O Patriarca de Lisboa e as hienas

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Se há coisa de que ninguém pode acusar D. Manuel Clemente é de não ser diplomático, de não procurar consensos. Mas até onde pode ir a diplomacia? Será realmente possível conciliar o constante e infalível ensinamento da Igreja com esta nova “misericórdia” do Papa Francisco que prescinde de arrependimento e mudança de vida?

Há dias, D. Manuel Clemente surpreendeu toda a gente quando disse ao mundo que aplicaria, “com certeza, as indicações que os bispos de Buenos Aires elaboraram e que o Papa autenticou”, e que permitem, à luz do novo ensinamento da Amoris Laetitia, a abertura da Sagrada Comunhão a pessoas em situação de adultério prolongado. As suas palavras surgiram pouco tempo depois de, o mesmo Patriarca, ter afirmado que estaria disposto “a caminhar com o Papa nesse sentido mas, claro está, dentro da nossa tradição evangélica e daquilo que Jesus Cristo diz tão, tão, tão taxativamente acerca do matrimónio”.

Poucos dias depois, o Patriarcado de Lisboa publicava as suas próprias orientações, no entanto, a primeira coisa que propõe no processo de integração dos divorciados “recasados” que pretendem aceder aos sacramentos é “um compromisso em viver em continência [sexual]”. Um caminho à luz do magistério da Igreja, conforme tinha sido proposto pelos Papas São João Paulo II e Bento XVI. Um enorme balde de água fria em cima dos partidários da nova “misericórdia”, que pensavam que o cardeal português tinha anunciado a aprovação “pastoral” do adultério, à semelhança do que tem acontecido em outras partes do mundo católico.

As reações foram muitas e duras, principalmente da parte do clero português mais radical, sempre preocupado em agradar ao mundo. Entre outras:

“D. Manuel é bispo de Lisboa e as suas orientações não são para a Igreja em Portugal nem vinculam as outras dioceses.”

(Pe. Mário Tavares de Oliveira, assistente diocesano do departamento da pastoral da Família de Évora, in Público, 09/02/2018)

 

“Provavelmente essa proposta é um bocadinho irreal […].”

(Manuel Queirós da Costa, do secretariado diocesano da pastoral da família de Vila Real, in Público, 09/02/2018)

 

“Pessoalmente nunca proporia uma coisa dessas a alguém que vive em casal.”

(Cónego Miguel Abreu, in Público, 09/02/2018)

 

“Não competirá ao confessor nem ao guia espiritual, e creio que muito menos aos bispos, imiscuir-se nessa questão.”

(Pe. Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade, in Público, 09/02/2018)

 

“Não tenho o direito de proibir nada a ninguém. Tenho é de ajudar a refletir”

(Pe. Feytor Pinto, in Visão, 08/02/2018)

 

“[O documento é] exagerado e inoportuno.”

(Pe. Vítor Melícias, in Visão, 08/02/2018)

 

“É um ato da teologia das palavras cruzadas. Um delírio.”

(Frei Bento Domingues, in Expresso, 11/02/2018)

Na Ilha da Madeira, não chegaram a chamar “cubano” ao Patriarca de Lisboa, é verdade, mas um pouco mais piedade e de perseverança não ficaria mal ao sr. Pe. Rodrigues.

Para o teólogo Pe. Anselmo Borges, em oposição às orientações de D. Manuel Clemente, o caminho de integração deve passar pela prática sexual, apesar do adultério, “porque, se estão [re]casados, não é propriamente para viverem como irmãos”.

Tal como Nossa Senhora previra em Fátima, em 1917, muitos dos mais altos representantes da Igreja Católica pregam agora doutrinas verdadeiramente diabólicas com as quais hão de conduzir muitas almas à perdição. A Igreja Portuguesa não é exceção.

À reação do clero português mais radical e amigo do mundo, junta-se, como era de esperar, a hostilidade do próprio mundo, insatisfeito por não conseguir ainda mandar completamente na Igreja. E lá no seu azedume natural, os líderes de opinião perguntam-se, ainda que de forma inconsciente, para quando é que a Igreja de Cristo se submeterá completamente aos preceitos morais da Nova Ordem Mundial? Uma moralidade onde nada é intrinsecamente mau e quase tudo é permitido, à exceção de urinar no portão do vizinho e lançar carbono para a atmosfera.

A notícia da publicação das orientações do Patriarcado de Lisboa abre os telejornais e faz capa na imprensa. Mas que horror! Como é que ainda há bispos e padres tão atrasados em Portugal? Que gente tão fundamentalista, rigorista e anacrónica! Mas como é que alguém ainda acredita na verdadeira doutrina de Cristo e não permite a sua adaptação à época, à moda da estação e aos desejos pessoais?

É por isso que, entre tantos outros inteligentes, João Miguel Tavares tem agora pesadelos surrealistas, sinal de que ainda consegue dormir. David Dinis preocupa-se em demasia com os pecados, não dos adúlteros, mas do próprio Patriarca. Vítor Rainho teme o impacte que o caminho de continência sexual dos adúlteros possa vir a ter nas taxas de natalidade. E Joaquim Jorge, “perplexo“, arranjou mais um tema para pensar lá no clube. Mas há mais, muito mais!

Vivemos na verdade tempos absolutamente extraordinários e fascinantes. Isto, partindo de uma perspetiva meramente empírica…

Basto 2/2018

11 thoughts on “O Patriarca de Lisboa e as hienas

  1. Romão 12 de Fevereiro de 2018 / 8:37

    Onde estão as vozes de padres e bispos que defendem a tradicional doutrina católica em Portugal? Mas nos jornais e na televisão só se dá espaço ás vozes liberais e progressivas? Ou não há padres que defendem o dogma da fé como sempre foi? A Igreja em Portugal e também no resto do mundo precisa de Nosso Senhor Jesus Cristo um antídoto contra este herético veneno que está a enfraquecer a verdadeira fé! Se esta miséria está a acontecer num país onde se conservará sempre o dogma da fé, o que é que há-de acontecer nos outros?

    • Basto 12 de Fevereiro de 2018 / 9:55

      Eu não diria só os padres e os bispos, onde é que estão os leigos? Essa profecia começa de facto a tornar-se difícil de entender, mas há-de cumprir-se, não tenho dúvidas em relação a isso.

      • francisco 12 de Fevereiro de 2018 / 12:12

        Da carta do padre Thomas G. Weinandy, http://www.ncregister.com/blog/edward-pentin/full-text-of-father-weinandys-letter-to-pope-francis

        “Muitas vezes eu me perguntei: “Por que Jesus deixou tudo isso acontecer?” A única resposta que vem à mente é que Jesus quer manifestar quão fraca é a fé de muitos dentro da Igreja, mesmo entre muitos de seus bispos. Ironicamente, seu pontificado deu aos que detêm visões teológicas e pastorais prejudiciais a licença e a confiança para entrar na luz e expor a sua escuridão anteriormente escondida. Ao reconhecer essa escuridão, a Igreja precisará humildemente renovar-se, e assim continuar a crescer em santidade.”

        A posição do Cardeal Patriarca é um bom travão, pelo menos por ali não vai mau de todo, e as reações são importantes para se distinguir quem é o quê.

        Na verdade parecem existir duas Igrejas dentro da Igreja Católica: uma que vive da Graça de Deus e a ela encaminha os Homens e outra que vive apenas para a suposta felicidade dos Homens, lembrando-se de Deus apenas na medida em que isso ajudará a essa felicidade.

        Para a purificação acontecer é necessário vermos bem o que é pretendido por cada uma.

        Este ponto é um dos fundamentais, é estranho tanta clareza por escrito e na prática estar-se tão longe desta ideia, que no fundo é um dogma:
        http://enxertadosnacruzdecristo.blogspot.com/2018/01/em-portugal-conservar-se-sempre-o-dogma.html

  2. Marcelino Pachuczki (@MarKPachuz) 12 de Fevereiro de 2018 / 10:46

    Falando de continência, muitos acham impossível. Mas e no caso dos casais onde um dos dois, o homem ou a mulher fica incapacitado pare relações? O outro terá de manter-se em continência!

    • Maria Amélia 12 de Fevereiro de 2018 / 11:38

      Não agradou às “massas”, não obstante a “abertura”!
      “Flagelou a Verdade”! Mas a multidão quer crucifica-la!

      Quando li a notícia exultei de alegria!
      Pensei: o Senhor Cardeal encheu-se de coragem, tomou folgo e vai colocar tudo nos “eixos”?!

      Logo de seguida vejo a “Nota Pastoral”, um pouco “menos soft” que a de Braga…

      Novo golpe!!! Mais uma queda! Não há “misericórdia” para os que,(quem sabe?) estarão amordaçados por qualquer motivo?! De outro modo é impossível entender este pavoroso silêncio!!

      D. Manuel Clemente não agradou, nem ao “povao” ou “povinho” que o insultou de quanto havia com todo o tipo de impropérios!;

      Nem aos que gostariam de o ver mais “progressista”, o clero, por exemplo…(falta saber se levou um “puxão de orelhas” do Papa, por não ter evitado, novo escândalo, logo ele que tanto apregoa a paz…);

      Todos somos perdedores…A Igreja perdeu…, somos mais pobres! Quando afrouxamos as normas perdem-nos o respeito!

      O que mais me impressionou deveras foram as opiniões dos Sacerdotes! Esses já nem se preocupam com o “politicamente correcto”, relativamente a um Cardeal! Expressões fortes foram abusadas, tratando-se de eclesiásticos!! Em que acreditam estes “teólogos”?

      Este episódio representa uma “radiografia” do nível de conhecimento da maioria, no tocante à doutrina, à Palavra de Deus, à missão da Igreja e à salvação… Simplesmente apostasia da fé!

      Tanta cultura…tanta tecnologia, tanto doutoramento mas ninguém se recorda que existe algo que se chama Eternidade! Ignorância completa!

      Perante este cenário, Não seria preferível que o Papa e os Bispos deixassem a Amoris Laetitia e o “magistério de Buenos Aires” enterrados, definitivamente na bruma do esquecimento?

      • Maria Amélia 12 de Fevereiro de 2018 / 12:00

        Peço perdão. Queria dizer: “tomou fôlego”, e não folgo, embora não esteja totalmente errado?!

  3. maria Martins 14 de Fevereiro de 2018 / 20:05

    Pobre Igreja! Onde está a UNIDADE?
    De todas os comentários o que mais me dececionou, por vir de quem vem, foi o do Pe, Feytor Pinto… Os outros, é mais do mesmo!
    Não pode proibir nada?! Pois não. Mas não pode pecar por omissão e induzir os penitentes em erro sem lhes falar abertamente das consequências das suas escolhas! Depois de devidamente esclarecidos sobre a LEI DE DEUS , não estarão a RESISTIR AO ESPíRITO SANTO? Não será então, um pecado sem perdão?
    Para que precisamos de pastores que nos escondem a VERDADE e são coniventes com a promiscuidade, conduzindo-nos ao inferno? AH! Esqueci-me! É que estes senhores também não acreditam na sua existência!!…
    Mas tudo isto já foi profetizado por Nossa Senhora; há somente que aguardar pelo fecho que, segundo ELA, não será o melhor para todos os que agora deturpam a VERDADE.

    • Basto 17 de Fevereiro de 2018 / 10:47

      Esse artigo revela alguma lucidez, apesar de partir de uma perspetiva exterior à Igreja.

  4. francisco 9 de Março de 2018 / 10:29

    Nesta entrevista não dá para perceber ao certo o que pretende o Cardeal Patriarca, só dá para ler o resumo e indica que afinal “Uma possibilidade entre várias. É assim que o cardeal patriarca de Lisboa apresenta a sua proposta de abstinência sexual para os católicos recasados que se queiram reaproximar da Igreja”
    http://expresso.sapo.pt/sociedade/2018-02-17-D.-Manuel-Clemente-Sim-fui-mal-compreendido#gs.IowK7bI

    Por outro lado o Bispo-Auxiliar D. Nuno Brás tem colocado uns artigos mais ou menos, esperemos que sejam de boa semente:
    “Existe apenas um problema: o Evangelho. Quererão rasgar algumas das suas páginas para o tornar mais “moderno” e “atraente”? Ou talvez escrever um novo Evangelho? O melhor mesmo não será queimar, numa bela fogueira, todos os exemplares? O Evangelho é um problema para a nossa sociedade e para todos nós: convida-nos constantemente à conversão, à mudança de vida. Mas quem tem que mudar somos nós!”
    http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=7086&cont_=ver3

    “E é claro que sim: tudo o que é vida humana tem a ver com o Evangelho. Quando nos demitimos de o afirmar e de o mostrar estamos a dizer que a fé só tem a ver com uma parte da vida. E não é verdade: tem a ver com a vida toda.”
    http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=7107&cont_=ver3

    “Mas… E se alguém te disser que existe vida eterna? Que, para lá daquele azul brilhante que ilumina a vida do mundo que vemos e em que vivemos, existe um infinito de vida? E se alguém vier ter contigo e te convidar a sair do poço, oferecendo-se para te levar aos ombros? Vale a pena arriscar? Vale a pena viver nesse horizonte de vida, em que a morte foi derrotada e onde Deus vem ter connosco e nos oferece a Sua vida?
    É verdade que a importância do eu foi diminuindo. De centro do mundo quando vivia apenas para o hoje, o eu passou a necessitado de ajuda, a precisar de ser salvo. Mas vale a pena? Ainda alguém tem dúvidas de que vale a pena arriscar na vida eterna e viver no horizonte de Deus?”
    http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=7126&cont_=ver3

    • Basto 9 de Março de 2018 / 11:38

      A posição do Patriarca parece um “nim”…

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