“Um estranho tipo de ecumenismo” – Francisco enfrenta críticas na Ucrânia

Por Anatolii Babynskyi

À medida que a guerra continua na Ucrânia, os católicos ucranianos dizem que querem mais apoio do Papa Francisco, que há muito clama pela paz naquele país, mas não condenou explicitamente os líderes russos, que iniciaram uma invasão à Ucrânia a 24 de fevereiro, nem contestou diretamente o papel do patriarca ortodoxo russo pelo seu apoiou à invasão.

Papa Francisco cumprimenta o arcebiso-mor D. Sviatoslav Shevchuk, líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Foto: Igreja Greco-Católica Ucraniana.

Os ucranianos contestaram duramente a abordagem da Santa Sé ao conflito e o significado das aberturas ecuménicas entre o Papa Francisco e o Patriarca Kirill de Moscovo, o patriarca ortodoxo que é amplamente visto na Ucrânia como um defensor da invasão russa.

Alguns católicos ucranianos disseram ao The Pillar que se sentiram ofendidos ou desencorajados pelos esforços do Vaticano no sentido do ecumenismo com a Igreja Ortodoxa Russa, outros dizem que a Santa Sé precisa de melhorar a comunicação com os católicos da Ucrânia para percebera realidade que o país enfrenta.

“A experiência da guerra é desafiadora para todos e nós procuramos apoio e recursos em algo estável e duradouro, que para mim é a fé e a Igreja. O chefe da nossa Igreja – a Igreja Greco-Católica Ucraniana – tem uma posição inequívoca. Mas quando o chefe da Igreja universal, de  quem também espero apoio, revela falta de compreensão da situação… isso magoa-me muito”, confessou Olena Bidovanets, especialista em doenças infecciosas em Kiev e presidente da Obnova – a Sociedade de Estudantes Católicos Ucranianos.

Quando a guerra começou, Bidovanets encontrava-se nos EUA, com uma bolsa Fulbright, a estudar saúde pública. Regressou a Kiev, a 14 de março, para trabalhar com um grupo de assistência médica humanitária na Ucrânia.

Bidovanets confessou ao The Pillar que, como muitos ucranianos, gostaria de ouvir do Papa Francisco uma condenação mais clara e incisiva à invasão do seu país e à cumplicidade do patriarca ortodoxo russo no apoio a esta guerra. 

A médica disse estar desiludida com a decisão do Vaticano, no mês passado, de convidar duas mulheres, uma russa e outra ucraniana, residentes em Itália, para participarem na Via Sacra da Sexta-feira Santa, presidida pelo Papa Francisco – com as duas mulheres segurando a cruz na 13ª Estação da Cruz. 

Embora as autoridades do Vaticano tivessem afirmado que o gesto pretendia ser um apelo à paz, Bidovanets considerou-o inapropriado. A sua perspetiva tem ecoado amplamente entre os greco-católicos e os católicos latinos na Ucrânia.

Uma mulher ucraniana e uma russa seguram a cruz na Via Sacra da Sexta-feira Santa, dirigida pelo Papa Francisco.  Imagem: Vatican Media.

“Na minha opinião, seria justo convidar uma mulher de Bucha e perguntar-lhe se estava disposta a carregar essa cruz. Com todo o respeito pela mulher ucraniana que vive em Itália há 20 anos, uma pessoa que está longe da realidade que aqui se vive não podia carregar essa cruz”, explicou Bidovanets.

Bidovanets, que pertence à Igreja Greco-Católica Ucraniana, disse ao The Pillar que ficou chocada quando o Papa Francisco afirmou, no mês anterior, que “lamenta” o cancelamento de uma reunião prevista para junho com o Patriarca Kirill.

Referindo-se às relações ecuménicas da Igreja Católica com o Patriarcado de Moscovo, Bidovanets relembrou as décadas de 1960 e 1970, quando as posições de ostpolitik do Vaticano atingiram o seu auge, pois a Santa Sé evitou a condenação aberta da perseguição aos católicos e outros cristãos para lá da Cortina de Ferro. 

“Para que é que a nossa Igreja sofreu durante 45 anos na clandestinidade?”, perguntou.

A ostpolitik do Vaticano – a sua abordagem diplomática relativamente à Rússia e à Europa Oriental – é um dos assuntos mais debatidos hoje entre os intelectuais católicos na Ucrânia. 

Yurii Pidlisnyi é presidente do departamento de ciência política da Universidade Católica Ucraniana e presidente da Comissão de Família e Leigos da Igreja Greco-Católica Ucraniana. 

Pidlisnyi confessou ao The Pillar que acha que “a posição do Vaticano em relação à guerra russo-ucraniana não é clara, parece um sacrifício da verdade a favor do lucro ilusório da ostpolitik”.

“Para mim, é difícil compreender a razão pela qual agem deste modo porque que essa política não trará qualquer benefício à Igreja Católica. Se havia a esperança de que Kirill viesse a atuar como um parceiro no alcance de metas globais, ou como uma pessoa que ajudaria nas negociações com Putin, isso não passa de uma ilusão, uma vez que ele não é a pessoa de quem algo depende.” 

“[Kirill] não pode falar em pé de igualdade com Putin dado que a Igreja na Rússia, particularmente sob Kirill, tornou-se 100% dependente do poder político, trabalhando ao seu serviço. Ele é um porta-voz da política do Kremlin, não uma autoridade moral que pode resolver alguns problemas humanitários”, acrescentou Pidlisnyi.

Muitos católicos e ortodoxos na Ucrânia ficaram aliviados quando o Vaticano anunciou, no mês passado, que uma reunião prevista para junho entre o Papa Francisco e o Patriarca Kirill havia sido cancelada. De facto, depois do anúncio do seu cancelamento, as posteriores notícias de que o Papa Francisco não visitaria Kiev passaram praticamente despercebidas no país. 

Para muitos padres, o cancelamento do encontro agendado entre Francisco e Kirill resolveu as questões que esperavam ouvir de seus paroquianos.

Vários sacerdotes disseram ao The Pillar que os seus paroquianos não acompanham as nuances da diplomacia do Vaticano, mas que fotos conjuntas de Francisco e Kirill seriam desmoralizantes para o povo ucraniano, do mesmo modo que as suas explicações ou interpretações não seriam fáceis de dar.

“As pessoas que vivem em guerra sentem-se indignadas e insultadas por qualquer gesto positivo em relação ao Patriarca Kirill, que aprova e abençoa esta guerra”, referiu Pe. Mykola Myshovskyi, um sacerdote católico latino de Vinnytsia, que é o diretor de uma popular página sobre atualidade católica na Ucrânia .

O Pe. Myshovskyi explicou que os gestos ecuménicos da Igreja em relação ao Patriarca de Moscovo – juntamente com a controvérsia sobre a Via Sacra da Sexta-feira Santa – apagaram muito do trabalho de credibilização da Igreja Católica na Ucrânia realizado ao longo dos últimos 30 anos: “Hoje, na sociedade ucraniana, o grau de negatividade relativamente à Igreja Católica é bastante elevado, podendo ser constatado tanto entre os próprios católicos como entre aqueles que tratavam a nossa Igreja com simpatia. Para muitos crentes, este é um teste muito difícil”.

“As pessoas têm nervos sensíveis; o seu estado psicológico é mau e, nessa situação, sentem-se traídas. Para muitas pessoas, a Igreja era a última coisa que restava. Literalmente, perderam familiares, bens e empregos. E quando, afinal, acontecem coisas na Igreja que os fazem querer chorar, é lamentável”, explicou Pe. Myshovskyi, acrescentando ironicamente: “Este papa consegue ser firme e incisivo apenas para com os católicos tradicionais, mas não para com Moscovo…”

Já Pidlisnyi, o cientista político, fez uma avaliação pessimista da situação da Igreja na Ucrânia: “Infelizmente, este papa desperdiçou as conquistas de João Paulo II e Bento XVI [na Ucrânia]”.

“João Paulo II foi um apóstolo da paz, um homem que não tinha medo de chamar os bois pelos nomes. Embora a ostpolitik também pesasse sobre ele, libertou-se dela. Em vez disso, Francisco conseguiu que ortodoxos, protestantes e pessoas justas de boa vontade, que respeitavam a autoridade papal, estejam agora a afastar-se da Igreja Católica. Essa credibilidade terá de ser restaurada durante muito tempo”, explicou o professor.

O Pe. Petro Balog, OP, diretor do Instituto de São Tomás de Aquino em Kiev, concordou que a posição do Vaticano sobre a guerra afetará a missão da Igreja Católica na Ucrânia. 

Balog disse que, até recentemente, o Papa era, para os ucranianos, o mais confiável de todos os líderes religiosos mundiais. E acrescentou que, neste momento, é difícil dizer se o Pontífice desfrutará dessa confiança no futuro. 

O dominicano observou também que muitas avaliações na Ucrânia são agora bastante emocionais: “Hoje, muitos países do mundo apoiam a Ucrânia, portanto, a sociedade ucraniana está imersa nessa onda. Aqueles que não estão do nosso lado, são imediatamente rotulados como inimigos – acusamos os políticos mundiais que agem de forma mais cautelosa e não da forma mais adequada”. 

“Acredito que o Papa definitivamente não é nosso inimigo”, observou Balog. 

O Papa Francisco condenou repetidamente a guerra na Ucrânia e pediu paz. Ele atraiu a ira de muitos ucranianos porque não condenou a Rússia pelo nome e porque o seu interesse ecuménico por Moscovo parece desimpedido pelo apoio de Kirill à ideologia do Russkiy Mir [Mundo Russo].

O Pe. Balog concordou que o Vaticano enfatizou a sua relação ecuménica com Moscovo na sua abordagem à guerra russo-ucraniana: “Há uma certa inércia em relação a isso. Quando a fase quente da guerra começou com o apoio da Igreja Ortodoxa Russa, ainda assim, o Vaticano procurou manter-se acima de tudo isso, tentando manter os seus laços com Moscovo. Como esse diálogo foi desenvolvido ao longo de séculos, eles não querem estragar tudo com um golpe de caneta – isto porque estão já a pensar no que acontecerá depois da guerra.” 

“Pode-se lembrar que quando havia a URSS, os patriarcas estavam sob o controle do governo ateu, mas os contactos não pararam”, lembrou o padre. 

Balog refeiru que é difícil dizer se a abordagem ecuménica do Vaticano se justifica; isso só se tornará evidente com o tempo, disse ele. 

Ainda assim, o padre afirmou que é difícil entender a abordagem dos diplomatas do Vaticano que organizaram cimeiras como uma reunião de 2016, em Havana, entre Francisco e Kirill.

“Do nosso ponto de vista, podemos dizer que essas coisas deveriam ser feitas de forma diferente. É possível que o Vaticano não tenha pessoas que possam transmitir bem a perspetiva ucraniana. Existem lá russófilos, mas faltam, por assim dizer, “ucraniófilos” que equilibrem as abordagens da Santa Sé”.

O Pe. Jurij Blazejewski, editor da revista Skynia (Tabernáculo), em Lviv, e aluno da Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma, afirmou que também constata a necessidade da presença de católicos ucranianos no Vaticano. 

De acordo com Blazejewski, a maioria dos trabalhadores e funcionários da Cúria Romana são representantes da “velha Europa”. 

“Eles têm a visão da Rússia como uma superpotência que deve ser considerada em qualquer circunstância. Eles já nascem com essa abordagem e, na opinião deles, o mundo está organizado desse modo.”

Blazejewski afirma que os líderes da Igreja ucraniana devem analisar a melhor forma de se comunicarem com as autoridades do Vaticano e o melhor modo de expressarem as suas perspetivas sobre questões ecuménicas e políticas. 

“Nós, ucranianos, devemos estar presentes aqui (em Roma), ser intérpretes do contexto, estar envolvidos no processo e não ser meros observadores externos que só criticam porque o Vaticano não nos entendeu. Mas quem lhes vai explicar a nossa perspetiva? No caso da Via Sacra, foi uma falha de comunicação, não do lado do Vaticano, mas do lado da Ucrânia. O Vaticano não entende o contexto e o estado de espírito da sociedade ucraniana. O problema é que não se conhece as pessoas com quem não se comunica. E há muito poucos ucranianos que poderiam fazer isso. Este é um problema que os líderes da Igreja na Ucrânia precisam de analisar.”

Mas o Pe. Vyacheslav Okun, SJ, um padre greco-católico ucraniano que estuda no Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, disse duvidar que as autoridades do Vaticano não tenham as informações e o contexto sobre os eventos na Ucrânia.

“Acho que, neste caso, o problema não está na falta de comunicação, porque o cardeal Krajewski e o cardeal Czerny visitaram a Ucrânia, conversaram com autoridades locais, os hierarcas católicos e ortodoxos, visitaram [refugiados] no oeste da Ucrânia e estiveram nos locais dos massacres na região de Kiev”.

“Penso que a informação que o Vaticano recebe através da nunciatura em Kiev também os ajuda a entender melhor a situação na Ucrânia. Além disso, muitos dos nossos [refugiados], crianças e mulheres já chegaram aqui à Itália. Portanto, tenho certeza de que a informação chega às pessoas relevantes que a processam, mas as conclusões feitas e os passos propostos não dão o resultado que gostaríamos de ouvir e ver.” 

“Talvez seja o fenómeno que os italianos chamam de buonismo, ou um desejo ingénuo de ver alguns resquícios do bem, mesmo no agressor, depois dos horrores desumanos”, acrescentou o padre. 

“Acho que essa é a inerte visão de mundo do ‘Velho Continente’ após a Segunda Guerra Mundial. Há uma narrativa de que vivemos em paz desde então. Dizem que conseguimos alcançar a paz e, mais importante, voltar a ela por qualquer meio. Mas já havia guerras na Europa; houve uma guerra na Jugoslávia, agora entre a Rússia e a Ucrânia. Há também a crença ingénua de que os russos estão prontos para uma solução pacífica para essa guerra e também estão prontos para fazer concessões – que é possível dialogar com eles e resolver problemas no campo diplomático. Talvez seja por isso que vemos tais reações.” 

Okun disse que, na sua opinião, Roma está a tentar, a todo custo, não perder o seu diálogo ecuménico com o Patriarcado de Moscovo.

“Mas temos um tipo estranho de ecumenismo, em que uma das partes prega e abençoa a guerra. Na Ucrânia, os ortodoxos sofrem e morrem, antes de tudo. A maioria dos mortos na Ucrânia eram ortodoxos e, muito provavelmente, muitos deles pertenciam ao Patriarcado de Moscovo. Então, [os soldados] matam o seu rebanho e os seus companheiros crentes, enquanto o patriarca justifica isso como uma luta ‘metafísica’ contra o mal. Que tipo de ecumenismo é esse? E os ucranianos ortodoxos?”

Fonte: pillarcatholic.com, em 2 de maio de 2022 (tradução nossa).

O Mito do “Cruzado Putin”

Por Cole Kinder

Nos últimos anos, os católicos americanos viram o seu país em forte contradição com muitas das suas crenças mais sólidas – desde o casamento tradicional à defesa da família e à defesa dos nascituros. Como reação, muitos de nós olhámos para o mundo exterior em busca de um país cristão que emitisse um vislumbre de esperança. 

Alguns católicos conservadores encontraram na Rússia um potencial aliado. No entanto, dada a invasão russa da Ucrânia, talvez precisemos de olhar um pouco mais de perto.

É verdade que a Rússia do presidente Putin defende a família e o casamento tradicional, mas também a Ucrânia do presidente Zelensky. Estes dois países são praticamente semelhantes em termos de “direitos gay” e ambos se opõem veementemente ao “casamento” entre pessoas do mesmo sexo. Nesta questão, ambos os países são bastante conservadores.

Quando se trata do aborto, o presidente Putin e o presidente Zelensky dirigem países muito abertos à legalização do aborto. A Rússia tem a maior taxa de aborto per capita do mundo, enquanto o presidente Zelensky deseja tornar o aborto mais acessível na Ucrânia. O presidente Zelensky também quer a prostituição e outras práticas imorais legalizadas. Embora a prostituição seja também ilegal na Rússia, é punível apenas com uma multa mínima. A prostituição é muito popular na Rússia e até elogiada pelo próprio presidente Putin. 

A Rússia e a Ucrânia, embora ambas cristãs em algumas questões, são muito parecidas com qualquer outra nação, quando se trata das suas leis – são ao gosto do freguês, nas questões proeminentes, seja cristão ou não cristão.

No entanto, mesmo com todos esses factos, ouve-se dizer que a Rússia é um país cristão, como se a Ucrânia fosse menos. E ouvir-se-á dizer que a agressão russa à Ucrânia é uma espécie de cruzada cristã contra o ateísmo ocidental. Tal perspectiva, no entanto, não se materialliza nos factos. 

Olhando para a demografia, a Rússia é, de facto, menos cristã do que a Ucrânia. Além disso, e mais importante, a Rússia também é menos católica do que a Ucrânia. A Ucrânia não só tem uma percentagem maior de católicos (7,8% para 0,5%, aproximadamente), mas também tem um maior número total de católicos (3.354.000 para 717.101, em números aproximados). 

Além disso, a Ucrânia abriga a maior Igreja Católica Oriental, a Igreja Greco-Católica Ucraniana. A sua antiga sede localiza-se em Lviv, localidade para onde os EUA e muitos dos seus aliados ocidentais estão a transferir as suas embaixadas. Lviv é uma cidade e um oblast (província) onde a maioria da população é greco-católica. Dois outros oblasts na Ucrânia Ocidental também são católicos. Lviv foi e ainda é o lar da Igreja Católica Romana (Rito Latino) e da Igreja Católica Arménia (outra Igreja Católica Oriental) nesta região da Ucrânia.

A Igreja Greco-Católica Ucraniana não é apenas a maior Igreja Católica Oriental, ela possui também uma ligação direta à cristianização da Rus’ de Kiev, como uma das igrejas sucessoras da conversão do Príncipe São Vladimir I o Grande, de Kiev, ao cristianismo, em 988. Portanto, as raízes católicas dos ucranianos são profundas.

Além da Igreja Greco-Católica Ucraniana, a Ucrânia tem ainda a Igreja Greco-Católica Rutena, com sua sede em Pittsburgh, Pensilvânia, nos EUA. Esta é a igreja dos rutenos ou rusyns, outro grupo eslavo oriental que constitui uma minoria considerável na Ucrânia, para além de outras áreas da cordilheira dos Cárpatos onde também vivem. Esta área é chamada Carpato-Ruténia e inclui parte da Ucrânia, Eslováquia, Polónia, Hungria e Roménia, correspondendo à mesma região de onde os croatas brancos são originários, uma das tribos que fundaram a Croácia, nação fortemente católica.

Na Ucrânia, os rutenos habitam o Oblast de Zakarpatska, na Ucrânia Ocidental, onde a Igreja Greco-Católica Rutena é a principal jurisdição católica. A Igreja Greco-Católica Rutena pode traçar as suas origens até São Cirilo e São Metódio, que converteram os eslavos da Grande Morávia ao cristianismo, em 863.

É verdade que também existe uma Igreja Greco-Católica Russa, mas essa nunca conquistou tantos membros nem um sentido de identidade nacional como o da Igreja Greco-Católica Ucraniana.

Devido às alterações nas fronteiras da Ucrânia, os ucranianos viviam sob o domínio dos Habsburgos em lugares como Lviv e, portanto, têm raízes mais profundamente católicas. Muitos da diáspora ucraniana, especialmente nos Estados Unidos, fazem parte da Igreja Greco-Católica Ucraniana. O mesmo não pode ser dito relativamente à Rússia, onde não há qualquer cidade ou região importante, nem passado histórico, em que a Igreja Greco-Católica Russa desempenhe um papel relevante.

Como se pode constatar, existe uma profunda afinidade entre os ucranianos e a Igreja Católica, o qual não encontra paralelo na Rússia. Esses católicos são geralmente os mais determinados patriotas da Ucrânia. Há uma razão para isso. Os ucranianos olharam muitas vezes para o Ocidente, como quando, durante o Reino da Galícia-Volínia, buscaram proteção contra os mongóis, nos anos 1200. Este reino e a região da Galícia tinham como centro, Lviv, a sua capital. 

Lviv e as outras regiões católicas ucranianas do Ocidente foram também fundamentais na luta pela independência ucraniana no Movimento “Rukh”, que viu a Ucrânia alcançar a independência, em 1991, da brutal URSS liderada pela Rússia – com 92,5% dos votos – e uma considerável maioria em todos os oblasts, exceto na República Autónoma da Crimeia e numa cidade com estatuto especial, Sebastopol, onde também havia maioria mas com uma participação extremamente baixa. 

Os católicos ucranianos e os seus compatriotas buscaram a independência dos abusos que os impérios liderados pela Rússia cometeram contra o povo da Ucrânia ao longo dos anos. O clero católico na União Soviética foi disso exemplo, com tantos mártires e confessores. Contam-se ainda 128 bispos e freiras da Igreja Greco-Católica Rutena enviados para os gulags soviéticos e 36 padres greco-católicos rutenos assassinados. 

A Igreja Greco-Católica Ucraniana foi, entretanto, ilegalizada pela União Soviética de 1946-1989. Em 2014, na Crimeia, muitos clérigos católicos foram forçados a sair, depois da invasão russa. Alguns pensam que esses abusos foram provocados apenas pelo comunismo, mas, na verdade, como se ponde constatar no exemplo da Crimeia, parece ser também um problema da Federação Russa. 

A invasão russa da Ucrânia trará muito sofrimento católico. Como católicos leais, devemos lembrar que a busca de outras grandes expências eslavas não foram motivo de regozijo para nossa Igreja ou para a maioria das outras, no passado recente. A Rússia tem frequentemente objetivos revanchistas e, embora possa parecer que a Rússia vai parar na Ucrânia, há sempre preocupações de que a sua invasão possa alastrar a outras partes da antiga União Soviética e do Pacto de Varsóvia.

Países católicos como a Polónia, a Eslováquia e a Hungria poderão ser os próximos na fila para a agressão russa. Além disso, outros países católicos como a Croácia e a Eslovénia estão a poucos passos de distância. Já a católica Lviv está sob fogo cruzado. Para os católicos, a ameaça da Rússia é muito real, não apenas dentro da Rússia. 

Os católicos não devem apenas hesitar em apoiar uma invasão putinista pelo simples facto de as guerras desnecessárias serem contra a nossa fé, mas devem opor-se à invasão da Ucrânia porque a nossa fé é forte naquele país. Se os católicos conservadores desejam um mundo mais católico, devem fazer todos os esforços para apoiar a Ucrânia, um dos poucos países com uma herança verdadeiramente católica.

Fonte: crisismagazine.com, em 28 de fevereiro de 2022 (tradução nossa).

A Guerra da Rússia e a Mensagem de Fátima

Por Roberto de Mattei

Mensagem de Fátima, a chave interpretativa para o nosso tempo

A mensagem de Fátima é a chave para interpretar os acontecimentos dramáticos dos dois últimos anos e, em particular, o que está a acontecer na Ucrânia. É compreensível que essa perspectiva seja estranha ao homem contemporâneo, imerso no relativismo, mas o que mais chama a atenção é a cegueira de tantos católicos, incapazes de subir àquelas alturas que são as únicas que nos permitem compreender os acontecimentos nas horas dramáticas de história. Após a pandemia do Covid, vivemos agora a dramática hora da guerra.

A frente colaboracionista

Os factos são estes: em 21 de fevereiro de 2022, o presidente russo Vladimir Putin, num discurso à nação, anunciou o reconhecimento da independência das repúblicas separatistas de Donetsk e Luhansk e, depois, ordenou que fossem enviadas tropas para a região de Donbas com o objetivo de “garantir a paz”. Em 24 de fevereiro, Putin declarou, noutro discurso, que havia autorizado uma “operação militar especial”, não apenas em Donbas, mas também no Leste da Ucrânia. De imediato, a invasão russa da Ucrânia mostrou-se muito mais ampla e trágica do que se esperava, causando um clima de profunda apreensão no mundo inteiro.

Qual tem sido a reação da Itália e do Ocidente perante a agressão da Rússia contra a Ucrânia? Por um lado, houve uma explosão de sentimentos de indignação e de solidariedade para com o povo ucraniano. Por outro, porém, desenvolveu-se um sentimento de afinidade para com a iniciativa de Putin, levando à formação de uma frente a que eu chamo de “colaboracionista”.

O termo “colaboração” indica, em linguagem política, apoio ideológico a um estado estrangeiro invasor. Este termo foi cunhado durante a Segunda Guerra Mundial para indicar a colaboração com os nazis nos territórios que ocupavam. O colaboracionismo não é apenas um ato de colaboração: é uma ideologia, explícita ou implícita, que, no caso da invasão russa da Ucrânia, merece ser analisada nas três diferentes expressões que assumiu até agora.

Melhor derrotado do que morto?

A primeira posição é a daqueles que dizem ou pensam que Putin está absolutamente errado mas está a vencer, portanto, resistir-lhe conduz a Ucrânia e a Europa a males maiores do que a invasão. Segundo o jornalista italiano Vittorio Feltri, por exemplo, “Zelensky é pior do que Putin, a quem entregou o seu povo impreparado para o massacre”, o líder ucraniano devia ter-se rendido e não resistido. Na verdade: “Melhor derrotado do que morto”.

Por trás do slogan “Melhor derrotado do que morto” há uma filosofia de vida, que é a daqueles que colocam o seu próprio interesse particular antes de qualquer outra consideração de ordem superior. Não há valores ou bens, por mais elevados que sejam, pelos quais valha a pena sacrificar-se e morrer. Se a invasão russa deve ser preferida à resistência contra ela, isso significa que a vida, uma vida material, tão pacífica e longa quanto possível, é o bem supremo e essencial.

Esta é a filosofia de vida dos pacifistas que, nos anos 1980, quando os soviéticos instalavam os seus mísseis SS.20 contra a Europa, se opuseram aos mísseis da NATO, com o slogan “Melhor vermelho que morto”. É a filosofia de vida daqueles que, em 1939, se perguntavam se era certo “Morrer por Danzig”, segundo um slogan lançado pelo deputado socialista francês Marcel Déat (1894-1955) para sustentar que não valia a pena arriscar a guerra para defender a cidade de Danzig, com a conquista da qual, presumivelmente, as ambições de Hitler seriam satisfeitas . O socialista Déat viria a fundar um partido de inspiração nacional-socialista e representaria um exemplo típico de colaboracionismo.

Se essa é a posição que deve ser tomada diante de um agressor, os pedidos de Putin teriam de ser atendidos para evitar a morte e o sofrimento de um povo, mesmo que depois da Ucrânia ele invadisse os países bálticos e, sob a chantagem, parte da Europa Ocidental. A lógica é essa.

Os homens ucranianos que não estão a abandonar o seu país, ou estão a voltar para lutar depois de garantir a segurança das suas famílias no Ocidente, mostram, com sua escolha, uma filosofia de vida oposta, abandonada pela Europa relativista e desenraizada. A filosofia daqueles que estão dispostos a sacrificar as suas vidas por causa da sua fé, por amor à liberdade e independência da sua pátria, por amor à própria honra e dignidade pessoais. O verdadeiro progresso, o verdadeiro desenvolvimento na vida dos povos está intimamente ligado a este espírito de sacrifício. É daqui que nascem os epítomes da santidade e do heroísmo.

Putin tem as suas razões?

A segunda posição colaboracionista pode ser formulada nestes termos: Putin errou, mas os erros não são apenas dele. Ou então, o que vai dar ao mesmo: Putin também tem as suas razões. E que razões são essas? São, por exemplo, o facto de que, após a queda do Muro de Berlim, o Ocidente supostamente humilhou a Rússia, cercando seu território com tropas da NATO.

Este parece ser até um argumento razoável, mas se quisermos ser mesmo razoáveis, devemos recordar que a NATO nasceu como um sistema de defesa contra as tropas em Varsóvia. Recordar também que a Rússia não ganhou, mas perdeu a Guerra Fria, e que a Guerra Fria entre as duas superpotências surgiu do infeliz tratado de paz de Yalta, de fevereiro de 1945, quando, com o consentimento dos governos ocidentais, a Europa foi dividida em duas zonas de influência e o comunismo soviético tornou-se senhor absoluto da Europa Oriental. 

A paz de Yalta, que redefiniu as fronteiras da Europa depois da Segunda Guerra Mundial, foi, por sua vez, fruto do Tratado de Versalhes, que atribuiu à Alemanha a responsabilidade pela Primeira Guerra Mundial, impôs-lhe pesadas sanções e entregou à Polónia o corredor de Gdansk. Devemos dizer que Hitler teve as suas razões para invadir a Polónia, uma vez que a cidade de Gdansk não era menos alemã do que Donbas é russa?

Quaisquer que sejam as suas razões, Hitler tinha um plano tão expansionista quanto o de Putin, e o historiador de hoje, tal como o político de ontem, não concorda com Neville Chamberlain, quando, em 30 de setembro de 1938, voltou triunfante de Munique com uma frágil paz nas mãos, mas antes com Winston Churchill, quando disse: “Pudeste escolher entre a guerra e a desonra. Escolheste a desonra e terás a guerra.”

Putin está a travar uma guerra justa?

Talvez seja para evitar essa objeção fácil que o colaboracionismo cai numa terceira formulação, mais coerente, mas ainda mais aberrante que as duas primeiras. Muito simplesmente: a guerra de Putin é uma guerra justa. Mas se for uma guerra justa, a resistência do povo ucraniano é injusta e as sanções ocidentais à Rússia são injustas, porque as sanções são aplicadas a quem está errado, não a quem está certo.

Por que razão estaria Putin certo? Porque seria a sua guerra justa? Não só porque defende o interesse nacional do seu país, mortificado pelo Ocidente, mas porque a sua guerra tem uma dimensão ética, como nos assegura a Igreja Ortodoxa Russa, nas palavras Kirill, o patriarca de Moscovo, quando disse que Putin luta contra um Ocidente depravado que autoriza o Orgulho Gay. Além disso, o próprio Putin apresentou-se muitas vezes como um defensor da família e dos valores tradicionais abandonados pelo Ocidente. No entanto, no seu discurso no Valdai Club, em 22 de outubro de 2021, no qual atacou a ideologia de género e a cultura do cancelamento, Putin admitiu que a Rússia experimentou, muito antes do Ocidente, a degradação moral que agora denuncia. Em 7 de dezembro de 1917, poucas semanas depois de os bolcheviques terem tomado o poder, o divórcio foi introduzido na Rússia e o aborto foi legalizado em 1920, sendo a primeira vez no mundo que isso foi feito sem quaisquer restrições. E foi na Rússia que a transição da revolução política para a revolução sexual foi implementada, com a creche experimental de Vera Schmidt (1889-1937), criada em 1921 no centro de Moscovo, onde as crianças eram iniciadas na sexualidade precoce.

Os freios foram aplicados ao divórcio, ao aborto, à revolução sexual, não por Putin, mas por Stalin, em 1936, quando ele percebeu que a sua política de poder seria minada pelo colapso da moralidade na Rússia. Putin está nessa linha. Hoje a Rússia é um país caracterizado pelo aborto e pelo divórcio, com a maior taxa de divórcio do mundo, mesmo que proíba o Orgulho Gay. E quais são os valores tradicionais em que Putin se inspira? São os do Patriarcado de Moscovo, que hoje confia em Putin como ontem confiava em Stalin. Putin, como Stalin, depende do Patriarcado de Moscovo. O Patriarcado de Moscovo usa o poder político para defender o primado da Ortodoxia, como o Estado se vale da Igreja para consolidar os sentimentos de identidade e patriotismo do povo russo.

A “missão imperial” da Rússia não corresponde apenas às ambições geopolíticas de Putin, mas também ao pedido do Patriarca Kirill, que confiou a Putin a missão de criar a “Terceira Roma” eurasiana nas ruínas da segunda Roma católica, destinada a desaparecer como todo o Ocidente. Pode um católico aceitar esta perspectiva?

É profundamente lamentável que um eminente arcebispo católico como Carlo Maria Viganò apresente a guerra de Putin como uma guerra justa para derrotar o Ocidente. O Ocidente é o filho primogénito da Igreja, hoje cada vez mais desfigurado pela revolução, mas ainda assim o primogénito. Um europeu que rejeita isso sob o pretexto de lutar contra a Nova Ordem Mundial é como um filho que repudia a própria mãe.

Além disso, a Nova Ordem Mundial é uma velha utopia que foi substituída pela da Nova Desordem Mundial. Vladimir Putin é, como George Soros, um agente da desordem mundial. Putin, como observa o analista internacional Bruno Maçaes, está convencido de que o caos é a energia fundamental do poder e que com razão “pode ser considerado o Yaldabaoth, o demiurgo gnóstico, Filho do Caos e líder dos espíritos do submundo”.

A Igreja e a queda do Império Romano do Ocidente

A Nova Desordem Mundial lembra-nos a que foi vivida pelo Império Romano do Ocidente sob o impacto das invasões bárbaras. Entre as datas que ficaram para a história está a de 31 de dezembro de 406, quando uma multidão de germânicos cruzou o rio Reno congelado e rompeu as fronteiras do Império.

Um desses povos, os vândalos, invadiu a Gália, escalou os Pirenéus, atravessou o estreito de Gibraltar e devastou as províncias da África romana.

O Império Romano estava impregnado de relativismo e hedonismo, como está hoje o Ocidente. Um dos principais centros de corrupção era Cartago, capital da África romana, que gozava da fama de ser o “paraíso” dos homossexuais. Um autor cristão contemporâneo, Salvian de Marselha (400-451), escreveu que “as armas dos bárbaros se chocavam nas muralhas de Cartago enquanto a congregação cristã da cidade delirava nos circos e devassava nos teatros. Alguns tiveram as suas gargantas cortadas fora das muralhas, enquanto outros ainda praticavam fornicação lá dentro”. Os vândalos, pelo contrário, como os povos germânicos descritos por Tácito, viviam “em modéstia reservada, não corrompidos pela sedução dos espetáculos públicos ou pelo estímulo dos banquetes. (…) Porque os seus vícios não são ridicularizados e não se chama moda ao corromper e ser corrompido.”

Que deviam ter feito os cristãos? Abrir os portões aos vândalos? A poucos quilómetros de Cartago ficava a cidade de Hipona, cujo bispo era Santo Agostinho, que meditava justamente sobre a invasão dos bárbaros, quando compôs a sua obra-prima “A Cidade de Deus”. O governador da África romana era o conde Bonifácio, amigo fiel de Santo Agostinho, a quem Procópio de Cesareia, assim como Flávio Aécio, chamavam “o último verdadeiro romano”.

O bispo de Hipona não pediu rendição, mas resistência contra os bárbaros, escrevendo a Bonifácio: “A paz não se busca para provocar a guerra, mas a guerra é travada para obter a paz. Portanto, inspira-te na paz para que na vitória possas levar ao bem da paz aqueles que conquistas.”

Bonifácio entrincheirou-se na cidadela de Hipona, sitiada pelos vândalos. Santo Agostinho morreu em agosto de 430, aos setenta e seis anos, durante o cerco que durou 14 meses. Foi somente quando a sua voz se calou que os vândalos conquistaram a cidade. A resistência de Bonifácio permitiu que as tropas orientais desembarcassem na África e unissem suas forças com as de Bonifácio.

Durante esses mesmos anos, outros bispos pediram resistência contra os bárbaros. São Nicásio encontrou a morte na catedral de Reims; São Exupério, bispo de Toulouse, resistiu aos vândalos até à sua deportação; São Lupo defendeu Troyes, de que era bispo; Santo Aniano, bispo de Orléans, organizou a defesa da sua cidade contra os hunos, permitindo que as legiões romanas de Aécio chegassem a Átila e o derrotassem.

O bispo católico não disse: “Melhor bárbaros do que mortos”.

A causa da guerra, segundo a mensagem de Fátima

Se queremos acabar com a guerra, devemos acabar com as causas da guerra. A verdadeira e profunda causa da guerra, da pandemia e da crise económica que se desenha no horizonte são os pecados da humanidade que virou as costas a Deus e à Sua Lei. 

Nas aparições de Fátima em 1917, Nossa Senhora disse que o afastamento dos povos europeus de Deus conduz ao castigo divino da guerra: “[Deus] vai punir o mundo pelos seus crimes, por meio da guerra, da fome e da perseguição à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.» 

A mensagem de Fátima não é um convite genérico à oração e à penitência, é sobretudo o anúncio de um castigo e do triunfo final da misericórdia divina na história.

João Paulo II consagrou a Rússia?

Há quem pense que a consagração à Rússia já foi feita por João Paulo II, quando em 25 de março de 1984, na Praça de São Pedro, consagrou o mundo ao Imaculado Coração de Maria, com referência aos “povos cuja consagração e confiada entrega Vós esperais de nós.” A Irmã Lúcia disse inicialmente estar insatisfeita com esta consagração em que a Rússia não foi explicitamente mencionada, mas depois mudou de opinião, considerando válido o ato de João Paulo II.

A opinião da Irmã Lúcia tem obviamente autoridade, mas contrasta com a autoridade maior das palavras de Nossa Senhora que a mesma Irmã Lúcia nos transmite.

Na verdade, a 29 de Agosto de 1931, a Irmã Lúcia enviou ao bispo de Leiria uma terrível profecia de Nosso Senhor. Ela havia recebido uma comunicação íntima segundo a qual: “Não quiseram atender ao Meu pedido!… Como o rei de França, arrepender-se-ão e fála-ão, mas será tarde. A Rússia terá já espalhado os seus erros pelo Mundo, provocando guerras, perseguições à Igreja: o Santo Padre terá muito que sofrer.»

Passaram-se 38 anos desde 25 de março de 1984. A espetacular autodissolução do regime soviético sem insurreições ou revoltas em 1991 parecia ser, e talvez fosse, um resultado parcial dessa consagração. No entanto, a Rússia não se converteu e o comunismo não morreu. Vladimir Putin é um nacional bolchevique que não repudiou os erros do comunismo e a China é uma nação oficialmente comunista que, a 7 de março de 2022, declarou que a sua amizade com a Rússia é “sólida”.

Mesmo entre os católicos, há quem considere Putin um Kathéchon, um obstáculo à realização da Nova Ordem Mundial, um escudo contra o anticristo que é o Ocidente, que é a Roma de Pedro. A guerra prorrogou, como se tem dito, o estado de emergência da pandemia e isso não pode ser uma coincidência.

Respondemos que é verdade: a vinda da guerra na esteira da pandemia, com o consequente regime de emergência, não pode ser coincidência porque não existe coincidência, mas quem segura os fios do universo não é o “Grande Irmão” [Big Brother] de Orwell, um deus omnisciente e todo-poderoso como o deus maligno dos gnósticos. O que governa o universo e ordena tudo para a glória de Deus é a Divina Providência. Daí vêm os castigos que hoje flagelam a humanidade impenitente: epidemias, guerras e uma futura crise económica planetária. Tudo isso não é a preparação do advento do anticristo, mas antes a realização ignorada profecia de Fátima.

Os bispos ucranianos pediram ao Papa Francisco para consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Aderimos com entusiasmo a este apelo que vem de Kiev sob as bombas.

A nossa esperança

Nenhuma luz de esperança vem de Moscovo. Poderia uma luz de esperança vir de Kiev?

Em Fátima, Nossa Senhora profetizou a conversão da Rússia, mas a conversão é um retorno às origens e as origens da Rússia remontam à conversão de São Vladimir, Príncipe de Kiev. A Rus’ de Kiev foi uma das primeiras nações a entrar na cristandade medieval, antes de passar para o domínio dos mongóis e depois dos príncipes moscovitas que assumiram a herança anti-romana de Bizâncio. Uma parte do povo ucraniano manteve a fé católica e encontrou o caminho de retorno a Roma nos concílios de Florença (1439) e Brest (1595). Pio XII, na encíclica Orientales omnes Ecclesias, de 23 de dezembro de 1945, exorta os ucranianos a perseverarem na sua fidelidade a Roma: “Exponham as astúcias daqueles que prometem aos homens vantagens terrenas e maior felicidade nesta vida, mas destroem as suas almas”, porque “aquele que pensa que tem a sua vida segura, perde-a, mas aquele que perder a sua vida por minha causa é que a tem segura.” ( Mt 10,37 em diante).

No século V, os godos, os vândalos e os hunos invadiram o Império Romano para repartirem os seus despojos. Hoje, a Rússia, a China, a Turquia e o mundo árabe querem apoderar-se da valiosa herança do Ocidente, que consideram, como já foi dito, um “doente terminal”.

Talvez alguém diga: onde estás, Estilicão, que resististe aos godos? Onde estás, Bonifácio, que defendeste a África dos vândalos? Onde estás, Aécio, que derrotaste os hunos? Onde estais vós, guerreiros cristãos, que pegastes nas armas para defender um mundo que estava a morrer?

Respondemos que contra o inimigo atacante temos armas poderosas. Contra a bomba nuclear do pecado, Nossa Senhora colocou nas mãos do Papa a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria e colocou em nossas mãos o rosário e a devoção dos primeiros sábados do mês.

Mas acima de tudo ela colocou nos nossos corações o desejo do seu triunfo do Imaculado Coração sobre os escombros do regime de Putin, o regime comunista chinês, os regimes islâmicos e os do Ocidente corrupto. Só ela pode fazê-lo e de nós, ela pede uma confiança inabalável de que isso acontecerá porque ela o prometeu infalivelmente. É por isso que a nossa resistência continua.

Fonte: rorate-caeli.blogspot.com, em 14 de março de 2022 (tradução nossa).

Católicos ucranianos invocam São Miguel Arcanjo na luta contra o demónio agressor

Acanjo São Miguel, patrono da cidade de Kiev. Imagem locallizada na Praça da Independência, na capital da Ucrânia.

Hoje, mais uma vez, desejo agradecer e abençoar de todo o coração o exército ucraniano, nossos soldados, rapazes e moças que defendem a paz na Ucrânia, graças aos quais ainda estamos vivos hoje, no nono dia da guerra, graças aos quais a Ucrânia está vencendo, a Ucrânia resiste, a Ucrânia combate.

A Ucrânia, além disso, reza, resiste em oração. Aqui em Kiev, sentimos claramente que o santo padroeiro de nossa cidade é o Arcanjo Miguel Arquiestrategista, a quem chamamos aquele que, como Deus, lançou no abismo Lúcifer, o líder do exército do diabo que se rebelou contra a verdade de Deus.

Hoje vemos que o Arquiestrategista Miguel está a lutar pela Ucrânia com todo o exército celestial.

Muitas pessoas de diferentes partes da Ucrânia compartilham as suas experiências comigo: vimos anjos brilhantes sobre a terra ucraniana.

Hoje rezamos:

“Arquiestrategista Miguel e todo o exército celestial, todas as forças celestes incorpóreas, lutem pela Ucrânia, expulsem o diabo que nos ataca, nos mata, nos traz destruição e morte!”

Arcebispo-Mor Sviatoslav Shevchuk, no nono dia da invasão russa; in Vatican News, 04/03/2022.

Basto 03/2022

Católicos ucranianos celebram Divina Liturgia nos abrigos subterrâneos

Enquanto continua a sangrenta agressão putinista à Ucrânia, os católicos locais, unidos ao seu líder D. Sviatoslav Shecvhuk na resitência pela independência do país, celebram a Divina Liturgia (equivalente à Santa Missa, no rito bizantino) nos refúgios subterrâneos.

Imagens: Gloria TV e Catholic News-UGCC.

Saudações da Kiev ucraniana! Hoje é domingo, 27 de fevereiro de 2022. Tivemos outra noite terrível. Mas depois da noite vem o dia, vem a manhã, depois da escuridão vem a luz. Da mesma forma, depois da morte vem a ressurreição, que todos nós celebramos hoje.

No entanto, hoje, os cidadãos de Kiev não poderão ir à igreja porque o toque de recolher foi declarado e todos devem estar em casa devido à ameaça às vidas humanas. Mas então a Igreja virá ao povo. Os nossos padres irão para o subterrâneo, para os abrigos antiaéreos e realizarão as Divinas Liturgias.

D. Sviatoslav Shevchuk, domingo 27 de fevereiro de 2022 in news.ugcc.ua (tradução livre).

Basto 03/2022

Mensagem do líder dos católicos ucranianos aos seus compatriotas

Amado povo da Ucrânia protegido por Deus!

Mais uma vez, o nosso país volta a estar em perigo!

O inimigo traiçoeiro, apesar dos seus próprios compromissos e garantias, quebrando as regras básicas do direito internacional, pisou o solo ucraniano como um agressor injusto, trazendo consigo morte e destruição.

A nossa Ucrânia, que o mundo justamente apelidou de “terras de sangrentas”, tantas vezes aspergida com o sangue de mártires e lutadores pela liberdade e independência do seu povo, chama-nos hoje a defender a nossa pátria, a nossa dignidade diante de Deus e dos homens, o nosso direito de existir e o direito de escolher o nosso futuro.

É nosso direito natural e dever sagrado defender a nossa terra e o nosso povo, o nosso estado e tudo o que nos é mais caro: família, língua, cultura, história e mundo espiritual! Somos uma nação pacífica que ama os filhos de todas as nações com amor cristão, independentemente da origem ou crença, nacionalidade ou identidade religiosa.

Não invadimos os outros e não ameaçamos ninguém, mas não temos o direito de dar o que é nosso a ninguém! Neste momento histórico, a voz da nossa consciência chama-nos a resistir juntos por um Estado Ucraniano livre, unido e independente!

A história do século passado ensina-nos que todos aqueles que iniciaram as guerras mundiais as perderam-nas e que os idólatras da guerra trouxeram apenas destruição e declínio para seus próprios estados e povos.

Acreditamos que neste momento histórico o Senhor está connosco! Ele, que tem nas mãos o destino do mundo inteiro e de cada pessoa em particular, está sempre do lado das vítimas de agressões injustas, dos sofredores e dos escravizados. É Ele quem proclama o Seu Santo Nome na história de cada nação, captura e derruba os poderosos deste mundo com o seu orgulho, os conquistadores com a ilusão da sua onipotência, os orgulhosos e insolentes com a sua autoconfiança. É Ele quem concede a vitória sobre o mal e a morte. A vitória da Ucrânia será a vitória do poder de Deus sobre a mesquinhez e a arrogância do homem! Assim foi, é e será!

A nossa Santa Igreja Mártir sempre esteve e sempre estará com o seu povo! Esta Igreja, que já sobreviveu à morte e à ressurreição, como o Corpo de Cristo Ressuscitado, sobre o qual a morte não tem poder, foi dada pelo Senhor ao seu povo nas águas batismais do rio Dniepre.

Desde então, a história do nosso povo e da sua Igreja, a história das suas lutas de libertação, a história da encarnação da Palavra de Deus e a manifestação do Seu Espírito de Verdade na nossa cultura ficaram entrelaçados para sempre. E neste momento dramático, a nossa Igreja, como mãe e professora, estará com os seus filhos, protegê-los-á e servi-los-á em nome de Deus! Em Deus está a nossa esperança e Dele virá a nossa vitória!

Hoje proclamamos solenemente: “Vamos entregar as nossas almas e os nossos corpos pela nossa liberdade!” Hoje rezamos com um só coração e uma só boca: “Grandioso Deus, Uno, protegei nossa amada Ucrânia.”

Santos justos, mártires e confessores da terra ucraniana, rogai e intercedei por nós diante de Deus!

A benção de Deus esteja sobre vós!

† Sviatoslav

Dado em Kiev

na Catedral Patriarcal da Ressurreição de Cristo,

24 de fevereiro de 2022 AD

In Página oficial da Igreja Greco-Católica Ucraniana, 24/02/2022 (tradução livre).

Mensagem publicada por D. Sviatoslav Shevchuk poucas horas depois do início da invasão russa.

Basto 02/2022

Estamos com a Ucrânia.

Não a Putin, não à guerra!

Neste momento difícil em que a Ucrânia está a ser alvo de uma severa agressão externa, estamos solidários com o povo ucraniano, em particular com os católicos locais.

Por fim, o Imaculado Coração de Maria triunfará e haverá paz.

Foto: Agência Eccleisa, 24/02/2022.

Basto 02/2022

Ditador russo proclama a independência das regiões ucranianas de Donetsk e Luhansk

Oito anos depois da anexação da Crimeia, a nostalgia do imperialismo soviético leva Vladimir Putin a reconhecer a independência de duas regiões controladas por rebeldes e mercenários putinistas no Leste da Ucrânia.

Basto 02/2022

Malachi Martin: o Segredo de Fátima está relacionado com a Ucrânia

Que sentido fazia uma referência à Ucrânia e a Kiev no contexto geopolítico do final dos anos 90 do século passado? Praticamente nenhum.

Basto 02/2022

Papa Eslavo: a verdadeira conversão da Rússia terá origem na Ucrânia

No seu livro Windswept House (ou “A Casa Varrida pelos Ventos”), o autor Malachi Martin recorreu à personagem “Papa Eslavo” para personificar a figura do Papa João Paulo II. De acordo com a narrativa, o Papa Eslavo tinha indicações de Nossa Senhora de que a “verdadeira conversão da Rússia” teria início na Ucrânia durante uma viagem papal ao Leste Europeu.

Fonte: oiipdf.com

Se temos alguma indicação do Céu, é que a verdadeira conversão da Rússia, como lhe chamou a Santíssima Mãe, terá origem na Ucrânia e ocorrerá por ocasião da minha peregrinação ao Leste.

Tradução do trecho acima destacado do livro Windswept House, de Malachi Martin, 1996.

O livro narra essencialmente a história de uma conspiração montada por altos clérigos da Igreja Católica, em conjunto com importantes personalidades seculares, para forçar o papa reinante a resignar, de modo a poder ser substituído por outro mais flexível em termos de fé e moral católicas. Este livro teve recentemente uma nova edição em língua espanhola com o título El Último Papa.

Basto 01/2022

Ucrânia lança “Museu Virtual da Agressão Russa”

A Ucrânia lançou, no passado mês, o Museu Virtual da Agressão Russa, um projeto conjunto de várias agências estatais e ONGs. Esta plataforma online reúne uma coleção de factos relativos à violação russa da integridade territorial da Ucrânia, organizados de forma cronológica e cartográfica. Entre as informações apresentadas, incluem-se crimes ambientais, de guerra e outros crimes da Rússia nos territórios ocupados, revelando ainda dados sobre sequestros e outras violações dos direitos humanos registados desde o início da ocupação ilegal em 2014.

Nesta fase inicial, o projeto retrata apenas os factos ocorridos na Península da Crimeia, deixando de fora, por enquanto, as regiões de Luhansk e Donetsk, no Leste da Ucrânia, que também estão nos planos de desenvolvimento do Museu.

Esta iniciativa visa denunciar as agressões russas à integridade territorial da Ucrânia e manter viva a memória de factos recentes, numa altura em que começa a verificar-se alguma habituação internacional ao novo mapa ilegal da Rússia.

Basto 11/2021

Arcebispo ucraniano adverte contra o apaziguamento dos separatistas apoiados pela Rússia quando os combates se intensificam

sviatoslav

Por Catholic News Service

Com a intensificação dos combates no leste da Ucrânia, o Arcebispo-mor da Igreja Católica Ucraniana advertiu contra as atitudes de “apaziguar o agressor” na guerra contra os separatistas apoiados pelos russos, que já dura há cinco anos.

“Por mais que tentemos curar as feridas da guerra, não disso terá um efeito definitivo até que o agressor pare de infligir essas feridas.”

Assim explicou o Arcebispo-mor Sviatoslav Shevchuk, de Kiev-Halic, acrescentando:

“Paz não pode significar capitulação e submissão – isso seria uma imitação de paz com consequências piores do que a própria guerra. […] Seria apenas uma mudança na maneira como as pessoas são feridas.”

O arcebispo prestou estas declarações à agência de notícias ucraniana Censor.net, no dia 14 de agosto, na mesma altura em que as agências internacionais davam conta de novas mobilizações e bombardeamentos de forças apoiadas pela Rússia no leste da Ucrânia, inclusive em torno do porto sitiado de Mariupol, no Mar de Azov.

Afirmou ainda que o conflito nas auto-proclamadas “repúblicas populares” de Donetsk e Luhansk “abriu uma cicatriz viva” na sua Igreja, deixando 11 paróquias sob controlo separatista e impossibilitando o bispo local de regressar à região ao longo dos últimos cinco anos.

Outras cinco paróquias católicas na Crimeia, anexadas à força pela Rússia em 2014, têm funcionando agora sob “o cuidado pessoal” do Vaticano, disse o arcebispo Shevchuk.

“Eu tentei dar voz àqueles que sofrem com esta guerra e transmitir o que deve ser uma verdadeira paz.”

O líder dos católicos ucranianos disse ainda:

“Nós sabemos, da história, que apaziguar o agressor apenas alimenta seu apetite. É muito importante falar sobre a dor que o nosso povo sofre e lembrar, quando negociamos com um agressor destes, os olhos de uma mãe que perdeu o seu filho na guerra. Nós devemos ser a voz dessas pessoas afetadas. Até que sejam honradas e compensadas ​​pelo mal que lhes fizeram, que justiça poderão elas esperar?”

A Organização das Nações Unidas (ONU) diz que pelo menos 13.000 soldados e civis foram mortos e 30.000 feridos durante o conflito no leste da Ucrânia, onde 60.000 tropas ucranianas se mantêm ao longo de uma linha de 400 quilómetros, frente a 35.000 separatistas, mercenários estrangeiros e militares russos.

Nos dias 14 e 15 de agosto, o Ministério da Defesa da Ucrânia denunciou 25 violações do cessar-fogo de 21 de julho.

Uma missão especial da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) denunciou que desaparecera um drone de reconhecimento sobre Obozne, uma localidade ocupada pelos separatistas a norte de Luhansk, e que havia documentado a mobilização de tanques, obuses e armas antitanque para além das linhas de retirada estabelecidas, violando os acordos assinados em Minsk, Bielorrússia, em 2014 e 2015.

Na sua entrevista ao Censor.net, o arcebispo Shevchuk disse estar satisfeito por o presidente Volodymyr Zelenskiy, um ex-ator e humorista eleito em maio, encarar a guerra como “o seu desafio mais importante” e estar pronto para escutar a posição dos católicos ucranianos através de conversas e partilha.

“A Ucrânia está a sofrer porque um agressor deseja destruir nosso Estado – um Estado que é um bem comum, não apenas para os ucranianos na Ucrânia, mas para todas as pessoas, independentemente da pertença religiosa ou nacional.”

As igrejas católicas orientais e latinas da Ucrânia, juntamente com 50 associações religiosas e organizações de direitos humanos, subscreveram uma petição de 25 de julho dirigida à ONU, à União Europeia e a outras organizações internacionais, instando a Rússia a libertar os reféns e prisioneiros de guerra, a acabar com a “perseguição política” na Crimeia e no leste da Ucrânia e ainda a permitir a liberdade religiosa e o acesso irrestrito a observadores internacionais.

A edição original deste texto encontra-se publicada no Crux com a data de 16/08/2019. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do texto acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. A presente edição destina-se exclusivamente à sua divulgação. Sempre que possível, o texto deve ser lido na sua edição original. A imagem não faz parte da publicação original.

Basto 08/2019

A nova Igreja Ortodoxa da Ucrânia e o grande cisma na igreja cismática

Presidente Petro Poroshenko no Conselho da Unidade Ortodoxa de Toda a Ucrânia; in página oficial da Presidência da Ucraniana, 15/12/2018.

Há uma semana, foi dado por concluído o processo de criação da nova Igreja Ortodoxa da Ucrânia, que resultou da fusão de duas denominações ortodoxas dissidentes do Patriarcado de Moscovo. O estabelecimento de uma igreja ortodoxa nacional unificada contou com o forte apoio e empenho das autoridades políticas da Ucrânia, que assumiram este projeto como um desígnio nacional e como mais um passo na autodeterminação do país perante a Rússia.

A Rússia, por seu lado, que vê em Kiev o berço histórico da sua cristianização, já tinha avisado que jamais reconhecerá a independência religiosa da Ucrânia face ao Patriarcado de Moscovo. Com efeito, o facto de Bartolomeu I, Patriarca de Constantinopla, ter recentemente reconhecido a independência da Igreja Ortodoxa da Ucrânia levou o Patriarcado de Moscovo a cortar formalmente relações com Constantinopla, efetivando, deste modo, a maior rutura na cristandade oriental desde o Grande Cisma de 1054. Os dois patriarcados, de forma mais ou menos assumida, disputam a liderança do mundo ortodoxo, Constantinopla por razões históricas e simbólicas, Moscovo por razões de facto.

Temem-se agora as repercussões que os recentes desenvolvimentos na geografia religiosa da Ucrânia possam vir a ter na complexa situação político-militar existente entre a Ucrânia e a Rússia, como se comprova pela atenção que a NATO tem dado a esta questão.

Basto 12/2018

“Milagre” de São Januário realiza-se nas mãos do líder da maior Igreja Católica Oriental

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In Religious Information Service of Ukraine, 21/11/2018.

Durante a visita de D. Sviatoslav Shevechuk a Nápoles, o sangue de São Januário liquefez-se completamente no momento em que o líder dos católicos ucranianos segurava o relicário. O “milagre” aconteceu no dia 18 de novembro, portanto, fora das datas em que costuma ocorrer todos os anos.

“Temos de vos anunciar uma importante mensagem: o sangue de São Januário tornou-se líquido nas mãos de Sua Beatitude D. Sviatoslav”.

(Declaração dos Guardiões das Relíquias em 18 de novembro; in RISU, 21/11/2018)

O fenómeno aconteceu no final da liturgia, quando o arcebispo ucraniano transportava a relíquia, em procissão, para o seu lugar habitual. Sviatoslav confessou que, enquanto transportava o relicário, orou a São Januário “pelo fim da guerra na Ucrânia” e pela “proteção do povo ucraniano”.

Tradicionalmente, o sangue de São Januário liquefaz-se duas vezes por ano, a 16 de maio e a 19 de setembro.

Basto 11/2018

Santo Padre rejeita qualquer ideia de conversão da Rússia, preferindo o caminho do ecumenismo

delegação.moscovo

O Papa Francisco recebeu, no passado dia 30 de maio, uma delegação do Patriarcado de Moscovo da Igreja Ortodoxa Russa a quem confessou que sofre sempre que algum católico deseja o “uniatismo”, ou seja, a conversão das Igrejas Ortodoxas cismáticas à Fé Católica.

Em Moscovo há um só Patriarcado: o de vocês. Nós não temos outro. Quando qualquer católico, seja leigo, sacerdote ou bispo, tenta levantar a bandeira do “uniatismo”, que não funciona mais e acabou, para mim é uma grande dor. Acho que se deve respeitar as Igrejas unidas a Roma. O “uniatismo” como caminho de unidade, não deve existir mais”.

(Francisco I; in Vatican News 02/06/2018)

O uniatismo é um caminho de conversão que se materializa na reintegração de comunidades cristãs ortodoxas na Igreja Católica, abandonando, desse modo, a condição cismática em que se encontravam. As Igrejas Uniatas são Igrejas Católicas sui juris que, mantendo as tradições litúrgicas orientais, regressaram, em algum momento da história, à unidade com Roma, submetendo-se à autoridade papal e passando a professar a mesma Fé das restantes Igrejas Católicas, como é o caso, por exemplo, da florescente Igreja Uniata Ucraniana.

As declarações de Francisco não são propriamente uma novidade. Ainda ninguém esqueceu a forte condenação ao uniatismo com que o Santo Padre agradeceu, na cimeira cubana de 2016, os vários séculos de fidelidade dos Católicos Orientais – uma fidelidade que sobreviveu às maiores adversidades.

Para o Santo Padre, o caminho da “conversão da Rússia” – pedido em Fátima – deve ser substituído pelo caminho do “ecumenismo”. Um caminho moderno (ou modernista) onde a correção política, a diplomacia, os beijos e os abraços tendem a ser mais importantes do que a própria Fé.

Para mim, é motivo de consolação quando alguém estende a mão, dá um abraço fraterno, pensa e caminha junto. O ecumenismo se constrói caminhando. Portanto, continuemos a caminhar.

Alguns pensam, – mas não concordo – que primeiro se deve chegar a um acordo doutrinal sobre todos os pontos de divisão, para depois caminhar juntos. Isto não deve acontecer no caminho ecuménico, pois não sabemos quando acontecerá tal acordo.

(Francisco I; in Vatican News 02/06/2018)

O “acordo” ao qual o Papa Francisco se refere, e que só pode significar conversão à Fé Católica, acontecerá depois da consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. A Rússia reconhecerá então, na figura do Santo Padre, o legítimo Vigário de Cristo na Terra e aceitará a Fé Católica na sua integridade e pureza. Só então existirão condições para um “acordo” que produza verdadeira unidade e paz duradoura.

O Santo Padre consagrar-Mea Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

(Nª Sª de Fátima, 13 de julho de 1917; in Memórias da Irmã Lúcia)

Ainda há poucos meses, a Igreja Greco-Católica Ucraniana, a maior de todas as Igrejas Católicas Orientais, voltou a apelar à Santa Sé pelo seu reconhecimento como Igreja Patriarcal. Uma aspiração justa que tem sido sucessivamente adiada devido à subserviência ecuménica do Vaticano perante a Igreja Ortodoxa Russa.

As palavras do Papa para com os representantes da Igreja Ortodoxa Russa revestem-se ainda de um forte teor político porque surgem num momento em que, nas esferas políticas e religiosas da Ucrânia, se tem discutido a possibilidade de unificação das Igrejas Ortodoxas locais numa única igreja ortodoxa nacional autocéfala, completamente independente do Patriarcado de Moscovo. São palavras que vão ao encontro dos interesses geopolíticos que o Kremlin teima em manter sobre a vizinha Ucrânia.

Basto 06/2018

Presidente ucraniano foi ao Santuário de Fátima rezar pela paz

poroshenko
Petro Poroshenko e a sua esposa Maryna Poroshenko no Santuário de Fátima no dia 18 de dezembro de 2017 in Página Oficial da Presidência Ucraniana, 18/12/2018.

Enquanto alguns conservadores, desiludidos com os excessos da era moderna ocidental, continuam a acreditar nas fábulas do bem-aventurado Vladimir Putin, à espera que o “grande monarca” eslavo venha salvá-los da podridão civilizacional, o presidente ucraniano, à margem da sua visita oficial a Portugal, deslocou-se discretamente a Fátima para rezar pela paz no seu país. Veio acompanhado pela esposa e por vários elementos do seu governo.

Petro Peroshenko deixou uma mensagem forte no livro de honra do Santuário:

Estou profundamente impressionado com a mensagem de Fátima, em particular sobre o aviso de uma ameaça para a humanidade por parte da Rússia, a qual, caso não se arrependa, espalhará os seus erros pelo mundo, provocando guerras e o perecimento massivo de povosescreveu o Chefe de Estado da Ucrânia lembrando que o seu país “tem sentido na própria pele a veracidade dessas profecias”.

(in Santuário de Fátima, 18/12/2017)

Para o Ocidente, em geral, as profecias de Fátima são um assunto arrumado, pertencem ao passado, a Rússia já se converteu (embora ninguém saiba dizer exatamente a quê), mas a Ucrânia continua a recordar-nos que essas profecias são hoje mais atuais do que nunca e que o pior poderá ainda estar por vir.

A península ucraniana da Crimeia está sob ocupação estrangeira desde fevereiro de 2014, ao mesmo tempo que algumas regiões do leste da Ucrânia continuam longe de alcançar a normalidade devido às interferências russas.

A presente visita de um dirigente ucraniano a Fátima não foi um ato isolado. Em junho de 2008, o Santuário recebeu o ex-presidente Victor Yushchenko e, alguns meses depois, o deputado Petro Yushchenko (irmão do presidente), acompanhado pelo Embaixador da Ucrânia em Portugal, Rostyslav Tronenko. Ainda no ano de 2008, recebeu uma nova delegação de dirigentes ucranianos.

Basto 12/2017

Igrejas do Leste, um espinho no flanco do Papa

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Por Sandro Magister

ROMA, 3 de agosto, 2017 (Settimo Cielo – L’Espresso) – A Europa do Leste é um espinho no flanco do pontificado de Francisco e são muitos e variados os elementos que o comprovam.

No duplo sínodo da família, os bispos da Europa Oriental estiveram entre os mais decididos defensores da tradição, começando pelo relator geral da primeira sessão, o cardeal húngaro Péter Erdõ, autor de, entre outras coisas, uma clamorosa condenação pública das violações cometidas pela fação reformista, que era claramente apoiada pelo Papa.

Depois do sínodo, a Europa do Leste voltou a ser, mais uma vez, a fonte das interpretações mais restritivas do documento papal Amoris Laetitia. Os bispos da Polónia foram particularmente unânimes em pedir uma aplicação do documento em perfeita continuidade com o antigo ensinamento que a Igreja desde a sua origem até João Paulo II e Bento XVI.

Os bispos da Ucrânia – onde 10 por cento da população são católicos – também estão entre os mais dedicados na oposição a ruturas no que concerne à tradição nas áreas do casamento, penitência e Eucaristia. Mas, para além disso, não se abstiveram de criticar fortemente as posições pró-russas do Papa Francisco e da Santa Sé em relação à guerra em curso no seu país, uma guerra que eles sentem como a agressão de mais ninguém a não ser a da Rússia de Vladimir Putin.

O abraço entre o Papa e o patriarca Kirill de Moscovo, no aeroporto de Havana, em 12 de fevereiro de 2016, com o documento associado assinado por ambos, foi também um poderoso elemento de fricção entre Jorge Mario Bergoglio e a Igreja Católica Ucraniana, que se vê injustamente sacrificada no altar desta reconciliação entre Roma e Moscovo.

A morte, no passado dia 31 de maio, do cardeal Lubomyr Husar, o anterior arcebispo-maior da Igreja Greco-Católica Ucraniana, voltou a dirigir a atenção para esta personalidade de elevadíssimo perfil, capaz de reconstruir espiritualmente uma Igreja que emergiu de décadas de perseguição sem qualquer tipo de concessão perante os cálculos diplomáticos – em função de Moscovo e do seu patriarcado – que, ao invés, durante o pontificado de Francisco voltaram a prevalecer.

O sucessor de Husar, o jovem Sviatoslav Shevchuck, é bem conhecido de Bergoglio pela sua anterior atividade pastoral na Argentina. Mas ele também é uma dos críticos mais diretos às tendências do atual pontificado, tanto no campo político como no doutrinal e pastoral.

E “certamente não foi por acaso”, escreveu há três semanas o Papa Emérito Bento XVI aquando da morte do seu amigo o cardeal Joachim Meisner, o indomável arcebispo de Berlim durante o regime comunista, “que a última visita da sua vida foi a um confessor da fé”, o bispo da Lituânia cuja beatificação estava a ser celebrada, um dos inúmeros mártires do comunismo na Europa do Leste que hoje corre o risco de cair no esquecimento.

*

Neste contexto emerge naturalmente a questão: nesta região da Europa, qual é o estado de saúde do catolicismo que se sabe estar em sério declínio em outras partes do mundo e particularmente na vizinha Europa Ocidental?

Esta questão recebeu uma resposta exaustiva – ainda que em termos puramente sociológicos – numa pesquisa abrangente realizada pelo Pew Research Center em Washington, que é talvez o barómetro mais confiável do mundo no que diz respeito à presença de religião na cena pública:

> Crença Religiosa e Pertença Nacional na Europa Central e do Leste:

O estudo incidiu precisamente sobre os países da Europa Oriental, quase todos submetidos no passado a regimes comunistas ateístas. E o primeiro facto impressionante neles constatado é o renascimento, em quase todos os lugares, de um sentimento forte e generalizado de pertença religiosa, que para os ortodoxos – uma reconhecida maioria em toda a área – coexiste com uma rara participação nas liturgias dominicais, enquanto que para os católicos é acompanhada de uma participação semanal bastante significativa na Missa: enquanto, por exemplo, na Polónia, 45% dos batizados e, na Ucrânia, 43% marcam presença na liturgia dominical, na Rússia, apenas comparecem 6% dos fiéis da confissão ortodoxa.

A República Checa suportou o peso do ateísmo de Estado, que adicionado a uma hostilidade anti-católica antiga que remonta ao protestantismo “hussita” e a uma posterior recatolicização imposta pelos Habsburgos, fez com que, neste país, 72% da população declare não ser afiliada em qualquer tipo de fé religiosa. Mas também aqui, entre os católicos que representam um quinto da população, a frequência dominical é, mesmo assim, de 22%, mais ou menos tanto como na Itália e muito mais do que na Alemanha, na França ou na Espanha, sem mencionar a Bélgica e a Holanda.

E o mesmo vale para a Bósnia, onde há poucos católicos, apenas 8%, mas o seu comparecimento dominical atinge um robusto valor de 54%.

Vale a pena ler todo o estudo do Pew Research Center  pela riqueza da informação que fornece. Mas aqui basta destacar que os católicos da Europa do Leste se distinguem dos ortodoxos, não apenas pelos seus muito mais elevados índices de prática religiosa, mas também por uma visão geopolítica antagónica.

Enquanto a Rússia ortodoxa é vista como o bastião natural contra o Ocidente, recebendo a aprovação de grandes maiorias, entre os católicos existe uma muito maior frieza para com a Rússia, em especial na Ucrânia e na Polónia, que se inclinam muito mais para uma aliança com os Estados Unidos e o Ocidente.

Uma divergência adicional pode ser ainda encontrada no campo ortodoxo entre aqueles que, como na Rússia, reconhecem o patriarca de Moscovo como a mais alta autoridade hierárquica da ortodoxia e aqueles que optam mais pelo patriarca de Constantinopla do que pelo de Moscovo, como acontece na Ucrânia, com 46% dos ortodoxos pelo primeiro e apenas 17% pelo segundo.

Sobre o casamento, a família, a homossexualidade e temas afins, pelo menos metade dos católicos apoiam as posições tradicionais da Igreja. E uma grande maioria da população total – com a única exceção na República Checa – é contra o reconhecimento legal das uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Mas, agrupando os dados por faixas etárias, é fácil constatar que os jovens adotam cada vez mais a mentalidade permissiva que, na Europa Ocidental – incluindo na Igreja Católica – é já desenfreada.

Uma mentalidade que certamente não encontra qualquer resistência no pontificado de Francisco.

A edição original deste texto foi publicada no blogue Settimo Cielo a 3 de agosto de 2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 8/2017

Poroshenko pede a Constantinopla para reconhecer a autocefalia da Igreja Ucraniana

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Poroshenko in RISU, 28/07/2017

No dia 28 de julho, data em que se assinalava o batismo de São Vladimir o Grande e dos Rus de Kiev (início da cristianização daquilo que é hoje a Ucrânia, a Rússia e outras nações do Leste Europeu), o presidente ucraniano, Petro Poroshenko, publicou uma mensagem na sua conta facebook onde exorta o Patriarca de Constantinopla a reconhecer a independência da Igreja Ortodoxa Ucraniana face a Moscovo.

Há 1029 anos atrás, Vladimir o Grande tomou uma grande decisão ao batizar os Rus da Ucrânia e aceitou a fé cristã da Igreja de Constantinopla, que para nós é ainda a Igreja Mãe, e é esta Igreja que esperamos que reconheça a autocefalia da Igreja Ucraniana – equivalente a outras Igrejas ortodoxas nacionais e, claro, espiritual e administrativamente independente de Moscovo, o estado agressor.

(Petro Poroshenko in RISU, 28/07/2017 – tradução)

A mensagem aparece junto a um curto vídeo da estátua de São Vladimir existente na capital ucraniana.

A mensagem do presidente ucraniano é uma dupla provocação contra Rússia, nesta região europeia onde o nacionalismo se confunde com a religião. Por um lado, rejeita a autoridade religiosa do Patriarcado de Moscovo sobre a Ucrânia e, por outro, reconhece Constantinopla como a sede legítima da ortodoxia (estatuto contestado pela Igreja Ortodoxa Russa).

Basto 7/2017

Bispo mais jovem do mundo é ucraniano

Enquanto uma grande parte do Ocidente, cheio da “nova misericórdia”, concentra todos os seus esforços a tentar encontrar formas de integrar o adultério, o homossexualismo, o luteranismo, a teologia da libertação e outros exotismos na nova pastoral da Igreja, o Leste continua a evidenciar uma grande vitalidade. No passado dia 21 de junho, na Ucrânia, foi ordenado o novo bispo católico de Rito Latino, D. Edward Kava, que, com apenas 39 anos de idade, é hoje o mais jovem bispo católico do mundo.

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D. Sviatoslav Shevchuk, líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, na Basílica Latina Metropolitana de Lviv, na Ucrânia, dá a sua bênção ao novo bispo ucraniano de Rito Latino, in  sítio oficial da Igreja Greco-católica Ucraniana, 22/06/2017

 

Eu acho que toda a Igreja Católica na Ucrânia se sente hoje amada. Este evento, que se realiza hoje em Lviv e que terá lugar em Kiev no sábado, faz-nos sentir que se abriu uma nova página na história da Igreja Católica na Ucrânia. A página que será marcada pelo amor. O amor não é apenas de Deus para nós, mas o amor fraterno entre nós, entre os dois pulmões da Igreja – o Oriental e o Ocidental”, afirmou o Patriarca da Igreja Greco-Católica Ucraniana.

(Sua beatitude, D. Sviatoslav Shevechuk insítio oficial da Igreja Greco-católica Ucraniana)

São palavras sábias, estas do líder da maior igreja católica oriental. Os dois “pulmões” fazem parte do mesmo corpo, neste caso a Igreja Católica, não pode estar um dentro outro fora. O ecumenismo jamais será verdadeiro se “confiar em Buda” e outras divindades pagãs. O ecumenismo verdadeiro deve procurar a unidade em torno da Fé verdadeira, trazendo para dentro da única Igreja fundada por Cristo todos aqueles que se encontram afastados. A conversão e o proselitismo são, deste modo, incontornáveis.

Igreja Católica significa Igreja Universal, inclui diferentes ritos e tradições, mas possui uma única Fé e uma única moral inegociáveis porque foram reveladas pelo próprio Deus.

Basto 6/2017

A Igreja que Stalin não conseguiu matar: a Igreja Greco-Católica Ucraniana prospera setenta anos depois da reunificação forçada

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O arcebispo Sviatoslav Shevchuk (ao centro) participa numa cerimónia, na Catedral Patriarcal da Ressurreição de Cristo, em Kiev, onde foi entronizado como líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, a 27 de março de 2011. Estima-se que a Igreja Greco-Católica Ucraniana tenha mais de 5 milhões de fiéis. REUTERS/Kinstantin Chernichkin

Por Nadia M. Diuk

24 de março de 2016 (Atlantic Council) – Há setenta anos, de 8 a 10 de março de 1946, sob as ordens de Josef Stalin, realizou-se um “sínodo” ilegal, do clero controlado pelo Kremlin, em Lviv,  depois de esta cidade ter sido absorvida pela União Soviética como parte do assentamento da Segunda Guerra Mundial. O objetivo do encontro era acabar com a existência independente da Igreja Católica Greco-Católica Ucraniana, ou melhor, “reuni-la” com a Igreja Ortodoxa Russa. Na base do astuto estratagema estava a origem desta Igreja, a qual resultou da união de Brest, em 1595, quando milhares de fiéis juntamente com os seus clérigos – a circunscrição metropolitana de Kiev-Halych – separaram-se da ortodoxia oriental para se submeterem à autoridade e à proteção pastoral do Papa católico latino de Roma.

Os três séculos e meio que se seguiram fizeram desta Igreja um próspero centro espiritual, intimamente ligado aos crescentes movimentos sociais e intelectuais que tentavam definir uma identidade para as emergentes populações ucranianas que viveram sob a sucessiva dominação de impérios e estados naquela região.

Em meados do século XX, a Igreja Católica Greco-Católica Ucraniana (IGCU) incluía mais de 3.000 paróquias, 4.440 igrejas, 5 seminários e 127 mosteiros. Mais de três milhões de crentes eram atendidos por 3.000 sacerdotes, 10 bispos e o metropolita [equivalente a arcebispo] que liderava a Igreja. Mas como o regime de Stalin pretendia subjugar e absorver os ucranianos ocidentais, era óbvio que esta grande e vibrante instituição, que respondia a uma autoridade exterior ao Estado, continuaria a cultivar o mesmo patriotismo e espírito de independência que tinha sido tão problemático durante a primeira ocupação soviética entre 1939-1941. Além disso, durante a II Guerra Mundial, embora o regime comunista soviético se tivesse afastado do ateísmo rígido, depois de perceber que a religião poderia desempenhar um papel no apoio ao esforço de guerra, o imperativo de controlar todas as instituições religiosas manteve-se. A “reunificação” da IGCU com a Igreja Ortodoxa Russa surgiu como a solução. Reuniu-se um “sínodo” sem a participação dos bispos da IGCU; os que foram forçados a participar, votaram e a Igreja foi oficialmente absorvida pela Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Moscovo, juntamente com a maior parte dos seus pertences. Num movimento cínico que reforçou a decisão, o anúncio foi feito no primeiro domingo de Quaresma, no 350º aniversário da União de Brest. Como resultado, a IGCU tornou-se a maior igreja clandestina do mundo.

Seguiram-se severas repressões. Sacerdotes católicos ucranianos foram espancados, torturados e condenados a longas penas de prisão. Dezenas de milhares de leigos tiveram o mesmo destino. O metropolita da IGCU, Josef Slipiy, foi enviado para um campo de trabalhos forçados na Sibéria. A igreja desceu às catacumbas: realizavam-se celebrações nas florestas ou, havendo coragem, em habitações particulares. As crianças eram batizadas em segredo e os ritos religiosos realizavam-se na clandestinidade, enquanto o Estado soviético continuava o seu ataque aos sacerdotes, monges, freiras e fiéis católicos, oferecendo refúgio na Igreja Ortodoxa Russa ou, em alternativa, repressão como preço para a recusa no corte da ligação ao bispo de Roma.

Ainda assim, a chama da resistência resistiu e forneceu inspiração com histórias de brutalidade e coragem partilhadas entre os membros confiáveis da família e transmitidas de geração em geração. A Ucrânia Ocidental, com suas aspirações e apoio a uma Ucrânia independente, manteve-se como um viveiro de sentimentos anti-soviéticos e de diversidade religiosa. Quando a longa luta da igreja clandestina terminou finalmente, em 1989, sobravam apenas trezentos idosos sacerdotes.

A vitalidade da igreja reafirmou-se rapidamente com o apoio da diáspora, os milhares de ucranianos que tinham fugido da sua terra natal durante a guerra rumo à América do Norte, à América Latina, à Europa e até à Austrália.

Hoje, com um centro espiritual em Roma, com a recentemente reestabelecida Universidade Católica Ucraniana em Lviv e a com recém-construída catedral em Kiev, a Igreja tem 33 eparquias e exarcados e 53 bispos em quatro continentes, com mais de 3.000 sacerdotes cuja idade média ronda os 38 anos.

A influência desta Igreja na vida social e política da Ucrânia tem sido evidente desde a independência. Estudantes da Universidade Católica Ucraniana de Lviv foram alguns dos primeiros a deslocar-se até Kiev, em 2004, para apoiar as ideias e aspirações da Revolução Laranja contra um regime autoritário. E em 2013-14, a Revolução da Dignidade da Ucrânia foi impregnada com os valores morais e atitudes tolerantes propostos pela Igreja. O seu clero foi uma presença diária em Maidan durante os três meses de luta. Juntamente com as outras igrejas e denominações religiosas da Ucrânia, a IGCU ajudou a criar um ambiente ecuménico e diversificado para os movimentos sociais na Ucrânia. Como um baluarte contra o autoritarismo, este espírito de ecuménico da Ucrânia continua a ser o melhor instrumento na luta para se tornar um estado próspero e democrático.

A edição original deste texto foi publicada pelo Atlantic Council no dia 8 de março de 2016. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do texto acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 3/2017

Kirill: “Rússia jamais reconhecerá a independência religiosa da Igreja Ucraniana”

Na Ucrânia, berço da cristianização da Rússia, os cristãos repartem-se hoje por várias denominações religiosas, na sua esmagadora maioria, cristãs de tradição ortodoxa. As divisões entre os maiores grupos de obediência ortodoxa existentes na Ucrânia devem-se essencialmente à história recente daquele país, nomeadamente ao período pós-colapso da União Soviética e consequente independência nacional, mas também à longa coabitação de dois grandes grupos étnicos, os ucranianos (78%) e os russos (17%), naquele grande país do Leste Europeu.

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Fonte: Macro Economy Meter

O processo de independência da Ucrânia conduziu à emancipação da Igreja Ortodoxa Ucraniana, ou pelo menos parte dela, em relação ao Patriarcado de Moscovo. Atualmente, num momento em que se ouve falar bastante de unificação, a Igreja Ortodoxa Ucraniana ainda se encontra dividida em três grandes grupos: o mais representativo é a Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Kiev (50%), segue-se depois a Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo (26%) e, por último, aparece a Igreja Ortodoxa Ucraniana Autocéfala (7%). Para além dos referidos, merece também destaque o grupo dos ortodoxos em comunhão com Roma, a Igreja Uniata, oficialmente denominada Igreja Greco-católica Ucraniana (8%). Estes são a maior Igreja Católica Oriental e encontram-se em franca expansão dentro e fora do país, manifestando um dinamismo notável.

Os católicos de rito latino, naquele país, são um grupo pouco expressivo, representando apenas cerca de 2% dos crentes ucranianos.

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Fonte: Macro Economy Meter

O presente conflito entre Kiev e Moscovo é também – embora muita gente não queira ver – um conflito religioso. Se, por um lado, o sr. Vladimir Putin não aceita que a Ucrânia se afaste da esfera de influência política de Moscovo para se juntar à União Europeia e à Nato, por outro, o Patriarca Kirill não quer perder a influência religiosa sobre a Ucrânia que, desde a independência daquele país, tem vindo a tornar-se praticamente nula.

No dia 20 de novembro, na celebração do seu 70º aniversário, na catedral de Cristo Salvador, em Moscovo, o Patriarca Kirill terá declarado que a Igreja Ortodoxa Russa jamais concordará com a independência da Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo.

Agradeço a Sua Beatitude Onufriy [líder local da Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo] pela sua coragem e firmeza na defesa da santa ortodoxia e pela preservação da unidade canónica da Igreja. A nossa igreja jamais deixará os irmãos ucranianos em dificuldades e não os abandonará. Nunca concordaremos em mudar as sagradas fronteiras canónicas da Igreja, porque Kiev é o berço espiritual da Santa Rus, como Mtskheta para a Geórgia e Kosovo ou para a Sérvia. [aplausos]

[…]

A dolorosa ferida da divisão ucraniana inflige sofrimento em todo o corpo da igreja, e a sua dor pode ser sentida não só na Ucrânia, mas no território canónico de outras igrejas locais. O perigo de divisão na Igreja é claro para todos nós.

(Patriarca Kirill a 20/11/2016 in Religious Information Service of Ukraine)

A Igreja Ortodoxa Russa já mostrou por diversas vezes – como constatámos aqui, por exemplo – que tem uma agenda própria, independente das suas congéneres, que converge, de forma clara e assumida, com os desígnios programáticos e geopolíticos de Vladimir Putin. Existe uma parceria muito forte entre as atuais lideranças política e religiosa da Rússia.

Logo veremos até onde esta parceria nos levará!

Basto 11/2016

D. Sviatoslav Shevchuk, em Fátima, consagra a Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria

Durante a Eucaristia a que presidiu na Basílica da Santíssima Trindade, no Santuário de Fátima, no passado dia 23 de outubro, o líder dos católicos ucranianos consagrou a sua nação e o mundo ao Imaculado Coração de Maria.

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D. Sviatoslav Shevchuk no Santuário de Fátima no dia 23 de outubro de 2016 – news.ugcc.ua, 24/10/2016

Hoje sinto o dever de responder ao vosso apelo: consagrar a Ucrânia, o nosso povo e outras nações do mundo ao Imaculado Coração de Maria e oferecermo-nos todos sob o seu manto. Porque sabemos que somente através da mortificação pessoal e da luta contra o pecado podemos vencer esta guerra, na qual estamos agora envolvidos.

Quereis, através da vossa mortificação pessoal e penitência, participar na luta contra o pecado? Estais prontos para oferecer as vossas dores e sofrimentos pela conversão dos pecadores? Estais prontos para, através das lágrimas e dos sofrimentos da Ucrânia, pedir perdão a Deus por tantas ofensas com que nós e outras nações O magoamos?

(D. Sviatoslav Shevchuk, em Fátima, a 23 de outubro de 2016)

Os presentes responderam: “Sim” e Sua Beatitude D. Sviatoslav Shevchuk prosseguiu.

Maria, estamos hoje diante de vós e consagramo-nos ao vosso Imaculado Coração, e oferecemos, sob o vosso manto, a Ucrânia e outras nações da Europa Oriental e do mundo. Nós vos oferecemos a nossa dor e todos os sofrimentos da Ucrânia porque somente através da conversão e do arrependimento obtemos a paz. Aceitai o nosso sacrifício e salvai o nosso povo, a nossa terra e o mundo do pecado e da morte.

(D. Sviatoslav Shevchuk, em Fátima, a 23 de outubro de 2016)

A sua peregrinação a Fátima fez parte do programa do encontro dos bispos das Igrejas Católicas de Rito Oriental na Europa que teve lugar em Portugal por iniciativa do Conselho de Conferências Episcopais da Europa.

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D. Sviatoslav Shevchuk, D. Leonardo Sandri e D. Manuel Clemente – news.ugcc.ua, 21/10/2016

Outro momento de grande simbolismo aconteceu quando D. Sviatoslav Shevchuk ofereceu a D. Manuel Clemente, Cardeal Patriarca de Lisboa, um ícone oriental de Nossa Senhora de Fátima produzido numa das zonas “ocupadas” da Ucrânia.

O ícone oferecido é, aparentemente, idêntico ao famoso ícone russo de Nossa Senhora de Fátima. Este ícone sintetiza a tradição litúrgica oriental, bizantina, com a devoção ao Imaculado Coração de Maria e à Nossa Senhora do Rosário, que são de origem ocidental, latina.

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Agência Ecclesia, 20/10/2016

 

“Hoje, a Ucrânia vive um momento muito doloroso, um momento de guerra”, disse o arcebispo, para quem este encontro representa uma “peregrinação espiritual a Nossa Senhora de Fátima”, recordando que a mensagem da Cova da Iria é vista pela Igreja de Leste como uma “profecia”.

“Pedimos à Santíssima Virgem que nos ajude”, declarou.

(D. Sviatoslav Shevchuk in Agência Ecclesia, 20/10/2016)

De facto, enquanto os católicos de rito latino tendem a olhar para os erros e os castigos da Rússia como algo do passado, ou então do futuro, os católicos orientais, nomeadamente os ucranianos, já os sentem na pele agora, no presente momento da história, mas também os sentiram no passado e de que maneira… São eles quem mais anseia hoje, como no passado, a profetizada conversão da Rússia.

A presença na Cova da Iria do líder da segunda maior das 24 Igrejas particulares que compõem a Igreja Católicaa maior das Igrejas Orientais é um acontecimento grande no contexto da mensagem de Fátima, principalmente depois de conhecermos o propósito que o levou ali. Ainda assim, este enorme acontecimento passou praticamente despercebido, o que se calhar até dá jeito à ostpolitik vaticana para com a Rússia, ou não fossem os greco-católicos ucranianos a principal pedra no sapato daqueles que tentam el encuentro entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa Russa. O simbolismo desta visita é ainda maior quando sabemos que, 99 anos depois das aparições de Fátima, os ucranianos são hoje uma das maiores e mais integradas comunidades de imigrantes em Portugal.

No vídeo abaixo, D. Sviatoslav preside à liturgia pelos heróis que padeceram na Praça de Maidan. A celebração teve lugar na Igreja Ecuménica do Imaculado Coração de Maria e dos Mártires Ucranianos, no Dia da Unidade Nacional que se celebra a 22 de fevereiro.

Basto 11/2016

Poderá o Papa Francisco ir à Rússia?

Vários analistas, quer da esfera religiosa, quer da secular, têm avaliado a possibilidade de uma visita papal à Rússia com algum otimismo. A própria Igreja Ortodoxa Russa (IOR) não rejeita, à partida, essa eventualidade, apesar de considerá-la fora da agenda imediata. O Arcebispo Paolo Pezzi, líder dos católicos de rito latino em Moscovo, acredita que essa viagem será possível após um encontro prévio entre o Papa Francisco e o Patriarca Kirill, que entretanto já aconteceu.

A cimeira cubana foi organizada em segredo e ninguém sabe se uma visita papal à Rússia não estará também a ser preparada da mesma maneira ou até talvez já agendada.

Outros papas desejaram ir à Rússia, com particular destaque para João Paulo II, o papa eslavo. Também é do conhecimento público que, nesta era pós-Concílio Vaticano II, esse desejo recebeu a reciprocidade da parte de chefes de estado russos, contudo, por não ter sido aprovada pela IOR, essa viagem apostólica acabou por nunca acontecer.

Os Papas Bento XVI e João Paulo II tinham convites permanentes do governo russo, mas não puderam ir porque não obtiveram um convite correspondente da parte da Igreja Ortodoxa. Francisco teria necessidade de passar pelo mesmo para ir à Rússia. 

(in Reuters, 07/11/2013)

O grande obstáculo à entrada do Sumo Pontífice na Rússia, nestas últimas décadas, não foi portanto o poder político mas sim a hierarquia da IOR.

A Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa Russa não tinham relações de qualquer natureza antes do Concílio Vaticano II de 1962-1965. O falecido Papa João Paulo II foi o primeiro a expressar seu desejo de visitar a Rússia. Ele foi convidado pela primeira vez pelo presidente soviético Mikhail Gorbachev, em seguida, pelo presidente russo Vladimir Putin, mas nunca pelo Primaz da Igreja Ortodoxa Russa.

(in Kommersant, 28/03/2006)

Pela parte do poder político, essa viagem teria sido já realizada há muito tempo, mesmo ainda antes do colapso da União Soviética.

Excerto da conversa entre Mikhail Gorbachev e João Paulo II que teve lugar no dia 1 de dezembro de 1989 na Cidade do Vaticano:

M. Gorbachev: “Espero que depois desta reunião as nossas relações vão ganhar um novo impulso e suponho que em algum momento no futuro possa visitar a URSS. […]”

João Paulo II:Se isso for permitido, eu ficaria muito feliz. […] Estou profundamente grato pelo seu convite. Ficaria feliz com a oportunidade de visitar a União Soviética, a Rússia, para me encontrar com os católicos e não apenas os católicos, para visitar locais sagrados que são para nós, cristãos, uma fonte de inspiração. Obrigado pelo convite.”

(in The National Security Archive, GWU)

Apesar da atitude de grande abertura demonstrada pelos papas pós-conciliares, estes continuavam a não reunir as condições objetivas necessárias para serem bem-vindos na Rússia. Contudo, como o Papa Francisco apresenta um perfil bastante diferente dos anteriores, muita gente acredita que essa viagem poderá finalmente acontecer, o que não quer dizer que isso seja necessariamente um bom sinal.

Admitindo que a eventualidade de uma viagem papal à Rússia possa mesmo vir a concretizar-se durante o atual pontificado, que características aprazíveis encontra então a IOR em Francisco, que não encontrou nos dois papas anteriores? Esta é uma questão complexa que, ainda por cima, parte de um pressuposto meramente especulativo, pois essa hipotética viagem pode acabar por nunca se concretizar. Mas mesmo para os mais incrédulos, que consideram tal viajem impossível no curto ou no médio prazo, podemos apenas tentar interpretar a inédita disponibilidade do líder da IOR, em quase mil anos, para se reunir cordialmente com o Santo Padre e para publicar uma declaração conjunta, conforme aconteceu na cimeira cubana de fevereiro, algo considerado bastante improvável apenas há pouco mais de três anos atrás.

Os maiores entraves à entrada do Santo Padre na Rússia

As maiores questões que opõem a IOR à Igreja Católica Romana, da qual se encontra separada desde o grande cisma de 1054, podem resumir-se a três principais. Que respostas tem o Santo Padre para cada uma delas?

1. A Supremacia Petrina

É inaceitável, do ponto de vista da IOR, que o Pontífice Romano se assuma como o único e verdadeiro vigário de Cristo na Terra legitimado pela sucessão apostólica desde São Pedro até à atualidade. Deste modo, na perspetiva da IOR, a autoridade papal, a sua infalibilidade e outras características da cátedra petrina são apenas presunções inadmissíveis, enquanto para os católicos são uma certeza justificada pela Fé e pela história.

2. O proselitismo católico

Pregar a necessidade de conversão dos cristãos ortodoxos cismáticos ao catolicismo é considerado uma afronta aos olhos da IOR. Nessa perspetiva, as missões católicas em território canónico ortodoxo são vistas como ações insultuosas, do mesmo modo que o crescimento e a proliferação das comunidades católicas nesse espaço – principalmente os católicos orientais, de rito bizantino – são entendidos com perigosos para a religião e cultura locais.

Nós, os católicos, acreditamos na verdade dogmática de que fora da Igreja Católica Romana, una e santa, não há salvação. Não é apenas uma questão de pertença e de obediência, mas também de Fé. Existem diferenças teológicas e doutrinais profundas entre aquilo em que os Católicos e os ortodoxos acreditam, por exemplo, ao nível dos últimos dogmas definidos pela Igreja Católica como o da Imaculada Conceição de Maria.

3. Os uniatas, principalmente a Igreja Greco-Católica Ucraniana

Os católicos orientais são porventura o problema mais quente, o qual se inflamou ainda mais com o conflito ucraniano iniciado em 2014. Os Greco-Católicos Ucranianos, a maior e mais proeminente comunidade católica depois da Igreja Católica Latina, acusam frequentemente a Rússia de Vladimir Putin de ingerência política e militar na Ucrânia. Os uniatas (termo utilizado com conotação negativa), como são ortodoxos que obedecem a Roma e partilham a Fé Católica, são indesejados pela Rússia, principalmente quando se trata de uma comunidade tão viva, ativa e promissora como é a Igreja Uniata Ucraniana.

O “método de uniatismo do passado” consiste na conversão dos ortodoxos cismáticos à Fé Católica, representando – no caso da Igreja Uniata – uma fidelidade de várias centenas de anos, por vezes paga com o sangue dos mártires católicos orientais. As igrejas orientais são tão legítimas e verdadeiras quanto a Igreja Católica Latina, sendo-lhe estatutariamente equivalentes dentro da unidade institucional da Igreja Católica. Estão em comunhão com os restantes católicos e com o Papa, merecendo todo o seu apoio. Não poderão, em circunstância alguma, ser usadas como moeda de troca no diálogo ecuménico com a IOR.

E se essa viagem vier mesmo a acontecer…

Se algum dia, nas próximas semanas ou meses, ouvirmos a Santa Sé anunciar uma viagem apostólica do Santo Padre à Rússia, de uma maneira ou de outra, aquela famosa aldeia da diocese de Santander despertará novamente um grande interesse popular.

A autenticidade e a relevância da mensagem de Garabandal dependem da necessidade de conversão da Rússia. Se aceitarmos que a conversão da Rússia, anunciada em Fátima, já teve lugar, em resultado de uma das consagrações realizadas pelos papas anteriores, então Garabandal não faz sentido, uma vez que o anunciado “milagre” destina-se a converter a Rússia e o mundo. Deste modo, a lógica de Garabandal só pode enquadrar-se num contexto de crise resultante do desvio da Igreja em relação à proposta de Fátima. É uma espécie de plano de emergência…

As aparições de Garabandal não foram contudo ainda aprovadas pela Igreja, portanto devem ser tratadas com alguma precaução. Sendo assim, e partindo simplesmente da mensagem de Fátima, se o Santo Padre visitar finalmente a Rússia, duas questões terão de ser levantadas:

  • Será que a tal “cultura del encuentro” corresponde à “conversão da Rússia” pedida e anunciada em Fátima? Fará essa “cultura” parte do triunfo do Imaculado Coração de Maria?
  • Em solo russo, quem irá beijar o anel de quem?

Logo veremos!

Basto 08/2016

Greco-Católicos Ucranianos: a peça fundamental

Disse-lhes Ele: «Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar.» (Jo 21, 6)

Quem são?

A Igreja Greco-Católica Ucraniana é uma igreja particular oriental, sui juris, em plena comunhão com Roma desde a União de Brest que ocorreu em 1595. Assumem-se ortodoxos, pois pertencem à tradição litúrgica bizantina, mas professam a Fé Católica e obedecem ao Papa. Por outras palavras, são ortodoxos católicos ou católicos orientais. No meio ortodoxo, são normalmente conhecidos como “uniatas” (ou Igreja Uniata), sendo este termo utilizado com conotação negativa.

Os católicos orientais são, infelizmente, bastante desconhecidos da maior parte dos católicos de Rito Latino e o seu papel é muitas vezes subvalorizado porque são menos numerosos e porque, enfim, parece que “não são carne nem são peixe” – um raciocínio que não podia estar mais errado. Apesar da tradição ortodoxa, eles são católicos de pleno direito, pelo que qualquer um dos seus bispos ou cardeais pode ser nomeado para o exercício de cargos de destaque dentro da Cúria Romana, podendo inclusivamente ser eleito Papa. Uma possibilidade que, de resto, já foi ficcionada na literatura e no cinema através do livro “As Sandálias do Pescador”, de Morris West, e posteriormente no filme homónimo.

Mais do que serem católicos de pleno direito histórico e institucional, eles são-no por direito de sangue. Os católicos orientais foram severamente perseguidos e levados quase à extinção, principalmente durante a era soviética, pela simples razão de se terem recusado a cooperar com o regime comunista, ao contrário do que acabaria por acontecer, por exemplo, com a Igreja Ortodoxa Russa. A igreja mártir da Ucrânia, os católicos ucranianos, em especial os de rito oriental, foram dos grupos religiosos mais fustigados em toda a era soviética. A sua valentia e heroísmo, a sua Fé e a sua obediência ao Bispo de Roma, produziram longas listas de mártires durante um dos períodos de maior hostilidade contra a Santa Igreja Católica Apostólica Romana em toda a sua história. O seu sangue derramado foi uma das maiores fontes de Graça Santificadora da Igreja durante o séc. XX.

Nós sentimos que somos o fruto do sangue dos mártires. A frase de Tertuliano “O sangue dos mártires é a semente dos cristãos” tornou-se verdade na nossa Igreja durante a minha própria história.

(D. Sviatoslav Shevchuk, in Salt and Light, 2013)

De todas as 23 igrejas católicas orientais, sui juris, a Igreja Greco-Católica Ucraniana, com uma população estimada que já deve ultrapassar largamente os oito milhões de fieis, é de longe a maior, continuando a crescer a um ritmo entusiasmante, não só dentro da Ucrânia, como também por toda a sua diáspora espalhada pelo mundo. Este crescimento e expansão geográfica provocam uma grande azia dentro da Rússia.

Enquanto a Igreja Católica Latina agoniza, com os seminários e conventos fechados, sem padres para as paróquias, profundamente descaracterizada devido à infiltração do modernismo teológico e de práticas cada vez mais heterodoxas e duvidosas, a Igreja Greco-Católica Ucraniana floresce, conservando a sua Fé Católica e toda a sua tradição bizantina, impermeável às tendências modernistas que devastaram os católicos ocidentais, de Rito Latino. Os seus seminários estão cheios e o número de padres, cerca de 300 no início dos anos 90, ultrapassa hoje os 3000, na sua maioria, jovens.

Todavia, mesmo sendo a segunda maior comunidade católica depois da Igreja Católica Latina e uma das mais promissoras, contrariamente às suas longas e justas expectativas, a Igreja Greco-Católica Ucraniana ainda não foi elevada pela Santa Sé à categoria de Igreja Patriarcal Autocéfala, o que a colocaria, em termos estatutários, ao nível de outras igrejas orientais incomparavelmente menos relevantes pela sua dimensão. E porquê? Para não prejudicar o diálogo ecuménico entre as Igrejas Católica e Ortodoxa Russa ou, com efeito, o relacionamento diplomático entre a Santa Sé e a Federação Russa.

Os católicos orientais da Ucrânia não têm ainda um Patriarca formalmente instituído, no fundo, pelas mesmas razões que levaram João XXIII, tal como os seus sucessores, a não realizar o solene ato de “consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria” nos termos em que fora pedido por Nossa Senhora de Fátima. Ou seja, pelas mesmas razões que fizeram João Paulo II, em 1982 e 1984, optar por consagrar a “humanidade” e o “mundo” ao Imaculado Coração de Maria, evitando sempre a palavra “Rússia” no derradeiro momento.

O líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, D. Sviatoslav Shevchuk, é o Arcebispo-mor (ou Arcebispo-Maior) de Kiev-Halic e toda a Rus. Imagine-se o que representaria, para a Igreja Ortodoxa Russa, a sua elevação à categoria de Patriarca (Católico) de toda uma região de tradição bizantina que é o berço da cristianização de grande parte dos povos eslavos , incluindo a própria nação russa. O líder da Igreja Ortodoxa Russa assume-se como Patriarca de Moscovo e de toda a Rus, o que também inclui a Ucrânia. A palavra “Rus”, referindo-se a uma antiga grande região da Europa do Leste, ou aos seus povos, está na origem etimológica da própria palavra “Rússia”.

Os católicos de rito oriental, em geral, e os Greco-Católicos Ucranianos, em particular, são indesejados, na sua natureza e na sua essência, pelas autoridades religiosas das igrejas ortodoxas separadas de Roma desde o Grande Cisma do Oriente  (1054). Esta hostilidade sente-se particularmente na Rússia, onde habita a maior comunidade ortodoxa a nível mundial e onde o forte nacionalismo passa também pela religião. Aí, os Greco-Católicos são vistos como uma fabricação ocidental, um instrumento subversivo utilizado pelos católicos para se infiltrarem no “território canónico” dos ortodoxos.

No chamado “território canónico” da ortodoxia, cuja liderança é reclamada – de forma mais ou menos assumida – por Moscovo (a “3.ª Roma”), a Ucrânia tem uma importância estratégica fundamental, por diversas razões:

  • É o maior estado europeu (depois da Rússia), tendo sido a segunda república mais importante no seio da União Soviética.
  • Com mais de oito milhões de russos, é o país onde se pode encontrar a maior comunidade de etnia russa fora da Rússia.
  • Os idiomas ucraniano e russo, sendo da mesma família linguística, são mutuamente percetíveis, o que reforça a proximidade étnica e cultural das duas nações.
  • Fez parte – e teoricamente, ainda faz – da área de influência do Patriarcado de Moscovo.
  • Em termos de predominância religiosa e cultural, a Ucrânia encontra-se na linha de charneira entre os “territórios canónicos” católico latino e ortodoxo. Sendo um país maioritariamente ortodoxo, faz fronteira com países onde predomina a tradição católica latina.
  • Kiev, atual capital ucraniana, foi onde ocorreu a conversão de São Vladimir o Grande ao cristianismo, no ano de 988, seguida da conversão em massa das tribos conhecidas como os Rus de Kiev. Ou seja, é o berço da cristianização da Rússia e arredores.

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Fresco da Catedral de Kiev alusivo ao batismo de São Vladimir o Grande (Viktor Vasnetsov, 1890)

Por que razão se sentiram os nossos irmãos Greco-Católicos Ucranianos profundamente desiludidos com a atitude do Santo Padre na Cimeira Cubana?

Durante o pontificado do Papa Francisco, os católicos ucranianos tinham já pedido ao Santo Padre para ser mais incisivo e condenar objetivamente as intromissões da Rússia no seu país, ainda assim, Sua Santidade optou sempre por uma posição equidistante em relação ao conflito ucraniano. Das vezes que se referiu ao assunto, fê-lo como se de uma guerra civil se tratasse, em que a Rússia não tinha nada a ver com aquilo. Este era o ponto de partida…

Depois, para uma comunidade católica cheia de traumas provocados pela ditadura comunista, o lugar escolhido para este encontro não lhes podia criar grandes expectativas. O Bispo de Roma e o Patriarca de Moscovo escolheram Cuba, um país que de “neutro” não tem nada, pois é ainda governado pela ditadura marxista e, historicamente, o principal aliado do URSS fora da Europa. Como se isso não bastasse, a Cimeira Cubana aconteceu praticamente no 70º aniversário do Pseudo-sínodo de Lviv, um esquema montado pelo regime comunista soviético, com a conivência da Igreja Ortodoxa Russa, que quase levou a Igreja Greco-Católica Ucraniana à extinção.

Havia, ainda assim, alguma esperança, todavia, esta transformou-se em pura desilusão e amargura no momento em que foi publicada a declaração conjunta, assinada pelos dois líderes religiosos, e se deram a conhecer os parágrafos que a eles diziam respeito.

25.       Esperamos que o nosso encontro possa contribuir também para a reconciliação, onde existirem tensões entre greco-católicos e ortodoxos. Hoje, é claro que o método do “uniatismo” do passado, entendido como a união de uma comunidade à outra separando-a da sua Igreja, não é uma forma que permita restabelecer a unidade. Contudo, as comunidades eclesiais surgidas nestas circunstâncias históricas têm o direito de existir e de empreender tudo o que é necessário para satisfazer as exigências espirituais dos seus fiéis, procurando ao mesmo tempo viver em paz com os seus vizinhos. Ortodoxos e greco-católicos precisam de reconciliar-se e encontrar formas mutuamente aceitáveis de convivência.

26.       Deploramos o conflito na Ucrânia que já causou muitas vítimas, provocou inúmeras tribulações a gente pacífica e lançou a sociedade em uma grave crise económica e humanitária. Convidamos todas as partes do conflito à prudência, à solidariedade social e à atividade de construir a paz. Convidamos as nossas Igrejas na Ucrânia a trabalhar por se chegar à harmonia social, abster-se de participar no conflito e não apoiar ulteriores desenvolvimentos do mesmo.

27.       Esperamos que o cisma entre os fiéis ortodoxos na Ucrânia possa ser superado com base nas normas canónicas existentes, que todos os cristãos ortodoxos da Ucrânia vivam em paz e harmonia, e que as comunidades católicas do país contribuam para isso de modo que seja visível cada vez mais a nossa fraternidade cristã.

28.       No mundo contemporâneo, multiforme e todavia unido por um destino comum, católicos e ortodoxos são chamados a colaborar fraternalmente no anúncio da Boa Nova da salvação, a testemunhar juntos a dignidade moral e a liberdade autêntica da pessoa, “para que o mundo creia” (Jo 17, 21). Este mundo, onde vão desaparecendo progressivamente os pilares espirituais da existência humana, espera de nós um vigoroso testemunho cristão em todas as áreas da vida pessoal e social. Nestes tempos difíceis, o futuro da humanidade depende em grande parte da nossa capacidade conjunta de darmos testemunho do Espírito de verdade.

(Declaração Conjunta de Havana, in Radio Vaticano, 12/02/2016)

Este documento, para além de rejeitar completamente a necessidade de conversão da Rússia, desvalorizou a fidelidade de mais de 400 anos dos Greco-católicos Ucranianos ao Bispo de Roma, que se separaram da ramo ortodoxo cismático a que pertenciam para se reunirem à Igreja Católica Romana. De certo modo, desaconselhou mesmo o seu exemplo.

O “uniatismo do passado” era entendido como a conversão à Fé Católica e a reunião à única instituição fundada por Cristo que mantém intacta a linha de sucessão que remonta a apóstolo São Pedro, o primeiro Papa. É uma pena que o Santo Padre rejeite, desta forma, o “uniatismo do passado,” uma vez que ele custou muitas vidas na Ucrânia e noutros países da Europa do Leste. A fidelidade a Roma foi paga com o sangue de muitos fiéis na Ucrânia.

Mais curiosa ainda é a ideia obscura de que a Cimeira Cubana outorgou à Igreja Uniata o direito de existir, como se, algum dia, esse direito pudesse vir de Havana…

Não devemos pedir a ninguém o direito de existir, somente Deus estabelece isto e sobretudo faz mal à compreensão da verdade a escassa clareza sobre a questão do uniatismo e o uso genérico do termo “expressões eclesiais”, sem referências precisas à Igreja Greco-católica ucraniana: Porque na terminologia da teologia ecuménica moderna, este termo é usado para as comunidades cristãs que não conservaram a plenitude da sucessão apostólica. Ao invés disto, nós somos uma parte integrante da comunhão católica.

(D. Sviatoslav Shevchuk, in Radio Vaticano, 24/02/2016)

De facto D. Sviatoslav Shevchuk tem razão, se esta Igreja existe dentro da comunhão Católica e da sucessão Apostólica é porque Deus assim o quis. Mais até, conforme foi pedido através de Nª Sª de Fátima, chegou o momento em que Deus quer que também a Rússia retorne definitivamente a esta comunhão.

A mensagem de Fátima fala de “conversão” e não de “cultura del encuentro”. Conversão pressupõe adesão a algo, neste caso a Fé Católica. A “cultura do encontro” rejeita linearmente a necessidade de conversão de alguma das partes, rejeita a reunião e solidifica formalmente a separação em prole de uma mera convivência comum.

D. Sviatoslav Shevchuk, o líder dos católicos ucranianos, nasceu e cresceu sob a ditadura comunista soviética. Com apenas 46 anos de idade, este destemido arcebispo é um dos mais jovens bispos de toda a Igreja Católica. É doutorado em Teologia Moral, fluente em várias línguas e teve um passado pastoral contemporâneo do então Arcebispo Bergoglio na Argentina. Teve uma intervenção brilhante no Sínodo da Família em defesa dos valores morais tradicionais contra a agenda imoral que aí teimou impor-se.

Os cristãos Greco-Católicos da Europa do Leste são uma peça fundamental na compreensão da mensagem de Fátima porque sofreram e resistiram aos horrores do comunismo soviético e são uma pequena amostra daquilo que a conversão da Rússia deverá ser um dia, após a o triunfo do Imaculado Coração de Maria.

Basto 06/2016

“Por fim” – a última página do calendário de Fátima

1917

Diga-lhes, Senhor Padre, que a Santíssima Virgem repetidas vezes nos disse, tanto aos meus primos Francisco e Jacinta como a mim, que várias nações desaparecerão da face da terra. Disse que a Rússia seria o instrumento do castigo do Céu para todo o mundo, se antes não alcançássemos a conversão dessa pobre nação.

(Ir. Lúcia ao Pe. Agustín Fuentes, 1957)

1960

Chegados a este ano, ao contrário da revelação esperada do 3º Segredo de Fátima, o Vaticano emite, no dia 8 de fevereiro, um comunicado de imprensa não assinado, anunciando que o famoso 3º Segredo de Fátima não seria revelado, conforme se esperava, e que provavelmente iria permanecer em segredo para sempre.

 

2013, 2014

Ucrânia:

  • Mais de 6 000 mortos;
  • Mais de 12 000 feridos;
  • Mais de 300 000 desalojados;
  • Mais de 1 000 000 de refugiados;
  • A Península da Crimeia foi anexada pela Rússia;
  • O Leste do país está num caos social e político;
  • O líder Católico Ucraniano, Arcebispo Maior Sviatoslav Shvechuk, rejeita a ideia de guerra civil, não partilha da posição equidistante do Vaticano face ao conflito e deseja que o Papa condene, de forma clara, a “agressão russa” no seu país.

 

2015

A maior parada militar de sempre na Praça Vermelha:

O maior exercício militar da NATO desde a Guerra Fria:

2016, 2017…

“…por fim o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

(Nª. Sª. de Fátima aos pastorinhos em 1917)

A maior prova de que nós ainda não chegámos lá foi-nos dada pelo próprio Santo Padre durante a última visita ao Santuário de Fátima.

Possam os sete anos que nos separam do centenário das Aparições apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima Trindade.”

(Bento XVI, 13 de maio de 2010)

“Por fim”, e quando é que isso será? É uma questão de tempo, ou de sofrimento, talvez…

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Basto 4/2016