Na Ucrânia, um bispo entra na Igreja

Como um bispo ortodoxo ucraniano conduziu a sua diocese à plena comunhão com Roma.

Por Anatolii Babynskyi

O arcebispo D. Ihor Isichenko, ao centro, junto ao Arcebispo-mor D. Sviatoslav Shevchuk, à direita, abençoam a primeira pedra de uma nova igreja, em 2018. Foto: Igreja Greco-Católica Ucraniana. 

O arcebispo D. Ihor Isichenko é um bispo incomum. Ele é um intelectual formidável e um estudioso literário sério. Ele tem sido um líder entre os crentes ortodoxos ucranianos por mais de duas décadas. E há sete anos, ele iniciou um caminho que levou sua diocese ortodoxa à plena comunhão com a Igreja Católica, mesmo em meio a cismas e fraturas entre os crentes ortodoxos ucranianos e durante uma guerra que mudou drasticamente a vida em seu país.

O arcebispo Isichenko entrou em plena comunhão com a Igreja Greco-Católica Ucraniana no início deste ano; as paróquias da diocese que ele liderou agora fazem parte do Exarcado Católico Ucraniano de Kharkiv e da Arquieparquia de Kiev. Com o estatuto de arcebispo emérito, Isichenko liderará agora também uma filial da Universidade Católica Ucraniana.

A notável história do arcebispo começou décadas atrás, quando a Ucrânia declarou sua independência, a União Soviética caiu e o Patriarcado de Moscovo perdeu o monopólio da religião no país.

Em 1989, a Igreja Greco-Católica Ucraniana, que havia sido destituída de seu estatuto legal em 1946, foi legalmente autorizada a existir novamente na Ucrânia. A maior das 23 Igrejas Católicas Orientais em plena comunhão com Roma saiu das catacumbas.

Ao mesmo tempo, alguns crentes ortodoxos ucranianos começaram a pressionar para uma espécie de autocefalia – por uma Igreja Ortodoxa separada da jurisdição e supervisão do patriarca ortodoxo russo em Moscovo.

O movimento não foi homogéneo. Em vez disso, duas estruturas surgiram no início de 1990, que reivindicavam a jurisdição autocéfala no país: a Igreja Ortodoxa Autocéfala Ucraniana (IOAU) e a Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Kiev (IOU-PK).

Ambas as estruturas tinham problemas internos. Mas em meados da década de 1990, a IOU-PK ficou sob a liderança do Patriarca Filaret, que, durante a era soviética, serviu como exarca da Igreja Russa na Ucrânia e foi um dos principais candidatos ao trono do Patriarcado de Moscovo, em 1990.

Com Filaret no comando, a IOU-PK conseguiu estabilizar a sua estrutura. Com o tempo, começou a reivindicar o papel de igreja “estatal” ucraniana.

A IOAU teve menos sucesso na Ucrânia. Em alternativa, concentrou-se nas Igrejas Ortodoxas Ucranianas na diáspora, nos Estados Unidos e no Canadá, que ao longo do tempo se retiraram dos assuntos ucranianos. Muitas paróquias afastaram-se gradualmente da IOAU e entraram na jurisdição de Constantinopla.

No espaço de uma década, a IOAU começou a fragmentar-se. Desde o início dos anos 2000, existe como um conjunto de dioceses quase independentes, unidas apenas por um nome comum.

Em 2018, a recém-criada Igreja Ortodoxa da Ucrânia absorveu a maioria das igrejas, clérigos e recursos da IOU-PK e da IOAU. Sendo a maior estrutura que reivindicava a jurisdição ortodoxa autocéfala na Ucrânia, recebeu o reconhecimento de autocefalia da parte do Patriarca de Constantinopla, em 2019.

Mas nem todos seguiram esse caminho.

A diocese de Kharkiv-Poltava da IOAU, que cobria o Nordeste da Ucrânia, seguiria uma direção muito diferente.

A diocese tornou-se um importante centro para o movimento autocéfalo logo depois da sua fundação em 1992. A sua catedral de São Demétrio, em Kharkiv, tornou-se, ao longo dos anos, um centro cultural e educacional que ministrava formação teológica a futuros sacerdotes da IOAU.

E há sete anos, o arcebispo Isichenko e a diocese de Kharkiv-Poltava da IOAU entenderam que as divisões entre as fações ortodoxas ucranianas se tornaram muito profundas, que a unidade entre as igrejas ortodoxas da Ucrânia era improvável.

A diocese decidiu tornar-se católica – unir-se à Igreja Greco-Católica Ucraniana (IGCU).

A 1 de abril de 2015, uma assembleia eparquial declarou que “estava convencida da impossibilidade de unificação canónica com as Igrejas Ortodoxas Ucranianas na diáspora, rejeitou as formas não canónicas de unificação das Igrejas e acreditou na perspetiva da comunhão da Igreja ucraniana com as Igrejas da antiga e da nova Roma”.

Com um pedido formal, a diocese solicitou ao sínodo dos bispos da Igreja Greco-Católica Ucraniana “conselhos fraternos para alcançar a comunhão eucarística e a unidade administrativa da diocese Kharkiv-Poltava da Igreja Ortodoxa Autocéfala Ucraniana com a Igreja Greco-Católica Ucraniana”.

O processo para alcançar a unidade não foi fácil, levou quase sete anos. E, de acordo com o arcebispo Isichenko, que lidera a diocese desde 1993, nem todos na diocese seguiram o plano de unir a sua diocese local à Igreja Católica – algumas paróquias juntaram-se a outras comunhões ortodoxas.

“Devo dizer que a maioria dos padres ficaram assustados. Por vários motivos: seja pelo medo de perder o sustento do rebanho, pela falta de compreensão dos fiéis de tal passo, porque estavam sobrecarregados por vários tipos de mitos anticatólicos, ou pelo conservadorismo humano comum, o medo de algo novo”, disse ele ao The Pillar.

No entanto, “as congregações mais maduras apoiaram a ideia e juntaram-se então ao Exarcado de Kharkiv e à Arquidiocese de Kiev da IGCU”.

Embora as paróquias tenham sido totalmente incorporadas na estrutura da Igreja Católica Ucraniana nos últimos dois anos, a condição do arcebispo não fora esclarecida até esta primavera, depois o início da invasão em larga escala da Rússia na Ucrânia.

“Eu aposentei-me e agora sou arcebispo emérito, mantendo a minha autoridade como chefe do Collegium do Patriarca Mstyslav, que este ano adquire o estatuto de projeto da Universidade Católica Ucraniana em Kharkiv”, explicou o arcebispo.

O arcebispo D. Ihor Isichenko, à esquerda, junto ao arcebispo-mor D. Sviatoslav Shevchuk, ao centro, benzem a primeira pedra de uma nova igreja, em 2018. Foto: Igreja Greco-Católica Ucraniana.

Desde os seus primeiros dias, o arcebispo Isichenko foi uma figura um tanto atípica na ortodoxia ucraniana. Na época da sua tonsura monástica e ordenação sacerdotal, ele era professor de história da literatura na Universidade Estadual de Kharkiv.

Liderou uma diocese durante 27 anos, sem interromper as suas atividades académicas e docentes.

É autor de tratados académicos sobre a história da literatura medieval e barroca ucraniana, literatura ascética e a polémica ortodoxo-católica dos séculos XVI-XVII. Na verdade, ele é um dos maiores especialistas do mundo no seu campo de estudo.

Mas para explicar a decisão que a sua eparquia tomou – a decisão de tornar-se católica – o arcebispo olhou para a história mais recente.

Explicou que a sabedoria do seu plano não pode ser compreendida sem entender a experiência dos ortodoxos ucranianos durante o século XX e o colapso da União Soviética.

“A restauração da independência da Ucrânia também possibilitou a restauração da IOAU, cujas estruturas na época sobreviveram apenas na diáspora. Mas as igrejas nos Estados Unidos e no Canadá estavam bastante esgotadas, não podiam prestar assistência efetiva à Igreja reavivada na sua terra natal. Por outro lado, a comunidade ortodoxa autocéfala ucraniana precisava reconstruir a identidade da ortodoxia de Kiev, como era antes da sua subordinação a Moscovo no século XVII. A tarefa não era reviver, mas reconstruir”, explicou o arcebispo.

“Ainda assim, as fraquezas neste caminho foram imediatamente evidentes: uma base espiritual fraca, uma falta de durabilidade da tradição monástica, etc. A IOAU nunca foi capaz de criar um único mosteiro ou uma única escola académica significativa. Houve ainda vários cismas infames que a Igreja sofreu e – mais importante – esforços constantes de funcionários do Estado e de algumas forças da Igreja para formar uma Igreja ‘estatal’. Tudo isso conduziu à desilusão perante a perspetiva desse caminho.”

O arcebispo Isichenko explicou que, com o tempo, tornou-se evidente que uma tendência permanecia constante na Igreja Ortodoxa desde os tempos bizantinos, que era a tendência para a governamentalização da Igreja e a cooperação mais estreita entre a Igreja e o Estado.

“Servi como bispo governante da IOAU de 1993 a 2020, até à minha renúncia. Fiquei convencido de que a ideia da ortodoxia como alternativa ao catolicismo leva à formação de ‘Russkiy mirs – mundos russos’ em miniatura ou no sentido pleno da palavra.

“Seja na Sérvia ou na Rússia… Infelizmente, essa tendência existe também na Ucrânia. Tal particularismo bloqueia a natureza universal da Igreja, a sua catolicidade”.

O arcebispo disse ainda que a sua diocese começou a considerar a perspetiva de unidade com a Igreja Católica quando a iniciou a agressão russa contra a Ucrânia, em 2014, quando assistiu ao uso da Igreja Ortodoxa Russa para promover o imperialismo russo.

“O que está a ser feito com a Ortodoxia de Moscovo é o grande drama do mundo inteiro. A ideologia da ‘Russkiy mir’ mostra a todas as Igrejas Ortodoxas o perigo de inverter o sistema de prioridades – a perda da prioridade dos valores cristãos sobre as prioridades nacionais, estatais, políticas ou partidárias”, explicou ao The Pillar.

Os padres da ex-diocese de Kharkiv-Poltava da UAOC, que se uniram à Igreja Católica Ucraniana com suas congregações este ano, disseram ao The Pillar que se sentiam confiantes na sua opção, por causa da sua confiança no arcebispo Isichenko.

O Pe. Ihor Lytvyn, que liderou uma paróquia da IOAU em Poltava, explicou que, mesmo antes de 2015, as relações entre a IGCU e a sua diocese eram amigáveis. Os greco-católicos ensinavam frequentemente no Collegium do Patriarca Mstyslav, onde recebeu a sua formação teológica.

E na sua paróquia, os paroquianos sentiam uma afinidade com os católicos ucranianos, disse ele.

“Não foi surpresa para os meus paroquianos. Então, quando a nossa diocese estava em crise, eles solidarizaram-se com o caminho escolhido pelo arcebispo. A maioria votou pela transição, embora alguns se tenham afastado da paróquia. Pessoalmente, sempre estive convencido de que quem não é ortodoxo é um herege e que quem não é católico é cismático. Portanto, para mim, nunca houve oposição entre os conceitos de ‘ortodoxo’ e ‘católico’”, disse o Pe. Lytvyn.

O Pe. Oleh Bondaruk, que agora serve na arquidiocese de Kyiv da IGCU, foi ordenado sacerdote em 2016, quando a diocese de Kharkiv-Poltava já havia iniciado o seu diálogo de reunião com a UGCC. Em 2018, a sua paróquia optou por transferir-se para a Igreja Ortodoxa Ucraniana, mas Bondaruk decidiu tornar-se católico.

O Pe. Bodnaruk explicou ao The Pillar que o seu caminho era um pouco diferente do de outros clérigos da diocese, o que facilitou para se tornar um padre católico.

“A maioria dos padres que não migraram para a IGCU foram ordenados há vários anos. E eu acho que o limite mais difícil para uma pessoa ultrapassar na vida é o limite interconfessional. Eu fui ordenado no momento em que a diocese de Kharkiv-Poltava já havia iniciado o seu movimento de união com a IGCU. A minha escolha foi consciente.”

“Por outro lado, embora tenha sido batizado na Igreja Ortodoxa, cresci num ambiente católico romano, na região de Khmelnytskyi, e tenho muitos polacos na minha família. Frequentei uma igreja católica romana desde o oitavo ano. Até fui para um seminário católico romano por um ano. Mas depois mudei-me para Boyarka, perto de Kiev, e afastei-me um pouco da Igreja. Um dia pediram-me para dar uma boleia ao Arcebispo Ihor até Kaniv e o nosso conhecimento provocou-me um grande impacto. Então tornei-me um padre ortodoxo.”

O Pe. Viacheslav Trush, de Lozova, na região de Kharkiv, disse ao The Pillar que, perante uma questão tão difícil, ele e a sua congregação procuraram, acima de tudo, discernir a vontade de Deus a respeito do caminho que deveriam seguir.

“Um fator importante que influenciou a minha decisão foi também estudar e compreender a experiência da Igreja Católica, familiarizar-me com a sua doutrina, dogmas e história, tanto a nível global como na Ucrânia. Portanto, a nossa escolha baseou-se não apenas na confiança no nosso bispo, mas também no aprofundamento do nosso conhecimento da Igreja Católica”, explicou.

“Na paróquia, discutimos muitas questões e estudamos a história da Igreja. Tudo isso deu frutos. Temos um ambiente muito familiar na comunidade, onde o padre e os fiéis discutem tudo entre si, portanto não há segredos. Deste modo, quando anunciei a decisão do conselho diocesano, os fiéis encararam isso com confiança em mim e no arcebispo Ihor”.

 Postal do séc. XIX da Igreja de São Demétrio, em Kharkiv. Foto: domínio público.

Ksenia Pidopryhora, da Igreja de São Demétrio em Kharkiv, foi forçada a deixar a cidade em março de 2022, por causa da guerra, vivendo agora em Lviv.

Ela contou ao The Pillar que sonhava em voltar para sua cidade natal e para a sua paróquia, à qual pertence desde os seis anos de idade. Pidopryhora explicou que começou por questionar a nova unidade da paróquia com Roma, mas agora é favorável, apoia a mudança.

“Em primeiro lugar, foi o conhecimento pessoal do clero e paroquianos da IGCU em Kharkiv, bem como a observação de figuras conhecidas que representam a IGCU no mundo, como o ex-líder da IGCU, Lubomyr Husar, de abençoada memória, ou o extraordinário intelectual, o Bispo Borys Gudziak. As suas palavras e ações correspondiam à minha ideia do que deveria ser a vida para os cristãos num mundo moderno, vida em unidade. Consequentemente, o desejo de fazer parte dessa unidade era natural”.

“Além disso, a própria IGCU, como instituição, tinha – e tem – uma reputação excecionalmente positiva de consistência e unidade, em contraste com a comunidade da Igreja Ortodoxa na Ucrânia, cujas divisões e brigas vivenciámos como paróquia. Também a transparência em responder a quaisquer perguntas do clero da nossa diocese e a própria possibilidade de ver, conversar e fazer perguntas durante esse processo contribuiu para a consciencialização da conveniência e lógica dessa ‘transição’”, explicou Pidopryhora.

Apesar da sua tradição litúrgica bizantina comum, existem algumas diferenças litúrgicas entre a Igreja Greco-Católica Ucraniana e a Ortodoxia Ucraniana. Pidopryhora confessou estar grata pelo facto de as paróquias da antiga diocese de Kharkiv-Poltava manterem certos costumes específicos de culto, mesmo depois de se terem tornado católicas.

“Felizmente, a ausência de alterações na ordem do culto e o direito de observar o calendário religioso como era antes da ‘transição’ ajudaram os paroquianos da nossa igreja a integrarem-se tranquilamente na vida da Igreja, como membros plenos da IGCU”, explicou ela.

O bispo D. Vasyl Tuchapets, exarca da IGCU em Kharkiv, disse ao The Pillar que as diferenças litúrgicas entre as paróquias da IGCU e as antigas comunidades da diocese de Kharkiv-Poltava da IOAU não eram fundamentais, diziam respeito a nuances rituais.

Mas em todos os outros aspetos, as comunidades estão totalmente integradas na vida do exarcado. Os seus pastores participam em retiros e encontros conjuntos, cursos de formação do exarcado e outros projetos da Igreja.

Por sua vez, o Pe. Trush disse que a “integração” foi uma experiência positiva, para ele e para a sua paróquia.

Anteriormente, a sua vida paroquial parecia isolada – cercada pelas divisões e políticas das igrejas ortodoxas na Ucrânia. Mas agora, disse ele, as coisas mudaram.

“Agora sentimos que pertencemos a uma comunidade global – a Igreja Greco-Católica e a Igreja Católica espalhadas pelo mundo, há um sentimento de apoio. Para mim pessoalmente, como padre, isso é muito importante”, concluiu o sacerdote.

Fonte: The Pillar in pillarcatholic.com em 6 de setembro de 2022 (tradução nossa).

“Precisamos de tolerância zero para com Putin”. Entrevista exclusiva ao líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana

Foto: Secretariado do Arcebispo-mor de Kyiv-Halyc.

Por Matteo Matzuzzi

Sviatoslav Shevchuk: “Isso na Ucrânia não é um conflito, é um crime contra a humanidade, há um criminoso cruel e há uma vítima inocente”. A ideologia do “mundo russo”, o papel da Igreja Ortodoxa em Moscovo, a destruição total nas aldeias e cidades: “O mundo que existia antes de 24 de fevereiro não existe mais. Nem Rússia, nem Ucrânia, nem a Europa Ocidental “

Alguns dizem que está a ocorrer um conflito na Ucrânia, os media ocidentais falam do conflito russo-ucraniano. Não, na Ucrânia não há conflito, porque o conflito sempre evoca um paradigma simétrico: dois grupos, um contra o outro, cada um com as suas próprias razões. Isso não é a realidade que se vê na Ucrânia, não há duas razões e não há verdade no meio. Aqui há um criminoso, aquele que ataca. E aqui está a sua vítima”. Sua Beatitude Sviatoslav Shevchuk, líder e pai da Igreja Greco-Católica Ucraniana, da qual também é arcebispo-mor, é claro na sua avaliação da tragédia que está a ocorrer na Europa Oriental. Nesta entrevista exclusiva concedida ao Foglio, Shevchuk descreve cinco meses de guerra, o que vê todos os dias com os seus próprios olhos e denuncia certos “mal-entendidos” ocidentais, a tendência de encontrar alguma boa razão (ou pelo menos explicável) na agressão ordenada por Moscovo.

Sua Beatitude, no Ocidente muitas vezes temos dificuldade em entender o motivo desta guerra. Talvez estejamos a usar critérios errados, talvez não entendamos completamente a ideologia que levou Vladimir Putin a atacar a Ucrânia. Fala-se da “ideologia do mundo russo”. Qual é a sua opinião sobre o assunto? 

“Há muitas opiniões e debates sobre os motivos por que a Rússia atacou a Ucrânia em grande escala, trazendo destruição, sofrimento e morte ao nosso país. Não gostaria de entrar em detalhes nestes temas sofisticados e incompreensíveis para o nosso povo, mas posso falar como testemunha ocular de tudo o que vi pessoalmente, mas sobretudo como pastor das almas em sofrimento. A Ucrânia é vítima da agressão russa desde 2014, mas desde 24 de fevereiro, nós, ucranianos, entendemos que não se trata apenas de uma guerra de um país contra outro, muito menos de uma simples “operação militar”. Visitando as cidades ucranianas que foram ocupadas pelo exército russo e depois libertadas, vi a tragédia das valas comuns de civis, ouvi vários testemunhos de vítimas de violação perpetrados por soldados russos, ficamos abalados com o testemunho excruciante dos cadáveres executados e abandonados nas ruas das nossas cidades. Infelizmente, estes não são casos únicos, vemos as ações sistemáticas do exército de Putin ao povo inocente da Ucrânia. Foram encontradas valas comuns em Bucha, Mariupol, Makariv e provavelmente haverá outras; houve muitos casos de tortura em civis, incluindo crianças. Já morreram cerca de 300 menores às mãos das tropas russas. Basta pensar que perto da velha cidade de Chernihiv, considerada pela Igreja Ortodoxa como património histórico, o exército russo construiu uma câmara de tortura! Torturaram pessoas das aldeias de Yahidne e Lukashivka no edifício da igreja. Muitos corpos mutilados foram encontrados à volta da igreja. Hoje é cada vez mais evidente, pelo menos para nós na Ucrânia, que a guerra russa contra a Ucrânia tem uma base ideológica clara chamada ideologia do mundo russo.”

Pode explicar-nos em que consiste?

“Para responder a essa pergunta, gostaria de me referir à contribuição de Timothy Snyder, o conhecido estudioso da Shoah no território da antiga União Soviética. Ele mesmo reagiu imediatamente à publicação, na página russa Ria Novosti, de um documento que explicava as razões e ordens dadas aos soldados russos para a sua missão na Ucrânia. Uma declaração intitulada ‘O que a Rússia deve fazer com a Ucrânia’, redigida por Timofey Sergejtsev, explica o que Moscovo entende por desnazificação, um dos objetivos da guerra na Ucrânia proclamado por Putin. Convido a comunidade europeia a ler atentamente esse texto para compreender em que consiste a ideologia do mundo russo. Timothy Snyder apelidou-o de manual do genocídio russo. Ele escreve: o manual russo é um dos documentos mais abertamente genocidas que já vi. Além disso, gostaria de salientar que muitos importantes teólogos das Igrejas Ortodoxas de todo o mundo condenaram a ideologia do ‘mundo russo’ como uma heresia totalitária do fundamentalismo religioso etnofilético. E um número importante de políticos relevantes identifica-a como uma forma de nacionalismo radical que pretende espalhar-se pelo mundo. A ideologia do ‘mundo russo’ nega ao povo ucraniano o direito de existir, como a ideologia da Alemanha nazista fez com o povo judeu. Desta forma, propõe-se uma nova ideologia autoritária que, nascida na Rússia graças à propaganda massiva, encontra – mesmo que pareça estranho – seguidores no Ocidente. Posso apenas testemunhar que os invasores estão a cometer, literalmente, crimes de guerra conforme prescrito no texto ‘O que a Rússia deve fazer‘. Para a população civil, tudo isso representa uma crueldade sem precedentes”. 

Recorre-se a justificações políticas e geopolíticas para explicar o que aconteceu, contando os tanques russos que entraram na sua terra natal. Mas há também, digamos, um elemento cultural que levou à guerra? Por que razão a Ucrânia é tão assustadora para Moscovo?

“A história do povo ucraniano é uma história que faz parte da história europeia, somos um povo europeu que na sua história moderna reafirmou a sua escolha a favor dos princípios e ideais da comunidade europeia. Infelizmente, na Rússia, hoje podemos ver uma síntese entre a mentalidade soviética e a imperial. A Ucrânia é hoje vítima dessa reconstrução perversa das fronteiras da ‘grande Rússia’. Tentam sempre apresentar a sociedade ucraniana como aquela que está sob a influência da imoralidade ocidental. Precisamente daí surge uma intolerância para com tudo ‘que não é nosso’, provocando e justificando o uso da violência para eliminar todos os ‘contaminados’. Uma imagem desse ‘Ocidente coletivo’ que deve ser combatido está hoje a ser projetada na Ucrânia. Para evocar uma memória histórica desse inimigo para fazer a guerra usa-se a palavra ‘nazismo’, que perdeu todo o sentido original, sendo hoje geralmente aplicada a todas as coisas ocidentais’ identificadas na identidade de um povo. Por isso, um ucraniano é referido como um herege nazi. É cada vez mais evidente que a Rússia entrou em conflito cultural não apenas com a Ucrânia, mas com tudo o que definimos como civilização ocidental. O processo de zombificação da população russa pelo regime do Kremlin produziu um tipo de sociedade antropológica muito perigosa. Repare como as valas comuns na Ucrânia se tornam motivo de alegria para muitas pessoas na Rússia. Sem compaixão, sem raciocínio sobre as razões desta guerra absurda. Infelizmente, até mesmo ao mais alto nível da Igreja Ortodoxa Russa. Assistimos de facto a uma justificação cristã da guerra russa contra a Ucrânia e à glorificação dos crimes de guerra e da ideologia da violência.”

Vimos os corpos nas valas comuns com as mãos amarradas nas costas. Os cadáveres nas ruas. Acha que há razões para se falar de genocídio do povo ucraniano?

“Não encontro outras explicações. E as razões proclamadas pelo presidente russo não têm fundamento. O verdadeiro objetivo da agressão russa é a aniquilação do povo ucraniano. Isso é confirmado tanto pelos discursos ideológicos do próprio Putin, que tantas vezes fazem referência à história ucraniana, quanto pelos crimes de guerra cometidos pelos seus soldados na nossa terra. Efetivamente, é difícil considerar isto apenas uma guerra. Desde o primeiro dia da invasão russa à Ucrânia, temos visto crimes de guerra contínuos que não param nem de dia nem de noite. Alguns dizem que há um conflito a acontecer na Ucrânia. De facto, vejo que, ultimamente, os media ocidentais falam do conflito russo-ucraniano. Não há conflito na Ucrânia. Porque o conflito sempre evoca um paradigma simétrico de discurso, conflito significa que existem dois grupos, cada um deles tem a sua própria razão e estão em conflito. E quem busca a verdade ou quer mediar o conflito sempre escuta um lado, o outro lado, e intuitivamente diz que a verdade está no meio. Isso significaria encontrar uma solução para o conflito. Mas, na verdade, não existe esse tipo de realidade na Ucrânia. Não existem duas razões e não existe uma verdade média, mas existe um criminoso, aquele que ataca, e existe a sua vítima. Não se pode dizer que haja algum tipo de conflito de interesses porque, nesse caso, colocaríamos no mesmo patamar o criminoso e a sua vítima. Portanto, também neste caso, como Igreja, devemos declarar ‘tolerância zero’ para com o criminoso. Acho que precisamos de parar de falar do conflito para passarmos a falar do crime de guerra na Ucrânia. Devemos parar de tentar defender os interesses do agressor e mediar os interesses do agressor e do agredido porque isso, de facto, não corresponde à realidade e à verdade, a verdade objetiva dos factos ocorridos. Tolerância zero para com o uso da violência… Se o interesse de um Estado provoca a guerra e está a condenar à morte um povo de mais de 40 milhões, então não é mais interesse, é crime. As razões que podem explicar ou justificar essa agressão não podem ser aceites pela civilização de hoje. Na Ucrânia está a ser cometido um crime contra a humanidade, existe um criminoso cruel e existe uma vítima inocente. Por isso, é também importante encontrar os termos certos para descrever tudo o que acontece na Ucrânia, uma vez que a palavra ‘guerra’, com o significado que temos em mente, não é mais a que pode descrever esta tragédia. Se alguém tiver alguma dúvida, convido-o a vir à Ucrânia e ver por si mesmo.”

O seu povo conheceu imensas tragédias, penso apenas em Holodomor dos anos 30, também descrito por Vasiliy Grossman, que falou da dor das mães obrigadas a ver os seus filhos morrer de fome. No entanto, os ucranianos sempre se levantaram. Qual é a força do seu povo?

“Acho que não podemos explicar numa só frase em que consiste essa força. De acordo o meu entendimento pessoal e de acordo com a experiência de como se vive a guerra nessas condições, vem-me à mente o nosso filósofo Hryhoriy Skovoroda (1722-1794), que disse – quando a rainha imperatriz Catarina o quis perto de si – que ‘a flauta e as ovelhas são mais preciosas para mim do que a coroa do rei’. Graças à sua filosofia, ele foi capaz de compreender o modo de vida do nosso povo. Ou seja, são as pessoas que acreditam na ressurreição que, através da sua cultura e filosofia nacional, veem que a vida humana é maior do que somente a vida terrena. No túmulo de Skovoroda estão as suas palavras: ‘O mundo queria me agarrar, mas não conseguiu’. Apenas isso, a fé na ressurreição e o amor à liberdade foram sempre a força do nosso povo, não para renunciar, mas para se levantar e seguir em frente. Há outro ditado popular: ‘Pensavam que seríamos enterrados para sempre, mas acabámos por ser uma semente que dá vida nova’. Talvez, mesmo agora que nosso povo está a lutar, ele está a levantar-se depois de tantas ondas de genocídio precisamente porque o Senhor nos faz ressuscitar.”

Diante de um Ocidente que muitas vezes se preocupa em discutir sobre todas as fronteiras, tréguas e mediações, o que tem vontade de dizer como pastor?

“Acho que temos que recomeçar, mas respeitando a dor da vítima. Ouçam o clamor das pessoas que estão condenadas à morte. Isso levar-nos-á a entender como devemos hoje construir a convivência entre povos e nações no terceiro milénio, porque sabemos que todas as construções mentais humanas são relativas. Se partirmos do bem-estar ou dos interesses das potências deste mundo, e se os interesses económicos prevalecerem sobre a vida humana, sobre o seu preço inexorável, então, como humanidade, estaremos acabados. Mas se partirmos do respeito pela vida humana, fazendo dela uma estratégia, uma política, até uma pastoral, começaremos pela preocupação de proteger os mais fracos, então poderemos sobreviver e reconstruir uma comunidade, mesmo a nível internacional, mais justa do que a que temos agora.”

O que viu ao visitar as aldeias devastadas por estes meses de guerra? Que emoções sentiu diante do massacre?

“A guerra não é um jogo. Parece-me que, às vezes, no Ocidente, com a palavra ‘guerra’ em mente, estão a ser feitos jogos eletrónicos. Infelizmente, aqueles que planeiam guerras nunca souberam o que realmente é uma guerra. Mas vendo a realidade da guerra na Ucrânia, estamos a lidar com a destruição total. Cidades inteiras e aldeias tornaram-se cidades e aldeias fantasmas. Também as valas comuns sem fim. E surge a pergunta: podemos viver nessas condições? O mundo quer sobreviver ou planeia a guerra? E outra pergunta: sabemos que um dia de guerra contra a Rússia custa quatrocentos milhões de dólares. Somente um dia. Então, quem é aquele que investe na morte com a mente diabólica? E se com esse dinheiro construíssemos, salvássemos vidas, não faríamos o futuro melhor na própria Rússia? E se esse dinheiro fosse investido justamente para melhorar as condições de vida dos milhões de cidadãos daquele país? Em vez de gastar tão facilmente para matar os outros… Isso significa que a guerra é sempre um crime, é sempre uma loucura, uma loucura. Quanto mais difícil, mais evidente isso se torna. A guerra travada na Ucrânia é um crime contra a humanidade.”

Você acha que quando a guerra acabar, as relações entre as Igrejas presentes na Ucrânia também mudarão?

“Até agora todos nós mudámos. Talvez nem todos tenham entendido ainda que o mundo que existia antes de 24 de fevereiro deste ano não existe mais. Nem a Rússia, nem a Ucrânia, nem a Europa Ocidental, nem os outros países. Num clique, mudámos para sempre. E se as relações entre os homens mudarem, obviamente as relações entre o homem e a sociedade, o homem e qualquer comunidade mudarão, e as relações entre as Igrejas também mudarão. Se falamos das relações entre as Igrejas na Ucrânia, devo dizer que essas relações melhoraram muito, porque estamos unidos como nunca, precisamente em nome da defesa da vida humana. Vemos que todos os particularismos, mesmo todos os interesses particulares egoístas (que às vezes até as Igrejas cultivam) são agora colocados em último lugar porque a questão existencial – como sobreviver junto com nosso povo – agora está em primeiro. Por isso colaboramos. Talvez depois venha também o nível ecuménico, doutrinário, uma reflexão que partirá dessa experiência existencial, mas quando se trata de organizar, por exemplo, um corredor verde para evacuar e salvar a vida de pessoas que estão em perigo iminente de morte, então todos se unem: católicos, ortodoxos, protestantes, muçulmanos e judeus. Colaboram precisamente para se salvar e para salvar os outros.”

Diante das valas comuns, todos rezam juntos…

“Exatamente, porque ali temos todos os nossos paroquianos, os membros das nossas comunidades, os familiares. Esta guerra revela, antes de tudo, que somos todos humanos e só depois pertencemos a uma certa religião. Humanidade, a natureza humana é a base que nos une. Quanto mais humanos nos tornarmos, mais unidos seremos. Mas se cairmos nessa armadilha da desumanização, serão sempre encontradas novas divisões.”

Fonte: www.ilfoglio.it em 26 de julho de 2022 (tradução nossa).

Igrejas do Leste, um espinho no flanco do Papa

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Por Sandro Magister

ROMA, 3 de agosto, 2017 (Settimo Cielo – L’Espresso) – A Europa do Leste é um espinho no flanco do pontificado de Francisco e são muitos e variados os elementos que o comprovam.

No duplo sínodo da família, os bispos da Europa Oriental estiveram entre os mais decididos defensores da tradição, começando pelo relator geral da primeira sessão, o cardeal húngaro Péter Erdõ, autor de, entre outras coisas, uma clamorosa condenação pública das violações cometidas pela fação reformista, que era claramente apoiada pelo Papa.

Depois do sínodo, a Europa do Leste voltou a ser, mais uma vez, a fonte das interpretações mais restritivas do documento papal Amoris Laetitia. Os bispos da Polónia foram particularmente unânimes em pedir uma aplicação do documento em perfeita continuidade com o antigo ensinamento que a Igreja desde a sua origem até João Paulo II e Bento XVI.

Os bispos da Ucrânia – onde 10 por cento da população são católicos – também estão entre os mais dedicados na oposição a ruturas no que concerne à tradição nas áreas do casamento, penitência e Eucaristia. Mas, para além disso, não se abstiveram de criticar fortemente as posições pró-russas do Papa Francisco e da Santa Sé em relação à guerra em curso no seu país, uma guerra que eles sentem como a agressão de mais ninguém a não ser a da Rússia de Vladimir Putin.

O abraço entre o Papa e o patriarca Kirill de Moscovo, no aeroporto de Havana, em 12 de fevereiro de 2016, com o documento associado assinado por ambos, foi também um poderoso elemento de fricção entre Jorge Mario Bergoglio e a Igreja Católica Ucraniana, que se vê injustamente sacrificada no altar desta reconciliação entre Roma e Moscovo.

A morte, no passado dia 31 de maio, do cardeal Lubomyr Husar, o anterior arcebispo-maior da Igreja Greco-Católica Ucraniana, voltou a dirigir a atenção para esta personalidade de elevadíssimo perfil, capaz de reconstruir espiritualmente uma Igreja que emergiu de décadas de perseguição sem qualquer tipo de concessão perante os cálculos diplomáticos – em função de Moscovo e do seu patriarcado – que, ao invés, durante o pontificado de Francisco voltaram a prevalecer.

O sucessor de Husar, o jovem Sviatoslav Shevchuck, é bem conhecido de Bergoglio pela sua anterior atividade pastoral na Argentina. Mas ele também é uma dos críticos mais diretos às tendências do atual pontificado, tanto no campo político como no doutrinal e pastoral.

E “certamente não foi por acaso”, escreveu há três semanas o Papa Emérito Bento XVI aquando da morte do seu amigo o cardeal Joachim Meisner, o indomável arcebispo de Berlim durante o regime comunista, “que a última visita da sua vida foi a um confessor da fé”, o bispo da Lituânia cuja beatificação estava a ser celebrada, um dos inúmeros mártires do comunismo na Europa do Leste que hoje corre o risco de cair no esquecimento.

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Neste contexto emerge naturalmente a questão: nesta região da Europa, qual é o estado de saúde do catolicismo que se sabe estar em sério declínio em outras partes do mundo e particularmente na vizinha Europa Ocidental?

Esta questão recebeu uma resposta exaustiva – ainda que em termos puramente sociológicos – numa pesquisa abrangente realizada pelo Pew Research Center em Washington, que é talvez o barómetro mais confiável do mundo no que diz respeito à presença de religião na cena pública:

> Crença Religiosa e Pertença Nacional na Europa Central e do Leste:

O estudo incidiu precisamente sobre os países da Europa Oriental, quase todos submetidos no passado a regimes comunistas ateístas. E o primeiro facto impressionante neles constatado é o renascimento, em quase todos os lugares, de um sentimento forte e generalizado de pertença religiosa, que para os ortodoxos – uma reconhecida maioria em toda a área – coexiste com uma rara participação nas liturgias dominicais, enquanto que para os católicos é acompanhada de uma participação semanal bastante significativa na Missa: enquanto, por exemplo, na Polónia, 45% dos batizados e, na Ucrânia, 43% marcam presença na liturgia dominical, na Rússia, apenas comparecem 6% dos fiéis da confissão ortodoxa.

A República Checa suportou o peso do ateísmo de Estado, que adicionado a uma hostilidade anti-católica antiga que remonta ao protestantismo “hussita” e a uma posterior recatolicização imposta pelos Habsburgos, fez com que, neste país, 72% da população declare não ser afiliada em qualquer tipo de fé religiosa. Mas também aqui, entre os católicos que representam um quinto da população, a frequência dominical é, mesmo assim, de 22%, mais ou menos tanto como na Itália e muito mais do que na Alemanha, na França ou na Espanha, sem mencionar a Bélgica e a Holanda.

E o mesmo vale para a Bósnia, onde há poucos católicos, apenas 8%, mas o seu comparecimento dominical atinge um robusto valor de 54%.

Vale a pena ler todo o estudo do Pew Research Center  pela riqueza da informação que fornece. Mas aqui basta destacar que os católicos da Europa do Leste se distinguem dos ortodoxos, não apenas pelos seus muito mais elevados índices de prática religiosa, mas também por uma visão geopolítica antagónica.

Enquanto a Rússia ortodoxa é vista como o bastião natural contra o Ocidente, recebendo a aprovação de grandes maiorias, entre os católicos existe uma muito maior frieza para com a Rússia, em especial na Ucrânia e na Polónia, que se inclinam muito mais para uma aliança com os Estados Unidos e o Ocidente.

Uma divergência adicional pode ser ainda encontrada no campo ortodoxo entre aqueles que, como na Rússia, reconhecem o patriarca de Moscovo como a mais alta autoridade hierárquica da ortodoxia e aqueles que optam mais pelo patriarca de Constantinopla do que pelo de Moscovo, como acontece na Ucrânia, com 46% dos ortodoxos pelo primeiro e apenas 17% pelo segundo.

Sobre o casamento, a família, a homossexualidade e temas afins, pelo menos metade dos católicos apoiam as posições tradicionais da Igreja. E uma grande maioria da população total – com a única exceção na República Checa – é contra o reconhecimento legal das uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Mas, agrupando os dados por faixas etárias, é fácil constatar que os jovens adotam cada vez mais a mentalidade permissiva que, na Europa Ocidental – incluindo na Igreja Católica – é já desenfreada.

Uma mentalidade que certamente não encontra qualquer resistência no pontificado de Francisco.

A edição original deste texto foi publicada no blogue Settimo Cielo a 3 de agosto de 2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 8/2017