes, os líderes do povo de Deus negligenciaram a oração e a penitência, e o demônio obscureceu sua inteligência. Eles tornaram-se estrelas errantes que o velho demônio arrastará com sua cauda para fazê-los perecer.
    Sim, os sacerdotes estão pedindo por vingança, e a vingança paira sobre suas cabeças. Ai dos sacerdotes e pessoas consagradas a Deus, que por sua infidelidade e suas vidas perversas estão crucificando o meu Filho de novo!” (Virgem de La Salette, 19 de setembro de 1846).
    Nossa Senhora continua em sua mensagem apocalíptica para descrever com precisão todo o flagelo que irá atingir a humanidade: a vinda do Anticristo, juntamente com suas perseguições contra os fiéis e contra a Igreja. Ela, então, acaba por descrever a derrota final de Satanás e seus anjos e, assim, o triunfo final de Deus sobre seus inimigos.
    Agora, quando Nossa Senhora disse em 1846 que estes tempos terríveis começariam em 1864, uma vez que Lúcifer e um grande número de demônios foram soltos do inferno, ela realmente quis dizer que, a partir daquela data a humanidade não estaria mais no curso normal da história. Em 1864, a humanidade teria entrado no último período da saga terrena da humanidade, um período em que Satanás iria liderar sua batalha final sangrenta seduzindo e destruindo almas – dessa vez, estaria agindo a partir de dentro do Vaticano, sem receio algum!
    *“ “Quanto ao Sacramento do Matrimônio, que simboliza a união de Cristo com a Igreja, será atacado e profanado em toda a extensão da palavra. …. Impor-se-ão leis iníquas com o objetivo de extinguir esse Sacramento, facilitando a todos viverem mal, propagando-se a geração de filhos mal-nascidos, sem a bênção da Igreja. Irá decaindo rapidamente o espírito cristão.
    ** “Quase não se encontrará a inocência nas crianças nem pudor nas mulheres, e nessa suprema necessidade da Igreja, calar-se-á aquele a quem competia a tempo falar” (II, 7).
    No Brasil existe a Rede Globo da Teleperversão infanto-juvenil, por ex.,,que, com suas sexo-novelas e BBBs e mais pornôs transformam o lar em cenas de quarto de motel!
    Essa grave omissão é repetida por Nossa Senhora na aparição seguinte, em 2 de fevereiro de 1610:
    *** ” Campearão vícios de impureza, a blasfêmia e o sacrilégio naquele tempo de depravada desolação, calando-se quem deveria falar” (II, 17).
    **** “Tempos funestos sobrevirão, nos quais …. aqueles que deveriam defender em justiça os direitos da Igreja, sem temor servil nem respeito humano, darão as mãos aos inimigos da Igreja para fazer o que estes quiserem” (II, 98).
    O abaixo não se pareceria com a apostasia sucedendo dentro da Igreja, com o diabo que estaria tomando certos religiosos, de preferencia a varios da alta hierarquia e defendendo sua agenda e seriam maçons infiltrados na Igreja, pois esses arrastam atrás de si imensas multidões de incautos? Assim,muitas nações são castigadas pelos pecados dos sacerdotes e religiosos que hoje em dia acuaram, comportando-se como ovelhas mansas, apesar de estarem frente aos lobos furiosos, como muitos países sob tutela de comunistas ou parceiros, às eleições sem alertarem com clareza disso o povo!
    ***** “Saiba ainda que a Justiça Divina costuma descarregar castigos terríveis sobre nações inteiras, não tanto pelos pecados do povo quanto pelos dos Sacerdotes e religiosos, porque estes últimos são chamados, pela perfeição de seu estado, a ser o sal da Terra, os mestres da verdade e os pára-raios da Ira Divina” (II, 186).
    * ** *** **** ***** N Senhora do Bom Sucesso.

    .

    • Basto 18 de Novembro de 2017 / 11:11

      O que é mais curioso, Geraldo, é que muitos dos líderes comunistas deixaram de odiar a Igreja Católica, principalmente desde que esta começou a preocupar-se mais com a “casa comum” do que com a salvação das almas. Na verdade, hoje ouvimos mais a palavra “comum” no discurso dos líderes católicos do que no dos líderes comunistas, enquanto a preocupação com a conversão e a salvação eterna passou para segundo plano. Ambos estão mais preocupados com “este mundo”, apesar de Cristo ter dito que o Seu Reino não é deste mundo.

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