O que pensam os católicos ucranianos: “Neste momento, é impossível continuar sem perceber a natureza satânica do regime do Kremlin” e “o paganismo flagrante das declarações do patriarca de Moscovo”. (Carta Aberta)

 A Igreja Greco-Católica Ucraniana é a maior Igreja Oriental individual – isto é, a maior depois da nossa própria Igreja Latina. É verdadeiramente uma Igreja-Mártir: a Rússia tentou destruí-la uma e outra vez, sob o czarismo e sob o comunismo, mas ela permaneceu fiel à catolicidade.

Para os greco-católicos ucranianos, seria “fácil” tornarem-se “ortodoxos”: não há diferenças de rito. Mas o que eles têm é uma lealdade indissolúvel para com a Sé Romana: cada mártir da história sangrenta da Igreja, milhões deles, teve a mesma determinação de São Tomás Muro ou São João Fisher – lealdade à fé católica e à ideia e realidade de Roma, Mãe de todas as Igrejas.

Na passada quarta-feira, a universidade fundada e apoiada pela Igreja Greco-Católica Ucraniana, a Universidade Católica Ucraniana (UCU) divulgou um documento formal do seu Senado e Reitoria, explicando aos cristãos de todo o mundo o que está a acontecer. Eles representam fielmente a visão de todos os católicos ucranianos, em casa e na diáspora.

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Rejeitar as obras das trevas

Carta aberta do Senado e da Reitoria da Universidade Católica Ucraniana às Comunidades Cristãs do Mundo

Quarta-feira, 23 de março de 2022

Com o início de uma nova fase da última guerra russo-ucraniana, os ucranianos invariavelmente reconhecem-se nas páginas das Escrituras nas reviravoltas da história bíblica. Sob o regime de Putin, eles reconhecem: “porque são espíritos demoníacos, que realizam sinais, que vão ao encontro dos reis de todo o mundo, para reuni-los para a batalha no grande dia de Deus, o Todo-Poderoso” (Apocalipse 16:14), e eles encontram esperança na vitória de Davi sobre Golias. (1 Samuel 17: 1–52).

A dor do sofrimento e da morte, a amargura da insensibilidade de alguns políticos mundiais, bem como a gratidão a outros que vieram em nosso auxílio – essas são as emoções que o povo ucraniano sente hoje. Ao mesmo tempo, eles estão convencidos de que a nova Ucrânia será construída sobre o sacrifício pago por soldados e civis ucranianos hoje. Pois isso é o que pode ser deduzido das palavras do Cordeiro sacrificial de Deus: “Eis que faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21:5).

As tensões bíblicas da atual guerra russo-ucraniana estão a mudar a face do planeta. Hoje, toda a estrutura de segurança do mundo que surgiu após a Segunda Guerra Mundial está a explodir. As fissuras espalham-se por todo o corpo de acordos internacionais, instituições de segurança e mecanismos de manutenção da paz. Num instante, a carreira profissional de alguém e as visões habituais do mundo perdem o seu significado. Axiomas inequívocos estão agora perdendo a sua certeza, tornando-se teoremas que precisam ser provados novamente.

O ecumenismo cristão também sentiu todas as rachaduras que percorriam o status quo geopolítico. Todo o corpo de relações inter-eclesiásticas cambaleou pelo flagrante paganismo das declarações do patriarca de Moscovo, que justificou as atrocidades brutais dos militares russos. Todos aqueles ecumenistas “profissionais” que, a pedido de Moscovo, na menor oportunidade, repreenderam a Ucrânia por supostas violações da liberdade religiosa dos ortodoxos que estavam em unidade eucarística com o Patriarcado de Moscovo, perderam o sentido de vergonha. Afinal, agora o próprio chefe da Igreja Ortodoxa Russa (IOR) justificou os assassinatos e as violações dos mesmos ortodoxos de língua russa cujas vidas foram roubadas durante tantos anos.

Obviamente, ouvimos as vozes dos líderes das Igrejas do mundo pedindo o fim do derramamento de sangue e a salvação das almas humanas. Estamos gratos aos teólogos de várias denominações que condenaram os perpetradores da guerra e as atrocidades que cometeram. Ao mesmo tempo, porém, não podemos deixar de notar outras afirmações que são muitas vezes temidas. Medo de chamar o culpado pelo nome. Medo de prejudicar o “diálogo ecuménico”. Tentativas desesperadas de preservar os resquícios do status quo geocristão, onde belas palavras glorificam a amarga verdade da separação e a relutância em se unir. O desejo predominante é reconciliar os “irmãos que brigam” o quanto antes e retornar às matrizes estabelecidas de “diálogo a todo custo”, conexões pessoais habituais, arranjos de bastidores e trocas ostensivas de cortesias. O objetivo é salvar o próprio status hierárquico e carreira, e acalmar a consciência.

Tudo isso pode ser entendido no nível humano, mas no sentido providencial é inútil. O momento atual exige das Igrejas uma voz profética incompatível com o medo e a ideologia. Não queremos ouvir deles sobre estar “profundamente preocupados com a guerra”, porque isso é a linguagem da diplomacia. Procuramos ouvir as palavras ousadas de verdade que Jesus, que nos ensinou por seus conselhos, diria hoje: nos negócios de Deus, a verdade não pode ser evitada por causa do medo. Somente a linguagem da verdade pode ser considerada a linguagem da fé. “Quem quiser encontrar a sua vida perdê-la-á, e quem perder a sua vida por minha causa, encontrá-la-á” (Mateus 10:39).

Igualmente contraditório ao Evangelho é a equalização do sofrimento sofrido pelos militares ucranianos e russos. Os primeiros defendem suas terras, os segundos saqueiam a dos outros. Aqueles criminosos de guerra russos que destroem maternidades, atiram em idosos e crianças, violam mulheres, saqueiam e se gabam de suas “conquistas” não são “pobres”. A ideologia do politicamente correto pode igualar o sofrimento dos militares ucranianos e russos, mas não o sentimento evangélico que sempre fica do lado da vítima.

É por isso que estamos convencidos de que é hora de o mundo tomar uma decisão concreta, tanto política quanto espiritualmente. A essa altura, é impossível continuar sem perceber a natureza satânica do regime do Kremlin, que semeia ódio, mente sem cerimónias e desencadeia guerras terríveis. Este é um novo fruto do poder sobre o qual a Mãe de Deus alertou a humanidade em Fátima – e este poder deve ter responsabilidade legal e moral. A guerra da Rússia contra a Ucrânia não pode terminar com os seus instigadores e todos aqueles que a lideraram e justificaram a continuar a ser considerados membros legítimos da comunidade mundial.

Também é inaceitável que a liderança do Patriarcado de Moscovo não tenha responsabilidade moral e às vezes legal de fornecer apoio moral ao regime de Putin e aprovar a guerra que ele travou. Consagrando as horríveis atrocidades dos soldados russos na Ucrânia, foi o Patriarca de Moscovo quem disse: “Os nossos militares não podem ter dúvidas de que escolheram o caminho certo em suas vidas”. Portanto, a tarefa do ecumenismo cristão é afirmar-lhe claramente que tanto o caminho desses militares quanto o seu caminho pessoal são destrutivos.

Se o mundo cristão quer que a Ortodoxia Russa se recupere moralmente e dê ao mundo tesouros profundos da verdadeira fé e da sua tradição, deve perceber que isso não acontecerá a menos que a hierarquia e os fiéis dessa Igreja passem pelo arrependimento moral. Os ecumenistas do mundo devem admitir que os paralelos entre a ideologia do “mundo russo” e a ideologia nazista tornaram-se hoje bastante justificados. É por isso que a IOR, que também se tornou a Igreja do Reich, deve suportar a sua vergonha da mesma forma que a Igreja Evangélica Alemã. Afinal, a paz de Deus é sempre fruto da renúncia ao mal e da união com Deus.

Portanto, em nome de toda a comunidade da Universidade Católica Ucraniana, pedimos aos líderes cristãos de todo o mundo que falem a sua palavra confessional e profética e parem o mal! É insuportável para nós ver como a escuridão e a morte tentam absorver as gerações de jovens ucranianos que levamos à crença na Bondade, Verdade e Misericórdia. Não vamos deixá-los desesperar desses valores e vamos ajudá-los a ver o amanhecer: “a noite está longe, o dia está próximo. Deixemo-nos, pois, das obras das trevas e vistamo-nos da armadura da luz” (Romanos 13:12). Que o atual sacrifício sangrento da Ucrânia se torne um momento de kairos, a partir do qual começará a renovação de toda a terra!

Fonte: rorate-caeli.blogspot.com, a partir de ucu.edu.ua/en (tradução nossa).

2 thoughts on “O que pensam os católicos ucranianos: “Neste momento, é impossível continuar sem perceber a natureza satânica do regime do Kremlin” e “o paganismo flagrante das declarações do patriarca de Moscovo”. (Carta Aberta)

  1. Maria Ribeiro 30 de Março de 2022 / 11:21

    É interessante e impressionante este comunicado dirigido a todos nós! Pelo menos obriga-nos a sair da nossa “zona de conforto”.
    Que tudo isto é obra das trevas, não tenho a mínima dúvida. Mesmo porque a guerra, onde morrem milhares de pessoas inocentes e até os próprios militares, é sempre diabólica. O problema é que a maioria das pessoas não vê tudo isto como uma guerra ideológica e espiritual. Pensam que é apenas geopolítica.

    Já não consigo trocar ideias com quem quer que seja, relativamente à hipótese de ver o Putin como o “salvador da pátria”. No princípio pensei: “estas pessoas vão acabar por perceber quem, de facto é este homem que tanto idolatram”. Mas não! Continuam “de pedra e cal”. Ninguém os demove, perante tanta barbaridade. Houve uma pessoa que me disse: “não se deixe influenciar por sites católicos anti-Rússia primários”. Mas enviava-me tudo o que fosse dissidência Ocidental e, sobretudo americana, para colocar o “ídolo” num pedestal.

    Vejam como as “negociações” nunca resultam. Parece um jogo para ganhar tempo. Sempre tive a ideia de que Putin é um eurosianista pretensioso e calculista, caso contrário nunca ficaria no poder tantos anos.
    Só Nossa Senhora para nos livrar deste homem perverso e de outros como ele! Narcisista perigoso, homem sem palavra….

    • Basto 30 de Março de 2022 / 14:02

      Nesta altura, a ingenuidade já não serve de desculpa para ninguém, as imagens deste massacre estão à vista e não é possível contestá-las. Ou se apoia (de forma assumida ou implícita) ou se contesta, dependendo dos gostos de cada um. Pessoalmente, quando vejo em algum lado a cara desse covarde narcisista e assassino, só me surgem palavras indignas de serem pronunciadas e muito menos escritas.

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