A Alegria do Amor em Portugal

Henrique VIII e Ana Bolena
Henrique VIII e Ana Bolena (Friedrich Pecht, 1900)

Afinal de contas, o que disse o Santo Padre?

Presidente e vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) fizeram, aparentemente, leituras diferentes da exortação apostólica Amoris Laetitia, no que concerne ao tema fraturante da possibilidade de admitir os divorciados “recasados” à comunhão sacramental.

Não é que não estivéssemos já à espera que algo semelhante a isto pudesse vir acontecer, dada a natureza do texto, mas agora está à vista. Até parece que chegaram duas exortações apostólicas diferentes a Portugal. Mas o que se passa no nosso país não deve ser muito diferente do que está a acontecer por esse mundo fora, nestes dias.

Já aqui tínhamos referido que o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, presidente da CEP, não encontrou no texto qualquer abertura à comunhão para os divorciados “recasados”. Mas foi mais além, ao notar que, no âmbito das possibilidades pastorais sugeridas pela exortação apostólica para melhorar a integração dessas pessoas,  não consta a prática “sacramental”, mas apenas práticas do âmbito “litúrgico, pastoral, educativo e institucional”. Na sua opinião, essa possibilidade foi omitida no texto propositadamente por não ser considerada.

Todavia, D. António Marto, bispo da diocese de Leiria-Fátima e vice-presidente da CEP, mostrou-se “agradavelmente surpreendido” com as mudanças que o Santo Padre promove com a exortação apostólica. Este bispo entendeu, a partir da leitura do documento, que o “Papa Francisco, de modo genial, introduziu uma mudança da disciplina sem pôr em causa a doutrina sobre o matrimónio e a família” na qual, no caso dos divorciados “recasados”, “abre mesmo uma janela para a possibilidade da ‘ajuda dos sacramentos’ da Reconciliação e da Eucaristia em certos casos”. Não estabelece uma  “regra geral”, mas propõe “percursos personalizados de discernimento pessoal e pastoral, com vários momentos, para a melhor integração na vida da comunidade com a ajuda da Igreja”. Mas isso não seria a aplicação da ‘via kasperiana’, amplamente rejeitada pelos Padres Sinodais?

Convém salvaguardar que as notícias acima referidas são curtas e produzidas em contextos específicos, carecendo de informação adicional, e portanto devem ser avaliadas com alguma prudência. No entanto, atendendo às notícias do ano passado, bem como aos seus protagonistas, assim à primeira vista, parece-nos que o Santo Padre não apagou o lume que ele próprio acendeu na Igreja Portuguesa e no mundo católico em geral. Continua arder e ninguém percebeu ainda muito bem até onde é que este brasume pode alastrar, e que consequências terá.

Se Papa Francisco tivesse pedido a colaboração do Papa Emérito na redação do texto da exortação apostólica, a sua imagem de humildade, que o mundo lhe atribui, sairia grandemente beneficiada. Tenho a certeza de que Bento XVI daria o melhor de si para o ajudar e todos teríamos ficado a ganhar.

Basto 4/2016