– 18/12/1917 –
Vou relatar de uma maneira breve e concisa, sem frases que velem a verdade, o que vi em Fátima no dia 13 de outubro de 1917.
As horas a que me referi são as que nessa época marcavam oficialmente o tempo, segundo a determinação do governo que unificara a nossa hora com a dos países beligerantes.
Faço isto para maior verdade, pois me não era fácil designar com precisão o momento em que o sol alcançou o zénite.
Cheguei ao meio-dia. A chuva que desde manhã caía miúda e persistente, tocada de um vento agreste, prosseguira irritante, na ameaça de querer tudo liquefazer.
O céu baixo e pesado tinha uma cor pardacenta prenhe de água prenúncio de chuva abundante e de longa duração.
Quede-me na estrada ao abrigo da capota do automóvel e um pouco sobranceiro ao local que diziam ser o da aparição, não ousando meter-me no lamaçal barrento e pegajoso do campo frescamente lavrado.
Estaria a pouco mais de cem metros dos elevados postes, que uma tosca cruz encimava, com os guarda-chuvas abertos parecia um vasto sobrado de broquéis.
Pouco depois da uma hora, chegaram as crianças a quem a Virgem (garantiam elas) marcara lugar, dia e hora da aparição. Ouviam-se os cânticos entoados pelo povo que as cercava.
Numa determinada altura, esta larga massa, confusa e compacta, fechou os guarda-chuvas e descobriu-se num gesto que devia ser de humildade ou respeito, mas que me deixou admirado, porque a chuva, numa continuidade cega, molhava agora as cabeças, encharcava e ensopava.
Disseram-me depois que esta gente, que acabou por ajoelhar na lama, tinha obedecido à voz de uma criança.
Devia ser uma e meia (treze e meia) quando se ergueu no local preciso onde estavam as crianças, uma coluna de fumo, delgada, ténue e azulada que subiu direita até dois metros, talvez, acima das cabeças para nesta altura se esvair.
Durou este fenómeno, perfeitamente visível a olho nu, alguns segundos. Não tendo marcado o tempo de duração, não posso afirmar se mais ou menos de um minuto. Dissipou-se bruscamente o fumo e, passado algum tempo, voltou a repetir-se o fenómeno uma segunda e uma terceira vez.
Das três vezes, e sobretudo da última, destacaram-se nitidamente os fustes esguios na atmosfera cinzenta.
Dirigi para lá o binóculo. Nada consegui ver para além das colunas de fumo, mas convencido fiquei de que eram produzidas por algum turíbulo, não agitado, em que queimava incenso.
Depois, pessoas dignas de fé afirmaram-me que era de uso produzir-se o acontecimento no dia 13 dos cinco meses anteriores e que nesses dias, como neste, nunca ali se queimara nada nem se fizera fogo.
Continuando a olhar o lugar da aparição, numa expectativa serena e fria e com uma curiosidade que ia amolecendo, porque o tempo decorrera longo e vagaroso sem que nada activasse a minha atenção, ouvi o bruaá de milhares de vozes e vi aquela multidão espraiada pelo largo campo que se estendia a meus pés, ou concentrada em vagas compactas, em redor dos madeiros erguidos, ou sobre os baixos socalcos que retinham as terras, voltar as costas ao ponto que até então convergira os desejos e ânsias, e olhar o céu do lado oposto.
Eram quase duas horas.
O sol momentos antes tinha rompido ovante, a densa camada de nuvens que o tivera escondido, para brilhar clara e intensamente.
Voltei-me para este íman que atraía todos os olhares e pude vê-lo semelhante a um disco de bordo nítido e aresta viva, luminoso e luzente, mas sem magoar.
Não me pareceu bem a comparação, que ainda em Fátima ouvi fazer, de um disco de prata fosca. Era uma cor mais clara, activa e rica, e com cambiantes, tendo como que o oriente de uma pérola.
Em nada se assemelhava à lua em noite transparente e pura porque se via e sentia-se ser um astro vivo. Não era como a lua esférica e não tinha a mesma tonalidade nem os claros-escuros.
Parecia uma rodela brunida cortada no nácar de uma concha. Isto não é uma comparação banal de poesia barata. Os meus olhos viram assim.
Também não se confundia com o sol encarado através de nevoeiro (que aliás não havia àquele tempo), porque não era opaco, difuso e velado.
Em Fátima tinha luz e calor e desenhava-se nítido e com a borda cortada em aresta como uma tábula de jogo.
A abóbada celeste estava enevoada de cirros leves, tendo frestas de azul aqui e acolá, mas o sol algumas vezes se destacou em rasgões de céu limpo.
As nuvens que corriam ligeiras de poente para oriente não empanavam a luz (que não feria) do sol, dando a impressão facilmente compreensível e explicável de passar por detrás, mas por vezes, esses flocos, que vinham brancos, pareciam tomar, deslizando ante o sol, uma tonalidade rosa ou azul diáfano.
Maravilhoso é que, durante longo tempo, se pudesse fixar o astro, labareda de luz e brasa de calor, sem uma dor nos olhos e sem um deslumbramento na retina que cegasse.
Este fenómeno com duas breves interrupções em que o sol bravio arremessou os seus raios mais coruscantes e refulgentes, e que obrigaram a desviar o olhar, devia ter durado cerca de dez minutos.
Este disco nacarado tinha a vertigem do movimento. Não era a cintilação de um astro em plena vida. Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada.
De repente ouve-se um clamor, como que um grito de angústia de todo aquele povo. O sol conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e sanguíneo avança sobre a terra ameaçando esmagar-nos com o peso da sua ígnea e ingente mó. São segundos de impressão terrífica.
Durante o acidente solar, que detalhadamente tenho vindo a descrever, houve na atmosfera coloridos cambiantes. Não posso precisar bem a ocasião, porque já lá vão dois meses passados, e eu não tomei notas. Lembro-me que não foi logo no princípio e antes creio que foi para o fim.
Estando a fixar o sol, notei que tudo escurecia à minha volta. Olhei o que estava perto e alonguei a vista para o largo até ao extremo horizonte, e vi tudo cor de ametista.
Os objectos, o céu e a camada atmosférica tinham a mesma cor. Uma carvalheira arroxeada, que se erguia na minha frente, lançava sobre a terra uma sombra carregada. Receando ter sofrido uma afecção da retina, hipótese pouco provável, porque, dado este caso, não devia ver as coisa em roxo, voltei-me, cerrei as pálpebras e retive-as com as mãos para interceptar toda a luz.
Ainda de costas, abri os olhos e reconheci que, como antes, a paisagem e o ar continuavam da mesma cor roxa.
A impressão que se tinha não era de eclipse. Vi o eclipse do sol que, em Viseu, onde estava, foi total.
À medida que a lua marcha a esconder o sol, a luz vai-se acinzentando até que tudo se torna baço e negro.
A vista alcança um pequeno círculo para lá do qual os objectos se vão tornando cada vez mais confusos até que se perdem no negrume.
Baixa a temperatura consideravelmente, e dir-se-á que a vida na terra morreu. Em Fátima, a atmosfera, embora roxa, permaneceu transparente, até ao confim do horizonte que se destinge e vê claramente, e eu não tive a sensação de uma paragem da energia universal.
Continuando a olhar o sol, reparei que o ambiente tinha aclarado. Logo depois ouvi um campónio, que cerca de mim estava, dizer com voz de pasmo: esta senhora está amarela.
De facto tudo agora mudara, perto e distante, tomando a cor de velhos damascos amarelos. As pessoas pareciam doentias e com icterícia. Sorri-me de as achar francamente feias e desairosas. Ouviram-se risos. A minha mão tinha o mesmo tom amarelo.
Dias depois, fiz a experiência de fixar o sol uns breves instantes. Retirada a vista, vi, após alguns momentos, manchas amarelas irregulares na forma. Não se vê tudo de uma cor uniforme, como se no ar se tivesse volatilizado um topázio, mas nódoas ou malhas que com o movimento do olhar se deslocam.
Todos estes fenómenos que citei e descrevi, observei-os eu sossegada e serenamente sem uma emoção ou sobressalto.
A outros cumpre explicá-los ou interpretá-los.
Para terminar, devo fazer a afirmação, que nunca, nem antes nem depois do dia 13 de outubro, vi iguais fenómenos solares ou atmosféricos.
José Maria de Proença de Almeida Garrett [*]
(in Novos Documentos de Fátima, 1984, p. 60-63)