E depois passaram a três, e agora?

Ferrara02

Por Christopher A. Ferrara

Com a súbita morte do cardeal Joachim Meisner, os quatro “cardeais dos dubia” ficaram reduzidos a três, sem que nenhum deles tenha realizado alguma ação para corrigir os erros da Amoris Laetitia, que se espalharam por toda a Igreja de forma inédita e verdadeiramente apocalíptica, fraturando uma disciplina eucarística universal e bimilenar enraizada na verdade revelada sobre a indissolubilidade do matrimónio e a santidade infinita do Santíssimo Sacramento.

Dadas as idades dos três restantes (Cardeal Brandmüller, 88, Cardeal Caffarra, 79 e Cardeal Burke, 69), uma diminuição adicional do seu número no curto prazo é uma possibilidade real. Perguntamo-nos se todos eles simplesmente passarão desta terra sem nunca terem emitido a prometida “correção formal”. Qual foi então o propósito da sua intervenção pública inicial quando solicitaram respostas aos cinco dubia que esbarraram no intransigente silêncio do Papa Bergoglio durante já quase um ano (como se não conhecêssemos já as respostas)? E qual era o objetivo de solicitar publicamente uma audiência com o Papa quando, como os cardeais ainda vivos certamente sabem, ele não tem intenção de alguma vez se deixar confrontar com seus erros, mas sim todas as intenções de promovê-los com piscadelas de olho, acenos de cabeça, declarações particulares e nomeações estratégicas para o episcopado e para o Colégio de Cardeais?

Entretanto, Bento XVI, o único “Papa Emérito” da história da Igreja – uma novidade que ele próprio inventou – ainda acrescentou mais àquilo que deve ser chamado de dimensão burlesca desta situação incomparável. Numa carta lida no funeral do Cardeal Meisner, ele diz:

Sabemos que este apaixonado pastor teve dificuldade em deixar o seu cargo, especialmente num momento em que a Igreja necessita particularmente de pastores convincentes que podem resistir à ditadura do espírito da época e que vivem e pensam a fé com determinação. No entanto, o que mais me impressionou foi que, neste último período da sua vida, ele aprendeu a deixar passar e a viver de uma profunda convicção de que o Senhor não abandona a Sua Igreja, mesmo se a barca meteu tanta água a ponto de estar à beira de virar.

Considere-se a enorme implicação deste breve texto:

  • Bento XVI abandonou o seu posto, embora soubesse que a Barca de Pedro estava “à beira de virar”.
  • Bento elogia Meisner como um dos “os pastores convincentes que podem resistir à ditadura do espírito da época”, sabendo muito bem que Meisner e os outros três cardeais dos dubia confrontaram nada menos que o Pastor Universal com erros morais de consequências catastróficas, que representam precisamente uma entrega à ditadura do espírito da época, erros sobre os quais Bento nada dirá.
  • Bento diz que “o Senhor não abandona a Sua Igreja” precisamente no momento em que o comportamento do atual ocupante da cadeira de Pedro faz temer que a Igreja tenha, como é impossível, sido abandonada pelo Senhor. Ele escreve como se não tivéssemos um Papa cuja governação é a fonte desse medo.
  • Bento elogia Meisner porque ele “aprendeu a deixar passar” e presume que Cristo protegerá a Igreja, mesmo que os cardeais e os outros membros da hierarquia não façam nada para cumprir o seu dever de defensores da Fé contra um Papa claramente inclinado a impor desastrosas “reformas” que nenhum Papa anterior teria ousado sequer considerar. Meisner, com quem Bento XVI havia falado pouco antes da sua morte, abandonou qualquer intenção de procurar a mais do que razoável “correção formal”?

Na mesma linha, no mês passado, Bento XVI pronunciou esta enigmática observação durante a visita, à sua residência no Vaticano, do Papa Bergoglio acompanhado dos seus cinco novos cardeais que adicionou ao seu corpo crescente de tropas de choque reformistas: “O Senhor vence no final.” É um estranho comentário para se fazer a um grupo de recém-criados cardeais. Estará Bento XVI a sugerir – é difícil evitar a implicação – que o Senhor irá derrotá-los, assim como ao Papa que os criou?

Nessa ocasião – diga-se de passagem – o “Papa Emérito”, que abdicou da cadeira de Pedro porque supostamente não podia continuar a desempenhar os deveres do papado, falou sem esforço com os novos cardeais e fluentemente nas suas várias línguas nativas. Administrou depois uma bênção em conjunto com o Papa Bergoglio, pronunciando as palavras da bênção enquanto Bergoglio permanecia em silêncio, reforçando assim a impressão de que agora existem dois Papas que se posicionam acima dos cardeais e lhes podem dar uma bênção apostólica.

A situação torna-se cada vez mais estranha. A partir de uma perspetiva puramente histórica, seria fascinante. Mas, da perspetiva de Fátima, é a concretização de uma profecia terrível para o nosso tempo. Os fiéis questionam-se: “E agora?”, enquanto esperam a resposta dramática que o Céu certamente providenciará.

A edição original deste texto foi publicada pelo Fatima Center no dia 17 de julho de 2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do texto acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 7/2017