Joseph Ratzinger: “A crítica aos pronunciamentos papais é possível e até mesmo necessária quando carecem de fundamentação na Escritura e no Credo”

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Em 1969, o futuro Papa Bento XVI, então Pe. Joseph Ratzinger, escreveu que criticar as declarações papais era não só possível mas até necessário, sempre que o Papa pudesse desviar-se do depósito da fé e da tradição apostólica. O Papa Bento XVI incluiu estas observações na antologia dos seus escritos, Fede, ragione, verità e amore, de 2009. Tais observações, que agora publicamos abaixo traduzidas, são particularmente relevantes à luz da correção filial ao Papa Francisco da semana passada:

“Devemos evitar especialmente a impressão de que o Papa (ou o ofício em geral) só pode reunir e expressar, de tempos em tempos, a média estatística da fé viva, para a qual não é possível uma decisão contrária a esses valores estatísticos médios (os quais, para além do mais, são problemáticos em sua verificabilidade).

A fé baseia-se nos dados objetivos da Escritura e do dogma, que nos tempos obscuros também podem desaparecer assustadoramente da consciência da maior parte do cristianismo (em termos estatísticos), sem perder de qualquer forma, contudo, o seu caráter obrigatório e vinculativo.

Neste caso, a palavra do Papa pode e deve certamente ir contra as estatísticas e contra o poder de uma opinião que pretende fortemente ser a única válida; e isso deve ser feito de forma tão decisiva quanto o testemunho da tradição é claro (como no caso apresentado).

Pelo contrário, a crítica dos pronunciamentos papais será possível e até necessária quando carecem de fundamentação na Escritura e no Credo, isto é, na fé de toda a Igreja.

Quando não se tem o consenso de toda a Igreja, nem existem evidências claras das fontes, não é possível uma decisão vinculativa e definitiva. Se tal acontecesse formalmente, faltariam as condições para tal ato e, portanto, teria de ser levantada a questão quanto à sua legitimidade”.

Das neue Volk Gottes: Entwürfe zur Ekklesiologie, (Düsseldorf: Patmos, 1972) p. 144.
Fede, ragione, verità e amore, (Lindau 2009), p. 400.

Como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e mais tarde como o Papa Bento XVI, Ratzinger continuou as suas reflexões sobre os limites do poder do Pontífice Romano para contrariar a imutável doutrina:

Cardeal Joseph Ratzinger, 1998:

O Romano Pontífice está como todos os fiéis submetido à Palavra de Deus, à fé católica e é garante da obediência da Igreja e, neste sentido, servus servorum. Ele não decide segundo o próprio arbítrio, mas dá voz à vontade do Senhor, que fala ao homem na Escritura vivida e interpretada pela Tradição; noutros termos, a episkopè do Primado tem os limites que procedem da lei divina e da inviolável constituição divina da Igreja, contida na Revelação. O Sucessor de Pedro é a rocha que, contra a arbitrariedade e o conformismo, garante uma rigorosa fidelidade à Palavra de Deus: daí resulta também o carácter martirológico do seu Primado.”

Papa Bento XVI, 2005:

O poder conferido por Cristo a Pedro e aos seus sucessores é, em sentido absoluto, um mandato para servir. O poder de ensinar, na Igreja, obriga a um compromisso ao serviço da obediência à fé. O Papa não é um soberano absoluto, cujo pensar e querer são leis. Ao contrário: o ministério do Papa é garantia da obediência a Cristo e à Sua Palavra. Ele não deve proclamar as próprias ideias, mas vincular-se constantemente a si e à Igreja à obediência à Palavra de Deus, tanto perante todas as tentativas de adaptação e de adulteração, como diante de qualquer oportunismo.”

A edição original deste texto foi publicada no Rorate Caeli no dia 1 de outubro de 2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do texto acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original. As citações de 1998 e de 2005 estão apresentadas nas suas traduções oficiais.

Basto 10/2017

Papa Francisco: Amoris Laetitia é a moral de São Tomás de Aquino

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Imagem de Catholic Conclave, via En.news

Durante um encontro com jesuítas na Colômbia, o Papa Francisco afirmou que a controversa exortação Amoris Laetitia é “a moral do grande [São] Tomás [de Aquino]”. As declarações de Francisco foram publicadas no Catholic Herald e reproduzidas na La Civiltà Cattolica, revista jesuíta dirigida pelo insuspeito Pe. Antonio Sapadaro.

Para aqueles que sustentam que a moral subjacente ao documento não é “uma moral católica” ou uma moral que pode ser certa ou segura: “Quero repetir claramente que a moral da Amoris Laetitia é tomista”, ou seja, construída a partir da filosofia moral de Santo Tomás de Aquino, afirmou.

[…]

“Eu quero dizer isto para que possam ajudar aqueles que acreditam que a moral é puramente casuística”, afirmou, referindo-se a uma moral que muda de acordo com casos e circunstâncias particulares, em vez de uma que determina uma abordagem geral que guie a atividade pastoral da igreja .

Um dos melhores e “mais maduros” teólogos de hoje que pode explicar o documento é o cardeal austríaco Christoph Schönborn de Viena, disse ele.

(Papa Francisco, in Catholic Herald, 29/09/2017 – tradução livre)

A Gloria TV News relembra que, desde 2016, ano em que foi publicada a controversa exortação apostólica, vários académicos, entre eles Michael Pakaluk da Universidade Católica da América, têm mostrado como Tomás de Aquino (1225 – 1274) é mal citado e desinterpretado no texto da Amoris Laetitia.

Um exemplo é o número 301. Insinua que [São] Tomás apoia a ideia de que as pessoas possam tornar-se santas e, ao mesmo tempo, contrariar algumas virtudes. Na realidade, Tomás fala sobre pessoas que se arrependeram dos pecados passados e mantêm a lei moral, mas fazem isso com alguma dificuldade.

(in Gloria TV News, 29/09/2017 – tradução livre)

Quando Francisco recomenda o cardeal Christoph Schönborn para explicar a moral da Amoris Laetitia, dá vontade de responder ao Santo Padre, à boa maneira portuguesa: quem não o conhecer que o compre! O relativista cardeal de Viena é mais conhecido pela sua pastoral pro-gay, pro-aceitação do adultério e pró-balões e hard rock na Missa do que propriamente por sólidas competências nos campo da moral cristã. É portanto alguém que o Santo Padre deveria recomendar como aprendiz e não como mestre.

Basto 9/2017

As 7 heresias do Papa Francisco segundo a “Correctio Filialis”

A “Correção Filial, publicada no dia 24 de setembro, aponta sete heresias ao Papa Francisco, as quais foram redigidas em latim, língua oficial da Igreja Católica. Na sua tradução para português, pode ler-se:

Através destas palavras, atos e omissões, bem como das passagens acima mencionadas do documento Amoris laetitia, Sua Santidade apoiou, direta ou indiretamente, e propagou dentro da Igreja, com um grau de consciência que não procuramos julgar, tanto por ofício público como por ato privado, as seguintes proposições falsas e heréticas:

1) “Uma pessoa justificada não tem a força, com a graça de Deus, para cumprir as exigências objetivas da lei divina, como se a observância de qualquer um dos mandamentos de Deus fosse impossível aos justificados; ou como significando que a graça de Deus, quando produz a justificação do indivíduo, não produz invariavelmente e por sua própria natureza, a conversão de todo pecado grave, ou não é suficiente para a conversão de todo pecado grave.”

2) “Os católicos que obtiveram um divórcio civil do cônjuge com o qual estão validamente casados e contraíram um matrimónio civil com alguma outra pessoa durante a vida de seu cônjuge, e que vivem more uxorecom seu parceiro civil, e que escolhem permanecer nesse estado com pleno conhecimento da natureza de seu ato e com pleno consentimento do ato pela vontade, não estão necessariamente em estado de pecado mortal e podem receber a graça santificante e crescer na caridade.”

3) “Um fiel católico pode ter pleno conhecimento de uma lei divina e voluntariamente escolher violá-la, mas não estar em estado de pecado mortal como resultado desse ato.”

4) “Uma pessoa que obedece uma proibição divina pode pecar contra Deus por causa desse ato de obediência.”

5) “A consciência pode reconhecer que atos sexuais entre pessoas que contraíram um casamento civil, mesmo que uma delas esteja casada sacramentalmente com outra pessoa, podem às vezes ser moralmente lícitos, ou sugeridos ou até mandados por Deus.”

6) “Os princípios e as verdades morais contidos na revelação divina e na lei natural não incluem proibições negativas que proscrevem absolutamente certos tipos de atos, na medida em que eles são gravemente ilícitos em razão de seu objeto.”

7) “Nosso Senhor Jesus Cristo quer que a Igreja abandone a sua disciplina perene de negar a Eucaristia aos divorciados recasados, e de negar a absolvição aos divorciados recasados que não expressem nenhuma contrição por seu estado de vida e o propósito firme de emenda nesse particular.”

(in correctiofilialis.org)

Oremos para que o Santo Padre confirme os seus irmãos na Fé, corrigindo todas as heresias que têm provocado tantos danos nas almas e fortes divisões dentro da Igreja Católica.

Basto 9/2017

Correção Filial: 62 personalidades corrigem o Papa Francisco por “propagação de heresias”

correção filial

 

Um grupo de 62 académicos, clérigos e leigos de vinte países, publicou, em várias línguas, um documento enviado ao Papa Francisco, onde o repreendem por “propagação de heresias”. O documento em forma de carta, à qual o Santo Padre ainda não respondeu, apresenta-se como uma “correção filial” e está disponível online em sítio próprio.

Resumo da Correctio filialis:

Uma carta de vinte e cinco páginas, assinada por 40 clérigos católicos e académicos leigos, foi enviada ao Papa Francisco no dia 11 de agosto último. Como até o momento o Santo Padre não deu qualquer resposta, o documento é tornado público hoje, 24 de setembro de 2017, Festa de Nossa Senhora das Mercês e da Virgem de Walsingham (Norfolk, Inglaterra, 1061).

Com o título latino“Correctio filialis de haeresibus propagagatis” (literalmente, “Uma correção filial em relação à propagação de heresias”), a carta ainda está aberta à adesão de novos signatários, já tendo sido firmada até o momento por 62 clérigos e académicos de 20 países, representando também outros que não carecem da liberdade de expressão necessária.

Nela se afirma que o Papa, através de sua Exortação apostólica Amoris laetitia, bem como de outras palavras, atos e omissões a ela relacionados, manteve sete posições heréticas referentes ao casamento, à vida moral e à receção dos sacramentos,resultando na difusão das mesmas no interior da Igreja Católica. Essas sete heresias são expostas pelos signatários em latim, a língua oficial da Igreja.

Esta carta de correção contém três partes principais. Na primeira, os signatários explicam a razão pela qual lhes assiste, como fiéis católicos praticantes, o direito e o dever de emitir tal correção ao Sumo Pontífice. – Porque a lei da Igreja exige das pessoas competentes que elas rompam o silêncio ao verem que os pastores estão desviando o seu rebanho. Isso não implica nenhum conflito com o dogma católico da infalibilidade papal, porquanto a Igreja ensina que, para que as declarações de um Papa possam ser consideradas infalíveis, ele deve antes observar critérios muito estritos.

O Papa Francisco não observou esses critérios. Não declarou que essas posições heréticas constituem ensinamentos definitivos da Igreja, nem afirmou que os católicos devem acreditar nelas com o assentimento próprio da fé. A Igreja ensina que nenhum Papa pode declarar que Deus lhe revelou qualquer nova verdade nas quais os católicos deveriam acreditar.

A segunda parte da carta é fundamental, uma vez que contém a própria “correção”. Nela se enumeram as passagens em que Amoris laetitia insinua ou encoraja posições heréticas, e depois as palavras, atos e omissões do Papa Francisco que mostram, além de qualquer dúvida razoável, que ele deseja que os católicos interpretem essas passagens de uma maneira que é, de facto, herética. Em particular, o Pontífice apoiou direta ou indiretamente a crença de que a obediência à Lei de Deus pode ser impossível ou indesejável e que a Igreja deve às vezes aceitar o adultério como um comportamento compatível com a vida de um católico praticante.

A última parte, chamada “Nota de Esclarecimento”, discute duas causas desta crise singular. Uma delas é o “Modernismo”. Teologicamente falando, o Modernismo é a crença de que Deus não dotou a Igreja com verdades definitivas, as quais Ela deve continuar a ensinar exatamente do mesmo modo até o fim dos tempos. Os modernistas afirmam que Deus se comunica apenas com as experiências humanas sobre as quais os homens podem refletir, de modo a fazerem asserções diferentes sobre Deus, a vida e a religião; mas essas declarações são apenas provisórias, e nunca dogmas imutáveis. O Modernismo foi condenado pelo Papa São Pio X no início do século XX, mas renasceu em meados desse século. A grande e contínua confusão causada pelo Modernismo na Igreja Católica obriga os signatários a descrever o verdadeiro significado de “fé”, “heresia”, “revelação” e “magistério”.

Uma segunda causa da crise é a aparente influência das ideias de Martinho Lutero sobre o Papa Francisco. A carta mostra como Lutero, fundador do protestantismo, teve ideias sobre o casamento, o divórcio, o perdão e a lei divina que correspondem às que o Papa promoveu através de suas palavras, atos e omissões. A Correctiofilialis também destaca os elogios explícitos e sem precedentes que o Papa Francisco fez do heresiarca alemão.

Os signatários não se aventuram a julgar o grau de consciência com que o Papa Francisco propagou as sete heresias que enumeram, mas insistem respeitosamente para que condene tais heresias, as quais ele sustentou direta ou indiretamente.

Os signatários professam sua lealdade à Santa Igreja Católica, assegurando ao Papa suas orações e solicitando-lhe a Bênção apostólica.

(in correctiofilialis.org)

O documento completo pode ser lido em português aqui.

Comunicado de imprensa sobre a “Correção Filial ao Papa Francisco”:

Num ato que marca uma época, clérigos católicos e académicos leigos do mundo inteiro emitiram aquilo a que chamam uma “Correção Filial” ao Papa Francisco.

Nenhuma ação similar foi tomada desde a Idade Média.

Então, o Papa João XXII foi admoestado em 1333 por erros que ele mais tarde repudiou no seu leito de morte. No caso presente, os filhos e filhas espirituais do Papa Francisco acusam-no de propagar heresias contrárias à fé católica.

A sua carta, entregue ao Pontífice Romano na sua residência de Santa Marta em 11 de agosto de 2017 e agora totalmente pública, afirma que o Romano Pontífice apoiou posições heréticas sobre o casamento, a vida moral e a Eucaristia.

A carta de correção tem três partes principais, assim:

1) Na primeira parte, os 62 signatários explicam porque, como católicos crentes e  praticantes, têm o direito e o dever de emitir tal correção ao Papa. Isso não contradiz a doutrina católica da infalibilidade papal porque o Papa Francisco não promulgou opiniões heréticas como ensinamentos dogmáticos da Igreja. Enquanto professam a sua obediência às suas ordens e ensinamentos legítimos, eles afirmam que Francisco sustentou e propagou opiniões heréticas por vários meios diretos ou indiretos.

2) A segunda parte da carta é a essencial. Contém a “Correção” propriamente dita, escrita em latim, a língua oficial da Igreja. Enumera as passagens da Amoris Laetitia, documento do Papa Francisco sobre casamento e vida familiar, no qual insinua ou encoraja posições heréticas. Como alguns comentadores argumentaram que esses textos podem ser interpretados de maneira ortodoxa, a Correção continua enumerando outras palavras, atos e omissões do Papa Francisco que deixam claro, sem qualquer dúvida, que ele deseja que os católicos interpretem essas passagens de um modo que é, de facto, herético. Em particular, o Papa defendeu a crença de que a obediência à lei moral de Deus pode ser impossível ou indesejável e que os católicos por vezes devem aceitar o adultério como compatível com ser um seguidor de Cristo.

3) A parte final, chamada “Elucidação”, discute duas causas desta crise única. Uma causa é o “modernismo”. Teologicamente falando, o Modernismo é a crença de que Deus não entregou verdades definitivas à Igreja que ela deva continuar a ensinar exatamente no mesmo sentido até o fim dos tempos. O modernismo, portanto, focaliza-se em experiências e sustenta que doutrinas sobre Deus, fé e moral são sempre provisórias e sujeitas a revisão. Significativamente, o Papa São Pio X condenou o Modernismo no início do século XX. Uma segunda causa da crise é a influência das ideias de Martinho Lutero no Papa Francisco. A carta mostra como Lutero teve ideias sobre o casamento, o divórcio, o perdão e a lei divina que correspondem às que o papa promoveu. Ela também observa o louvor explícito e sem precedentes dado pelo Papa Francisco ao heresiarca alemão.

Os signatários não fazem julgamento sobre a culpa do Papa Francisco na propagação das 7 heresias que eles enumeram, uma vez que não é sua função julgar se o pecado da heresia foi cometido (o pecado de heresia, ou seja, heresia formal, é cometido quando uma pessoa se afasta da fé, duvidando ou negando alguma verdade revelada com toda a escolha da vontade). No entanto, deve notar-se que outros que falaram em defesa da fé católica foram sujeitos a represálias. Assim, os signatários falam por um grande número de clérigos e fiéis leigos que não têm liberdade de expressão.

Será notado que o bispo Bernard Fellay assinou a correção. A sua assinatura surgiu depois de o documento ter sido entregue ao Papa, mas agora ele expressa a concordância da Fraternidade de São Pio X com seu conteúdo. O Papa Francisco estendeu recentemente a mão de boas-vindas à FSSPX para os integrar legalmente na Igreja Católica.

Os signatários insistem respeitosamente que o Papa Francisco condene as heresias que ele tem, direta ou indiretamente, sustentado e que ensine a verdade da fé católica na sua integridade.

(in correctiofilialis.org – tradução livre)

A lista de signatários é impressionante, dadas as personalidades de relevo aí presentes. Essa lista encontra-se agora aberta ao público e pode portanto ser assinada – aqui – por qualquer pessoa que ame a Verdade.

O momento atual na Igreja Católica é muito grave, mas o Papa Francisco ainda está a tempo de evitar o pior, basta que tenha a humildade necessária para aceitar o verdadeiro ofício ao qual foi chamado.

Basto 9/2017