Papa canonizará a Jacinta e o Francisco. Mas, e a Lúcia?

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Por Christopher A. Ferrara

O Vaticano anunciou que os videntes de Fátima, Jacinta e Francisco, já beatificados por João Paulo II, vão ser canonizados pelo Papa Bergoglio, depois da recente aprovação de um segundo milagre atribuído à sua intercessão. A cerimónia terá lugar provavelmente em Maio, durante a peregrinação do Papa a Fátima.

São realmente boas notícias e há muito esperadas. Mas há algo mais a respeito do acontecimento de Fátima também muito esperado: a canonização da Irmã Lúcia. Ela é claramente a principal vidente, a quem foi concedida uma vida longa neste mundo com o propósito de registar e dar a conhecer as revelações da Virgem. A Jacinta e o Francisco faleceram no espaço de três anos após as aparições. Na verdade, a Virgem profetizou perante a Lúcia que os seus dois primos iriam deixar brevemente este mundo, mas que ela teria de permanecer “mais algum tempo”. Como Nossa Senhora explicou à Lúcia: “Jesus quer servir-Se de ti para me fazer conhecer e amar.”

Foi Lúcia a quem Nossa Senhora ordenou que aprendesse a ler e a escrever para cumprir sua missão terrena, uma ordem que ela obedeceria, abandonando a sua infância em 1921 para ingressar no internato de um convento.

Foi a Lúcia que escreveu as quatro Memórias e a volumosa correspondência que preservaram o acontecimento de Fátima em todos os seus detalhes e com todas as suas implicações – sobretudo o Grande Segredo revelado a 13 de julho de 1917, incluindo sua terceira parte, vulgarmente conhecida como o Terceiro Segredo de Fátima.

Foi Lúcia quem se tornou uma freira de clausura em Espanha e foi informada por Nossa Senhora em 1929, em Tuy, que “chegou o momento” para a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria.

Foi Lúcia quem, ao longo de toda uma vida de testemunho, contradisse a afirmação absurda de que a Rússia poderia ser consagrada sem a referência específica à Rússia (pois os habilidosos membros do aparelho do Vaticano consideraram inoportuno seguir as instruções explícitas de Nossa Senhora, de modo a não ofender os russos com tamanha obscenidade não-ecuménica).

Foi Lúcia quem, na sua Quarta Memória, gravou as linhas iniciais do Terceiro Segredo fazendo antever uma profecia mariana relativa a uma grande crise de fé e de disciplina na Igreja: “Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé, etc.” – palavras da Virgem evitadas pelo Vaticano como se fossem uma praga e cuja omissão flagrante na narrativa “oficial” de Fátima recusa a explicar.

E foi Lúcia quem, no final dos anos 90, advertiu o cardeal Caffarra sobre a batalha que estamos a assistir desde o “Sínodo sobre a Família” e da publicação da desastrosa Amoris Laetitia: “A batalha final entre o Senhor e o reino de Satanás será sobre o Matrimónio e a Família”.

Tudo isto devemos à Irmã Lúcia dos Santos e só a ela. Ainda assim, apesar de a sua causa de beatificação ter sido acelerada durante o reinado de Bento XVI (que prescindiu do normal de período de espera de cinco anos), ela ainda não foi beatificada, enquanto os seus dois primos serão brevemente elevados aos altares.

Porquê? Por que razão concreta o Papa Bergoglio não exerceu a sua suprema autoridade apostólica para acelerar o processo de canonização de Lúcia, dado que o seu processo de beatificação se encontrava, em fevereiro, finalmente concluído ao nível diocesano? Ele não mostrou qualquer hesitação em prescindir dos comuns trâmites processuais em outros casos. Sendo o mais conhecido, aquele em que dispensou a habitual necessidade de dois milagres para canonizar João XXIII, baseando-se apenas num relato pouco substancial de uma cura milagrosa (de uma hemorragia gastro-intestinal reportada a 1966, sem nada desde então).

Como observa ironicamente o jornal Washington Post: “Em três casos, Francisco elevou santos que não possuiam um único milagre satisfatoriamente confirmado”. O método empregado denomina-se canonização “por equipolência”, que a Rádio Vaticano explicou da seguinte forma, depois de Francisco o ter empregado para canonizar dois canadianos na ausência de milagres verificados: “Quando há uma devoção forte entre os fiéis relativamente a homens e mulheres santos que não foram canonizados, o Papa pode optar por autorizar sua veneração como santos sem passar por todo esse processo.”

A impressão que fica é a de um lento arrastar do reconhecimento da inegável santidade e virtude heroica da vidente de Fátima a quem o Céu atribuiu a missão de dar a conhecer a Mensagem de Fátima e preservar o seu conteúdo para a posteridade. Talvez este estado de coisas tenha algo a ver com o facto de a Irmã Lúcia ser portadora de más notícias para o aparelho do Vaticano que presidiu ao colapso da fé e da disciplina que a Igreja sofreu desde o Vaticano II. Precisamente, a crise que, sem dúvida, foi anunciada naquela parte do Terceiro Segredo que o Vaticano considerou inadmissível porque acusa uma grande parte da atual liderança da Igreja – desde topo.

A Jacinta e o Francisco, por outro lado, podem ser canonizados sem qualquer referência ao conteúdo explosivo da Mensagem que Irmã Lúcia fielmente registou e defendeu incansavelmente contra um revisionismo de Fátima que reduziu todo o acontecimento de Fátima a uma mera prescrição de oração pessoal e penitência, eliminando as suas inconvenientes profecias admoestadoras, incluindo aquela que se refere a uma hierarquia infiel.

O leitor que decida qual é o motivo para esta aparentemente inexplicável disparidade de tratamento para com uma dos três videntes de Fátima. Para mim, no entanto, a conclusão parece óbvia: a Irmã Lúcia é uma indesejada mensageira cuja mensagem indesejada seria certificada com a sua canonização.

A edição original deste texto foi publicada pelo Fatima Center no dia 24 de março de 2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do texto acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 3/2017

Beatos Francisco e Jacinta Marto têm o caminho aberto para a canonização

O Papa Francisco aprovou o milagre atribuído à intercessão dos beatos Francisco e Jacinta Marto. A canonização dos dois pastorinhos, beatificados a 13 de maio de 2000, em Fátima, pelo Papa João Paulo II, dependia do reconhecimento de um milagre atribuído à sua intercessão, de acordo com as normas atualmente em vigor na Igreja Católica.

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Comunicado do Gabinete de Imprensa da Santa Sé, 23/03/2017

Deste modo, todos os trâmites processuais foram já ultrapassados e a canonização dos beatos Francisco e Jacinta deverá ser agendada para breve, possivelmente para 13 de maio. Esta informação é particularmente significativa neste momento em que se aproximam as datas importantes da celebração do centenário das aparições de Fátima.

Atestar oficialmente a santidade dos pastorinhos é reconhecer a importância da mensagem de Nossa Senhora de Fátima no atual momento de crise de Fé que atravessa visceralmente a Igreja Católica, principalmente no que se refere à urgência da necessidade a conversão.

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Confio no Imaculado Coração de Maria (imagem editada para evitar eventuais “dubia”) – Vídeo do Papa (01/2016)

A santidade dos pastorinhos foi desde sempre reconhecida e admirada por todos nós, mas agora será oficial e motivo de alegria.

Cantemos, alegres, a uma só voz:
Francisco e Jacinta rogai por nós

Salve, salve, pastorinhos
Nosso encanto e alegria
Salve, salve, pastorinhos
Prediletos de Maria

Vossos olhos inocentes
Contemplaram a Senhora
Dos seus filhos peregrinos
Carinhosa protetora
Sacrifício e oração
Foi a vossa vida inteira
Ao convite maternal
Da Senhora da azinheira

Praticando a caridade
Entregáveis com carinho
A merenda que leváveis
Ao primeiro pobrezinho

Caminhantes neste mundo
Ajudai-nos, cada dia
A viver sempre seguros
Sob o manto de Maria
A Senhora do Rosário
Pela Vossa intercessão
Abençoe o Santo Padre
E nos leve à conversão

Contemplando Deus no Céu
Pelos anjos adorado
Alcançai o dom da paz
Para o mundo extraviado

Protegei a nossa Pátria
Para que, à sombra da cruz
Guarde sempre a Fé Cristã
E a verdade de Jesus

(de A. Cartageno)

Basto 3/2017