Francisco, Kirill e a guerra russa na Ucrânia


Por Roberto de Mattei

Entre os muitos sucessos atribuídos pelos meios de comunicação ao Papa Francisco está o “encontro histórico” que aconteceu, a 12 de fevereiro de 2016, em Havana, com o Patriarca Kirill de Moscovo. Um evento, escreveu-se na época, que viu o colapso do muro religioso que durante mil anos dividiu a Igreja de Roma da do Oriente (La Repubblica, 5 de fevereiro de 2016).

O projeto ecuménico do Papa Francisco encalhou, porém, na tempestade da guerra na Ucrânia, abençoada pelo próprio Patriarca Kirill, que, a 9 de maio, foi um dos convidados de honra no desfile militar da Praça Vermelha, em Moscovo.

Kirill, nascido Vladimir Mikhailovich Gundyayev, 16.º patriarca de Moscovo e de todos os russos, é o líder da Igreja Ortodoxa Russa, que conta com 165 milhões de fiéis espalhados por todo o mundo. Nascido em 1946, em Leningrado (atual São Petersburgo), foi consagrado bispo em 1976 e eleito patriarca em 2009. De acordo com documentos do arquivos de Moscovo tornados públicos, em particular do Arquivo Mitrokhin, ele foi um agente da KGB desde o início dos anos 1970. Em parte por causa dessa experiência comum ao serviço da Rússia soviética, Kirill foi apelidado de “o poder brando do poder duro de Putin” (Huffington Post, 14 de abril de 2022).

Na realidade, as origens da estreita relação que liga o altar de Kirill ao trono de Putin remontam à ideologia do Império Bizantino, cujo herdeiro a Rússia afirma ser. Enquanto o cristianismo ocidental manteve a distinção entre autoridade religiosa e poder político, em Constantinopla nasceu o chamado “cesaropapismo”, a subordinação de facto da Igreja ao imperador, sendo este considerado o seu chefe, tanto no campo eclesiástico como no secular. Os patriarcas de Constantinopla foram na verdade reduzidos a funcionários do Império Bizantino, como acontece hoje na Rússia com Kirill, não incorretamente definido pelo Papa Francisco, na sua entrevista de 3 de maio ao  Corriere della Sera,  como “acólito de Putin.” Esta expressão despertou a ira de Kirill e levou a um comunicado de imprensa do Departamento de Relações Exteriores da Igreja do Patriarcado de Moscovo, segundo o qual “é improvável que tais declarações contribuam para o estabelecimento de um diálogo construtivo entre as Igrejas Católica Romana e Ortodoxa Russa, especialmente necessário no momento.

A única maneira de o Patriarcado de Moscovo sair do isolamento em que se encontra hoje, após a guerra na Ucrânia, foi justamente o relançamento do diálogo com o Vaticano, mas o segundo encontro entre o Papa Francisco e Kirill, que deveria ter lugar em Jerusalém, no próximo dia 14 de junho, foi cancelado pela Santa Sé.

O patriarca ortodoxo de Constantinopla, Bartolomeu, por sua vez, numa entrevista concedida, a 2 de maio de 2022, ao jornal Kathimerini Chipre, condenou abertamente Kirill, com estas palavras: “Não podes reivindicar ser irmão de outro povo e abençoar a guerra que o teu país está a travar contra o teu irmão. (…) Não podes manter que a Ucrânia te pertence eclesiasticamente e deixar que os fiéis pertencentes à entidade eclesiástica com sede em Moscovo sejam mortos e as suas igrejas destruídas pelos bombardeamentos russos.” Estas críticas são compartilhadas até mesmo pelos fiéis da Igreja Ortodoxa Ucraniana que estão sob a jurisdição de Moscovo. Quatrocentos sacerdotes desta igreja apelaram ao Conselho dos Primazes das Antigas Igrejas Orientais, apresentando a acusação de que “Kirill prega a doutrina do ‘Mundo Russo’, a qual não corresponde ao ensinamento ortodoxo e deve ser condenada como heresia”.  Se o conselho chegasse a um acordo, deveria “privá-lo do direito de ocupar o trono patriarcal”.

Além disso, Kirill ainda não era patriarca quando, em 2002, Vladimir Putin, presidente da Federação Russa por dois anos, iniciou a expulsão de missionários católicos da Rússia, em nome do “mundo russo”. Um especialista em assuntos da Rússia, Pe. Stefano Caprio, lembra que a Ortodoxia já havia sido elevada acima de todas as outras confissões, como a “religião de Estado”, na lei de liberdade religiosa revista em 1997 e inspirada no patriarcado de Moscovo. “No preâmbulo dessa lei”,  explica o Pe. Caprio, “proclamou-se que a religião histórica da Rússia era precisamente a Ortodoxia, enquanto quatro outras religiões eram reconhecidas como ‘tradicionalmente secundárias’: Islamismo, Judaísmo, Budismo e… Cristianismo, obviamente significando católicos e protestantes, há séculos presentes na Rússia mas distintos dos ortodoxos como outra religião. Isso não foi uma questão de descuido e, de facto, essa expressão nunca foi corrigida: a Ortodoxia Russa é, na verdade, uma dimensão espiritual distinta na qual os dogmas cristãos são misturados com os remanescentes do paganismo numa extensão muito maior do que em outros ramos do cristianismo, sendo, acima de tudo, são reformulados em ideais nacionais universalistas que apontam para a Rússia como o ‘povo salvífico’ para a humanidade como um todo.”

Os primeiros a pagar o preço por esta conceção político-religiosa na Rússia são os católicos, que para o Patriarcado de Moscovo continuam como “inimigos” temidos por causa de seu “proselitismo”, apesar de serem uma pequena minoria da população. São acusados ​​de minar a unidade religiosa e política da Rússia, à qual Putin faz referência constante. Portanto, observa o Pe. Caprio, “ quando houve a revolta anti-russa de Maidan, em 2014, os círculos patriarcais apontaram o dedo aos Uniatas  (nota do editor: Greco-Católicos) como os verdadeiros inspiradores dos motins, chegando até a atribuir-lhes a paternidade espiritual dos grupos mais agressivos da extrema direita ucraniana, os ‘neonazis’ que Putin acusou de inimigos do ‘mundo russo’, contra quem era necessário empreender a ‘operação militar especial’ defensiva para libertar russos e ucranianos da influência ocidental”.

A invasão russa da Ucrânia trouxe à tona as contradições da Igreja Ortodoxa Russa, representada hoje por Kirill. A importância do encontro ecuménico de 2016, segundo o Papa Francisco, está na possibilidade de criar uma ponte religiosa entre as Igrejas Católica e Ortodoxa, em nome do princípio da sinodalidade. No entanto, é esse mesmo princípio que justifica a posição de Kirill, cujo nacionalismo surge da natureza autocéfala do patriarcado de Moscovo e da sua simbiose com o poder político.

A diferença fundamental é esta. A Igreja de Moscovo é nacional, enquanto a de Roma é universal, chamada “católica” justamente porque não se identifica com nenhum povo ou cultura e anuncia o Evangelho a todas as nações, até os confins da terra (Atos 1:8). A Igreja Católica Romana não conhece limites de tempo e espaço e está destinada a unir numa família todos os povos da terra. É a única que pode lançar um apelo por uma paz que transcenda os interesses, as ambições de nações individuais. O seu centro de unidade é o Romano Pontífice, que exerce pleno poder sobre a Igreja universal. A Igreja Católica pode tolerar um mau papa, como muitos o foram ao longo da história, mas sem a pedra de Pedro o mundo estaria mergulhado no caos. E hoje, infelizmente, o Patriarca Kirill apoia o caos causado por Vladimir Putin no coração da Europa.

Fonte: rorate-caeli.blogspot.com, em 12 de maio de 2022 (tradução nossa).

Católicos ucranianos rejeitam iniciativa simbólica de paz, do Vaticano, para a Sexta-feira Santa

D. Siatoslav Shevchuk, líder da Igreja Greco-Católica Ucrania, e D. Visvaldas Kulbokas, núncio apostólico na Ucrânia.

A ideia era que duas mulheres, uma ucraniana e outra russa, juntas, em representação das duas nações beligerantes, transportassem a cruz na XIII Estação da Via-Sacra de Sexta-feira Santa, presidida por Francisco, no Coliseu de Roma. O texto proposto para a meditação seria politicamente neutral:

Morte em todo o lado. Vida que parece perder o valor. Tudo muda em poucos segundos. A nossa vida, os nossos dias, a neve despreocupada do inverno, levar os filhos à escola, trabalho, abraços, amizades… Tudo. De repente, tudo perde o significado e o valor. “Onde estais, Senhor? Onde Vos escondeis? Queremos a nossa vida de volta, como antes. Porquê tudo isto? Que mal fizemos nós? Porque nos abandonastes? Porque abandonastes os nossos povos? Porque separastes as nossas famílias deste modo? Porque não temos mais vontade de sonhar e de continuar a viver? Porque é que a minha terra se tornou tão escura como o Gólgota?” Não temos mais lágrimas. A raiva deu lugar à resignação. Sabemos que nos amais, Senhor, mas não sentimos esse amor e isso leva-nos ao desespero. Acordamos de manhã e apenas nos sentimos felizes por alguns momentos, logo de imediato pensamos como nos será difícil reconciliar com tudo isto. Onde estais, Senhor? Falai connosco no meio do silêncio da morte e da divisão e ensinai-nos a ser pacificadores, irmãos e irmãs, e a reconstruir o que as bombas tentaram destruir.

Texto previsto para a meditação da XIII Estação da Via-Sacra, presidida pelo Papa Francisco, no Coliseu de Roma, na Sexta-Feira Santa de 2022 (Fonte: vatican.va; tradução nossa)

Os católicos ucranianos ficaram indignados com a possibilidade de ucranianos e russos carregarem juntos a cruz, como se a cruz do agredido e do agressor pudesse ser a mesma, e pediram ao arcebispo-mor de Kiev, que transmitisse à Sé Apostólica a sua rejeição desta iniciativa, em nome dos ucranianos de todo o mundo. Um ato simbólico como este só faria sentido se o agressor tivesse intenção de cessar a sua agressão, se estivesse arrependido e pedisse perdão pelo mal infligido à nação agredida.

Considero essa ideia inoportuna, ambígua e que não tem em conta o atual contexto de agressão militar da Rússia contra a Ucrânia. Para os greco-católicos da Ucrânia, os textos e gestos da estação XIII desta Via Sacra são incompreensíveis e até ofensivos, especialmente num contexto em que se espera por um segundo ataque ainda mais sangrento das tropas russas às nossas cidades e aldeias. Eu sei que os nossos irmãos católicos romanos compartilham desses pensamentos e emoções.

D. Sviatoslav Shevchuk (Fonte: risu.ua, em 12 de abril de 2022; tradução nossa)

Esta reação foi assumida também pelo núncio apostólico da Santa Sé na Ucrânia.

O gesto de reconciliação em si é bom, mas os detalhes das circunstâncias podem não ser claros do lado de fora do conflito porque são ambíguos. É por isso que surge uma indignação tão forte. […]

Parece-me que nas últimas 24 horas fiz todo o possível para transmitir a inconsistência deste gesto litúrgico no contexto da terrível guerra e dos seus planos de possível escalada. Deixo o resto com Deus. Também estou convencido de que, pessoalmente, fiz tudo que me era possível para evitar um desnecessária palavra de condenação dirigida àqueles que não avaliaram completamente todas as circunstâncias. Cometi um erro, ao tentar fazer meus próprios esforços para parar a guerra. Espero sinceramente que os organizadores ainda tenham oportunidade de corrigir a cena da Via Sacra e evitar mais divergências sobre este tema.

D. Vitaliy Kryvytskyi (Fonte: risu.ua, em 13 de abril de 2022; tradução nossa)

Deste modo, os católicos ucranianos pediram ao Vaticano que abdique desta iniciativa simbólica na Sexta-feira Santa.

O Mito do “Cruzado Putin”

Por Cole Kinder

Nos últimos anos, os católicos americanos viram o seu país em forte contradição com muitas das suas crenças mais sólidas – desde o casamento tradicional à defesa da família e à defesa dos nascituros. Como reação, muitos de nós olhámos para o mundo exterior em busca de um país cristão que emitisse um vislumbre de esperança. 

Alguns católicos conservadores encontraram na Rússia um potencial aliado. No entanto, dada a invasão russa da Ucrânia, talvez precisemos de olhar um pouco mais de perto.

É verdade que a Rússia do presidente Putin defende a família e o casamento tradicional, mas também a Ucrânia do presidente Zelensky. Estes dois países são praticamente semelhantes em termos de “direitos gay” e ambos se opõem veementemente ao “casamento” entre pessoas do mesmo sexo. Nesta questão, ambos os países são bastante conservadores.

Quando se trata do aborto, o presidente Putin e o presidente Zelensky dirigem países muito abertos à legalização do aborto. A Rússia tem a maior taxa de aborto per capita do mundo, enquanto o presidente Zelensky deseja tornar o aborto mais acessível na Ucrânia. O presidente Zelensky também quer a prostituição e outras práticas imorais legalizadas. Embora a prostituição seja também ilegal na Rússia, é punível apenas com uma multa mínima. A prostituição é muito popular na Rússia e até elogiada pelo próprio presidente Putin. 

A Rússia e a Ucrânia, embora ambas cristãs em algumas questões, são muito parecidas com qualquer outra nação, quando se trata das suas leis – são ao gosto do freguês, nas questões proeminentes, seja cristão ou não cristão.

No entanto, mesmo com todos esses factos, ouve-se dizer que a Rússia é um país cristão, como se a Ucrânia fosse menos. E ouvir-se-á dizer que a agressão russa à Ucrânia é uma espécie de cruzada cristã contra o ateísmo ocidental. Tal perspectiva, no entanto, não se materialliza nos factos. 

Olhando para a demografia, a Rússia é, de facto, menos cristã do que a Ucrânia. Além disso, e mais importante, a Rússia também é menos católica do que a Ucrânia. A Ucrânia não só tem uma percentagem maior de católicos (7,8% para 0,5%, aproximadamente), mas também tem um maior número total de católicos (3.354.000 para 717.101, em números aproximados). 

Além disso, a Ucrânia abriga a maior Igreja Católica Oriental, a Igreja Greco-Católica Ucraniana. A sua antiga sede localiza-se em Lviv, localidade para onde os EUA e muitos dos seus aliados ocidentais estão a transferir as suas embaixadas. Lviv é uma cidade e um oblast (província) onde a maioria da população é greco-católica. Dois outros oblasts na Ucrânia Ocidental também são católicos. Lviv foi e ainda é o lar da Igreja Católica Romana (Rito Latino) e da Igreja Católica Arménia (outra Igreja Católica Oriental) nesta região da Ucrânia.

A Igreja Greco-Católica Ucraniana não é apenas a maior Igreja Católica Oriental, ela possui também uma ligação direta à cristianização da Rus’ de Kiev, como uma das igrejas sucessoras da conversão do Príncipe São Vladimir I o Grande, de Kiev, ao cristianismo, em 988. Portanto, as raízes católicas dos ucranianos são profundas.

Além da Igreja Greco-Católica Ucraniana, a Ucrânia tem ainda a Igreja Greco-Católica Rutena, com sua sede em Pittsburgh, Pensilvânia, nos EUA. Esta é a igreja dos rutenos ou rusyns, outro grupo eslavo oriental que constitui uma minoria considerável na Ucrânia, para além de outras áreas da cordilheira dos Cárpatos onde também vivem. Esta área é chamada Carpato-Ruténia e inclui parte da Ucrânia, Eslováquia, Polónia, Hungria e Roménia, correspondendo à mesma região de onde os croatas brancos são originários, uma das tribos que fundaram a Croácia, nação fortemente católica.

Na Ucrânia, os rutenos habitam o Oblast de Zakarpatska, na Ucrânia Ocidental, onde a Igreja Greco-Católica Rutena é a principal jurisdição católica. A Igreja Greco-Católica Rutena pode traçar as suas origens até São Cirilo e São Metódio, que converteram os eslavos da Grande Morávia ao cristianismo, em 863.

É verdade que também existe uma Igreja Greco-Católica Russa, mas essa nunca conquistou tantos membros nem um sentido de identidade nacional como o da Igreja Greco-Católica Ucraniana.

Devido às alterações nas fronteiras da Ucrânia, os ucranianos viviam sob o domínio dos Habsburgos em lugares como Lviv e, portanto, têm raízes mais profundamente católicas. Muitos da diáspora ucraniana, especialmente nos Estados Unidos, fazem parte da Igreja Greco-Católica Ucraniana. O mesmo não pode ser dito relativamente à Rússia, onde não há qualquer cidade ou região importante, nem passado histórico, em que a Igreja Greco-Católica Russa desempenhe um papel relevante.

Como se pode constatar, existe uma profunda afinidade entre os ucranianos e a Igreja Católica, o qual não encontra paralelo na Rússia. Esses católicos são geralmente os mais determinados patriotas da Ucrânia. Há uma razão para isso. Os ucranianos olharam muitas vezes para o Ocidente, como quando, durante o Reino da Galícia-Volínia, buscaram proteção contra os mongóis, nos anos 1200. Este reino e a região da Galícia tinham como centro, Lviv, a sua capital. 

Lviv e as outras regiões católicas ucranianas do Ocidente foram também fundamentais na luta pela independência ucraniana no Movimento “Rukh”, que viu a Ucrânia alcançar a independência, em 1991, da brutal URSS liderada pela Rússia – com 92,5% dos votos – e uma considerável maioria em todos os oblasts, exceto na República Autónoma da Crimeia e numa cidade com estatuto especial, Sebastopol, onde também havia maioria mas com uma participação extremamente baixa. 

Os católicos ucranianos e os seus compatriotas buscaram a independência dos abusos que os impérios liderados pela Rússia cometeram contra o povo da Ucrânia ao longo dos anos. O clero católico na União Soviética foi disso exemplo, com tantos mártires e confessores. Contam-se ainda 128 bispos e freiras da Igreja Greco-Católica Rutena enviados para os gulags soviéticos e 36 padres greco-católicos rutenos assassinados. 

A Igreja Greco-Católica Ucraniana foi, entretanto, ilegalizada pela União Soviética de 1946-1989. Em 2014, na Crimeia, muitos clérigos católicos foram forçados a sair, depois da invasão russa. Alguns pensam que esses abusos foram provocados apenas pelo comunismo, mas, na verdade, como se ponde constatar no exemplo da Crimeia, parece ser também um problema da Federação Russa. 

A invasão russa da Ucrânia trará muito sofrimento católico. Como católicos leais, devemos lembrar que a busca de outras grandes expências eslavas não foram motivo de regozijo para nossa Igreja ou para a maioria das outras, no passado recente. A Rússia tem frequentemente objetivos revanchistas e, embora possa parecer que a Rússia vai parar na Ucrânia, há sempre preocupações de que a sua invasão possa alastrar a outras partes da antiga União Soviética e do Pacto de Varsóvia.

Países católicos como a Polónia, a Eslováquia e a Hungria poderão ser os próximos na fila para a agressão russa. Além disso, outros países católicos como a Croácia e a Eslovénia estão a poucos passos de distância. Já a católica Lviv está sob fogo cruzado. Para os católicos, a ameaça da Rússia é muito real, não apenas dentro da Rússia. 

Os católicos não devem apenas hesitar em apoiar uma invasão putinista pelo simples facto de as guerras desnecessárias serem contra a nossa fé, mas devem opor-se à invasão da Ucrânia porque a nossa fé é forte naquele país. Se os católicos conservadores desejam um mundo mais católico, devem fazer todos os esforços para apoiar a Ucrânia, um dos poucos países com uma herança verdadeiramente católica.

Fonte: crisismagazine.com, em 28 de fevereiro de 2022 (tradução nossa).

O que pensam os católicos ucranianos: “Neste momento, é impossível continuar sem perceber a natureza satânica do regime do Kremlin” e “o paganismo flagrante das declarações do patriarca de Moscovo”. (Carta Aberta)

 A Igreja Greco-Católica Ucraniana é a maior Igreja Oriental individual – isto é, a maior depois da nossa própria Igreja Latina. É verdadeiramente uma Igreja-Mártir: a Rússia tentou destruí-la uma e outra vez, sob o czarismo e sob o comunismo, mas ela permaneceu fiel à catolicidade.

Para os greco-católicos ucranianos, seria “fácil” tornarem-se “ortodoxos”: não há diferenças de rito. Mas o que eles têm é uma lealdade indissolúvel para com a Sé Romana: cada mártir da história sangrenta da Igreja, milhões deles, teve a mesma determinação de São Tomás Muro ou São João Fisher – lealdade à fé católica e à ideia e realidade de Roma, Mãe de todas as Igrejas.

Na passada quarta-feira, a universidade fundada e apoiada pela Igreja Greco-Católica Ucraniana, a Universidade Católica Ucraniana (UCU) divulgou um documento formal do seu Senado e Reitoria, explicando aos cristãos de todo o mundo o que está a acontecer. Eles representam fielmente a visão de todos os católicos ucranianos, em casa e na diáspora.

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Rejeitar as obras das trevas

Carta aberta do Senado e da Reitoria da Universidade Católica Ucraniana às Comunidades Cristãs do Mundo

Quarta-feira, 23 de março de 2022

Com o início de uma nova fase da última guerra russo-ucraniana, os ucranianos invariavelmente reconhecem-se nas páginas das Escrituras nas reviravoltas da história bíblica. Sob o regime de Putin, eles reconhecem: “porque são espíritos demoníacos, que realizam sinais, que vão ao encontro dos reis de todo o mundo, para reuni-los para a batalha no grande dia de Deus, o Todo-Poderoso” (Apocalipse 16:14), e eles encontram esperança na vitória de Davi sobre Golias. (1 Samuel 17: 1–52).

A dor do sofrimento e da morte, a amargura da insensibilidade de alguns políticos mundiais, bem como a gratidão a outros que vieram em nosso auxílio – essas são as emoções que o povo ucraniano sente hoje. Ao mesmo tempo, eles estão convencidos de que a nova Ucrânia será construída sobre o sacrifício pago por soldados e civis ucranianos hoje. Pois isso é o que pode ser deduzido das palavras do Cordeiro sacrificial de Deus: “Eis que faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21:5).

As tensões bíblicas da atual guerra russo-ucraniana estão a mudar a face do planeta. Hoje, toda a estrutura de segurança do mundo que surgiu após a Segunda Guerra Mundial está a explodir. As fissuras espalham-se por todo o corpo de acordos internacionais, instituições de segurança e mecanismos de manutenção da paz. Num instante, a carreira profissional de alguém e as visões habituais do mundo perdem o seu significado. Axiomas inequívocos estão agora perdendo a sua certeza, tornando-se teoremas que precisam ser provados novamente.

O ecumenismo cristão também sentiu todas as rachaduras que percorriam o status quo geopolítico. Todo o corpo de relações inter-eclesiásticas cambaleou pelo flagrante paganismo das declarações do patriarca de Moscovo, que justificou as atrocidades brutais dos militares russos. Todos aqueles ecumenistas “profissionais” que, a pedido de Moscovo, na menor oportunidade, repreenderam a Ucrânia por supostas violações da liberdade religiosa dos ortodoxos que estavam em unidade eucarística com o Patriarcado de Moscovo, perderam o sentido de vergonha. Afinal, agora o próprio chefe da Igreja Ortodoxa Russa (IOR) justificou os assassinatos e as violações dos mesmos ortodoxos de língua russa cujas vidas foram roubadas durante tantos anos.

Obviamente, ouvimos as vozes dos líderes das Igrejas do mundo pedindo o fim do derramamento de sangue e a salvação das almas humanas. Estamos gratos aos teólogos de várias denominações que condenaram os perpetradores da guerra e as atrocidades que cometeram. Ao mesmo tempo, porém, não podemos deixar de notar outras afirmações que são muitas vezes temidas. Medo de chamar o culpado pelo nome. Medo de prejudicar o “diálogo ecuménico”. Tentativas desesperadas de preservar os resquícios do status quo geocristão, onde belas palavras glorificam a amarga verdade da separação e a relutância em se unir. O desejo predominante é reconciliar os “irmãos que brigam” o quanto antes e retornar às matrizes estabelecidas de “diálogo a todo custo”, conexões pessoais habituais, arranjos de bastidores e trocas ostensivas de cortesias. O objetivo é salvar o próprio status hierárquico e carreira, e acalmar a consciência.

Tudo isso pode ser entendido no nível humano, mas no sentido providencial é inútil. O momento atual exige das Igrejas uma voz profética incompatível com o medo e a ideologia. Não queremos ouvir deles sobre estar “profundamente preocupados com a guerra”, porque isso é a linguagem da diplomacia. Procuramos ouvir as palavras ousadas de verdade que Jesus, que nos ensinou por seus conselhos, diria hoje: nos negócios de Deus, a verdade não pode ser evitada por causa do medo. Somente a linguagem da verdade pode ser considerada a linguagem da fé. “Quem quiser encontrar a sua vida perdê-la-á, e quem perder a sua vida por minha causa, encontrá-la-á” (Mateus 10:39).

Igualmente contraditório ao Evangelho é a equalização do sofrimento sofrido pelos militares ucranianos e russos. Os primeiros defendem suas terras, os segundos saqueiam a dos outros. Aqueles criminosos de guerra russos que destroem maternidades, atiram em idosos e crianças, violam mulheres, saqueiam e se gabam de suas “conquistas” não são “pobres”. A ideologia do politicamente correto pode igualar o sofrimento dos militares ucranianos e russos, mas não o sentimento evangélico que sempre fica do lado da vítima.

É por isso que estamos convencidos de que é hora de o mundo tomar uma decisão concreta, tanto política quanto espiritualmente. A essa altura, é impossível continuar sem perceber a natureza satânica do regime do Kremlin, que semeia ódio, mente sem cerimónias e desencadeia guerras terríveis. Este é um novo fruto do poder sobre o qual a Mãe de Deus alertou a humanidade em Fátima – e este poder deve ter responsabilidade legal e moral. A guerra da Rússia contra a Ucrânia não pode terminar com os seus instigadores e todos aqueles que a lideraram e justificaram a continuar a ser considerados membros legítimos da comunidade mundial.

Também é inaceitável que a liderança do Patriarcado de Moscovo não tenha responsabilidade moral e às vezes legal de fornecer apoio moral ao regime de Putin e aprovar a guerra que ele travou. Consagrando as horríveis atrocidades dos soldados russos na Ucrânia, foi o Patriarca de Moscovo quem disse: “Os nossos militares não podem ter dúvidas de que escolheram o caminho certo em suas vidas”. Portanto, a tarefa do ecumenismo cristão é afirmar-lhe claramente que tanto o caminho desses militares quanto o seu caminho pessoal são destrutivos.

Se o mundo cristão quer que a Ortodoxia Russa se recupere moralmente e dê ao mundo tesouros profundos da verdadeira fé e da sua tradição, deve perceber que isso não acontecerá a menos que a hierarquia e os fiéis dessa Igreja passem pelo arrependimento moral. Os ecumenistas do mundo devem admitir que os paralelos entre a ideologia do “mundo russo” e a ideologia nazista tornaram-se hoje bastante justificados. É por isso que a IOR, que também se tornou a Igreja do Reich, deve suportar a sua vergonha da mesma forma que a Igreja Evangélica Alemã. Afinal, a paz de Deus é sempre fruto da renúncia ao mal e da união com Deus.

Portanto, em nome de toda a comunidade da Universidade Católica Ucraniana, pedimos aos líderes cristãos de todo o mundo que falem a sua palavra confessional e profética e parem o mal! É insuportável para nós ver como a escuridão e a morte tentam absorver as gerações de jovens ucranianos que levamos à crença na Bondade, Verdade e Misericórdia. Não vamos deixá-los desesperar desses valores e vamos ajudá-los a ver o amanhecer: “a noite está longe, o dia está próximo. Deixemo-nos, pois, das obras das trevas e vistamo-nos da armadura da luz” (Romanos 13:12). Que o atual sacrifício sangrento da Ucrânia se torne um momento de kairos, a partir do qual começará a renovação de toda a terra!

Fonte: rorate-caeli.blogspot.com, a partir de ucu.edu.ua/en (tradução nossa).

O nosso destino está nas mãos seguras da Mãe

Palavras do líder da Igreja Greco-católica Ucraniana durante a consagração da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria

Os bispos da Igreja Greco-católica Ucraniana (IGCU), que neste dia realizaram uma sessão extraordinária do Sínodo dos Bispos, rezaram juntos na igreja em frente do Ícone Milagroso da Mãe de Deus de Zarvanytsia, em comunhão com o Santo Padre e o mundo inteiro, através de transmissão em direto.

No final do celebração penitencial, o Papa Francisco leu uma oração de consagração da Rússia, Ucrânia e toda a humanidade ao Imaculado Coração de Maria.

O Ato de Consagração em nome da IGCU foi lido simultaneamente por Sua Beatitude D. Sviatoslav Shevchuk, em em Zarvanytsia, em comunhão com o Santo Padre.

Apelando aos fiéis após a consagração, o líder da IGCU enfatizou a historicidade deste momento: “Cada um de vós dirá aos seus filhos, netos e bisnetos que foi um momento de vitória; o momento, em que colocámos o destino da Ucrânia nas mãos da Santíssima Virgem Maria”.

Sua Beatitude D. Sviatoslav acrescentou que a guerra que a Rússia está hoje a travar contra a Ucrânia é uma luta espiritual entre o bem e o mal. E a consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria é o momento em que acreditamos que o bem vencerá através das orações da Mãe de Deus.

O líder da IGCU explicou o que significa consagrar a Rússia e a Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria: “A Rússia foi confiada ao Imaculado Coração de Maria porque a Mãe de Deus pediu que este acto fosse feito, uma vez que daquela terra o mal se espalharia pelo mundo e destruiria nações, traria sofrimento às pessoas. Estamos a rezar pelos nossos inimigos para que o Senhor pare a sua mão assassina”. E aqui, em Zarvanytsia, em comunhão com o Santo Padre, confiamos a nossa Ucrânia à proteção da Santíssima Virgem Maria, ao Seu Imaculado Coração, porque sabemos que hoje Ela, a Mãe de Deus, está com a Ucrânia, com o nosso povo sofredor”.

“Hoje, o nosso destino está nas mãos seguras da Mãe”, acrescentou Sua Beatitude D. Sviatoslav.

O líder religioso agradeceu aos bispos da IGCU que se reuniram em Zarvanytsia para este evento histórico, acrescentando que estavam especialmente unidos com D. Vasyl Tuchapets, arcebispo de Kharkiv, D. Stephan Meniok, bispo de Zaporizhia, e D. Mykhailo Bubniy, arcebispo de Odessa. Estávamos a unir-nos, disse ele, com os nossos bispos em todo o mundo, nas nossas comunidades estabelecidas na Europa Ocidental, América do Norte e do Sul, Austrália, e com bispos católicos em todo o mundo.

“Hoje sentimos que o mundo inteiro está connosco. Obrigado a todos por participarem hoje neste evento histórico… A nossa gratidão flui para com o Santo Padre Francisco, com quem vivemos estes momentos únicos”, disse o Primaz.

Após o Ato de Consagração, o líder da IGCU, juntamente com os bispos do Sínodo dos Bispos, conduziu uma tradicional oração do terço de Zarvanytsia.

Departamento de Informação da IGCU

Fonte: news.ugcc.ua/en/news (a tradução é nossa, assim como as hiperligações)

Imagem de Nossa Senhora de Fátima em Lviv

Chegou ontem à Ucrânia a imagem de Nossa Senhora de Fátima pedida a Portugal pelo arcebispo metropolita greco-católico de Lviv, D. Ihor Vozniak. Esta réplica n.º 13 da imagem que se encontra na Capelinha das Aparições deverá permanecer na Ucrânia até ao dia 15 de abril para que os ucranianos lhe possam rezar e pedir pelo regresso da paz ao seu país.

Imagem n.º 13 da Virgem Peregrina de Fátima vai para a Ucrânia como “mensageira da paz”

Viagem surge na sequência de um pedido formal do arcebispo e metropolita da Igreja greco-católica de Lviv, Ihor Vozniak

A Capelinha das Aparições acolheu, esta manhã, uma celebração de envio da Imagem n.º 13 da Virgem Peregrina de Fátima para a Ucrânia, acedendo assim ao pedido do arcebispo metropolita greco-católico de Lviv.

Na celebração de envio, o padre Joaquim Ganhão, diretor do Departamento de Liturgia do Santuário de Fátima, lembrou o “convite que neste tempo quaresmal nos acompanha e provoca todos os dias: convertei-vos, mudai de mentalidade, aprendei essa arte de amar que encontrais no vosso Deus”.

“À guerra não se responde com a guerra, ao mal não se responde com o mal, ao ódio não se responde com ódio, e por isso o Senhor hoje clama aos nossos corações, sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso”, disse o capelão aos peregrinos presentes na Capelinha das Aparições.

O padre Joaquim Ganhão considerou ainda que “não há outro caminho, se não o caminho do exagerado amor até ao fim, que é o amor de Deus derramado em nós e encarnado em nós, hoje, nesta circunstância concreta da nossa vida e da nossa história”.

“É preciso abrir as portas, e reconhecer que o outro não é nosso inimigo, não é nosso rival, é nosso irmão, com quem temos de construir a história, contruir a paz, e é um trabalho exigente”, reiterou.

“Estamos a braços com uma guerra que nos implica a todos, e aqui neste lugar da Cova da Iria, confiemo-nos à Mãe de Misericórdia e Rainha da Paz, rezemos pelos irmãos que mais sofrem, rezemos pelo fim da guerra na Ucrânia e em todos os lugares, rezemos por tantas vítimas inocentes”, disse momentos antes de proceder à oração de envio, num momento em que se rezou de forma particular pela paz no Leste.

O metropolita de Lviv, Ihor Vozniak, efetuou um pedido formal ao Santuário de Fátima a 10 de março pedindo o envio da Imagem da Virgem Peregrina de Fátima para a Ucrânia “para que possamos rezar, pedindo a sua proteção para que a paz regresse ao país”.

A imagem, que permanecerá durante um mês na Ucrânia, partirá de Lisboa para Varsóvia, na Polónia, e lá será acolhida e transportada pela comunidade greco-católica de Lviv.

A Imagem nº 13 é uma réplica da Imagem nº 1, desenhada e concebida de acordo com instruções da Serva de Deus, Irmã Lúcia de Jesus, e coroada solenemente pelo arcebispo de Évora, em 13 de maio de 1947.

“A Virgem Peregrina  vai ao encontro das comunidades fazendo um eco da Mensagem que aqui nos deixou Nossa Senhora, desde a primeira hora e, neste momento presente, é sem dúvida uma viagem muito importante, como mensageira da Paz, como mãe que convida os filhos à paz”, disse o sacerdote em declarações à comunicação social no final da celebração.

Desde 1947, as imagens da Virgem Peregrina de Fátima percorrem o mundo inteiro levando consigo uma mensagem de paz e amor. Ao todo são treze as imagens da Virgem Peregrina sendo que a Imagem nº 1 está entronizada na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, desde 2003 , tendo saído apenas em situações absolutamente excecionais, a última das quais ao Panamá, em janeiro de 2019, para na presença do Papa Francisco, participar na Jornada Mundial da Juventude no Panamá.

Desde a primeira saída até hoje, qualquer que seja a Imagem da Virgem Peregrina de Fátima, chegam ao Santuário de todos os lados relatos extraordinários, de multidões que acorrem à sua passagem, de participações nunca antes verificadas nas várias celebrações, de um grande número de penitentes que se abeiram do sacramento da reconciliação, da afluência de todo o género de pessoas: crianças, jovens, adultos e idosos, de diferentes contextos sociais e mesmo confissões religiosas diversas; em suma, relatos de significativos frutos pastorais e de abundantes graças alcançadas.

Desde o dia 21 de fevereiro que diariamente, e a pedido do cardeal D. António Marto, se estabeleceu uma corrente de oração a partir de Fátima pedindo o regresso da paz para o país que vive momentos de grande sofrimento. Além de se rezar o terço, cumprindo esse apelo de Nossa Senhora do Rosário aos três pastorinhos para que rezassem o terço todos os dias em ordem à paz, tem havido uma prece diária na oração dos fiéis em todas as missas do programa oficial do Santuário.

Fonte: Santuário de Fátima, Portugal, em 14 de março de 2022.

Católicos ucranianos invocam São Miguel Arcanjo na luta contra o demónio agressor

Acanjo São Miguel, patrono da cidade de Kiev. Imagem locallizada na Praça da Independência, na capital da Ucrânia.

Hoje, mais uma vez, desejo agradecer e abençoar de todo o coração o exército ucraniano, nossos soldados, rapazes e moças que defendem a paz na Ucrânia, graças aos quais ainda estamos vivos hoje, no nono dia da guerra, graças aos quais a Ucrânia está vencendo, a Ucrânia resiste, a Ucrânia combate.

A Ucrânia, além disso, reza, resiste em oração. Aqui em Kiev, sentimos claramente que o santo padroeiro de nossa cidade é o Arcanjo Miguel Arquiestrategista, a quem chamamos aquele que, como Deus, lançou no abismo Lúcifer, o líder do exército do diabo que se rebelou contra a verdade de Deus.

Hoje vemos que o Arquiestrategista Miguel está a lutar pela Ucrânia com todo o exército celestial.

Muitas pessoas de diferentes partes da Ucrânia compartilham as suas experiências comigo: vimos anjos brilhantes sobre a terra ucraniana.

Hoje rezamos:

“Arquiestrategista Miguel e todo o exército celestial, todas as forças celestes incorpóreas, lutem pela Ucrânia, expulsem o diabo que nos ataca, nos mata, nos traz destruição e morte!”

Arcebispo-Mor Sviatoslav Shevchuk, no nono dia da invasão russa; in Vatican News, 04/03/2022.

Basto 03/2022

Católicos ucranianos celebram Divina Liturgia nos abrigos subterrâneos

Enquanto continua a sangrenta agressão putinista à Ucrânia, os católicos locais, unidos ao seu líder D. Sviatoslav Shecvhuk na resitência pela independência do país, celebram a Divina Liturgia (equivalente à Santa Missa, no rito bizantino) nos refúgios subterrâneos.

Imagens: Gloria TV e Catholic News-UGCC.

Saudações da Kiev ucraniana! Hoje é domingo, 27 de fevereiro de 2022. Tivemos outra noite terrível. Mas depois da noite vem o dia, vem a manhã, depois da escuridão vem a luz. Da mesma forma, depois da morte vem a ressurreição, que todos nós celebramos hoje.

No entanto, hoje, os cidadãos de Kiev não poderão ir à igreja porque o toque de recolher foi declarado e todos devem estar em casa devido à ameaça às vidas humanas. Mas então a Igreja virá ao povo. Os nossos padres irão para o subterrâneo, para os abrigos antiaéreos e realizarão as Divinas Liturgias.

D. Sviatoslav Shevchuk, domingo 27 de fevereiro de 2022 in news.ugcc.ua (tradução livre).

Basto 03/2022

Mensagem do líder dos católicos ucranianos aos seus compatriotas

Amado povo da Ucrânia protegido por Deus!

Mais uma vez, o nosso país volta a estar em perigo!

O inimigo traiçoeiro, apesar dos seus próprios compromissos e garantias, quebrando as regras básicas do direito internacional, pisou o solo ucraniano como um agressor injusto, trazendo consigo morte e destruição.

A nossa Ucrânia, que o mundo justamente apelidou de “terras de sangrentas”, tantas vezes aspergida com o sangue de mártires e lutadores pela liberdade e independência do seu povo, chama-nos hoje a defender a nossa pátria, a nossa dignidade diante de Deus e dos homens, o nosso direito de existir e o direito de escolher o nosso futuro.

É nosso direito natural e dever sagrado defender a nossa terra e o nosso povo, o nosso estado e tudo o que nos é mais caro: família, língua, cultura, história e mundo espiritual! Somos uma nação pacífica que ama os filhos de todas as nações com amor cristão, independentemente da origem ou crença, nacionalidade ou identidade religiosa.

Não invadimos os outros e não ameaçamos ninguém, mas não temos o direito de dar o que é nosso a ninguém! Neste momento histórico, a voz da nossa consciência chama-nos a resistir juntos por um Estado Ucraniano livre, unido e independente!

A história do século passado ensina-nos que todos aqueles que iniciaram as guerras mundiais as perderam-nas e que os idólatras da guerra trouxeram apenas destruição e declínio para seus próprios estados e povos.

Acreditamos que neste momento histórico o Senhor está connosco! Ele, que tem nas mãos o destino do mundo inteiro e de cada pessoa em particular, está sempre do lado das vítimas de agressões injustas, dos sofredores e dos escravizados. É Ele quem proclama o Seu Santo Nome na história de cada nação, captura e derruba os poderosos deste mundo com o seu orgulho, os conquistadores com a ilusão da sua onipotência, os orgulhosos e insolentes com a sua autoconfiança. É Ele quem concede a vitória sobre o mal e a morte. A vitória da Ucrânia será a vitória do poder de Deus sobre a mesquinhez e a arrogância do homem! Assim foi, é e será!

A nossa Santa Igreja Mártir sempre esteve e sempre estará com o seu povo! Esta Igreja, que já sobreviveu à morte e à ressurreição, como o Corpo de Cristo Ressuscitado, sobre o qual a morte não tem poder, foi dada pelo Senhor ao seu povo nas águas batismais do rio Dniepre.

Desde então, a história do nosso povo e da sua Igreja, a história das suas lutas de libertação, a história da encarnação da Palavra de Deus e a manifestação do Seu Espírito de Verdade na nossa cultura ficaram entrelaçados para sempre. E neste momento dramático, a nossa Igreja, como mãe e professora, estará com os seus filhos, protegê-los-á e servi-los-á em nome de Deus! Em Deus está a nossa esperança e Dele virá a nossa vitória!

Hoje proclamamos solenemente: “Vamos entregar as nossas almas e os nossos corpos pela nossa liberdade!” Hoje rezamos com um só coração e uma só boca: “Grandioso Deus, Uno, protegei nossa amada Ucrânia.”

Santos justos, mártires e confessores da terra ucraniana, rogai e intercedei por nós diante de Deus!

A benção de Deus esteja sobre vós!

† Sviatoslav

Dado em Kiev

na Catedral Patriarcal da Ressurreição de Cristo,

24 de fevereiro de 2022 AD

In Página oficial da Igreja Greco-Católica Ucraniana, 24/02/2022 (tradução livre).

Mensagem publicada por D. Sviatoslav Shevchuk poucas horas depois do início da invasão russa.

Basto 02/2022

Malachi Martin: o Segredo de Fátima está relacionado com a Ucrânia

Que sentido fazia uma referência à Ucrânia e a Kiev no contexto geopolítico do final dos anos 90 do século passado? Praticamente nenhum.

Basto 02/2022

Um interessante rumor sobre a conversão da Rússia

Em Maio de 1946, uma rapariga russa (Natacha Derfelden) no exílio em Paris, foi ao Congresso Mariano Internacional em Fátima e levou o solo russo para Santuário. Trinta e cinco mil delegados juvenis de todos os cinco continentes juntaram-se a ela num ato de consagração da Rússia ao Imaculado Coração [de Maria]. Há rumores de que Natacha foi informada pela Irmã Lúcia (a vidente de Fátima) que a conversão da Rússia seria completada através da Igreja Ortodoxa e do Rito Oriental.

Haffert, John M. (1956), Russia will be converted, p. 204 (tradução livre).

Basto 01/2022

Greco-Católicos Ucranianos: a peça fundamental

Disse-lhes Ele: «Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar.» (Jo 21, 6)

Quem são?

A Igreja Greco-Católica Ucraniana é uma igreja particular oriental, sui juris, em plena comunhão com Roma desde a União de Brest que ocorreu em 1595. Assumem-se ortodoxos, pois pertencem à tradição litúrgica bizantina, mas professam a Fé Católica e obedecem ao Papa. Por outras palavras, são ortodoxos católicos ou católicos orientais. No meio ortodoxo, são normalmente conhecidos como “uniatas” (ou Igreja Uniata), sendo este termo utilizado com conotação negativa.

Os católicos orientais são, infelizmente, bastante desconhecidos da maior parte dos católicos de Rito Latino e o seu papel é muitas vezes subvalorizado porque são menos numerosos e porque, enfim, parece que “não são carne nem são peixe” – um raciocínio que não podia estar mais errado. Apesar da tradição ortodoxa, eles são católicos de pleno direito, pelo que qualquer um dos seus bispos ou cardeais pode ser nomeado para o exercício de cargos de destaque dentro da Cúria Romana, podendo inclusivamente ser eleito Papa. Uma possibilidade que, de resto, já foi ficcionada na literatura e no cinema através do livro “As Sandálias do Pescador”, de Morris West, e posteriormente no filme homónimo.

Mais do que serem católicos de pleno direito histórico e institucional, eles são-no por direito de sangue. Os católicos orientais foram severamente perseguidos e levados quase à extinção, principalmente durante a era soviética, pela simples razão de se terem recusado a cooperar com o regime comunista, ao contrário do que acabaria por acontecer, por exemplo, com a Igreja Ortodoxa Russa. A igreja mártir da Ucrânia, os católicos ucranianos, em especial os de rito oriental, foram dos grupos religiosos mais fustigados em toda a era soviética. A sua valentia e heroísmo, a sua Fé e a sua obediência ao Bispo de Roma, produziram longas listas de mártires durante um dos períodos de maior hostilidade contra a Santa Igreja Católica Apostólica Romana em toda a sua história. O seu sangue derramado foi uma das maiores fontes de Graça Santificadora da Igreja durante o séc. XX.

Nós sentimos que somos o fruto do sangue dos mártires. A frase de Tertuliano “O sangue dos mártires é a semente dos cristãos” tornou-se verdade na nossa Igreja durante a minha própria história.

(D. Sviatoslav Shevchuk, in Salt and Light, 2013)

De todas as 23 igrejas católicas orientais, sui juris, a Igreja Greco-Católica Ucraniana, com uma população estimada que já deve ultrapassar largamente os oito milhões de fieis, é de longe a maior, continuando a crescer a um ritmo entusiasmante, não só dentro da Ucrânia, como também por toda a sua diáspora espalhada pelo mundo. Este crescimento e expansão geográfica provocam uma grande azia dentro da Rússia.

Enquanto a Igreja Católica Latina agoniza, com os seminários e conventos fechados, sem padres para as paróquias, profundamente descaracterizada devido à infiltração do modernismo teológico e de práticas cada vez mais heterodoxas e duvidosas, a Igreja Greco-Católica Ucraniana floresce, conservando a sua Fé Católica e toda a sua tradição bizantina, impermeável às tendências modernistas que devastaram os católicos ocidentais, de Rito Latino. Os seus seminários estão cheios e o número de padres, cerca de 300 no início dos anos 90, ultrapassa hoje os 3000, na sua maioria, jovens.

Todavia, mesmo sendo a segunda maior comunidade católica depois da Igreja Católica Latina e uma das mais promissoras, contrariamente às suas longas e justas expectativas, a Igreja Greco-Católica Ucraniana ainda não foi elevada pela Santa Sé à categoria de Igreja Patriarcal Autocéfala, o que a colocaria, em termos estatutários, ao nível de outras igrejas orientais incomparavelmente menos relevantes pela sua dimensão. E porquê? Para não prejudicar o diálogo ecuménico entre as Igrejas Católica e Ortodoxa Russa ou, com efeito, o relacionamento diplomático entre a Santa Sé e a Federação Russa.

Os católicos orientais da Ucrânia não têm ainda um Patriarca formalmente instituído, no fundo, pelas mesmas razões que levaram João XXIII, tal como os seus sucessores, a não realizar o solene ato de “consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria” nos termos em que fora pedido por Nossa Senhora de Fátima. Ou seja, pelas mesmas razões que fizeram João Paulo II, em 1982 e 1984, optar por consagrar a “humanidade” e o “mundo” ao Imaculado Coração de Maria, evitando sempre a palavra “Rússia” no derradeiro momento.

O líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, D. Sviatoslav Shevchuk, é o Arcebispo-mor (ou Arcebispo-Maior) de Kiev-Halic e toda a Rus. Imagine-se o que representaria, para a Igreja Ortodoxa Russa, a sua elevação à categoria de Patriarca (Católico) de toda uma região de tradição bizantina que é o berço da cristianização de grande parte dos povos eslavos , incluindo a própria nação russa. O líder da Igreja Ortodoxa Russa assume-se como Patriarca de Moscovo e de toda a Rus, o que também inclui a Ucrânia. A palavra “Rus”, referindo-se a uma antiga grande região da Europa do Leste, ou aos seus povos, está na origem etimológica da própria palavra “Rússia”.

Os católicos de rito oriental, em geral, e os Greco-Católicos Ucranianos, em particular, são indesejados, na sua natureza e na sua essência, pelas autoridades religiosas das igrejas ortodoxas separadas de Roma desde o Grande Cisma do Oriente  (1054). Esta hostilidade sente-se particularmente na Rússia, onde habita a maior comunidade ortodoxa a nível mundial e onde o forte nacionalismo passa também pela religião. Aí, os Greco-Católicos são vistos como uma fabricação ocidental, um instrumento subversivo utilizado pelos católicos para se infiltrarem no “território canónico” dos ortodoxos.

No chamado “território canónico” da ortodoxia, cuja liderança é reclamada – de forma mais ou menos assumida – por Moscovo (a “3.ª Roma”), a Ucrânia tem uma importância estratégica fundamental, por diversas razões:

  • É o maior estado europeu (depois da Rússia), tendo sido a segunda república mais importante no seio da União Soviética.
  • Com mais de oito milhões de russos, é o país onde se pode encontrar a maior comunidade de etnia russa fora da Rússia.
  • Os idiomas ucraniano e russo, sendo da mesma família linguística, são mutuamente percetíveis, o que reforça a proximidade étnica e cultural das duas nações.
  • Fez parte – e teoricamente, ainda faz – da área de influência do Patriarcado de Moscovo.
  • Em termos de predominância religiosa e cultural, a Ucrânia encontra-se na linha de charneira entre os “territórios canónicos” católico latino e ortodoxo. Sendo um país maioritariamente ortodoxo, faz fronteira com países onde predomina a tradição católica latina.
  • Kiev, atual capital ucraniana, foi onde ocorreu a conversão de São Vladimir o Grande ao cristianismo, no ano de 988, seguida da conversão em massa das tribos conhecidas como os Rus de Kiev. Ou seja, é o berço da cristianização da Rússia e arredores.

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Fresco da Catedral de Kiev alusivo ao batismo de São Vladimir o Grande (Viktor Vasnetsov, 1890)

Por que razão se sentiram os nossos irmãos Greco-Católicos Ucranianos profundamente desiludidos com a atitude do Santo Padre na Cimeira Cubana?

Durante o pontificado do Papa Francisco, os católicos ucranianos tinham já pedido ao Santo Padre para ser mais incisivo e condenar objetivamente as intromissões da Rússia no seu país, ainda assim, Sua Santidade optou sempre por uma posição equidistante em relação ao conflito ucraniano. Das vezes que se referiu ao assunto, fê-lo como se de uma guerra civil se tratasse, em que a Rússia não tinha nada a ver com aquilo. Este era o ponto de partida…

Depois, para uma comunidade católica cheia de traumas provocados pela ditadura comunista, o lugar escolhido para este encontro não lhes podia criar grandes expectativas. O Bispo de Roma e o Patriarca de Moscovo escolheram Cuba, um país que de “neutro” não tem nada, pois é ainda governado pela ditadura marxista e, historicamente, o principal aliado do URSS fora da Europa. Como se isso não bastasse, a Cimeira Cubana aconteceu praticamente no 70º aniversário do Pseudo-sínodo de Lviv, um esquema montado pelo regime comunista soviético, com a conivência da Igreja Ortodoxa Russa, que quase levou a Igreja Greco-Católica Ucraniana à extinção.

Havia, ainda assim, alguma esperança, todavia, esta transformou-se em pura desilusão e amargura no momento em que foi publicada a declaração conjunta, assinada pelos dois líderes religiosos, e se deram a conhecer os parágrafos que a eles diziam respeito.

25.       Esperamos que o nosso encontro possa contribuir também para a reconciliação, onde existirem tensões entre greco-católicos e ortodoxos. Hoje, é claro que o método do “uniatismo” do passado, entendido como a união de uma comunidade à outra separando-a da sua Igreja, não é uma forma que permita restabelecer a unidade. Contudo, as comunidades eclesiais surgidas nestas circunstâncias históricas têm o direito de existir e de empreender tudo o que é necessário para satisfazer as exigências espirituais dos seus fiéis, procurando ao mesmo tempo viver em paz com os seus vizinhos. Ortodoxos e greco-católicos precisam de reconciliar-se e encontrar formas mutuamente aceitáveis de convivência.

26.       Deploramos o conflito na Ucrânia que já causou muitas vítimas, provocou inúmeras tribulações a gente pacífica e lançou a sociedade em uma grave crise económica e humanitária. Convidamos todas as partes do conflito à prudência, à solidariedade social e à atividade de construir a paz. Convidamos as nossas Igrejas na Ucrânia a trabalhar por se chegar à harmonia social, abster-se de participar no conflito e não apoiar ulteriores desenvolvimentos do mesmo.

27.       Esperamos que o cisma entre os fiéis ortodoxos na Ucrânia possa ser superado com base nas normas canónicas existentes, que todos os cristãos ortodoxos da Ucrânia vivam em paz e harmonia, e que as comunidades católicas do país contribuam para isso de modo que seja visível cada vez mais a nossa fraternidade cristã.

28.       No mundo contemporâneo, multiforme e todavia unido por um destino comum, católicos e ortodoxos são chamados a colaborar fraternalmente no anúncio da Boa Nova da salvação, a testemunhar juntos a dignidade moral e a liberdade autêntica da pessoa, “para que o mundo creia” (Jo 17, 21). Este mundo, onde vão desaparecendo progressivamente os pilares espirituais da existência humana, espera de nós um vigoroso testemunho cristão em todas as áreas da vida pessoal e social. Nestes tempos difíceis, o futuro da humanidade depende em grande parte da nossa capacidade conjunta de darmos testemunho do Espírito de verdade.

(Declaração Conjunta de Havana, in Radio Vaticano, 12/02/2016)

Este documento, para além de rejeitar completamente a necessidade de conversão da Rússia, desvalorizou a fidelidade de mais de 400 anos dos Greco-católicos Ucranianos ao Bispo de Roma, que se separaram da ramo ortodoxo cismático a que pertenciam para se reunirem à Igreja Católica Romana. De certo modo, desaconselhou mesmo o seu exemplo.

O “uniatismo do passado” era entendido como a conversão à Fé Católica e a reunião à única instituição fundada por Cristo que mantém intacta a linha de sucessão que remonta a apóstolo São Pedro, o primeiro Papa. É uma pena que o Santo Padre rejeite, desta forma, o “uniatismo do passado,” uma vez que ele custou muitas vidas na Ucrânia e noutros países da Europa do Leste. A fidelidade a Roma foi paga com o sangue de muitos fiéis na Ucrânia.

Mais curiosa ainda é a ideia obscura de que a Cimeira Cubana outorgou à Igreja Uniata o direito de existir, como se, algum dia, esse direito pudesse vir de Havana…

Não devemos pedir a ninguém o direito de existir, somente Deus estabelece isto e sobretudo faz mal à compreensão da verdade a escassa clareza sobre a questão do uniatismo e o uso genérico do termo “expressões eclesiais”, sem referências precisas à Igreja Greco-católica ucraniana: Porque na terminologia da teologia ecuménica moderna, este termo é usado para as comunidades cristãs que não conservaram a plenitude da sucessão apostólica. Ao invés disto, nós somos uma parte integrante da comunhão católica.

(D. Sviatoslav Shevchuk, in Radio Vaticano, 24/02/2016)

De facto D. Sviatoslav Shevchuk tem razão, se esta Igreja existe dentro da comunhão Católica e da sucessão Apostólica é porque Deus assim o quis. Mais até, conforme foi pedido através de Nª Sª de Fátima, chegou o momento em que Deus quer que também a Rússia retorne definitivamente a esta comunhão.

A mensagem de Fátima fala de “conversão” e não de “cultura del encuentro”. Conversão pressupõe adesão a algo, neste caso a Fé Católica. A “cultura do encontro” rejeita linearmente a necessidade de conversão de alguma das partes, rejeita a reunião e solidifica formalmente a separação em prole de uma mera convivência comum.

D. Sviatoslav Shevchuk, o líder dos católicos ucranianos, nasceu e cresceu sob a ditadura comunista soviética. Com apenas 46 anos de idade, este destemido arcebispo é um dos mais jovens bispos de toda a Igreja Católica. É doutorado em Teologia Moral, fluente em várias línguas e teve um passado pastoral contemporâneo do então Arcebispo Bergoglio na Argentina. Teve uma intervenção brilhante no Sínodo da Família em defesa dos valores morais tradicionais contra a agenda imoral que aí teimou impor-se.

Os cristãos Greco-Católicos da Europa do Leste são uma peça fundamental na compreensão da mensagem de Fátima porque sofreram e resistiram aos horrores do comunismo soviético e são uma pequena amostra daquilo que a conversão da Rússia deverá ser um dia, após a o triunfo do Imaculado Coração de Maria.

Basto 06/2016