“Um estranho tipo de ecumenismo” – Francisco enfrenta críticas na Ucrânia

Por Anatolii Babynskyi

À medida que a guerra continua na Ucrânia, os católicos ucranianos dizem que querem mais apoio do Papa Francisco, que há muito clama pela paz naquele país, mas não condenou explicitamente os líderes russos, que iniciaram uma invasão à Ucrânia a 24 de fevereiro, nem contestou diretamente o papel do patriarca ortodoxo russo pelo seu apoiou à invasão.

Papa Francisco cumprimenta o arcebiso-mor D. Sviatoslav Shevchuk, líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Foto: Igreja Greco-Católica Ucraniana.

Os ucranianos contestaram duramente a abordagem da Santa Sé ao conflito e o significado das aberturas ecuménicas entre o Papa Francisco e o Patriarca Kirill de Moscovo, o patriarca ortodoxo que é amplamente visto na Ucrânia como um defensor da invasão russa.

Alguns católicos ucranianos disseram ao The Pillar que se sentiram ofendidos ou desencorajados pelos esforços do Vaticano no sentido do ecumenismo com a Igreja Ortodoxa Russa, outros dizem que a Santa Sé precisa de melhorar a comunicação com os católicos da Ucrânia para percebera realidade que o país enfrenta.

“A experiência da guerra é desafiadora para todos e nós procuramos apoio e recursos em algo estável e duradouro, que para mim é a fé e a Igreja. O chefe da nossa Igreja – a Igreja Greco-Católica Ucraniana – tem uma posição inequívoca. Mas quando o chefe da Igreja universal, de  quem também espero apoio, revela falta de compreensão da situação… isso magoa-me muito”, confessou Olena Bidovanets, especialista em doenças infecciosas em Kiev e presidente da Obnova – a Sociedade de Estudantes Católicos Ucranianos.

Quando a guerra começou, Bidovanets encontrava-se nos EUA, com uma bolsa Fulbright, a estudar saúde pública. Regressou a Kiev, a 14 de março, para trabalhar com um grupo de assistência médica humanitária na Ucrânia.

Bidovanets confessou ao The Pillar que, como muitos ucranianos, gostaria de ouvir do Papa Francisco uma condenação mais clara e incisiva à invasão do seu país e à cumplicidade do patriarca ortodoxo russo no apoio a esta guerra. 

A médica disse estar desiludida com a decisão do Vaticano, no mês passado, de convidar duas mulheres, uma russa e outra ucraniana, residentes em Itália, para participarem na Via Sacra da Sexta-feira Santa, presidida pelo Papa Francisco – com as duas mulheres segurando a cruz na 13ª Estação da Cruz. 

Embora as autoridades do Vaticano tivessem afirmado que o gesto pretendia ser um apelo à paz, Bidovanets considerou-o inapropriado. A sua perspetiva tem ecoado amplamente entre os greco-católicos e os católicos latinos na Ucrânia.

Uma mulher ucraniana e uma russa seguram a cruz na Via Sacra da Sexta-feira Santa, dirigida pelo Papa Francisco.  Imagem: Vatican Media.

“Na minha opinião, seria justo convidar uma mulher de Bucha e perguntar-lhe se estava disposta a carregar essa cruz. Com todo o respeito pela mulher ucraniana que vive em Itália há 20 anos, uma pessoa que está longe da realidade que aqui se vive não podia carregar essa cruz”, explicou Bidovanets.

Bidovanets, que pertence à Igreja Greco-Católica Ucraniana, disse ao The Pillar que ficou chocada quando o Papa Francisco afirmou, no mês anterior, que “lamenta” o cancelamento de uma reunião prevista para junho com o Patriarca Kirill.

Referindo-se às relações ecuménicas da Igreja Católica com o Patriarcado de Moscovo, Bidovanets relembrou as décadas de 1960 e 1970, quando as posições de ostpolitik do Vaticano atingiram o seu auge, pois a Santa Sé evitou a condenação aberta da perseguição aos católicos e outros cristãos para lá da Cortina de Ferro. 

“Para que é que a nossa Igreja sofreu durante 45 anos na clandestinidade?”, perguntou.

A ostpolitik do Vaticano – a sua abordagem diplomática relativamente à Rússia e à Europa Oriental – é um dos assuntos mais debatidos hoje entre os intelectuais católicos na Ucrânia. 

Yurii Pidlisnyi é presidente do departamento de ciência política da Universidade Católica Ucraniana e presidente da Comissão de Família e Leigos da Igreja Greco-Católica Ucraniana. 

Pidlisnyi confessou ao The Pillar que acha que “a posição do Vaticano em relação à guerra russo-ucraniana não é clara, parece um sacrifício da verdade a favor do lucro ilusório da ostpolitik”.

“Para mim, é difícil compreender a razão pela qual agem deste modo porque que essa política não trará qualquer benefício à Igreja Católica. Se havia a esperança de que Kirill viesse a atuar como um parceiro no alcance de metas globais, ou como uma pessoa que ajudaria nas negociações com Putin, isso não passa de uma ilusão, uma vez que ele não é a pessoa de quem algo depende.” 

“[Kirill] não pode falar em pé de igualdade com Putin dado que a Igreja na Rússia, particularmente sob Kirill, tornou-se 100% dependente do poder político, trabalhando ao seu serviço. Ele é um porta-voz da política do Kremlin, não uma autoridade moral que pode resolver alguns problemas humanitários”, acrescentou Pidlisnyi.

Muitos católicos e ortodoxos na Ucrânia ficaram aliviados quando o Vaticano anunciou, no mês passado, que uma reunião prevista para junho entre o Papa Francisco e o Patriarca Kirill havia sido cancelada. De facto, depois do anúncio do seu cancelamento, as posteriores notícias de que o Papa Francisco não visitaria Kiev passaram praticamente despercebidas no país. 

Para muitos padres, o cancelamento do encontro agendado entre Francisco e Kirill resolveu as questões que esperavam ouvir de seus paroquianos.

Vários sacerdotes disseram ao The Pillar que os seus paroquianos não acompanham as nuances da diplomacia do Vaticano, mas que fotos conjuntas de Francisco e Kirill seriam desmoralizantes para o povo ucraniano, do mesmo modo que as suas explicações ou interpretações não seriam fáceis de dar.

“As pessoas que vivem em guerra sentem-se indignadas e insultadas por qualquer gesto positivo em relação ao Patriarca Kirill, que aprova e abençoa esta guerra”, referiu Pe. Mykola Myshovskyi, um sacerdote católico latino de Vinnytsia, que é o diretor de uma popular página sobre atualidade católica na Ucrânia .

O Pe. Myshovskyi explicou que os gestos ecuménicos da Igreja em relação ao Patriarca de Moscovo – juntamente com a controvérsia sobre a Via Sacra da Sexta-feira Santa – apagaram muito do trabalho de credibilização da Igreja Católica na Ucrânia realizado ao longo dos últimos 30 anos: “Hoje, na sociedade ucraniana, o grau de negatividade relativamente à Igreja Católica é bastante elevado, podendo ser constatado tanto entre os próprios católicos como entre aqueles que tratavam a nossa Igreja com simpatia. Para muitos crentes, este é um teste muito difícil”.

“As pessoas têm nervos sensíveis; o seu estado psicológico é mau e, nessa situação, sentem-se traídas. Para muitas pessoas, a Igreja era a última coisa que restava. Literalmente, perderam familiares, bens e empregos. E quando, afinal, acontecem coisas na Igreja que os fazem querer chorar, é lamentável”, explicou Pe. Myshovskyi, acrescentando ironicamente: “Este papa consegue ser firme e incisivo apenas para com os católicos tradicionais, mas não para com Moscovo…”

Já Pidlisnyi, o cientista político, fez uma avaliação pessimista da situação da Igreja na Ucrânia: “Infelizmente, este papa desperdiçou as conquistas de João Paulo II e Bento XVI [na Ucrânia]”.

“João Paulo II foi um apóstolo da paz, um homem que não tinha medo de chamar os bois pelos nomes. Embora a ostpolitik também pesasse sobre ele, libertou-se dela. Em vez disso, Francisco conseguiu que ortodoxos, protestantes e pessoas justas de boa vontade, que respeitavam a autoridade papal, estejam agora a afastar-se da Igreja Católica. Essa credibilidade terá de ser restaurada durante muito tempo”, explicou o professor.

O Pe. Petro Balog, OP, diretor do Instituto de São Tomás de Aquino em Kiev, concordou que a posição do Vaticano sobre a guerra afetará a missão da Igreja Católica na Ucrânia. 

Balog disse que, até recentemente, o Papa era, para os ucranianos, o mais confiável de todos os líderes religiosos mundiais. E acrescentou que, neste momento, é difícil dizer se o Pontífice desfrutará dessa confiança no futuro. 

O dominicano observou também que muitas avaliações na Ucrânia são agora bastante emocionais: “Hoje, muitos países do mundo apoiam a Ucrânia, portanto, a sociedade ucraniana está imersa nessa onda. Aqueles que não estão do nosso lado, são imediatamente rotulados como inimigos – acusamos os políticos mundiais que agem de forma mais cautelosa e não da forma mais adequada”. 

“Acredito que o Papa definitivamente não é nosso inimigo”, observou Balog. 

O Papa Francisco condenou repetidamente a guerra na Ucrânia e pediu paz. Ele atraiu a ira de muitos ucranianos porque não condenou a Rússia pelo nome e porque o seu interesse ecuménico por Moscovo parece desimpedido pelo apoio de Kirill à ideologia do Russkiy Mir [Mundo Russo].

O Pe. Balog concordou que o Vaticano enfatizou a sua relação ecuménica com Moscovo na sua abordagem à guerra russo-ucraniana: “Há uma certa inércia em relação a isso. Quando a fase quente da guerra começou com o apoio da Igreja Ortodoxa Russa, ainda assim, o Vaticano procurou manter-se acima de tudo isso, tentando manter os seus laços com Moscovo. Como esse diálogo foi desenvolvido ao longo de séculos, eles não querem estragar tudo com um golpe de caneta – isto porque estão já a pensar no que acontecerá depois da guerra.” 

“Pode-se lembrar que quando havia a URSS, os patriarcas estavam sob o controle do governo ateu, mas os contactos não pararam”, lembrou o padre. 

Balog refeiru que é difícil dizer se a abordagem ecuménica do Vaticano se justifica; isso só se tornará evidente com o tempo, disse ele. 

Ainda assim, o padre afirmou que é difícil entender a abordagem dos diplomatas do Vaticano que organizaram cimeiras como uma reunião de 2016, em Havana, entre Francisco e Kirill.

“Do nosso ponto de vista, podemos dizer que essas coisas deveriam ser feitas de forma diferente. É possível que o Vaticano não tenha pessoas que possam transmitir bem a perspetiva ucraniana. Existem lá russófilos, mas faltam, por assim dizer, “ucraniófilos” que equilibrem as abordagens da Santa Sé”.

O Pe. Jurij Blazejewski, editor da revista Skynia (Tabernáculo), em Lviv, e aluno da Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma, afirmou que também constata a necessidade da presença de católicos ucranianos no Vaticano. 

De acordo com Blazejewski, a maioria dos trabalhadores e funcionários da Cúria Romana são representantes da “velha Europa”. 

“Eles têm a visão da Rússia como uma superpotência que deve ser considerada em qualquer circunstância. Eles já nascem com essa abordagem e, na opinião deles, o mundo está organizado desse modo.”

Blazejewski afirma que os líderes da Igreja ucraniana devem analisar a melhor forma de se comunicarem com as autoridades do Vaticano e o melhor modo de expressarem as suas perspetivas sobre questões ecuménicas e políticas. 

“Nós, ucranianos, devemos estar presentes aqui (em Roma), ser intérpretes do contexto, estar envolvidos no processo e não ser meros observadores externos que só criticam porque o Vaticano não nos entendeu. Mas quem lhes vai explicar a nossa perspetiva? No caso da Via Sacra, foi uma falha de comunicação, não do lado do Vaticano, mas do lado da Ucrânia. O Vaticano não entende o contexto e o estado de espírito da sociedade ucraniana. O problema é que não se conhece as pessoas com quem não se comunica. E há muito poucos ucranianos que poderiam fazer isso. Este é um problema que os líderes da Igreja na Ucrânia precisam de analisar.”

Mas o Pe. Vyacheslav Okun, SJ, um padre greco-católico ucraniano que estuda no Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, disse duvidar que as autoridades do Vaticano não tenham as informações e o contexto sobre os eventos na Ucrânia.

“Acho que, neste caso, o problema não está na falta de comunicação, porque o cardeal Krajewski e o cardeal Czerny visitaram a Ucrânia, conversaram com autoridades locais, os hierarcas católicos e ortodoxos, visitaram [refugiados] no oeste da Ucrânia e estiveram nos locais dos massacres na região de Kiev”.

“Penso que a informação que o Vaticano recebe através da nunciatura em Kiev também os ajuda a entender melhor a situação na Ucrânia. Além disso, muitos dos nossos [refugiados], crianças e mulheres já chegaram aqui à Itália. Portanto, tenho certeza de que a informação chega às pessoas relevantes que a processam, mas as conclusões feitas e os passos propostos não dão o resultado que gostaríamos de ouvir e ver.” 

“Talvez seja o fenómeno que os italianos chamam de buonismo, ou um desejo ingénuo de ver alguns resquícios do bem, mesmo no agressor, depois dos horrores desumanos”, acrescentou o padre. 

“Acho que essa é a inerte visão de mundo do ‘Velho Continente’ após a Segunda Guerra Mundial. Há uma narrativa de que vivemos em paz desde então. Dizem que conseguimos alcançar a paz e, mais importante, voltar a ela por qualquer meio. Mas já havia guerras na Europa; houve uma guerra na Jugoslávia, agora entre a Rússia e a Ucrânia. Há também a crença ingénua de que os russos estão prontos para uma solução pacífica para essa guerra e também estão prontos para fazer concessões – que é possível dialogar com eles e resolver problemas no campo diplomático. Talvez seja por isso que vemos tais reações.” 

Okun disse que, na sua opinião, Roma está a tentar, a todo custo, não perder o seu diálogo ecuménico com o Patriarcado de Moscovo.

“Mas temos um tipo estranho de ecumenismo, em que uma das partes prega e abençoa a guerra. Na Ucrânia, os ortodoxos sofrem e morrem, antes de tudo. A maioria dos mortos na Ucrânia eram ortodoxos e, muito provavelmente, muitos deles pertenciam ao Patriarcado de Moscovo. Então, [os soldados] matam o seu rebanho e os seus companheiros crentes, enquanto o patriarca justifica isso como uma luta ‘metafísica’ contra o mal. Que tipo de ecumenismo é esse? E os ucranianos ortodoxos?”

Fonte: pillarcatholic.com, em 2 de maio de 2022 (tradução nossa).

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s