Gaudete et Exsultate: Mesmo o que esperávamos

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Por Christopher A. Ferrara

A esta altura do pontificado do homem da Argentina, não é mesmo necessário ler a Gaudete et Exsultate para se saber o que contém: uma mistura de elementos de devoção, ataques a católicos ortodoxos e as novidades que este Papa tem avançado implacavelmente desde o momento da sua eleição. Isto é o que já vimos com a Evangelii Gaudium, com a Laudato si’ e, claro, com a desastrosa Amoris Laetitia que, inacreditavelmente, pretende abolir na prática o caráter sem exceções dos preceitos negativos da lei divina e natural, começando pelo Sexto Mandamento.

Ainda assim, só para ter a certeza, vi o documento. Relativamente curto, com um total de 20.000 palavras, corresponde precisamente ao que era expectável: algumas afirmações piedosas amarradas a apelos às mudanças radicais que Francisco exige em contradição com o ensinamento de todos os seus predecessores, juntamente com as denúncias do costume, apontadas ao clero e aos leigos ortodoxos que ousam opor-se às suas novidades.

Aqui está uma passagem chave que capta a essência daquilo a que Antonio Socci chamou, de forma tão apropriada, Bergoglianismo:

“A habituação seduz-nos e diz-nos que não tem sentido procurar mudar as coisas, que nada podemos fazer perante tal situação, que sempre foi assim e todavia sobrevivemos. Pela habituação, já não enfrentamos o mal e permitimos que as coisas «continuem como estão» ou como alguns decidiram que estejam. Deixemos então que o Senhor venha despertar-nos, dar-nos um abanão na nossa sonolência, libertar-nos da inércia. Desafiemos a habituação, abramos bem os olhos, os ouvidos e sobretudo o coração, para nos deixarmos mover pelo que acontece ao nosso redor e pelo clamor da Palavra viva e eficaz do Ressuscitado.”

Repare-se na confusão enganosa entre o concordar com o mal, que envolve pecado, e o não “mudar as coisas” ou aceitar “o sempre foi assim” ou “como alguns decidiram que estejam”, e a confusão igualmente enganosa entre fazer o bem e “desafi[ar] a habituação […] para nos deixarmos mover pelo que acontece ao nosso redor e pelo clamor da Palavra viva e eficaz do Ressuscitado.

Gaudete et Exsultate é, assim, uma tentativa velada de impor o enfraquecimento do Sexto Mandamento, inerente à Amoris Laetitia, sobre a Igreja, sob o disfarce de “discernimento” do que o Espírito Santo supostamente nos pede: a novidade. E sem deixar dúvidas sobre a sua intenção, o Papa Francisco deixa depois claro que exige adesão às suas novidades como sendo a voz de Deus através de si:

“Como é possível saber se algo vem do Espírito Santo ou se deriva do espírito do mundo e do espírito maligno? A única forma é o discernimento. Este não requer apenas uma boa capacidade de raciocinar e sentido comum, é também um dom que é preciso pedir. Se o pedirmos com confiança ao Espírito Santo e, ao mesmo tempo, nos esforçarmos por cultivá-lo com a oração, a reflexão, a leitura e o bom conselho, poderemos certamente crescer nesta capacidade espiritual […].”

Até aqui, tudo bem. Mas a cápsula de veneno é administrada de imediato:

“Isto revela-se particularmente importante, quando aparece uma novidade na própria vida, sendo necessário então discernir se é o vinho novo que vem de Deus ou uma novidade enganadora do espírito do mundo ou do espírito maligno. Noutras ocasiões, sucede o contrário, porque as forças do mal induzem-nos a não mudar, a deixar as coisas como estão, a optar pelo imobilismo e a rigidez e, assim, impedimos que atue o sopro do Espírito Santo […].”

Não há outra palavra para este texto par além de desonesto: o mal manifesta-se pelo “imobilismo e a rigidez” perante o “mudar”, “mudar” no sentido que Francisco – sozinho entre todos os Papas até Pedro – exige em consonância com os “sinais dos tempos”.

Em sítio nenhum do grande Depósito da Fé encontramos qualquer ensinamento sobre o mal imaginário da imobilismo e a rigidez” perante o “mudar”. Muito pelo contrário, a resistência à mudança é precisamente o que é exigido por uma defesa do ensino imutável do Evangelho, que é o Palavra Eterna:

«Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-los, mas levá-los à perfeição. Porque em verdade vos digo: Até que passem o céu e a terra, não passará um só jota ou um só ápice da Lei, sem que tudo se cumpra. Portanto, se alguém violar um destes preceitos mais pequenos, e ensinar assim aos homens, será o menor no Reino do Céu. Mas aquele que os praticar e ensinar, esse será grande no Reino do Céu. (Mt 5, 17-19)

Dando cumprimento à Lei de Deus, Nosso Senhor declarou que quem se divorcia e finge “casar-se de novo” comete adultério. Recorde-se a Sua repreensão aos fariseus, que recorreram a Moisés para defenderem a aprovação do divórcio: “Por causa da dureza do vosso coração, Moisés permitiu que repudiásseis as vossas mulheres; mas, ao princípio, não foi assim.” (Mt 19, 8)

No entanto, a Igreja é agora atormentada por um pontificado cujo tema é a tolerância do divórcio e do “recasamento” na Igreja e a admissão de adúlteros públicos à Sagrada Comunhão, ainda que mantenham as suas relações adúlteras, o que reverteria 2 000 anos de ensinamento da Igreja, arrastando-a toda de volta ao tempo de Moisés.

Com incomparável audácia, Francisco cita o Oitavo Mandamento quando invoca o inferno (cuja existência ele nega em conversas com Scalfari, de quem não nega os seus relatos) para demonizar os católicos que defendem os “outros mandamentos” – ou seja, o Sexto Mandamento que ele tem tentado subverter na prática ao longo dos últimos cinco anos:

“Mesmo nos meios de comunicação social católicos, os limites podem ser ultrapassados, a difamação e a calúnia podem tornar-se comuns e todos os padrões éticos e o respeito pelo bom nome dos outros podem ser abandonados… É surpreendente que, às vezes, ao afirmar defender os outros mandamentos, ignoram completamente o oitavo, que proíbe dar falso testemunho ou mentir, e vilificar implacavelmente os outros. Aqui vemos como a língua desprotegida, incendiada pelo inferno, incendeia todas as coisas (cf. Tg 3, 6)”.

Aparentemente, o Papa Francisco não vê “falso testemunho ou mentir” no seu discurso mais ou menos constante contra os católicos ortodoxos, nem percebe que “vilific[a] implacavelmente os outros” quando os denuncia, quase diariamente, como hipócritas rígidos. Como aconteceu com a flagrante adulteração feita pelo Vaticano da, agora infame, carta falsamente apresentada como o apoio de Bento XVI à “teologia do Papa Francisco”, Francisco evidentemente não se apercebe da trave à frente do seu próprio olho.

Podemos, no entanto, encontrar esperança no facto de que esta dura polémica papal não está a enganar ninguém que não queira ser enganado e que o número de fiéis que estão a despertar relativamente ao engano aumenta de dia para dia.

A edição original deste texto foi publicada pelo Fatima Center a 11 de abril de 2018. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do texto acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original. A imagem acima foi adicionada na presente edição, não faz parte da publicação original.

Basto 4/2018

2 thoughts on “Gaudete et Exsultate: Mesmo o que esperávamos

  1. Marcelino Pachuczki (@MarKPachuz) 20 de Abril de 2018 / 20:48

    Aparentemente, o Papa Francisco não vê “falso testemunho ou mentir” no seu discurso mais ou menos constante contra os católicos ortodoxos, nem percebe que “vilific[a] implacavelmente os outros” quando os denuncia, quase diariamente, como hipócritas rígidos.

    Isto me lembra um dos “dogmas” do comunismo. A eles (comunistas) tudo é permitido para alcançar seus objetivos, ou como se diz “os fins justificam os meios”. Lembro de que na posse de Bento XVI o agora encarcerado presidente Lula, ao ser indagado por não se confessar respondeu “eu não tenho pecados’!

  2. Geraldo 23 de Abril de 2018 / 14:31

    Admitir-se-ia que desde o Concilio Vaticano II com suas mudanças de rumo para um catolicismo associado à modernidade – submetido às novas exigencias de tempos relativizados pelo fenômeno tecnológico e de tudo agregado a ele, inclusive recheado de total alienação e subversão, faz parte de aonde chegamos, tudo patrocinado pelo famigerado antropocentrismo do novo deus-homem Iluminista, dos modernistas, mais claramente se expressando – evidentemente por detrás, a alta maçonaria.
    Assim, a Gaudete et Exultate poderia ser da colheita de frutos cada vez mais “maturados”, como nesse trecho abaixo, dentre mais gerando os mais diversos questionamentos:
    “A Igreja não tem resposta a tudo e não deve ensinar de como viver ,(como no protestantismo, no qual cada um é o auto espírito santo a se iluminar…).
    “Quando alguém possui respostas para tudo demonstra não estar num caminho reto, sendo possível ser um falso profeta, usando da religião para se auto beneficiar, a serviço de elucubrações psicológicas e mentais”.
    Portanto, não podemos pretender que o nosso modo de entender nos autorize a exercer uma supervisão rigorosa da vida dos outros”.
    Assim, proibir-se-iam as homilias carregadas de serias advertencias a pecadores empedernidos, inibindo os sacerdotes de reprimirem com severidade os errantes, convidando-os a sair do pecado e menos ainda sob pena por se encaminharem para o inferno – situação difícil!
    Nem as seitas do relativismo protestantes dessa forma procedem, apesar de serem errantes, censuram a todos e ainda as companheiras de caminhada sectarista, tendo as demais diferentes como antagonistas e falsarias…
    Convém notar que a Igreja vem sendo infiltrada pela judaico-maçonaria de forma massiva desde a década de 30 por Lênin e, de certa forma, tudo que planejaram Vindice e Nubius principiou a apresentar os frutos de seus diabólicos esforços de implodir a Igreja por novos métodos, já que o sistema de fazerem mártires estavam aumentando as adesões a ela, passaram para essa nova tática e com importante apoio da conhecida maçonaria eclesiástica interna, a qual já detinha e cada vez mais se firma em varios altos cargos dignitarios na Igreja – e como, atualmente… – bem próximos à sede petrina, por sinal, está sobremodo bastante atuante em tantos setores eclesiásticos, numa autêntica neoplasia quase generalizada entre os membros da Igreja.
    Piorando ainda mais o que já não ia bem, as nações de tradição cristã católica, como França, Italia, diversos da A Latina, Central etc., conspirando contra si, passaram a eleger para o poder com ajuda de maçons eclesiásticos – caso da esquerdista TL + auxilios de certos integrantes de Conferencias Episcopais – justamente os mafiosos partidos socialistas ou comunistas, tributarios da maçonaria – as duas lãminas da mesma tesoura – portanto, ponto duplo para a maçonaria: agente dentro da Igreja, na política e o povo como refém ao meio, atacado por dois fogos, além de desarmado, portanto, inerte e vulnerável a todos os tipos de golpismos!
    Bem recentemente, graças às redes sociais independentes há uma contra-revolução anti-social-comunista, embora desativá-la, se assim se mantiver, poderá perdurar por décadas, ou nunca mais, levando-se em conta as admoestações de N Senhora no tocante à não conversão e a consequente disseminação cada vez mais firme do pestífero e asqueroso comunismo – o qual parece inevitável – pois os clérigos estariam cuidando para piorar – logo a partir do topo!

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