Arcebispo ucraniano adverte contra o apaziguamento dos separatistas apoiados pela Rússia quando os combates se intensificam

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Por Catholic News Service

Com a intensificação dos combates no leste da Ucrânia, o Arcebispo-mor da Igreja Católica Ucraniana advertiu contra as atitudes de “apaziguar o agressor” na guerra contra os separatistas apoiados pelos russos, que já dura há cinco anos.

“Por mais que tentemos curar as feridas da guerra, não disso terá um efeito definitivo até que o agressor pare de infligir essas feridas.”

Assim explicou o Arcebispo-mor Sviatoslav Shevchuk, de Kiev-Halic, acrescentando:

“Paz não pode significar capitulação e submissão – isso seria uma imitação de paz com consequências piores do que a própria guerra. […] Seria apenas uma mudança na maneira como as pessoas são feridas.”

O arcebispo prestou estas declarações à agência de notícias ucraniana Censor.net, no dia 14 de agosto, na mesma altura em que as agências internacionais davam conta de novas mobilizações e bombardeamentos de forças apoiadas pela Rússia no leste da Ucrânia, inclusive em torno do porto sitiado de Mariupol, no Mar de Azov.

Afirmou ainda que o conflito nas auto-proclamadas “repúblicas populares” de Donetsk e Luhansk “abriu uma cicatriz viva” na sua Igreja, deixando 11 paróquias sob controlo separatista e impossibilitando o bispo local de regressar à região ao longo dos últimos cinco anos.

Outras cinco paróquias católicas na Crimeia, anexadas à força pela Rússia em 2014, têm funcionando agora sob “o cuidado pessoal” do Vaticano, disse o arcebispo Shevchuk.

“Eu tentei dar voz àqueles que sofrem com esta guerra e transmitir o que deve ser uma verdadeira paz.”

O líder dos católicos ucranianos disse ainda:

“Nós sabemos, da história, que apaziguar o agressor apenas alimenta seu apetite. É muito importante falar sobre a dor que o nosso povo sofre e lembrar, quando negociamos com um agressor destes, os olhos de uma mãe que perdeu o seu filho na guerra. Nós devemos ser a voz dessas pessoas afetadas. Até que sejam honradas e compensadas ​​pelo mal que lhes fizeram, que justiça poderão elas esperar?”

A Organização das Nações Unidas (ONU) diz que pelo menos 13.000 soldados e civis foram mortos e 30.000 feridos durante o conflito no leste da Ucrânia, onde 60.000 tropas ucranianas se mantêm ao longo de uma linha de 400 quilómetros, frente a 35.000 separatistas, mercenários estrangeiros e militares russos.

Nos dias 14 e 15 de agosto, o Ministério da Defesa da Ucrânia denunciou 25 violações do cessar-fogo de 21 de julho.

Uma missão especial da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) denunciou que desaparecera um drone de reconhecimento sobre Obozne, uma localidade ocupada pelos separatistas a norte de Luhansk, e que havia documentado a mobilização de tanques, obuses e armas antitanque para além das linhas de retirada estabelecidas, violando os acordos assinados em Minsk, Bielorrússia, em 2014 e 2015.

Na sua entrevista ao Censor.net, o arcebispo Shevchuk disse estar satisfeito por o presidente Volodymyr Zelenskiy, um ex-ator e humorista eleito em maio, encarar a guerra como “o seu desafio mais importante” e estar pronto para escutar a posição dos católicos ucranianos através de conversas e partilha.

“A Ucrânia está a sofrer porque um agressor deseja destruir nosso Estado – um Estado que é um bem comum, não apenas para os ucranianos na Ucrânia, mas para todas as pessoas, independentemente da pertença religiosa ou nacional.”

As igrejas católicas orientais e latinas da Ucrânia, juntamente com 50 associações religiosas e organizações de direitos humanos, subscreveram uma petição de 25 de julho dirigida à ONU, à União Europeia e a outras organizações internacionais, instando a Rússia a libertar os reféns e prisioneiros de guerra, a acabar com a “perseguição política” na Crimeia e no leste da Ucrânia e ainda a permitir a liberdade religiosa e o acesso irrestrito a observadores internacionais.

A edição original deste texto encontra-se publicada no Crux com a data de 16/08/2019. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do texto acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. A presente edição destina-se exclusivamente à sua divulgação. Sempre que possível, o texto deve ser lido na sua edição original. A imagem não faz parte da publicação original.

Basto 08/2019

A nova Igreja Ortodoxa da Ucrânia e o grande cisma na igreja cismática

Presidente Petro Poroshenko no Conselho da Unidade Ortodoxa de Toda a Ucrânia; in página oficial da Presidência da Ucraniana, 15/12/2018.

Há uma semana, foi dado por concluído o processo de criação da nova Igreja Ortodoxa da Ucrânia, que resultou da fusão de duas denominações ortodoxas dissidentes do Patriarcado de Moscovo. O estabelecimento de uma igreja ortodoxa nacional unificada contou com o forte apoio e empenho das autoridades políticas da Ucrânia, que assumiram este projeto como um desígnio nacional e como mais um passo na autodeterminação do país perante a Rússia.

A Rússia, por seu lado, que vê em Kiev o berço histórico da sua cristianização, já tinha avisado que jamais reconhecerá a independência religiosa da Ucrânia face ao Patriarcado de Moscovo. Com efeito, o facto de Bartolomeu I, Patriarca de Constantinopla, ter recentemente reconhecido a independência da Igreja Ortodoxa da Ucrânia levou o Patriarcado de Moscovo a cortar formalmente relações com Constantinopla, efetivando, deste modo, a maior rutura na cristandade oriental desde o Grande Cisma de 1054. Os dois patriarcados, de forma mais ou menos assumida, disputam a liderança do mundo ortodoxo, Constantinopla por razões históricas e simbólicas, Moscovo por razões de facto.

Temem-se agora as repercussões que os recentes desenvolvimentos na geografia religiosa da Ucrânia possam vir a ter na complexa situação político-militar existente entre a Ucrânia e a Rússia, como se comprova pela atenção que a NATO tem dado a esta questão.

Basto 12/2018

“Milagre” de São Januário realiza-se nas mãos do líder da maior Igreja Católica Oriental

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In Religious Information Service of Ukraine, 21/11/2018.

Durante a visita de D. Sviatoslav Shevechuk a Nápoles, o sangue de São Januário liquefez-se completamente no momento em que o líder dos católicos ucranianos segurava o relicário. O “milagre” aconteceu no dia 18 de novembro, portanto, fora das datas em que costuma ocorrer todos os anos.

“Temos de vos anunciar uma importante mensagem: o sangue de São Januário tornou-se líquido nas mãos de Sua Beatitude D. Sviatoslav”.

(Declaração dos Guardiões das Relíquias em 18 de novembro; in RISU, 21/11/2018)

O fenómeno aconteceu no final da liturgia, quando o arcebispo ucraniano transportava a relíquia, em procissão, para o seu lugar habitual. Sviatoslav confessou que, enquanto transportava o relicário, orou a São Januário “pelo fim da guerra na Ucrânia” e pela “proteção do povo ucraniano”.

Tradicionalmente, o sangue de São Januário liquefaz-se duas vezes por ano, a 16 de maio e a 19 de setembro.

Basto 11/2018

Santo Padre rejeita qualquer ideia de conversão da Rússia, preferindo o caminho do ecumenismo

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O Papa Francisco recebeu, no passado dia 30 de maio, uma delegação do Patriarcado de Moscovo da Igreja Ortodoxa Russa a quem confessou que sofre sempre que algum católico deseja o “uniatismo”, ou seja, a conversão das Igrejas Ortodoxas cismáticas à Fé Católica.

Em Moscovo há um só Patriarcado: o de vocês. Nós não temos outro. Quando qualquer católico, seja leigo, sacerdote ou bispo, tenta levantar a bandeira do “uniatismo”, que não funciona mais e acabou, para mim é uma grande dor. Acho que se deve respeitar as Igrejas unidas a Roma. O “uniatismo” como caminho de unidade, não deve existir mais”.

(Francisco I; in Vatican News 02/06/2018)

O uniatismo é um caminho de conversão que se materializa na reintegração de comunidades cristãs ortodoxas na Igreja Católica, abandonando, desse modo, a condição cismática em que se encontravam. As Igrejas Uniatas são Igrejas Católicas sui juris que, mantendo as tradições litúrgicas orientais, regressaram, em algum momento da história, à unidade com Roma, submetendo-se à autoridade papal e passando a professar a mesma Fé das restantes Igrejas Católicas, como é o caso, por exemplo, da florescente Igreja Uniata Ucraniana.

As declarações de Francisco não são propriamente uma novidade. Ainda ninguém esqueceu a forte condenação ao uniatismo com que o Santo Padre agradeceu, na cimeira cubana de 2016, os vários séculos de fidelidade dos Católicos Orientais – uma fidelidade que sobreviveu às maiores adversidades.

Para o Santo Padre, o caminho da “conversão da Rússia” – pedido em Fátima – deve ser substituído pelo caminho do “ecumenismo”. Um caminho moderno (ou modernista) onde a correção política, a diplomacia, os beijos e os abraços tendem a ser mais importantes do que a própria Fé.

Para mim, é motivo de consolação quando alguém estende a mão, dá um abraço fraterno, pensa e caminha junto. O ecumenismo se constrói caminhando. Portanto, continuemos a caminhar.

Alguns pensam, – mas não concordo – que primeiro se deve chegar a um acordo doutrinal sobre todos os pontos de divisão, para depois caminhar juntos. Isto não deve acontecer no caminho ecuménico, pois não sabemos quando acontecerá tal acordo.

(Francisco I; in Vatican News 02/06/2018)

O “acordo” ao qual o Papa Francisco se refere, e que só pode significar conversão à Fé Católica, acontecerá depois da consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. A Rússia reconhecerá então, na figura do Santo Padre, o legítimo Vigário de Cristo na Terra e aceitará a Fé Católica na sua integridade e pureza. Só então existirão condições para um “acordo” que produza verdadeira unidade e paz duradoura.

O Santo Padre consagrar-Mea Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

(Nª Sª de Fátima, 13 de julho de 1917; in Memórias da Irmã Lúcia)

Ainda há poucos meses, a Igreja Greco-Católica Ucraniana, a maior de todas as Igrejas Católicas Orientais, voltou a apelar à Santa Sé pelo seu reconhecimento como Igreja Patriarcal. Uma aspiração justa que tem sido sucessivamente adiada devido à subserviência ecuménica do Vaticano perante a Igreja Ortodoxa Russa.

As palavras do Papa para com os representantes da Igreja Ortodoxa Russa revestem-se ainda de um forte teor político porque surgem num momento em que, nas esferas políticas e religiosas da Ucrânia, se tem discutido a possibilidade de unificação das Igrejas Ortodoxas locais numa única igreja ortodoxa nacional autocéfala, completamente independente do Patriarcado de Moscovo. São palavras que vão ao encontro dos interesses geopolíticos que o Kremlin teima em manter sobre a vizinha Ucrânia.

Basto 06/2018

Presidente ucraniano foi ao Santuário de Fátima rezar pela paz

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Petro Poroshenko e a sua esposa Maryna Poroshenko no Santuário de Fátima no dia 18 de dezembro de 2017 in Página Oficial da Presidência Ucraniana, 18/12/2018.

Enquanto alguns conservadores, desiludidos com os excessos da era moderna ocidental, continuam a acreditar nas fábulas do bem-aventurado Vladimir Putin, à espera que o “grande monarca” eslavo venha salvá-los da podridão civilizacional, o presidente ucraniano, à margem da sua visita oficial a Portugal, deslocou-se discretamente a Fátima para rezar pela paz no seu país. Veio acompanhado pela esposa e por vários elementos do seu governo.

Petro Peroshenko deixou uma mensagem forte no livro de honra do Santuário:

Estou profundamente impressionado com a mensagem de Fátima, em particular sobre o aviso de uma ameaça para a humanidade por parte da Rússia, a qual, caso não se arrependa, espalhará os seus erros pelo mundo, provocando guerras e o perecimento massivo de povosescreveu o Chefe de Estado da Ucrânia lembrando que o seu país “tem sentido na própria pele a veracidade dessas profecias”.

(in Santuário de Fátima, 18/12/2017)

Para o Ocidente, em geral, as profecias de Fátima são um assunto arrumado, pertencem ao passado, a Rússia já se converteu (embora ninguém saiba dizer exatamente a quê), mas a Ucrânia continua a recordar-nos que essas profecias são hoje mais atuais do que nunca e que o pior poderá ainda estar por vir.

A península ucraniana da Crimeia está sob ocupação estrangeira desde fevereiro de 2014, ao mesmo tempo que algumas regiões do leste da Ucrânia continuam longe de alcançar a normalidade devido às interferências russas.

A presente visita de um dirigente ucraniano a Fátima não foi um ato isolado. Em junho de 2008, o Santuário recebeu o ex-presidente Victor Yushchenko e, alguns meses depois, o deputado Petro Yushchenko (irmão do presidente), acompanhado pelo Embaixador da Ucrânia em Portugal, Rostyslav Tronenko. Ainda no ano de 2008, recebeu uma nova delegação de dirigentes ucranianos.

Basto 12/2017

Igrejas do Leste, um espinho no flanco do Papa

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Por Sandro Magister

ROMA, 3 de agosto, 2017 (Settimo Cielo – L’Espresso) – A Europa do Leste é um espinho no flanco do pontificado de Francisco e são muitos e variados os elementos que o comprovam.

No duplo sínodo da família, os bispos da Europa Oriental estiveram entre os mais decididos defensores da tradição, começando pelo relator geral da primeira sessão, o cardeal húngaro Péter Erdõ, autor de, entre outras coisas, uma clamorosa condenação pública das violações cometidas pela fação reformista, que era claramente apoiada pelo Papa.

Depois do sínodo, a Europa do Leste voltou a ser, mais uma vez, a fonte das interpretações mais restritivas do documento papal Amoris Laetitia. Os bispos da Polónia foram particularmente unânimes em pedir uma aplicação do documento em perfeita continuidade com o antigo ensinamento que a Igreja desde a sua origem até João Paulo II e Bento XVI.

Os bispos da Ucrânia – onde 10 por cento da população são católicos – também estão entre os mais dedicados na oposição a ruturas no que concerne à tradição nas áreas do casamento, penitência e Eucaristia. Mas, para além disso, não se abstiveram de criticar fortemente as posições pró-russas do Papa Francisco e da Santa Sé em relação à guerra em curso no seu país, uma guerra que eles sentem como a agressão de mais ninguém a não ser a da Rússia de Vladimir Putin.

O abraço entre o Papa e o patriarca Kirill de Moscovo, no aeroporto de Havana, em 12 de fevereiro de 2016, com o documento associado assinado por ambos, foi também um poderoso elemento de fricção entre Jorge Mario Bergoglio e a Igreja Católica Ucraniana, que se vê injustamente sacrificada no altar desta reconciliação entre Roma e Moscovo.

A morte, no passado dia 31 de maio, do cardeal Lubomyr Husar, o anterior arcebispo-maior da Igreja Greco-Católica Ucraniana, voltou a dirigir a atenção para esta personalidade de elevadíssimo perfil, capaz de reconstruir espiritualmente uma Igreja que emergiu de décadas de perseguição sem qualquer tipo de concessão perante os cálculos diplomáticos – em função de Moscovo e do seu patriarcado – que, ao invés, durante o pontificado de Francisco voltaram a prevalecer.

O sucessor de Husar, o jovem Sviatoslav Shevchuck, é bem conhecido de Bergoglio pela sua anterior atividade pastoral na Argentina. Mas ele também é uma dos críticos mais diretos às tendências do atual pontificado, tanto no campo político como no doutrinal e pastoral.

E “certamente não foi por acaso”, escreveu há três semanas o Papa Emérito Bento XVI aquando da morte do seu amigo o cardeal Joachim Meisner, o indomável arcebispo de Berlim durante o regime comunista, “que a última visita da sua vida foi a um confessor da fé”, o bispo da Lituânia cuja beatificação estava a ser celebrada, um dos inúmeros mártires do comunismo na Europa do Leste que hoje corre o risco de cair no esquecimento.

*

Neste contexto emerge naturalmente a questão: nesta região da Europa, qual é o estado de saúde do catolicismo que se sabe estar em sério declínio em outras partes do mundo e particularmente na vizinha Europa Ocidental?

Esta questão recebeu uma resposta exaustiva – ainda que em termos puramente sociológicos – numa pesquisa abrangente realizada pelo Pew Research Center em Washington, que é talvez o barómetro mais confiável do mundo no que diz respeito à presença de religião na cena pública:

> Crença Religiosa e Pertença Nacional na Europa Central e do Leste:

O estudo incidiu precisamente sobre os países da Europa Oriental, quase todos submetidos no passado a regimes comunistas ateístas. E o primeiro facto impressionante neles constatado é o renascimento, em quase todos os lugares, de um sentimento forte e generalizado de pertença religiosa, que para os ortodoxos – uma reconhecida maioria em toda a área – coexiste com uma rara participação nas liturgias dominicais, enquanto que para os católicos é acompanhada de uma participação semanal bastante significativa na Missa: enquanto, por exemplo, na Polónia, 45% dos batizados e, na Ucrânia, 43% marcam presença na liturgia dominical, na Rússia, apenas comparecem 6% dos fiéis da confissão ortodoxa.

A República Checa suportou o peso do ateísmo de Estado, que adicionado a uma hostilidade anti-católica antiga que remonta ao protestantismo “hussita” e a uma posterior recatolicização imposta pelos Habsburgos, fez com que, neste país, 72% da população declare não ser afiliada em qualquer tipo de fé religiosa. Mas também aqui, entre os católicos que representam um quinto da população, a frequência dominical é, mesmo assim, de 22%, mais ou menos tanto como na Itália e muito mais do que na Alemanha, na França ou na Espanha, sem mencionar a Bélgica e a Holanda.

E o mesmo vale para a Bósnia, onde há poucos católicos, apenas 8%, mas o seu comparecimento dominical atinge um robusto valor de 54%.

Vale a pena ler todo o estudo do Pew Research Center  pela riqueza da informação que fornece. Mas aqui basta destacar que os católicos da Europa do Leste se distinguem dos ortodoxos, não apenas pelos seus muito mais elevados índices de prática religiosa, mas também por uma visão geopolítica antagónica.

Enquanto a Rússia ortodoxa é vista como o bastião natural contra o Ocidente, recebendo a aprovação de grandes maiorias, entre os católicos existe uma muito maior frieza para com a Rússia, em especial na Ucrânia e na Polónia, que se inclinam muito mais para uma aliança com os Estados Unidos e o Ocidente.

Uma divergência adicional pode ser ainda encontrada no campo ortodoxo entre aqueles que, como na Rússia, reconhecem o patriarca de Moscovo como a mais alta autoridade hierárquica da ortodoxia e aqueles que optam mais pelo patriarca de Constantinopla do que pelo de Moscovo, como acontece na Ucrânia, com 46% dos ortodoxos pelo primeiro e apenas 17% pelo segundo.

Sobre o casamento, a família, a homossexualidade e temas afins, pelo menos metade dos católicos apoiam as posições tradicionais da Igreja. E uma grande maioria da população total – com a única exceção na República Checa – é contra o reconhecimento legal das uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Mas, agrupando os dados por faixas etárias, é fácil constatar que os jovens adotam cada vez mais a mentalidade permissiva que, na Europa Ocidental – incluindo na Igreja Católica – é já desenfreada.

Uma mentalidade que certamente não encontra qualquer resistência no pontificado de Francisco.

A edição original deste texto foi publicada no blogue Settimo Cielo a 3 de agosto de 2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 8/2017

Poroshenko pede a Constantinopla para reconhecer a autocefalia da Igreja Ucraniana

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Poroshenko in RISU, 28/07/2017

No dia 28 de julho, data em que se assinalava o batismo de São Vladimir o Grande e dos Rus de Kiev (início da cristianização daquilo que é hoje a Ucrânia, a Rússia e outras nações do Leste Europeu), o presidente ucraniano, Petro Poroshenko, publicou uma mensagem na sua conta facebook onde exorta o Patriarca de Constantinopla a reconhecer a independência da Igreja Ortodoxa Ucraniana face a Moscovo.

Há 1029 anos atrás, Vladimir o Grande tomou uma grande decisão ao batizar os Rus da Ucrânia e aceitou a fé cristã da Igreja de Constantinopla, que para nós é ainda a Igreja Mãe, e é esta Igreja que esperamos que reconheça a autocefalia da Igreja Ucraniana – equivalente a outras Igrejas ortodoxas nacionais e, claro, espiritual e administrativamente independente de Moscovo, o estado agressor.

(Petro Poroshenko in RISU, 28/07/2017 – tradução)

A mensagem aparece junto a um curto vídeo da estátua de São Vladimir existente na capital ucraniana.

A mensagem do presidente ucraniano é uma dupla provocação contra Rússia, nesta região europeia onde o nacionalismo se confunde com a religião. Por um lado, rejeita a autoridade religiosa do Patriarcado de Moscovo sobre a Ucrânia e, por outro, reconhece Constantinopla como a sede legítima da ortodoxia (estatuto contestado pela Igreja Ortodoxa Russa).

Basto 7/2017

Bispo mais jovem do mundo é ucraniano

Enquanto uma grande parte do Ocidente, cheio da “nova misericórdia”, concentra todos os seus esforços a tentar encontrar formas de integrar o adultério, o homossexualismo, o luteranismo, a teologia da libertação e outros exotismos na nova pastoral da Igreja, o Leste continua a evidenciar uma grande vitalidade. No passado dia 21 de junho, na Ucrânia, foi ordenado o novo bispo católico de Rito Latino, D. Edward Kava, que, com apenas 39 anos de idade, é hoje o mais jovem bispo católico do mundo.

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D. Sviatoslav Shevchuk, líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, na Basílica Latina Metropolitana de Lviv, na Ucrânia, dá a sua bênção ao novo bispo ucraniano de Rito Latino, in  sítio oficial da Igreja Greco-católica Ucraniana, 22/06/2017

 

Eu acho que toda a Igreja Católica na Ucrânia se sente hoje amada. Este evento, que se realiza hoje em Lviv e que terá lugar em Kiev no sábado, faz-nos sentir que se abriu uma nova página na história da Igreja Católica na Ucrânia. A página que será marcada pelo amor. O amor não é apenas de Deus para nós, mas o amor fraterno entre nós, entre os dois pulmões da Igreja – o Oriental e o Ocidental”, afirmou o Patriarca da Igreja Greco-Católica Ucraniana.

(Sua beatitude, D. Sviatoslav Shevechuk insítio oficial da Igreja Greco-católica Ucraniana)

São palavras sábias, estas do líder da maior igreja católica oriental. Os dois “pulmões” fazem parte do mesmo corpo, neste caso a Igreja Católica, não pode estar um dentro outro fora. O ecumenismo jamais será verdadeiro se “confiar em Buda” e outras divindades pagãs. O ecumenismo verdadeiro deve procurar a unidade em torno da Fé verdadeira, trazendo para dentro da única Igreja fundada por Cristo todos aqueles que se encontram afastados. A conversão e o proselitismo são, deste modo, incontornáveis.

Igreja Católica significa Igreja Universal, inclui diferentes ritos e tradições, mas possui uma única Fé e uma única moral inegociáveis porque foram reveladas pelo próprio Deus.

Basto 6/2017

A Igreja que Stalin não conseguiu matar: a Igreja Greco-Católica Ucraniana prospera setenta anos depois da reunificação forçada

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O arcebispo Sviatoslav Shevchuk (ao centro) participa numa cerimónia, na Catedral Patriarcal da Ressurreição de Cristo, em Kiev, onde foi entronizado como líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, a 27 de março de 2011. Estima-se que a Igreja Greco-Católica Ucraniana tenha mais de 5 milhões de fiéis. REUTERS/Kinstantin Chernichkin

Por Nadia M. Diuk

24 de março de 2016 (Atlantic Council) – Há setenta anos, de 8 a 10 de março de 1946, sob as ordens de Josef Stalin, realizou-se um “sínodo” ilegal, do clero controlado pelo Kremlin, em Lviv,  depois de esta cidade ter sido absorvida pela União Soviética como parte do assentamento da Segunda Guerra Mundial. O objetivo do encontro era acabar com a existência independente da Igreja Católica Greco-Católica Ucraniana, ou melhor, “reuni-la” com a Igreja Ortodoxa Russa. Na base do astuto estratagema estava a origem desta Igreja, a qual resultou da união de Brest, em 1595, quando milhares de fiéis juntamente com os seus clérigos – a circunscrição metropolitana de Kiev-Halych – separaram-se da ortodoxia oriental para se submeterem à autoridade e à proteção pastoral do Papa católico latino de Roma.

Os três séculos e meio que se seguiram fizeram desta Igreja um próspero centro espiritual, intimamente ligado aos crescentes movimentos sociais e intelectuais que tentavam definir uma identidade para as emergentes populações ucranianas que viveram sob a sucessiva dominação de impérios e estados naquela região.

Em meados do século XX, a Igreja Católica Greco-Católica Ucraniana (IGCU) incluía mais de 3.000 paróquias, 4.440 igrejas, 5 seminários e 127 mosteiros. Mais de três milhões de crentes eram atendidos por 3.000 sacerdotes, 10 bispos e o metropolita [equivalente a arcebispo] que liderava a Igreja. Mas como o regime de Stalin pretendia subjugar e absorver os ucranianos ocidentais, era óbvio que esta grande e vibrante instituição, que respondia a uma autoridade exterior ao Estado, continuaria a cultivar o mesmo patriotismo e espírito de independência que tinha sido tão problemático durante a primeira ocupação soviética entre 1939-1941. Além disso, durante a II Guerra Mundial, embora o regime comunista soviético se tivesse afastado do ateísmo rígido, depois de perceber que a religião poderia desempenhar um papel no apoio ao esforço de guerra, o imperativo de controlar todas as instituições religiosas manteve-se. A “reunificação” da IGCU com a Igreja Ortodoxa Russa surgiu como a solução. Reuniu-se um “sínodo” sem a participação dos bispos da IGCU; os que foram forçados a participar, votaram e a Igreja foi oficialmente absorvida pela Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Moscovo, juntamente com a maior parte dos seus pertences. Num movimento cínico que reforçou a decisão, o anúncio foi feito no primeiro domingo de Quaresma, no 350º aniversário da União de Brest. Como resultado, a IGCU tornou-se a maior igreja clandestina do mundo.

Seguiram-se severas repressões. Sacerdotes católicos ucranianos foram espancados, torturados e condenados a longas penas de prisão. Dezenas de milhares de leigos tiveram o mesmo destino. O metropolita da IGCU, Josef Slipiy, foi enviado para um campo de trabalhos forçados na Sibéria. A igreja desceu às catacumbas: realizavam-se celebrações nas florestas ou, havendo coragem, em habitações particulares. As crianças eram batizadas em segredo e os ritos religiosos realizavam-se na clandestinidade, enquanto o Estado soviético continuava o seu ataque aos sacerdotes, monges, freiras e fiéis católicos, oferecendo refúgio na Igreja Ortodoxa Russa ou, em alternativa, repressão como preço para a recusa no corte da ligação ao bispo de Roma.

Ainda assim, a chama da resistência resistiu e forneceu inspiração com histórias de brutalidade e coragem partilhadas entre os membros confiáveis da família e transmitidas de geração em geração. A Ucrânia Ocidental, com suas aspirações e apoio a uma Ucrânia independente, manteve-se como um viveiro de sentimentos anti-soviéticos e de diversidade religiosa. Quando a longa luta da igreja clandestina terminou finalmente, em 1989, sobravam apenas trezentos idosos sacerdotes.

A vitalidade da igreja reafirmou-se rapidamente com o apoio da diáspora, os milhares de ucranianos que tinham fugido da sua terra natal durante a guerra rumo à América do Norte, à América Latina, à Europa e até à Austrália.

Hoje, com um centro espiritual em Roma, com a recentemente reestabelecida Universidade Católica Ucraniana em Lviv e a com recém-construída catedral em Kiev, a Igreja tem 33 eparquias e exarcados e 53 bispos em quatro continentes, com mais de 3.000 sacerdotes cuja idade média ronda os 38 anos.

A influência desta Igreja na vida social e política da Ucrânia tem sido evidente desde a independência. Estudantes da Universidade Católica Ucraniana de Lviv foram alguns dos primeiros a deslocar-se até Kiev, em 2004, para apoiar as ideias e aspirações da Revolução Laranja contra um regime autoritário. E em 2013-14, a Revolução da Dignidade da Ucrânia foi impregnada com os valores morais e atitudes tolerantes propostos pela Igreja. O seu clero foi uma presença diária em Maidan durante os três meses de luta. Juntamente com as outras igrejas e denominações religiosas da Ucrânia, a IGCU ajudou a criar um ambiente ecuménico e diversificado para os movimentos sociais na Ucrânia. Como um baluarte contra o autoritarismo, este espírito de ecuménico da Ucrânia continua a ser o melhor instrumento na luta para se tornar um estado próspero e democrático.

A edição original deste texto foi publicada pelo Atlantic Council no dia 8 de março de 2016. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do texto acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 3/2017

Kirill: “Rússia jamais reconhecerá a independência religiosa da Igreja Ucraniana”

Na Ucrânia, berço da cristianização da Rússia, os cristãos repartem-se hoje por várias denominações religiosas, na sua esmagadora maioria, cristãs de tradição ortodoxa. As divisões entre os maiores grupos de obediência ortodoxa existentes na Ucrânia devem-se essencialmente à história recente daquele país, nomeadamente ao período pós-colapso da União Soviética e consequente independência nacional, mas também à longa coabitação de dois grandes grupos étnicos, os ucranianos (78%) e os russos (17%), naquele grande país do Leste Europeu.

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Fonte: Macro Economy Meter

O processo de independência da Ucrânia conduziu à emancipação da Igreja Ortodoxa Ucraniana, ou pelo menos parte dela, em relação ao Patriarcado de Moscovo. Atualmente, num momento em que se ouve falar bastante de unificação, a Igreja Ortodoxa Ucraniana ainda se encontra dividida em três grandes grupos: o mais representativo é a Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Kiev (50%), segue-se depois a Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo (26%) e, por último, aparece a Igreja Ortodoxa Ucraniana Autocéfala (7%). Para além dos referidos, merece também destaque o grupo dos ortodoxos em comunhão com Roma, a Igreja Uniata, oficialmente denominada Igreja Greco-católica Ucraniana (8%). Estes são a maior Igreja Católica Oriental e encontram-se em franca expansão dentro e fora do país, manifestando um dinamismo notável.

Os católicos de rito latino, naquele país, são um grupo pouco expressivo, representando apenas cerca de 2% dos crentes ucranianos.

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Fonte: Macro Economy Meter

O presente conflito entre Kiev e Moscovo é também – embora muita gente não queira ver – um conflito religioso. Se, por um lado, o sr. Vladimir Putin não aceita que a Ucrânia se afaste da esfera de influência política de Moscovo para se juntar à União Europeia e à Nato, por outro, o Patriarca Kirill não quer perder a influência religiosa sobre a Ucrânia que, desde a independência daquele país, tem vindo a tornar-se praticamente nula.

No dia 20 de novembro, na celebração do seu 70º aniversário, na catedral de Cristo Salvador, em Moscovo, o Patriarca Kirill terá declarado que a Igreja Ortodoxa Russa jamais concordará com a independência da Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo.

Agradeço a Sua Beatitude Onufriy [líder local da Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo] pela sua coragem e firmeza na defesa da santa ortodoxia e pela preservação da unidade canónica da Igreja. A nossa igreja jamais deixará os irmãos ucranianos em dificuldades e não os abandonará. Nunca concordaremos em mudar as sagradas fronteiras canónicas da Igreja, porque Kiev é o berço espiritual da Santa Rus, como Mtskheta para a Geórgia e Kosovo ou para a Sérvia. [aplausos]

[…]

A dolorosa ferida da divisão ucraniana inflige sofrimento em todo o corpo da igreja, e a sua dor pode ser sentida não só na Ucrânia, mas no território canónico de outras igrejas locais. O perigo de divisão na Igreja é claro para todos nós.

(Patriarca Kirill a 20/11/2016 in Religious Information Service of Ukraine)

A Igreja Ortodoxa Russa já mostrou por diversas vezes – como constatámos aqui, por exemplo – que tem uma agenda própria, independente das suas congéneres, que converge, de forma clara e assumida, com os desígnios programáticos e geopolíticos de Vladimir Putin. Existe uma parceria muito forte entre as atuais lideranças política e religiosa da Rússia.

Logo veremos até onde esta parceria nos levará!

Basto 11/2016

D. Sviatoslav Shevchuk, em Fátima, consagra a Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria

Durante a Eucaristia a que presidiu na Basílica da Santíssima Trindade, no Santuário de Fátima, no passado dia 23 de outubro, o líder dos católicos ucranianos consagrou a sua nação e o mundo ao Imaculado Coração de Maria.

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D. Sviatoslav Shevchuk no Santuário de Fátima no dia 23 de outubro de 2016 – news.ugcc.ua, 24/10/2016

 

Hoje sinto o dever de responder ao vosso apelo: consagrar a Ucrânia, o nosso povo e outras nações do mundo ao Imaculado Coração de Maria e oferecermo-nos todos sob o seu manto. Porque sabemos que somente através da mortificação pessoal e da luta contra o pecado podemos vencer esta guerra, na qual estamos agora envolvidos.

Quereis, através da vossa mortificação pessoal e penitência, participar na luta contra o pecado? Estais prontos para oferecer as vossas dores e sofrimentos pela conversão dos pecadores? Estais prontos para, através das lágrimas e dos sofrimentos da Ucrânia, pedir perdão a Deus por tantas ofensas com que nós e outras nações O magoamos?

(D. Sviatoslav Shevchuk, em Fátima, a 23 de outubro de 2016)

Os presentes responderam: “Sim” e Sua Beatitude D. Sviatoslav Shevchuk prosseguiu.

Maria, estamos hoje diante de vós e consagramo-nos ao vosso Imaculado Coração, e oferecemos, sob o vosso manto, a Ucrânia e outras nações da Europa Oriental e do mundo. Nós vos oferecemos a nossa dor e todos os sofrimentos da Ucrânia porque somente através da conversão e do arrependimento obtemos a paz. Aceitai o nosso sacrifício e salvai o nosso povo, a nossa terra e o mundo do pecado e da morte.

(D. Sviatoslav Shevchuk, em Fátima, a 23 de outubro de 2016)

A sua peregrinação a Fátima fez parte do programa do encontro dos bispos das Igrejas Católicas de Rito Oriental na Europa que teve lugar em Portugal por iniciativa do Conselho de Conferências Episcopais da Europa.

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D. Sviatoslav Shevchuk, D. Leonardo Sandri e D. Manuel Clemente – news.ugcc.ua, 21/10/2016

Outro momento de grande simbolismo aconteceu quando D. Sviatoslav Shevchuk ofereceu a D. Manuel Clemente, Cardeal Patriarca de Lisboa, um ícone oriental de Nossa Senhora de Fátima produzido numa das zonas “ocupadas” da Ucrânia.

O ícone oferecido é, aparentemente, idêntico ao famoso ícone russo de Nossa Senhora de Fátima. Este ícone sintetiza a tradição litúrgica oriental, bizantina, com a devoção ao Imaculado Coração de Maria e à Nossa Senhora do Rosário, que são de origem ocidental, latina.

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Agência Ecclesia, 20/10/2016

 

“Hoje, a Ucrânia vive um momento muito doloroso, um momento de guerra”, disse o arcebispo, para quem este encontro representa uma “peregrinação espiritual a Nossa Senhora de Fátima”, recordando que a mensagem da Cova da Iria é vista pela Igreja de Leste como uma “profecia”.

“Pedimos à Santíssima Virgem que nos ajude”, declarou.

(D. Sviatoslav Shevchuk in Agência Ecclesia, 20/10/2016)

De facto, enquanto os católicos de rito latino tendem a olhar para os erros e os castigos da Rússia como algo do passado, ou então do futuro, os católicos orientais, nomeadamente os ucranianos, já os sentem na pele agora, no presente momento da história, mas também os sentiram no passado e de que maneira… São eles quem mais anseia hoje, como no passado, a profetizada conversão da Rússia.

A presença na Cova da Iria do líder da segunda maior das 24 Igrejas particulares que compõem a Igreja Católicaa maior das Igrejas Orientais é um acontecimento grande no contexto da mensagem de Fátima, principalmente depois de conhecermos o propósito que o levou ali. Ainda assim, este enorme acontecimento passou praticamente despercebido, o que se calhar até dá jeito à ostpolitik vaticana para com a Rússia, ou não fossem os greco-católicos ucranianos a principal pedra no sapato daqueles que tentam el encuentro entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa Russa. O simbolismo desta visita é ainda maior quando sabemos que, 99 anos depois das aparições de Fátima, os ucranianos são hoje uma das maiores e mais integradas comunidades de imigrantes em Portugal.

No vídeo abaixo, D. Sviatoslav preside à liturgia pelos heróis que padeceram na Praça de Maidan. A celebração teve lugar na Igreja Ecuménica do Imaculado Coração de Maria e dos Mártires Ucranianos, no Dia da Unidade Nacional que se celebra a 22 de fevereiro.

Basto 11/2016

Poderá o Papa Francisco ir à Rússia?

Vários analistas, quer da esfera religiosa, quer da secular, têm avaliado a possibilidade de uma visita papal à Rússia com algum otimismo. A própria Igreja Ortodoxa Russa (IOR) não rejeita, à partida, essa eventualidade, apesar de considerá-la fora da agenda imediata. O Arcebispo Paolo Pezzi, líder dos católicos de rito latino em Moscovo, acredita que essa viagem será possível após um encontro prévio entre o Papa Francisco e o Patriarca Kirill, que entretanto já aconteceu.

A cimeira cubana foi organizada em segredo e ninguém sabe se uma visita papal à Rússia não estará também a ser preparada da mesma maneira ou até talvez já agendada.

Outros papas desejaram ir à Rússia, com particular destaque para João Paulo II, o papa eslavo. Também é do conhecimento público que, nesta era pós-Concílio Vaticano II, esse desejo recebeu a reciprocidade da parte de chefes de estado russos, contudo, por não ter sido aprovada pela IOR, essa viagem apostólica acabou por nunca acontecer.

Os Papas Bento XVI e João Paulo II tinham convites permanentes do governo russo, mas não puderam ir porque não obtiveram um convite correspondente da parte da Igreja Ortodoxa. Francisco teria necessidade de passar pelo mesmo para ir à Rússia. 

(in Reuters, 07/11/2013)

O grande obstáculo à entrada do Sumo Pontífice na Rússia, nestas últimas décadas, não foi portanto o poder político mas sim a hierarquia da IOR.

A Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa Russa não tinham relações de qualquer natureza antes do Concílio Vaticano II de 1962-1965. O falecido Papa João Paulo II foi o primeiro a expressar seu desejo de visitar a Rússia. Ele foi convidado pela primeira vez pelo presidente soviético Mikhail Gorbachev, em seguida, pelo presidente russo Vladimir Putin, mas nunca pelo Primaz da Igreja Ortodoxa Russa.

(in Kommersant, 28/03/2006)

Pela parte do poder político, essa viagem teria sido já realizada há muito tempo, mesmo ainda antes do colapso da União Soviética.

Excerto da conversa entre Mikhail Gorbachev e João Paulo II que teve lugar no dia 1 de dezembro de 1989 na Cidade do Vaticano:

M. Gorbachev: “Espero que depois desta reunião as nossas relações vão ganhar um novo impulso e suponho que em algum momento no futuro possa visitar a URSS. […]”

João Paulo II:Se isso for permitido, eu ficaria muito feliz. […] Estou profundamente grato pelo seu convite. Ficaria feliz com a oportunidade de visitar a União Soviética, a Rússia, para me encontrar com os católicos e não apenas os católicos, para visitar locais sagrados que são para nós, cristãos, uma fonte de inspiração. Obrigado pelo convite.”

(in The National Security Archive, GWU)

Apesar da atitude de grande abertura demonstrada pelos papas pós-conciliares, estes continuavam a não reunir as condições objetivas necessárias para serem bem-vindos na Rússia. Contudo, como o Papa Francisco apresenta um perfil bastante diferente dos anteriores, muita gente acredita que essa viagem poderá finalmente acontecer, o que não quer dizer que isso seja necessariamente um bom sinal.

Admitindo que a eventualidade de uma viagem papal à Rússia possa mesmo vir a concretizar-se durante o atual pontificado, que características aprazíveis encontra então a IOR em Francisco, que não encontrou nos dois papas anteriores? Esta é uma questão complexa que, ainda por cima, parte de um pressuposto meramente especulativo, pois essa hipotética viagem pode acabar por nunca se concretizar. Mas mesmo para os mais incrédulos, que consideram tal viajem impossível no curto ou no médio prazo, podemos apenas tentar interpretar a inédita disponibilidade do líder da IOR, em quase mil anos, para se reunir cordialmente com o Santo Padre e para publicar uma declaração conjunta, conforme aconteceu na cimeira cubana de fevereiro, algo considerado bastante improvável apenas há pouco mais de três anos atrás.

 

Os maiores entraves à entrada do Santo Padre na Rússia

As maiores questões que opõem a IOR à Igreja Católica Romana, da qual se encontra separada desde o grande cisma de 1054, podem resumir-se a três principais. Que respostas tem o Santo Padre para cada uma delas?

1. A Supremacia Petrina

É inaceitável, do ponto de vista da IOR, que o Pontífice Romano se assuma como o único e verdadeiro vigário de Cristo na Terra legitimado pela sucessão apostólica desde São Pedro até à atualidade. Deste modo, na perspetiva da IOR, a autoridade papal, a sua infalibilidade e outras características da cátedra petrina são apenas presunções inadmissíveis, enquanto para os católicos são uma certeza justificada pela Fé e pela história.

2. O proselitismo católico

Pregar a necessidade de conversão dos cristãos ortodoxos cismáticos ao catolicismo é considerado uma afronta aos olhos da IOR. Nessa perspetiva, as missões católicas em território canónico ortodoxo são vistas como ações insultuosas, do mesmo modo que o crescimento e a proliferação das comunidades católicas nesse espaço – principalmente os católicos orientais, de rito bizantino – são entendidos com perigosos para a religião e cultura locais.

Nós, os católicos, acreditamos na verdade dogmática de que fora da Igreja Católica Romana, una e santa, não há salvação. Não é apenas uma questão de pertença e de obediência, mas também de Fé. Existem diferenças teológicas e doutrinais profundas entre aquilo em que os Católicos e os ortodoxos acreditam, por exemplo, ao nível dos últimos dogmas definidos pela Igreja Católica como o da Imaculada Conceição de Maria.

3. Os uniatas, principalmente a Igreja Greco-Católica Ucraniana

Os católicos orientais são porventura o problema mais quente, o qual se inflamou ainda mais com o conflito ucraniano iniciado em 2014. Os Greco-Católicos Ucranianos, a maior e mais proeminente comunidade católica depois da Igreja Católica Latina, acusam frequentemente a Rússia de Vladimir Putin de ingerência política e militar na Ucrânia. Os uniatas (termo utilizado com conotação negativa), como são ortodoxos que obedecem a Roma e partilham a Fé Católica, são indesejados pela Rússia, principalmente quando se trata de uma comunidade tão viva, ativa e promissora como é a Igreja Uniata Ucraniana.

O “método de uniatismo do passado” consiste na conversão dos ortodoxos cismáticos à Fé Católica, representando – no caso da Igreja Uniata – uma fidelidade de várias centenas de anos, por vezes paga com o sangue dos mártires católicos orientais. As igrejas orientais são tão legítimas e verdadeiras quanto a Igreja Católica Latina, sendo-lhe estatutariamente equivalentes dentro da unidade institucional da Igreja Católica. Estão em comunhão com os restantes católicos e com o Papa, merecendo todo o seu apoio. Não poderão, em circunstância alguma, ser usadas como moeda de troca no diálogo ecuménico com a IOR.

 

E se essa viagem vier mesmo a acontecer…

Se algum dia, nas próximas semanas ou meses, ouvirmos a Santa Sé anunciar uma viagem apostólica do Santo Padre à Rússia, de uma maneira ou de outra, aquela famosa aldeia da diocese de Santander despertará novamente um grande interesse popular.

A autenticidade e a relevância da mensagem de Garabandal dependem da necessidade de conversão da Rússia. Se aceitarmos que a conversão da Rússia, anunciada em Fátima, já teve lugar, em resultado de uma das consagrações realizadas pelos papas anteriores, então Garabandal não faz sentido, uma vez que o anunciado “milagre” destina-se a converter a Rússia e o mundo. Deste modo, a lógica de Garabandal só pode enquadrar-se num contexto de crise resultante do desvio da Igreja em relação à proposta de Fátima. É uma espécie de plano de emergência…

As aparições de Garabandal não foram contudo ainda aprovadas pela Igreja, portanto devem ser tratadas com alguma precaução. Sendo assim, e partindo simplesmente da mensagem de Fátima, se o Santo Padre visitar finalmente a Rússia, duas questões terão de ser levantadas:

  • Será que a tal “cultura del encuentro” corresponde à “conversão da Rússia” pedida e anunciada em Fátima? Fará essa “cultura” parte do triunfo do Imaculado Coração de Maria?
  • Em solo russo, quem irá beijar o anel de quem?

Logo veremos!

Basto 8/2016