Do espaço de culto ao culto do espaço

O assunto não é novo, já aqui tinha sido referido anteriormente, mas é impossível permanecermos indiferentes a tanto interesse pastoral. Por exemplo, o próprio Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Conferência Episcopal Portuguesa, tem dado um enorme destaque ao culto que ali se presta. A fama da capela é tal que todos ali querem ir prestar culto ao “espaço” e também à santinha do sr. Andresen!

Pois, “essa profanação”, de facto…

O local de culto tornou-se tão popular que até os mais ilustres peregrinos da nação portuguesa ali se deslocam para, devotamente, partilharem um banco com a santinha. Estaremos perante uma nova forma de romaria urbana?

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Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa in Pastoral da Cultura, 28/11/2016

 

Emocionado, François Nicolas [músico francês] terá perguntado a Asbjørn Andresen, autor da escultura, num misto de admiração e questionamento: «Como é possível isto estar a acontecer em Braga? Que está na raiz destes novos paradigmas para a Igreja?» A estas e outras perguntas Asbjørn Andresen, demorando-se, irrompeu do silêncio com uma outra questão: «Porque nasceu Jesus em Belém?».

(in Pastoral da Cultura, 28/11/2016)

O espanto do sr. François acaba por não espantar ninguém, uma vez que Braga é afinal a “Roma Portuguesa”. Remetendo-nos para o tempo dos Suevos e dos Visigodos, a sua arquidiocese é muito anterior à fundação do Reino de Portugal. Tem rito litúrgico próprio, embora desprezado pelos clérigos locais, e o seu arcebispo ostenta, até hoje, o título de Primaz das Espanhas.

A resposta do escultor, em forma de pergunta, também convida à reflexão.

Algumas das abordagens pastorais mais inovadoras visam, na opinião de alguns, evitar a “idolatria” na religião, no entanto, o significado deste conceito é também bastante discutível.

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Basto 6/2017

A invulgar estátua de N.ª Sr.ª da Humildade da Capela Imaculada

O sr. Pe. Joaquim Félix, professor de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, apresenta-nos, num programa emitido pela Agência Ecclesia, a invulgar estátua de N.ª Sr.ª da Humildade da Capela Imaculada, que é assim:

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in Agência Ecclesia, 24/03/2016

A Capela Imaculada é um belo trabalho de intervenção arquitetónica, da responsabilidade do gabinete Cerejeira Fontes, na capela do Seminário de N.ª Sr.ª da Conceição, em Braga. Contudo, se tivermos em conta o ponto de partida, parece mais um trabalho encomendado pelo próprio Martinho Lutero. Elimina-se o presbitério, o altar-mor com o seu sacrário e também os santos, para se recriar um espaço amplo, de chão nivelado, pobre em iconografia, seguindo um linha teológica neoprotestante de cariz urbana.

Mais ou menos no centro do templo, inventou-se um lugar para colocar a “santinha” do escultor Asbjörn Andresen. Como os altares escasseiam, ela aparece – literalmente – sentada numa simples cadeira comum. Uma imagem sem graça que representa – segundo eles – a Virgem Cheia de Graça, mas não é mais do que uma evidência da desgraça em que caiu uma grande parte da Igreja Católica atual.

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in Agência Ecclesia, 24/03/2016

O sr. Pe. Félix explica-nos que a imagem é inspirada na iconografia ibérica, mas como nunca se viu tal coisa nas belas igrejas portuguesas e espanholas, só pode estar a referir-se aos “cabeçudos” que acompanham os “Zés Pereiras” nos arraiais minhotos.

Para além de representar um insulto à Mãe de Deus, bem como aos seus devotos, esta imagem levanta ainda outras questões relacionadas com o seu culto… Como é que se transporta uma santa destas numa procissão? Como é que os seminaristas se prostram para recitar o rosário? Será que alguém irá mesmo recitar o rosário a esta imagem? Será que alguém ainda reza o rosário?

Como aquilo é em Braga, quem quiser de facto rezar o terço em honra da Imaculada Conceição de Maria, o melhor será subir até à Basílica do Sameiro. Essa orgulha-se de ser um dos primeiros santuários do mundo construídos em honra da Imaculada Conceição de Maria, depois da definição dogmática decretada por Pio IX. O mesmo Papa que benzeria a bonita estátua da Imaculada Conceição aí presente no altar principal, e conforme se diz por lá, “mais bela só no Céu”.

As artes devem estar ao serviço da Fé e não o contrário.

Basto 3/2016