Dar a César o que é de Deus?

Por Pedro Sinde

Aos bispos portugueses, filialmente,

A Eucaristia é o que há de mais sagrado no mundo. Ao dizê-lo assim, parece que estamos a dizer muito e, no entanto, não dizemos quase nada, porque se poderia passar a ideia errada de que haveria outras coisas comparáveis, ainda que menos sagradas. No entanto, nada há de comparável, porque na Eucaristia está Deus em Si mesmo, em Sua completa, integral, real presença. É esta a certeza dos católicos. Sim, o mundo, naquele sentido que lhe dava São João, dirá que isto é uma loucura, e nós sabemos que é uma loucura, sabemos que é a loucura do amor de Deus pelos homens e sabemos também, por outro lado, que a sabedoria de Deus parece loucura aos olhos dos homens. A Eucaristia não é, por isso, coisa pouca, nem, naturalmente, a forma consequente como a recebemos, pois nos gestos expressamos justamente toda a reverência que devemos ao Criador, a fonte do nosso ser; e se não somos hipócritas, os gestos devem ser a expressão coerente, natural, da nossa crença. O Anjo de Portugal deu-nos em Fátima este exemplo, justamente, ao reverenciar a Sagrada Eucaristia prostrando-se com o rosto no chão.

Por esta razão, a Igreja veio a definir, durante séculos, como a única forma possível de receber tão alto sacramento, aquela que melhor expressa a completa reverência do crente: receber a Comunhão na boca e de joelhos, porque a Eucaristia é uma dádiva que nenhum crente merece e que, apesar disso, o Senhor quer dar, por ela Se quer dar ou, como nos mostram objectivamente os milagres eucarísticos, por ela nos quer dar o Seu Sagrado Coração. Vale a pena, por não ser muito conhecido, referir, apenas a título de exemplo, um milagre eucarístico contemporâneo e aprovado pela Igreja; em  2013, em Legnica, na Polónia, durante a Santa Missa de Natal, numa hóstia que caíra ao chão inadvertidamente, ao fim de alguns dias, depois de colocada, como define a Igreja, em água para se dissolver, apareceram manchas de sangue e depois tecido biológico. Foram entregues amostras a dois laboratórios, com pedido de identificação e a conclusão de ambos autonomamente foi a de que se tratava de músculo cardíaco humano em estado de agonia…

Quando se fala em receber a Eucaristia na boca ou na mão, é bom termos em mente a realidade de que se trata e, por isso, a reverência que devemos ao mais alto dos sacramentos, aquele em que o Rei dos reis se faz o mais humilde, vulnerável e pobre de todos.

À Igreja, e só à Igreja, foi dada a missão de custodiar e distribuir o Santíssimo Sacramento e, sendo este um mandato divino, nenhuma autoridade secular tem poder sobre ele.

Nos anos setenta, a Igreja permitiu, depois de pressão e desobediência por parte de países muito protestantizados, que as Conferências Episcopais que o quisessem pudessem pedir um indulto, isto é, uma excepção, para a Eucaristia poder ser distribuída na mão. Assim, nos países em que este indulto foi concedido é possível distribuir a comunhão na mão, mas isto é uma excepção, pois a norma, quer dizer, a forma preferida da Igreja para a recepção da Eucaristia é na boca. Como pode espantar que os Srs. Bispos se escandalizem por os crentes virem pedir apenas aquilo que é a norma? Como podem colocar-se numa posição tal que não os queiram ouvir? Venham sentir o cheiro das ovelhas que balem o seu lamento, o Senhor disse que o bom pastor deixaria noventa e nove para salvar apenas uma que se perdesse, como não deixaria então as noventa e nove apenas para ouvir o lamento de uma? Ouçam-nos, não se coloquem numa posição que não nos pode senão fazer pensar naquele clericalismo que o Papa Francisco tanto tem procurado combater.

Como esperavam que não houvesse crentes que se escandalizassem ao ler aquele documento, divulgado pela Conferência Episcopal, em que a Direção Geral de Saúde (sic!) define quais os “Passos necessários para comungar”? É nesse documento que a DGS (sic!) definiu que a comunhão é recebida apenas na mão.

A Eucaristia foi dada aos fiéis por Cristo; a tarefa dos sacerdotes é torná-la disponível; não é sua posse. E se o crente quer receber a Eucaristia na forma que sabe que é aquela que a Igreja recomenda e mais ama, então, os sacerdotes, os bispos, devem procurar encontrar formas seguras de fazê-lo e não desistir imediatamente, como se fosse uma coisa menor; e menos ainda deveriam entregar assunto tão grave nas mãos da DGS…

O Cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, máxima autoridade vaticana nesta matéria, confrontado, recentemente, com a decisão da Conferência Episcopal Italiana de proibir a distribuição da comunhão na boca, respondeu de forma inequívoca (La Nuova Bussola Quotidiana, 2.5.2020): “Já existe uma regra na Igreja que tem de ser respeitada: os fiéis são livres de receber a Comunhão na boca ou na mão.” As conferências episcopais não deveriam respeitar as normas da Igreja? Em 2009, por causa da pandemia da gripe suína (gripe A, H1N1), a mesma Congregação foi questionada sobre a possibilidade de continuar a receber a Eucaristia na boca e a resposta foi esta: “Este Dicastério assinala que a sua Instrução Redemptoris Sacramentum (25 de março de 2004) claramente determina que ‘todo o fiel tem sempre direito a escolher se deseja receber a sagrada Comunhão na língua’ (n. 92)”.

Dir-se-ia que é um risco não razoável a distribuição da Eucaristia na boca, no entanto, mesmo esta questão é discutida entre virologistas! Por exemplo, a Conferência Episcopal Americana, fez-se aconselhar por uma equipa de dezasseis especialistas de várias áreas que confirmaram não haver mais risco na distribuição na boca do que na mão e, assim, nos Estados Unidos, a sua Conferência Episcopal decidiu que continua a ser o crente que escolhe como quer receber. O Professor Filippo Maria Boscia, Presidente da Associação de Médicos Católicos de Itália, vai mesmo mais longe, afirmando que a Comunhão na mão é mais perigosa; a Federação Internacional das Associações de Médicos Católicos (FIAMC) endossa rigorosamente as declarações do Prof. Boscia; assim também o Dr. Fabio Sansonna, com mais de cem artigos científicos publicados; e ainda assim os especialistas a que recorreu a Arquidiocese de Portland, Oregon, etc. Os Srs. Bispos poderiam seguir o parecer da Federação Internacional das Associações de Médicos Católicos, porque não o fizeram?

Sentimos, e cremos que é legítimo, que os Srs. Bispos deveriam ter defendido melhor a Sagrada Eucaristia, que deveriam preservar as normas que a Igreja, em sua sabedoria, definiu; sentimos que não querem ouvir todo o seu rebanho; sentimos que não deveriam ter entregado esta decisão, o ponto mais alto do Catolicismo, a uma entidade secular.

Jesus ensinou-nos que devemos dar a César apenas o que é de César e nunca a dar a César o que é de Deus e só de Deus é.

Este texto foi publicado no jornal Sol, no dia 9 de junho de 2020.

Nota da edição: o artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, neste caso o filósofo português Pedro Sinde, a presente edição visa apenas a sua divulgação. O vídeo não faz parte da publicação original.

Basto 06/2020

Manifesto Contra a Televisão ou Como um só Demónio Conquistou Toda a Humanidade

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Imagem capturada da curta metragem “I, Pet Goat II” (2012).
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Por Pedro Sinde

Queria contar um conto, mas um conto para levar a sério. Agora mesmo, nesta hora em que vos escrevo, ela está ali, pendurada num suporte fixo à parede num lugar alto, para obrigar as gentes a olhar para cima. Ali, precisamente naquele lugar, esteve já a imagem de Santo António, agora desaparecida. Estou num café antigo, o leitor já terá adivinhado talvez, pois terá reparado que onde nas lojas antigas estava um pequeno nicho, elevado, com alguns santos, agora está uma televisão.

Estamos no fim dos tempos, pode-se dizer assim com brusquidão. Os homens não acreditam, porque estão em geral tão fechados ao mundo real que nem se lembram que a sua vida tem os dias literalmente contados. E têm medo, muito medo de pensar nisso. E fazem bem; é bom que tenham medo, pois há muitas razões para tal.

Nos tempos do fim, o mundo, os homens, os animais, as plantas e até as pedras, estão cansados; a criação está farta de sofrimento, está farta de mudança, pressente no ar que qualquer coisa está para acontecer. E está. E geme toda a criação, como diz São Paulo (Rom 8, 22), como em dores de parto…

Nestes tempos, como em nenhum antes, andam os demónios à solta. Não, não se trata de uma metáfora. Os demónios andam mesmo à solta, possuíram já uma boa parte dos homens; quando não de um modo constante, pelo menos com intermitências.

É para vos contar a história de um desses demónios que este manifesto é escrito. Estou certo de que só os loucos e as crianças perceberão do que se trata, mas isso também é um sinal dos tempos, como diz São Paulo, “a sabedoria deste mundo é loucura aos olhos de Deus” e diz mais: “está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios e rejeitarei a inteligência dos homens cultos” (1Cor 1, 19).

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São vários os demónios que procuram, por este ou aquele meio, possuir a humanidade. Hoje, isso é relativamente fácil; antes havia vários obstáculos: havia religião, havia tradição, havia a vida natural e sóbria e os homens eram dotados de uma certa percepção sobrenatural. Hoje, estão embrutecidos, isto é, já não são dotados do sentido sobrenatural.

Um dos demónios que mais sucesso teve e, ao que parece, terá é o que inventou aqueles aparelhos que formam imagens e as põem em movimento: as máquinas projectoras de filmes, as televisões, os computadores e depois as diminuiu em tamanho até caberem num bolso e as podermos levar para todo o lado, em todo o tempo; na verdade, o que acontece é que elas nos levam a nós para todo o lado e em todo o tempo, mas como cabem no nosso bolso, temos a ilusão de que nós é que as levamos…

O chefe dos demónios dá-lhes como missão virem à Terra para procurarem dominar o maior número possível de homens.

E eles procuram cumprir esta missão exemplarmente. Há demónios mais empenhados, há demónios menos empenhados; a burocracia e a obrigatoriedade do trabalho são obra de um demónio genial; e fez tanto sucesso este modelo que foi até adoptado entre os próprios demónios, para sua desgraça; mas, enfim, a desgraça ou falta de graça é o que é próprio do mundo infernal.

Em todo o caso, o demónio de que vos quero falar é um daqueles que gosta do que faz e quer desempenhar o seu trabalho o melhor que puder. Realmente gosta do que faz, quase poderia dizer que ama o que faz, se fosse possível a um demónio amar.

Estava ele a cogitar como é que podia deixar o rame-rame do dia-a-dia, as pequenas conquistas e realizar uma coisa maior, uma coisa em grande. Para isso observava o comportamento dos homens e o modo como os seus colegas, os outros demónios, agiam para os conquistar.

Rapidamente se apercebeu que quase todos caíam num erro: um dedicava-se, por exemplo, a procurar convencer os homens de que não havia Deus, outro, mais arguto, procurava convencê-los de que não havia diabo, outro, de que não havia moral. Tudo isto eram coisas exteriores ao homem porque agiam sobre a sua razão com argumentos e, é certo, produziam os seus efeitos, mas não eram duradouros; era preciso chegar ao cerne, era preciso actuar no seu íntimo, era preciso roubar-lhe alguma coisa, adormecer qualquer coisa nele. Pensou, pensou… era difícil. Tudo aquilo estava a ser feito por demónios com pouca imaginação, pensou. E foi aí que lhe ocorreu: a imaginação! É isso mesmo!

Era por ali, porque a imaginação, ao contrário da razão, tem uma ligação directa ao corpo e às emoções e assim poderia tomar conta do homem inteiro, pois dominada a imaginação, tomando conta das emoções e do corpo, a razão, como uma vela que se apaga, simplesmente adormeceria e deixaria de iluminar a alma; a ninguém se convence com argumentos, tudo se passa, na verdade, nas emoções e na imaginação (que é a porta para a emoção). Era preciso, pois, de algum modo, separar a razão da imaginação. Fechou-se na sua cela luxuriosa, queimou um pouco de enxofre e começou a maquinar – digo maquinar porque os demónios não meditam, maquinam.

Magicou (para além de maquinar, os demónios também magicam) em torno da imaginação e percebeu que, realmente, se tratava de uma força tremenda; dominando-a poderia fazer o que quisesse com os homens. Enquanto pudessem imaginar, teriam esperança, mas era necessário levá-los ao desespero, sem que eles sequer percebessem que estavam desesperados ou sem esperança; era preciso adormecer, pois, gradualmente a imaginação aos homens, activando-a a partir de fora, de forma tão gradual que eles nem reparassem.

Notando que imaginar era criar imagens, ocorreu-lhe que uma boa forma, se isso fosse possível, seria dar-lhes, as imagens prontas, em vez de os deixar imaginar ou criar as imagens. Já sabia quais eram os fins, mas ainda não via os meios. Foi dormir com isto em mente. Foi num sonho que obteve a sua resposta. Quando acordou já sabia que era preciso inventar uma máquina de fazer imagens, de tal modo poderosa que prendesse a si hipnoticamente os homens: ocorreu-lhe que um filósofo dissera que nada está no intelecto que não tenha estado primeiro nos sentidos e, embora deformando o sentido da frase, isso deu-lhe a chave que procurava; deformar é, de resto, a obra demoníaca propriamente dita. Os demónios só procuram deformar o que já existe, são parasitas de Deus.

Não disse nada a ninguém, pois sabia que seria alvo de chacota. O seu trabalho agora era apenas lançar esta ideia de uma máquina que construísse imagens em movimento e algum homem a captaria, a agarraria e, quando isso acontecesse, ficaria sob as suas garras.

Pode o leitor estar a interrogar-se por que razão não procurou o próprio demónio criar uma tal máquina. Ora, é que os demónios não criam, estão proibidos de criar, como disse, a sua missão é apenas “descriar”, isto é, destruir, incitar o homem à destruição ou deformar e macaquear a obra grandiosa de Deus. Está então visto que um demónio não pode criar sequer uma máquina que sirva para destruir. Pode, isso sim, instigar os homens, sugerindo-lhes algumas ideias.

Adormeceu novamente e enquanto dormia dormiam também dois irmãos simpáticos e bastante criativos; por ironia, esses irmãos tinham o apelido “Lumière”. Digo por ironia, porque o novo invento iria manipular a luz para fazer imagens. Foi nesse sono que os dois irmãos receberam a ideia de dar movimento a imagens estáticas; é claro que não davam movimento, mas tudo se passava por um acto de ilusionismo: manipular as imagens, na verdade estáticas, com a velocidade, trocando uma pela outra numa rápida sucessão que, ludibriando aquele que vê, enganando-o, mentindo-lhe, fazia-o “ver com os olhos” as imagens, realmente paradas, como se estivessem em movimento numa sequência. Os irmãos eram bem-intencionados, nem podiam imaginar que seriam alvo eles mesmos de um ludíbrio e que estariam com este aparelho a servir o Inimigo…

Certo é que o demónio viu o que iria acontecer, viu que tinha encontrado a solução: o invento que iria “desanimar” ou tirar a alma e o ânimo aos humanos estava mesmo ali; um aparelho de destruição massiva. Foi um momento sublime, tanto quanto se pode falar assim de um demónio. A humanidade estava perdida, desta vez era possível com um só aparelho manipular a humanidade inteira; “já não era necessária uma legião, como nos tempos de Cristo, pensou maravilhado – basta um só, basto… eu!” E o luciferino orgulho perpassava-lhe o olhar sinistro, enquanto o seu chefe se orgulhava dos sentimentos do seu subordinado, seguindo o modelo do patrão…

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E o resto é a história que todos conhecemos; tudo começou gradualmente, tal como o demónio planeara: primeiro o cinema, depois a televisão (um cinema caseiro e em miniatura) e, finalmente, um telefone de trazer no bolso e que já ninguém larga. Agora já chegou a uns óculos que dão toda a informação do lugar onde se está e depois será mesmo um implante. A isto já chamam “realidade aumentada”, com toda a ironia ou antes todo o cinismo possível, porque, naturalmente, a realidade é, ao contrário, diminuída de si mesma, para ser canalizada apenas para as informações que os fabricantes destes óculos escolhem dar. Etc. Seria cansativo explicar toda esta fastidiosa parafernália, infernália, que todos hoje têm em casa e que é como que o melhor lugar da casa, ali onde antes tinham um pequeno altar com um santo ou um anjo a quem dirigiam orações de paz e luz, abrindo a sua alma ao sobrenatural. Hoje, abriram-na ao infranatural e prestam culto ao monitor rectangular e negro, que torna a sua alma negra e rectangular; todas as almas iguais, pensando o mesmo, vendo o mesmo, comentando o mesmo. E se alguém pensa de outra forma, tornam-se raivosos e odientos ou simplesmente gozões, ridicularizando aquele que pense de outra forma.

Foi assim que, de mentira em mentira, este demónio conquistou a humanidade. E ele já viu o final desta sua obra destruidora num sonho; será assim: um adolescente, que representava no sonho toda a humanidade, jogando um jogo no seu telemóvel, alheio a tudo o que o rodeia e a si mesmo, naturalmente, vai ouvir de repente uma voz que diz: game over. Espantar-se-á primeiro, pois sabe que não perdeu o jogo que está a jogar; reparará, então, que essa voz não vem do seu aparelho, mas do seu interior. E que o jogo real terminou; e aquela pobre alma, como milhões de outras, hipnotizadas, ainda nem tinham começado a jogar, quer dizer, a viver.

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Sim, como primeira medida, destruam o vosso aparelho de televisão.

 

O texto acima foi publicado na plataforma Academia.edu em maio de 2020.

Nota da edição: o artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, neste caso o filósofo português Pedro Sinde, a presente edição visa apenas a sua divulgação. A imagem do topo não faz parte da publicação original.

Basto 05/2020

Resposta ao Pe. Anselmo Borges

Anselmo Borges

Por Pedro Sinde

As afirmações do Pe. Anselmo Borges são contrárias à doutrina católica. Decorrem de uma conceção como que desencarnada de catolicismo.

Para os cristãos, o mundo sensível é uma manifestação da bondade de Deus; no Génesis diz-se, depois de cada gesto criador de Deus: Deus viu que era bom. Justamente porque a criação é a expressão gloriosa de um Pai.

O catolicismo é a coroa desta conceção, a assunção plena do mundo sensível, da corporeidade. Assim, Deus encarnou, assumiu um corpo sensível – deixando-nos entrever que a criação é não apenas boa, mas que tem tal dignidade que Deus pode encarnar e viver sensivelmente. Por isso, talvez a maior glória do catolicismo seja a magnífica coerência entre interior e exterior, entre espírito, alma e corpo.

Não assim num artigo do Pe. Anselmo Borges (Missas ‘virtuais’: não juntos, mas unidos, 4.4.2020).

De forma explícita, devemos dizer que as afirmações do Pe. Anselmo Borges são contrárias à doutrina católica. Decorrem de uma conceção como que desencarnada de catolicismo, isto é, de uma conceção em que a religião aparece como uma ‘espiritualidade’ sem esqueleto, em que o Espírito não penetra irradiantemente a carne, numa glorificação heroica, transfigurante do mundo sensível; em que os Evangelhos ficam sem o sentido literal, para expressarem um sentido vagamente simbólico ou alegórico, como uma alma sem corpo. Retira a literalidade dos Evangelhos, retira a substancialidade da Eucaristia.

Não podemos neste espaço rebater ponto por ponto a argumentação do Pe. Anselmo. Por isso, vamos aonde trata da Eucaristia, coração do catolicismo, pois aí vem a desaguar o percurso do seu texto, como lança de Longino.

O Pe. Anselmo rejeita que a hóstia consagrada seja realmente Corpo de Deus, afirmando que Jesus, na Última Ceia, quis apenas dizer «isto sou eu, a minha pessoa, a minha vida entregue por vós», explicando que é esse o significado em hebraico da expressão «este é o meu corpo, este é o meu sangue». No entanto, se assim fosse, como poderiam os discípulos ter ficado chocados ao ponto de abandonarem o Mestre ao ouvi-Lo afirmar expressamente (Jo, VI, 22.69): «Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o Seu sangue, não tereis a vida em vós», «a Minha carne é, em verdade, uma comida e o Meu sangue é, em verdade, uma bebida». Explica o Evangelista que, depois disto, os discípulos comentavam: «Como pode Ele dar-nos a comer da Sua carne?», «Duras são estas palavras! Quem pode escutá-las?» Este episódio não se entende, a não ser que as palavras de Cristo sejam o que são de facto, e não uma vaga alegoria que os judeus teriam achado natural… Até porque só aquelas palavras cumprem a promessa de Jesus de que ficaria connosco até ao fim dos tempos plenamente, pois está connosco em cada sacrário, em cada Eucaristia, em toda a Sua Realidade inseparável de Corpo, Sangue, Alma e Divindade, porque não foi sem corpo que Jesus ascendeu aos Céus, mas em Seu corpo glorioso, em Sua carne glorificada, transfigurada. Assim, no pão e no vinho consagrados, Jesus permanece exatamente o mesmo que nasceu num pobre casebre de Belém, viveu humildemente em Nazaré, anunciou o Reino de Deus, foi condenado, morreu e ressuscitou. Nunca nos abandonou em Sua plena realidade, embora escondido na aparência das espécies.

Dou a palavra ao Papa S. Paulo VI e ao Papa Francisco para refutarem eles mesmos aquela falsa conceção de Eucaristia:

«Esta presença chama-se ‘real’ […] por antonomásia, porque é substancial, quer dizer, por ela, está presente, de facto, Cristo completo, Deus e homem. Erro seria, portanto, explicar esta maneira de presença […], reduzindo a presença a puro simbolismo» (Mysterium Fidei, 41).

Por sua vez, o Papa Francisco, no início do seu pontificado, explicou a um grupo de crianças que ia receber a primeira comunhão: «Com a comunhão, [Jesus] dá-nos a força», «Ele vem a nós. Mas um pedaço de pão dá-nos tanta força?». «Nãaao», responderam as crianças, negando que se trate de um simples pedaço de pão: «É o Corpo de Cristo». O Papa Francisco explicou depois que o que está sobre o altar parece «pão, mas não é propriamente pão, é o Corpo de Jesus» (Paróquia Santa Isabel e São Zacarias, 26 de maio de 2013). Isto é fácil de ensinar aos ‘pequeninos’, mas muito difícil de ensinar aos ‘sábios’, a menos que, como ensina o Senhor, nos façamos crianças. E, então, como será depois da pandemia? Um católico que ame o Senhor realmente, como uma criança, correrá ao Sacrário, à Eucaristia, e não ficará em casa a assistir virtualmente ou a concelebrar de forma fantasiosa, pois:

Como o Veado suspira pelas
correntes das águas,
assim a minha alma suspira
por Vós, ó meu Deus.
A minha alma tem sede do Senhor, do Deus vivo.
Quando poderei eu chegar, para contemplar a Face de Deus?

Salmos, 42(41), 2-3

Este texto foi publicado no jornal Sol, no dia 12 de abril de 2020.

Nota da edição: o artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, neste caso o filósofo português Pedro Sinde, a presente edição visa apenas a sua divulgação. A imagem não faz parte da publicação original.

Basto 04/2020

Novena ao Santo Anjo da Guarda de Portugal

No ano de 2016, ano do centenário das aparições do Anjo de Portugal em Fátima, alguém encontrou, num alfarrabista do Porto, um pequeno livrinho da Novena ao Santo Anjo da Guarda de Portugal, um original de 1755, anterior ao terramoto. O documento foi reeditado em 2017 por Pedro Sinde, que nos convida a rezar esta novena, a partir de hoje e até à véspera do dia do Anjo Custódio de Portugal, em agradecimento pela sua intercessão na recente questão da eutanásia.

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(versão pdf)

Talvez não sejamos muitos a rezá-la, mas certamente, com este pequeno gesto de reconhecimento, reforçaremos a proteção do Anjo de Portugal sobre a nossa Pátria face aos perigos que a ameaçam.

Basto 6/2018

A fissura na muralha ou o ‘princípio da autodeterminação’

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Caravaggio, Narciso, 1598-1599

 

Por Pedro Sinde

«…virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina»

«Mas tu persevera no que aprendeste e acreditaste»

S. Paulo (2 Tim 4, 34 e 2 Tim 3, 14)

Filautia

São Paulo, nas importantes cartas a Timóteo (particularmente, 2 Tim 3, 2) fala de nós, “os homens dos últimos dias”: “Sabe, porém, que nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis, porque os homens serão egoístas…”. “Egoístas” é a tradução de “philautoi”, aquele que não se ama senão a si mesmo; e, por isso, não ama o outro como a si mesmo, nem a Deus sobre todas as coisas, mas a si mesmo elegeu como centro de todas as coisas, como princípio (determinador) de si mesmo (auto). Como diz Ireneu Hausherr, num magnífico livro dedicado inteiramente ao estudo deste tema – um verdadeiro manual para entendermos os dias que vivemos (Philautie: de la tendresse pour soi à la charité selon Saint Maxime Le Confesseur): philautia é a raiz de todos os pecados, de todos os vícios e, de facto, vemos como São Paulo começa por aí justamente a sua longa enumeração dos vícios dos homens dos “últimos dias”:

“serão philautoi, avarentos, altivos, soberbos, blasfemos, desobedientes a seus pais, ingratos, ímpios, sem coração, implacáveis, caluniadores, dissolutos, desumanos, inimigos do bem, traidores, insolentes, orgulhosos e mais amigos dos prazeres do que de Deus, tendo uma aparência de piedade”.

Tendo uma aparência de piedade!“Foge destes”, conclui São Paulo! Sim, como as ovelhas fogem da voz dos estranhos (Jo 10, 4-5) … Estes são ainda aqueles de quem São Paulo diz que têm uma “fé inconsistente” e que “resistem à verdade”.

E São Paulo aconselha Timóteo e, portanto, a nós, Timóteos de hoje, assim: “Mas tu persevera no que aprendeste e acreditaste” (2 Tim 3, 14); “virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina, mas acumularão mestres à sua volta, ao sabor das suas paixões, levados pelo prurido de ouvir. Afastarão os ouvidos da verdade e os aplicarão às fábulas.” (2 Tim 4, 3-4)

É curioso como, lendo São Paulo, somos levados a dizer dos inovadores que são eles, na verdade, os “duros de coração”, os que “resistem ao Espírito Santo”, pois são eles que se “fecharam à Verdade” para elegerem uma opinião “ao sabor das suas paixões”.

 

Autodeterminação

«… por uma qualquer fissura o fumo de Satanás entrou no templo de Deus»

Papa Paulo VI, 1972

A tremenda expressão de Paulo VI, citada em epígrafe, vai-se tornando realidade na sociedade em vários níveis e de forma impressionantemente rápida. Uma das mais graves expressões daquilo que está significado naquela “fissura” é aquilo a que se chama o “princípio da autodeterminação”. A aplicação deste “princípio” a várias áreas tem sido catastrófica: começou pela filosofia, pela política, pela sociologia, chegou à psicologia e desembarcou, cheia de fôlego, na teologia. A autodeterminação é, na verdade, sinónimo da expressão da rebeldia do anjo caído, o seu “non serviam”, não servirei! É o diametral oposto daquilo que o Senhor nos ensinou, desde logo de modo perfeito, no exemplo da Imaculada: a de adequarmos a nossa vontade à Sua – a de fazermos tudo quanto Ele nos disser. Em rigor, o único auto-determinado é Deus, por isso, trata-se de uma tremenda usurpação do poder divino; usurpação que Deus permite ou inflige para daqui tirar um bem maior.

A ideia de que uma sociedade, um grupo de indivíduos ou um só indivíduo, têm direito à autodeterminação é completamente absurda. No entanto, já fomos tão longe, a este nível, que se considera normal um homem “identificar-se” como mulher e vice-versa. Paulatinamente, começou a aparecer a expressão “género” e, num segundo momento, bem calculado, começou-se a separar “género” de “sexo biológico”, reservando o primeiro para a psicologia. Esta é apenas uma aplicação daquele “princípio”.

Quando olhamos para a teologia, podemos observar como esse mesmo “princípio da autodeterminação” veio também a resultar numa separação entre a esfera objectiva e a esfera subjectiva das nossas acções. Assim, é possível, diz-se, que uma acção objectivamente má, um pecado, subjectivamente não seja tal. É esta a pretensa justificação para a aceitação de que um adúltero, objectivamente, possa não se ver como tal, subjectivamente. Diríamos que o facto de um adúltero ou qualquer outro pecador é passível de não se reconhecer como tal, por incapacidade de discernir a sua situação, vendo-se objectivamente. No entanto, se esta sua “impressão” contar com a sanção da Igreja, então adquire certa aparência de objectividade, fechando-se o ciclo! Exactamente como na questão de “género” e “sexo”, aqui opera-se, num primeiro momento, uma separação entre as duas áreas e, depois, privilegia-se, como ali, a esfera subjectiva, dando uma aparência de misericórdia, por se “respeitar” a vontade do indivíduo; quando o que o Senhor nos pede é, pelo contrário, que entreguemos a nossa vontade nas Suas mãos, adequando a nossa à Sua Vontade, pois Ele é a fonte única da misericórdia.

Ou seja, por este processo, abre-se uma fissura entre a realidade objectiva e a subjectividade, para depois se subverter a hierarquia natural (e sobrenatural) da realidade. A perversidade deste “princípio” está ainda na sua universalização virtual. Esta é uma marca da inteligência sinistra e terrível do anjo caído. Este “princípio” há-de, pois, ser levado a extremos inimagináveis para nós ainda. A sua consequência é fácil de ver: uma implosão.

 

Parece que estamos em pleno naquela hora de que fala o Catecismo, a hora em que se tentará criar, na religião, uma “solução aparente” para todos os nossos problemas, mas “à custa da apostasia da verdade” (§ 675).

No entanto, a Verdade é a Verdade e não mudará apenas por os homens, sejam mesmo teólogos, sacerdotes, bispos ou mesmo papas, a pretenderem mudar. Cristo não disse apenas que vinha para nos dizer a Verdade; não, Ele disse também que Ele é a Verdade, identificando-se ontologicamente com ela.

No fim, uma pedra seguirá sendo uma pedra, por muito discernimento que tenham doutores em teologia, filosofia, sociologia ou política… uma pedra, por muito que se achasse ou identificasse com um vegetal, sempre seguiria sendo, inelutavelmente, uma pedra, por muito que se cobrisse de musgo.

 

Há, no entanto, uma área em que os defensores do “princípio da autodeterminação” nunca se atrevem nem atreverão a atacar e a exigir que também aí se aplique esse “princípio”: a biologia. A razão é simples, é que a biologia ilustra de um modo terrível o efeito deste “princípio” quando aplicado a um organismo: chamamos-lhe tumor.

Este texto foi publicado na plataforma Academia.edu em abril de 2018.

Nota da edição: o artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, neste caso o filósofo português Pedro Sinde, a presente edição visa apenas a sua divulgação.

Basto 4/2018

Sim, queremos a Santa Missa do Vaticano II!

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Papa Francisco celebra Missa ad orientem. Festa do Baptismo do Senhor em 2016.

 

Por Pedro Sinde

O Santo Padre disse, recentemente, que a “reforma litúrgica é irreversível”, referindo-se, naturalmente, à reforma litúrgica do Vaticano II, presente na Constituição Conciliar da Sagrada Liturgia “Sacrosanctum Concilium.

Ocorreu-nos, de imediato, a pergunta: “mas qual reforma litúrgica?” É que não conhecemos nenhuma igreja onde se celebre a Santa Missa como a desejaram os padres conciliares. Na  verdade, há um local onde se celebra a Santa Missa exactamente como saiu do Vaticano II. Por agora, no entanto, creio que seria importante olharmos para a Sacrosanctum Concilium e deixar os próprios padres conciliares dizerem-nos o que é a reforma litúrgica.

Como se fizéssemos uma entrevista a um dos padres conciliares:

P (pergunta): Antes do Concílio Vaticano II usava-se o latim como língua litúrgica; as missas eram em latim; depois o Concílio recomendou que passássemos a usar o vernáculo…

R (Resposta): Peço desculpa, mas permita-me que o interrompa, antes de formular a sua pergunta, porque o seu intróito já não vai na direcção correcta… Nós, os padres conciliares não recomendámos que se passasse a utilizar o vernáculo!

P: Não?… Como assim?… A missa hoje é sempre em vernáculo… e, antes do Concílio, não era!

R: Sim, isso é verdade, mas se ler o documento onde deixámos escrito quais as orientações para a reforma litúrgica, a Constituição Conciliar da Sagrada Liturgia “Sacrosanctum Concilium”, verá que não se diz isso em lado algum! Permita-me que cite, no que diz respeito à língua: “Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular.” (36. § 1). Esta é a norma: conservar o latim; depois definem-se as excepções possíveis, mas o princípio orientador é: a missa deve ser em latim; sugere-se que o vernáculo ocupe lugar nas leituras, por exemplo, como se compreenderá facilmente

P: Isso deixa-me perplexo! Mas vamos, então, para outro tema… A música! A música faz parte inerente da liturgia e libertou-se de formas arcaicas desde o Vaticano II, não? Já praticamente não se canta em latim, por exemplo?

R: Bom, na verdade, não era bem isso que nós tínhamos em mente, no nosso espírito conciliar…

P: Não?

R: Não. Desculpe, mas preciso de citar, novamente, porque vejo que pode parecer difícil de entender; em relação à língua, no capítulo sobre a música sacra (IV) diz-se que devemos seguir o que enuncia o artigo 36, que citei antes, e, por isso, aponta também para uma preferência pelo latim… abrindo, naturalmente, também aqui a possibilidade da utilização do vernáculo, mas o princípio norteador é a conservação do latim. O artigo 114 afirma: “Guarde-se e desenvolva-se com diligência o património da música sacra. Promovam-se com empenho, sobretudo nas igrejas catedrais, as «Scholae cantorum».” Assim se estimulam até as escolas de música sacra que poderiam preservar o maravilhoso património musical da Igreja. Muitas pessoas, hoje, têm de comprar em disco aquilo que antes ouviam habitualmente na missa dominical ou, pelo menos, nas grandes celebrações litúrgicas.

P: …mas está-me a dizer que também há um tipo de música recomendada, é isso?

R: Sim… o canto gregoriano! Vou-lhe ler (ponto 117): “A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na acção litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar.” No entanto, dizse também, “não se excluem todos os outros géneros de música sacra, mormente a polifonia, na celebração dos Ofícios divinos, desde que estejam em harmonia com o espírito da acção litúrgica”. Mas o espírito que preside a este documento é bastante “conciliar”, de facto, e por isso, também estimula o “canto popular religioso” (ponto 118), por exemplo.

P: Já agora, também definiram os instrumentos musicais?

R: Sim… Repare (ponto 120): “Tenha-se em grande apreço na Igreja latina o órgão de tubos, instrumento musical tradicional e cujo som é capaz de dar às cerimónias do culto um esplendor extraordinário e elevar poderosamente o espírito para Deus.” Novamente, o Concílio permitiu outras possibilidades, mas que teriam de ter o “consentimento da autoridade territorial competente” e, mesmo assim, apenas se “esses instrumentos estejam adaptados ou sejam adaptáveis ao uso sacro, não desdigam da dignidade do templo e favoreçam realmente a edificação dos fiéis.” Digamos que uma guitarra eléctrica ou uma bateria, não são aquilo que estaria na mente dos Padres conciliares… Menos ainda a música rock a que esses instrumentos estão associados.

P: Só faltava dizer-me que o Concílio também queria que o sacerdote estivesse de costas para o povo!…

R: …Bom, na verdade nunca a Igreja desejaria que o sacerdote celebrasse “de costas para o povo”!

P: Ah! Ao menos isso!

R: Eu explico-me melhor, pois já vi que não percebeu o que eu quis dizer! A missa de todos os tempos sempre foi celebrada voltada para o oriente, na direcção do tabernáculo, tirando aqueles momentos em que o sacerdote se dirige ao povo explicitamente. A Santa Missa não é um espectáculo para o povo! É a celebração de um sacrifício, por isso deve ocorrer num altar (e não numa mesa) e voltado para Deus (que para nós está no tabernáculo) e é a quem estamos a oferecer o sacrifício; imagine que se dirigia a alguém para lhe oferecer uma prenda, não o faria de costas, não é verdade? Isso seria uma grande falta de educação Assim, o sacerdote não estava “de costas para o povo”! Estava voltado na mesma direcção que o povo, humildemente unido a ele, e todos voltados na mesma direcção.

P: Mas, agora a sério, não saiu um missal deste Concílio? E este missal não diz que a “missa nova” deve ser celebrada na direcção do povo?

R: Sim, saiu um missal novo, o chamado “Missal de Paulo VI”, mas nas rubricas deste missal está pressuposto que o sacerdote está sempre voltado para o oriente

P: Ah, ah! Se não diz explicitamente, se está apenas “pressuposto”, isso quer dizer que pode estar implícita a celebração voltada para o povo! R: Na verdade, não, porque sem se dizer que o sacerdote deve estar voltado ad orientem, diz-se, no entanto, nas rubricas, os momentos, os únicos momentos!, em que o sacerdote se deve voltar para o povo!

P: Resumindo, aquilo que o Sr. Padre me diz é que segundo a intenção do Concílio Vaticano II para a liturgia:
  1. a língua devia ser predominantemente o latim, embora se possa usar o  vernáculo (por exemplo nas leituras e homilias);
  2. a música devia ser predominantemente canto gregoriano ou polifónico, embora também haja lugar para o canto popular religioso, por exemplo;
  3. o sacerdote devia celebrar voltado para o oriente ou o tabernáculo, embora se volte para o povo sempre que se lhe dirige (por exemplo, nas homilias e leituras);Mas isto não é muito parecido com o que era antes do Concílio?

R: Sim, porque como se diz neste mesmo documento a ideia central não era proceder a inovações, de todo! No ponto 23, define-se qual o espírito que deveria presidir a esta reforma litúrgica: não se introduzam inovações, a não ser que uma utilidade autêntica e certa da Igreja o exija, e com a preocupação de que as novas formas como que surjam a partir das já existentes.” Repare, o princípio norteador de todo o documento e, por isso, de toda a reforma, é: “não se introduzam inovações”! E, no caso de serem introduzidas, apenas se isso ocorrer, como ocorreu sempre na história das reformas litúrgicas da Igreja, como um crescimento orgânico, naturalmente decorrente das formas anteriores, por isso se diz que “as novas formas como que surjam a partir das já existentes.” Isto não podia ser de outra forma, uma vez que (ponto 8) “Pela Liturgia da terra participamos, saboreando-a já, na Liturgia celeste celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual, como peregrinos nos dirigimos e onde Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo”. Já viu o que isto significa? A importância que a Igreja dá à liturgia?

P: Tudo isto, faz-me pensar no Papa Bento XVI e, mais recentemente, no Cardeal Sarah…R: Sim, na verdade, aquilo que ambos desejam é fazer o que não tinha sido feito: implementar as reformas litúrgicas do Concílio Vaticano II! É que missa como a conhecemos hoje parece ter sido feita a partir das excepções e sem respeitar o espírito do Concílio tão propalado para justificar as alterações!

P: Dito assim, soa estranho… Mas, então, aquilo que disse agora o Papa Francisco: “a reforma litúrgica é irreversível” é, certamente, nesse sentido de realizar a reforma litúrgica de acordo com o que me diz do Sacrosanctum Concilium, não?

R: Isso seria assunto para outra conversa, mas podemos sempre perguntar ao Cardeal Sarah, que é, afinal, o Prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos…

Este texto foi publicado na plataforma Academia.edu em novembro de 2017.

Nota da edição: o artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, neste caso o filósofo português Pedro Sinde, a presente edição visa apenas a sua divulgação.

Basto 12/2017

“Fulgores de Fátima”, agora em livro

Pedro Sinde acabou de publicar o livro “Fulgores de Fátima, pensando a mensagem”. “Fulgores de Fátima” é o nome da rubrica assinada pelo filósofo no jornal Diário do Minho da qual resultou este livro. Vários dos seus excelentes artigos têm sido aqui regularmente divulgados, portanto recomendamos vivamente esta obra.

fulgores

Mais informações sobre a obra na página da “Nova Águia”.

O livro pode ser encomendado no seguinte endereço eletrónico: info@movimentolusofono.org

Basto 12/2017

A Imaculada Conceição, os erros e a conversão da Rússia

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Nossa Senhora de Ollignies – Coração Doloroso e Imaculado de Maria

 

Por Pedro Sinde

Se atenderem aos meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja.

(Aparição de 13 de Julho de 1917)

Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

(Aparição de 13 de Julho de 1917)

Rússia e os erros

Os erros da Rússia, referidos pela Virgem em Fátima, na frase citada em epígrafe, são, tradicionalmente, identificados com o Comunismo. No entanto, mais importante do que a referência ao comunismo, em particular, seria referirmo-nos ao materialismo ateu, à recusa do sobrenatural e à anti-religiosidade (concretamente, o anticatolicismo), mesmo que oculta sob a forma de um diferente regime político (que pode ser capitalista ou outro); esta distinção é essencial para que se perceba que os “erros da Rússia” não terminaram com a queda do comunismo, mas que se continuam a disseminar, hoje mais ainda do que antes, porque camufladamente. No entanto, se pensarmos no contexto da mensagem de Fátima, isto não nos deve bastar. Temos de enfrentar esta revelação da Virgem e reconhecer que ela não se refere apenas aos erros da Rússia, mas também à conversão da Rússia.

Rússia e a conversão

Atentemos na sequência dos eventos referidos pela Virgem: (1) se respondermos aos seus pedidos, (2) seguir-se-á a conversão da Rússia (3) e teremos um período de paz no mundo. Devemos ter reparado que o termo médio, colocado entre a nossa resposta aos pedidos da  Virgem e a prevenção de que os erros da Rússia se espalhem, é a conversão da Rússia. Se esta condição não fosse considerada necessária pela economia divina, não seria mencionada. Devemos entender que a consagração da Rússia implicará a sua conversão, mas que é a conversão que será a causa imediata da libertação do jugo dos erros da Rússia. A conversão da Rússia é, pois, uma condição sine qua non. Dito de outro modo, a consagração da Rússia ao Coração Imaculado de Maria é a causa da sua conversão e sem esta última não haveria libertação do ateísmo, do materialismo, dos erros da Rússia que se espalharam pelo mundo.  Aqui, temos de pensar que, como os erros da Rússia se espalharam pelo mundo, esta conversão diz respeito a todo o mundo e muito particularmente à Igreja Católica tão devastadoramente infiltrada1. Nós também somos “Rússia”.

Lembremos que os ortodoxos estão em estado de cisma, separados de Roma, rejeitaram o papado e com isso, o dogma posterior da Imaculada Conceição; se é verdade que aos olhos de Roma mantêm a sucessão apostólica e a Missa é válida, isso não diminui a gravidade da questão da rejeição do papado. A sua posição de separação com Roma, quando perderam a cabeça, fez ainda com que se dividissem numa multiplicidade de igrejas nacionais, tantas vezes em conflito entre si.2

Portugal e a Imaculada Conceição

A importância do dogma da Imaculada Conceição para os portugueses, creio ser a chave para percebermos uma das razões mais fundas para que tenha sido Portugal o País escolhido para espalhar esta mensagem ao mundo. E não deixa de ser significativo que Portugal e Rússia se encontrem em extremos opostos geograficamente. Pensemos que Portugal é consagrado não apenas a Nossa Senhora, como outros países, mas, desde 1646, à Imaculada, sua Rainha; os nossos reis, desde esta consagração, deixaram de usar coroa; os três estados, nas Cortes, fizeram um juramento em defesa da prerrogativa da Imaculada Conceição, mesmo a custo da sua própria vida se fosse caso disso; as portas de todas as cidades, vilas e aldeias deveriam ter, segundo ordem do rei em 1654 (justamente dois séculos antes do decreto dogma), uma placa com um voto de fidelidade à Imaculada. Isto é bastante impressionante!… E o contexto para se entender Fátima, deve passar necessariamente por aqui: o nosso amor à Imaculada. Espanha deveria assumir Fátima como uma missão sua, a este propósito, tanto pelo seu fundo amor à Imaculada (recordemos, como sinal disso, a fundação da Ordem da Imaculada Conceição em Espanha pela portuguesa Santa Beatriz da Silva), como pelo facto de parte da mensagem de Fátima ter acontecido em Espanha e ainda porque a Ir. Lúcia recebeu várias mensagens que visavam este País. Teremos ainda de pensar que, apesar da superficial rivalidade, na verdade, Portugal e Espanha partilharam espantosamente a missão incrível da evangelização de todo o mundo. Ora, esta amor à Imaculada, de todo um povo, não fará contraponto à rejeição dos cristãos ortodoxo sobretudo desde a proclamação do dogma? Muitos dos teólogos orientais defendiam intensamente a Imaculada3; desde 1854, por contrastante tristeza, começaram a procurar, para mais se separarem de Roma, atacar este dogma. É uma triste, muito triste situação, até porque o povo tem uma magnífica espiritualidade, uma fé ígnea e nobre, dotado de uma tremenda devoção pela Virgem, mas vê-se, assim, impedido de crescer nessa fé, isto é, de chegar à plenitude da revelação.

Reparando o erro da Rússia

A Virgem pediu em Fátima a devoção dos Cinco Primeiros Sábados para reparar o coração ofendido da Virgem; quando a Irmã Lúcia perguntou a razão de serem em número de cinco os sábados, foi-lhe explicado que se trata de desagravar o Coração Imaculado de Maria em cinco aspectos: as ofensas à Maternidade divina, à sua Virgindade perpétua, à sua Imaculada Conceição, a educação das crianças contra a Virgem e as ofensas às suas santas imagens – o das ofensas à sua Maternidade divina e à sua Virgindade perpétua não abrangem os ortodoxos (mas sim directamente os protestantes) – , já a referência às ofensas dirigidas à sua Imaculada Conceição, claramente os inclui… O pobre povo russo, o nobre povo russo, saberá que a Virgem, que tanto amam, pede aos católicos que desagravem estas ofensas que eles mesmos (e tantos católicos, naturalmente…) provocam? Este é o erro dos erros, por assim dizer e, por essa razão, como vimos, é que a consagração da Rússia ao Coração Imaculado de Maria trará, antes de tudo, o seu regresso à plenitude da revelação – quem sabe se a partir, justamente, do dogma da Imaculada Conceição, dado o profundo amor que esse povo tem à Theotokos? Só este regresso, como sua condição, é que terá como consequência natural a recusa dos erros materialistas.

Irmã Lúcia e a conversão da Rússia

O facto de este aspecto da mensagem de Fátima estar esquecido, por assim dizer, não nos deve condicionar. De resto, a própria Ir. Lúcia sempre pensou que a conversão da Rússia não é para entender como sendo limitada ao regresso do povo Russo à religião Cristã Ortodoxa, rejeitando o ateísmo marxista dos Sovietes, mas antes como uma total e perfeita conversão à única, verdadeira Igreja Romana Católica.” (Joaquín María Alonso, The Secret of Fatima: fact and legend. Cambridge: The Ravengate Press, 1982, p. 84). Para podermos medir todo o alcance destas palavras, devemos lembrar-nos que o Pe. Joaquín Alonso foi o arquivista oficial de Fátima durante dezasseis, tendo sido convidado pelo Bispo de Leiria, Dom  Venâncio, em 1966, para preparar a edição crítica e definitiva sobre Fátima e a sua Mensagem; coisa que zelosamente fez, resultando em 24 (!) volumes intitulados: Fátima, textos e estudos críticos (quando se preparava para começar a publicar os volumes resultantes da sua investigação, já no prelo, o novo Bispo, Dom Alberto Cosme do Amaral, deu ordem para parar). Se, ainda assim, tivéssemos dúvidas sobre o tema da conversão da Rússia, bastaria que recordássemos as muito impressionantes palavras da Irmã Lúcia em Um Caminho sob o olhar de Maria (p. 267); pouco antes de registar a terceira parte do segredo, escreve (3.I.1944):

“E senti o espírito inundado por um mistério de luz que é Deus e N’Ele vi e ouvi (…) «No tempo, uma só Fé, um só Baptismo, uma só Igreja, Santa, Católica, Apostólica.»”

A conversão da Rússia será, Deo volente!, um acontecimento de uma força inimaginável e nós, católicos, muito precisamos do retorno dos cristãos do Oriente à catolicidade, para se reunirem ao remanescente que conservará o dogma da fé: na nova Arca de Noé, o Coração Imaculado de Maria!

Notas:

1. Bella Dodd, a conhecida agente comunista que, nos anos trinta e quarenta, ajudou a infiltrar cerca de mil jovens nos seminários americanos e que acabou por se converter pelo Bispo Fulton Sheen, afirma que o Catolicismo é considerado pelos comunistas como o seu único verdadeiro inimigo. Um outro testemunho da mesma época, confirmando a infiltração friamente calculada, é o de Douglas Hyde.

2. Embora em situação completamente diferente, a situação dos protestantes tem algo de semelhante, pois depois de se separarem de Roma tiveram o mesmo resultado, mas exponenciado (são vários milhares de denominações diferentes resultantes da cisão protestante…). Cada cabeça sua sentença.

3. Alguns exemplos: Proclo, secretário de S. João Cisóstomo, diz que a Virgem é formada de “barro limpo” (ou seja, barro, como todos os seres humanos, mas não sujo do pecado original, ao contrário de todos os seres humanos); diz S. João Damasceno que “em Maria não entrou a serpente”. A Igreja Oriental celebrava a festa da Imaculada Conceição já no século VII; na carta a Sérgio, aprovada pelo VI Concílio Ecuménico, diz Sofrónio sobre Maria: “Santa, imaculada de alma e corpo, livre de todo o contágio”.

Este texto foi publicado no jornal Diário do Minho no dia 20 de setembro de 2017.

Nota da edição: o artigo acima faz parte da série “Fulgores de Fátima”, uma rubrica assinada pelo filósofo português Pedro Sinde no jornal Diário do Minho.

Basto 10/2017

Fátima e Ourique: duas profecias, dois milagres, um povo

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Painel de Jorge Colaço, 1933 (vista parcial) – imagem de Joseolgon, adaptado

 

Por Pedro Sinde

A Portugal foi atribuído um papel fundamental neste tempo do fim; Fátima é a espantosa explanação dessa missão hoje. No entanto, Fátima é “apenas” o culminar de um processo que tem origem rigorosamente na fundação de Portugal; se olharmos para trás a partir do que se passou em Fátima, poderemos entrever melhor o que aconteceu em Ourique, na aparição de Cristo a D. Afonso Henriques. A missão com que Cristo sagrou o nosso País, manifestou-se desde logo pela definição da sua fronteira, por tal modo que é inequivocamente uma das mais antigas do mundo. Esta definição das fronteiras não é um elemento menor, porque é um dos sinais exteriores da forte identidade e, portanto, da homogeneidade da alma portuguesa. As palavras que Cristo dirige a D. Afonso Henriques são, como veremos, o programa da razão de ser da existência de Portugal; programa que vem a ser explicado, aprofundado e completado com a mensagem de Fátima: em Ourique, a aparição de Cristo ao Fundador, àquele que viria a ser o primeiro rei deste povo; em Fátima, a aparição da Virgem a três crianças, os mais puros representantes do povo português.

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Visão de D. Afonso Henriques na Batalha de Ourique (Frei Manuel dos Reis, 1665)

I. Portugal nos Evangelhos

Entre os vários sinais que, segundo os Evangelhos, devem acontecer antes do fim dos tempos, alguns são difíceis de definir (como guerras, fomes, pestes, terramotos – Mt, 24, 6-7) dado que na história sempre encontrámos vários destes elementos; no entanto, há três eventos absolutamente inequívocos; assim, sabemos que o fi m dos tempos não chegará sem que se cumpram estas três condições:

1) o anúncio do cristianismo deve ter chegado a todo o mundo (Mt, 24, 14);

2) deve aparecer o “homem do pecado”, o Anticristo, e, com ele, a apostasia global (2 Tess 2, 2-4): dir-se-ia que, tal como no primeiro se espalha a fé de Cristo, neste se espalha a ‘fé’ do Anticristo);

3) os judeus converter-se-ão, reconhecendo Jesus, na Sua segunda vinda, como o Messias de que sempre estiveram à espera (Rom 11, 11-15 e 25).

Relendo o ponto 1), logo vemos que a Portugal em particular – e à Península Ibérica em geral – coube a espantosa missão de dar o maior contributo para a realização do primeiro destes eventos. No tempo de D. Manuel, o cronista Duarte Galvão estava completamente consciente disto. Esta consciência de estar a desempenhar um papel sagrado, anunciado por Cristo, dá uma dimensão impressionante à acção dos Descobrimentos; diz o cronista que o Redentor ordenou que por mãos dos portugueses se espalhasse “pelo mundo quase outra segunda pregação dos apóstolos para notificação da nossa fé” e essa “universal manifestação” seria para assim se “cumprir o que nosso Senhor disse: «que seu Evangelho havia de ser notificado por o mundo universo antes da fi m, em testemunho a todalas gentes»” (Galvão, p. 6). Mas Duarte Galvão projecta esta consciência mesmo para o tempo do Fundador; é bastante impressionante ver o modo pelo qual ele interpreta a eleição do bispo negro, por parte de D. Afonso Henriques, como um sinal antecipador da missão evangelizadora universal que viria a ser a de Portugal. Explicando que se tratou, pois, de uma eleição desejada por Deus, para que “as gentes tintas das Etiópias e Índias, e outras terras novamente pela sua navegação e conquista achadas, viessem entrar e ser metidas na fé de Cristo” (idem, p. 82). Vemos assim como logo na história do nosso primeiro rei, estava latente, segundo a vibrante hermenêutica de Duarte Galvão, a nossa primeira missão, que foi a de protagonizarmos a expansão da fé, levando-a nas caravelas às “sete partidas do mundo” e cumprindo assim esta primeira imensa missão referida nos Evangelhos. Vemos, pois, Portugal – sagrado por Cristo – a realizar o que Cristo mesmo anunciou nos Evangelhos: Portugal nos Evangelhos.

II. Um Só Milagre: de Ourique a Fátima

Os Céus falaram em Portugal, marcando o início da nossa monarquia e o seu fi m, altura em que os Céus se manifestam novamente em plena catástrofe política, ódio à religião, ateísmo militante, violência contra os crentes, consagrados e sacerdotes. Assim, pela aparição da Virgem, os Céus vieram salvar o povo que ainda devia cumprir uma parte da sua missão.

Vejamos agora algumas curiosas coincidências entre a promessa profética contida no texto de Duarte Galvão e a mensagem de Fátima, isto é, entre a aparição de Cristo a D. Afonso Henriques e a aparição da Virgem em Fátima, para assim ilustrarmos a unidade ou a continuidade dos dois milagres que são, na verdade, um só, por assim dizer.

Diz Duarte Galvão que “nesta aparição [de Cristo] foi o Príncipe dom Afonso Henriques certificado por Deus de sempre Portugal haver de ser conservado em reino” (idem, pp. 58-59). Com estas palavras, pois, promete Cristo que Portugal sempre existirá. Isto é o que diz Cristo em Ourique; e o que diz a Virgem em Fátima?

“Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé”. Não é interessante que os termos (que assinalei), pelos quais Cristo se dirige a D. Afonso Henriques, segundo Duarte Galvão, sejam os mesmos pelos quais a Virgem se dirige às três crianças? E tanto mais que em ambos os casos se trata de profecias sobre o destino de Portugal: na primeira, Cristo assegura que Portugal se conservará sempre como nação, como “reino”; na segunda, a Virgem assinala que em Portugal o dogma da fé se conservará sempre.

Mas as semelhanças não ficam por aqui. Vejamos agora as palavras de D. Afonso Henriques a Cristo no momento mesmo da aparição, sempre segundo as inspiradas palavras de Duarte Galvão:

“Senhor, aos hereges, aos hereges é que é preciso que apareças, porque eu sem nenhuma dúvida creio e espero em ti firmemente.” (idem, p. 58). O que vemos aqui, não é o germe, diria mesmo, o próprio espírito da primeira oração do anjo? Recordemos essa primeira oração que o anjo de Portugal ensinou às três crianças: “Meu Deus eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam.” As palavras de D. Afonso Henriques são compostas de duas partes: a primeira, é um pedido e, a segunda, uma afirmação; um pedido de conversão para os hereges e uma afirmação da sua própria fé e esperança. Aí encontramos rigorosamente os mesmos traços que encontramos, como já vimos noutro artigo, na primeira oração que o anjo de Portugal viria a ensinar aos pastorinhos e, através deles, a todos os portugueses e a todos os católicos e a todos os homens. Também nesta última oração (ver Fulgores de Fátima, III, no Diário do Minho de 16 de Dez. de 2015), temos duas partes: uma é justamente um pedido de perdão, de conversão para que os que “não crêem” venham a crer (tal como o rei fundador vem pedir a Cristo que apareça aos hereges, para que creiam!) e a outra é uma afirmação de fé e de esperança, os dois elementos coincidentes em ambas as orações. A de Fátima vem apenas a ser aperfeiçoada ou, melhor, explicitada, como o crescimento de uma mesma planta, que vem dos primórdios da fundação da nacionalidade até aos nossos dias. Podemos dizer também que Fátima vem, surpreendentemente, iluminar e confirmar sobrenaturalmente o milagre de Ourique.

III. História de Portugal: Ciclo Crístico e Ciclo Mariano

Podemos, com base nesta perspectiva, olhar para a história de Portugal e decifrar, então, dois grandes ciclos nítidos. O primeiro, a que podemos chamar o Ciclo de Cristo ou crístico e o segundo, o Ciclo da Virgem ou mariano. O primeiro vai da fundação até à perda da independência (1580) e o segundo começa com a Restauração (1640):

  • Ciclo crístico: é o de expansão, de exteriorização, e também da guerra, e termina com a “paixão” de Portugal em Alcácer Quibir com D. Sebastião – figura, aliás, bem crística, onde o consciente português projectou justamente a fi gura de Cristo: Cristo tendo morrido às mãos dos judeus, D. Sebastião, tendo morrido às mãos dos mouros. Ocorre-me aqui o belo título do poema de Vasco da Gama Rodrigues, descrevendo Portugal como O Cristo das Nações.
  • Ciclo mariano: é o da interiorização, da paz, e começa com a Restauração, aliás, começa rigorosamente com a entrega do nosso reino à Virgem por D. João IV.

Terminada aquela primeira missão, de que o último arremedo foi D. Sebastião, a missão de Portugal passou para um domínio da alma: o “Quinto Império” seria o do espírito, o regresso do D. Sebastião, seria o regresso do Messias. Tendo levado o cristianismo às “sete partidas do mundo”, ficou-lhe, no entanto, o amargor da missão por cumprir, a nostalgia, a saudade daquilo que sabe que virá a acontecer no tempo, mas que ainda não aconteceu no espaço. Os portugueses, depois de séculos voltados para a acção, quando lhes foi pedida a contemplação ficaram como que perdidos – e ainda não saíram desse torpor: só o povo, praticamente, cumpre a missão que lhe foi pedida pela Virgem em Fátima – os intelectuais divorciaram-se de Portugal ou, se se mantiveram fieis a Portugal, divorciaram-se, mesmo que parcialmente, do povo, não o acompanhando nesta missão.

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Local da 4.ª aparição de Fátima que aconteceu nos Valinhos no dia 19 de agosto de 1917 – imagem de János Korom Dr., adaptada

Não ouvimos nós hoje os Céus clamarem aos portugueses, como antes o anjo clamou aos pastorinhos quando estes brincavam, já depois de se terem comprometido com a tremenda missão que lhes coube? «Que fazeis? Orai, orai muito. Os corações santíssimos de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia.» De Alcácer Quibir até Fátima acontece a Restauração e a entrega do Reino à Virgem, nossa Rainha verdadeira, com o espantoso voto, de cavalaria espiritual, de defender a Imaculada Conceição nem que seja com o nosso sangue!

Termina, por assim dizer, o ciclo de Cristo ali e inicia-se o ciclo da Virgem, culminando na teofania (angelofania e mariofania) de Fátima. A missão de Portugal subtilizou-se: depois de levar a possibilidade de conversão a todo o mundo, devia agora rezar pela conversão de todo o mundo, tornando-se o “altar do mundo”. Os poetas da Renascença Portuguesa tiveram uma certa intuição, uma notável intuição, mas não era o tempo de terem a intuição certa, pois isso só com o conhecimento integral da mensagem de Fátima poderiam ter visto. Em Ourique, Portugal recebeu, por Cristo, a missão evangelizadora, para ser sobretudo ele o impulsionador no mundo da realização daquele primeiro profético ponto dos Evangelhos que referimos acima; em Fátima, cumprida essa missão, foi ainda digno de receber a missão de anunciar ao mundo o segundo daqueles três eventos, acima referidos: a vinda do Anticristo, referindo-se à apostasia generalizada. Encontramos este anúncio noutras aparições anteriores da Virgem (como em Quito, no Equador, e depois em La Sallette); não posso aqui deter-me agora naquelas aparições. Em todo o caso, Fátima vem reiterar aquelas mensagens de forma conclusiva. Quando a Virgem anuncia que “Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé”, está a dizer-nos que pelo menos em alguns outros locais não se conservará de todo; se juntarmos, como fizemos no último artigo, a mensagem de Fátima ao Catecismo e agora ao Evangelho, veremos facilmente que Fátima, nesta afirmação, vem já avisar-nos para o problema da apostasia generalizada a que se refere S. Paulo, obra do Anticristo nestes tempos a que a Irmã Lúcia intitulava, de forma muito significativa, expressiva e impressionante de “desorientação diabólica”. Devemos procurar estar à altura daquilo que a promessa da Virgem nos exige, isto é, devemos procurar estar, com todas as nossas forças, entre quantos se situam ao lado daqueles que lutam para conservar o dogma da fé e contra quantos procuram alterá-lo.

Não esqueçamos que o “dia do Senhor virá como o ladrão de noite; nesse dia os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra e as obras que nela há se queimarão” (II Pedro 3, 10). Sejamos nós, pois, daqueles que segundo S. Pedro, nesta mesma carta: “aguardando estas coisas, procurai que dele sejais achados imaculados e irrepreensíveis, em paz.” Em Paz; naquela Paz que Cristo dá, mas não como a dá o mundo: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; eu não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.” (Jo, 14, 27)

Este texto foi publicado no jornal Diário do Minho no dia 16 de outubro de 2016.

Nota da edição: o artigo acima faz parte da série “Fulgores de Fátima”, uma rubrica assinada pelo filósofo português Pedro Sinde no jornal Diário do Minho. As imagens e as ligações externas foram adicionadas na presente edição, não fazem parte da publicação original.

Basto 8/2017

Portugal e o depósito da Fé

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Por Pedro Sinde

Os portugueses têm uma imagem de si próprios, espiritualmente, muito menorizada; não é demais, no entanto, insistir que eles têm uma missão; uma missão que os uniu durante séculos e que foram cumprindo quase sem pensar nisso. É verdade que no “interregno”, entre 1580 e 1640, os portugueses pareciam pensar já ter perdido a razão de existir como País, pois, na verdade, a primeira parte da sua missão universal se cumprira já: levar a todo o mundo o cristianismo. Esse período de sessenta anos equivaleu à manifestação exterior de uma mudança de ciclo no interior da alma portuguesa – como o pousio para um campo, assim foi a sua breve reintegração peninsular. A Restauração viria a ser o sinal de que ainda havia sentido para a sua existência.

Em 1646, quando D. João IV entrega Portugal, com a coroa, à Imaculada, semeia uma semente do mundo espiritual nesta nossa terra; semente que permaneceu debaixo da terra, da terra da alma portuguesa, até 1917, altura em que veio a florescer em Fátima. O santuário do Sameiro (1890), dedicado também à Imaculada, foi um primeiro rebento, que veio preparar aquela eclosão de Fátima, situada, curiosamente, em termos geográficos, entre os dois prestigiados santuários à Imaculada que o precederam: Sameiro e Vila Viçosa; e também praticamente coincidindo, de modo bastante significativo, com o centro geográfico de Portugal.

Em 1917, a Virgem veio, pois, dizer aos portugueses que a sua missão se transformara, se subtilizara, mas que iria continuar. Deus quis assim ensinar a três crianças humildes, aquilo que aos doutores quis esconder. E esses mesmos doutores ainda hoje riem pirronicamente das três crianças, ignorando que a sabedoria de Deus é loucura para os homens

No contexto deste artigo, interessa-nos destacar dois aspectos da mensagem de Fátima, ligados à missão de Portugal:

  1. A Virgem diz, em 13 de julho, que em Portugal se conservará sempre o dogma da fé, e isso apesar dos tempos de generalizada apostasia em que temos vivido. Este ponto é o centro a partir do qual tudo o resto se ordenará: a fidelidade dos portugueses ao depósito da fé (se pudermos identificar “dogma da fé” com “depósito da fé”). A ideia de que haverá uma apostasia generalizada está, de resto, perfeitamente de acordo com o que diz o próprio Catecismo sobre o fim dos tempos (§ 675, onde se fala de uma “impostura religiosa” e de uma prova que “abalará a fé de numerosos crentes”) e, naturalmente, o Evangelho, nas tremendas palavras do Filho de Deus: “Quando, porém, voltar o Filho do Homem encontrará fé sobre a terra?” (Lc XVIII, 8). Se se conservará sempre, então, podemos pensar num papel espiritual análogo ao de um barco, uma barca, uma arca – uma arca de Noé –, enquanto durar o dilúvio espiritual da apostasia; foi em barcos que noutros tempos Portugal levou ao mundo inteiro a boa nova de Cristo, seria agora num barco, mas de outra natureza, que ajudaria a conservação do depósito da fé.
  2. A Virgem veio também dizer que é vontade do seu Filho que o culto ao Coração Imaculado de Maria se difunda em todo o mundo: “para salvar as almas, Deus quer estabelecer no mundo a Devoção ao Meu Imaculado Coração”; estas são as palavras da Virgem logo depois de ter mostrado às três crianças a terrífica visão do Inferno. Ora, é muito evidente que isso não aconteceu ainda e que o culto ao Coração Imaculado não tem dentro da Igreja o lugar digno que corresponda ao desejo de Deus: o de o estabelecer no mundo! O que têm feito os portugueses para este fim? A Igreja portuguesa tem aqui uma função essencial, pedida expressamente pela Santa Virgem. Não seria pequeno o seu contributo se ajudasse a estabelecer no mundo esta devoção, que, na verdade, se vai estabelecendo, muitas vezes apesar da hierarquia. Mesmo em Fátima, esta devoção (penso por exemplo na prática dos Cinco Primeiros Sábados) está muito longe de ter o papel central que devia ter. E aqui se vê que o povo, que acorre a Fátima nos primeiros sábados, fá-lo normalmente por sua própria iniciativa; e esta é a nossa grande esperança, na verdade, a de que no seu sensus fidei, no seu sentido da fé, saiba sempre o povo reconhecer onde está a verdade, mantendo-se fiel; vox populi, vox Dei, voz do povo, voz de Deus.

Temos de nos recordar que a Virgem não pode ter dito em vão aquelas importantes palavras sobre o papel de Portugal na conservação do dogma; seguramente, quis que os portugueses tomassem consciência do que lhes estava reservado, para se prepararem. Lembremo-nos que as seis aparições da Virgem em 1917, foram precedidas pelas três aparições do anjo; este anjo identificou-se dizendo ser o Anjo de Portugal. Isto é absolutamente inusitado nas aparições marianas de todo o mundo e, por isso, devemos ver aí um sinal claro de que estas aparições se ligam intrinsecamente ao ser mais íntimo da identidade portuguesa. O essencial desta missão, ensinaram o Anjo e a Virgem, cumpri-la-á Portugal colaborando com os Céus pela intenção de reparação que deve presidir à sua oração e aos seus sacrifícios, segundo a amorosa doutrina do corpo místico.

Dir-se-ia, no entanto, que Portugal parece tanto à deriva como qualquer outro País para aparecer com uma missão tão grandiosa; também à deriva parecia estar a Arca no dilúvio, no entanto, como antes à Arca, também agora a Divina Providência o conduz, pelas mãos da Virgem: lembremos de novo que desde 1646 é ela quem tem a coroa e, por isso, o poder de reinar. O leme deste barco não está nas mãos dos homens, embora Deus se possa servir circunstancialmente deles. E é aqui que o primeiro ponto se cruza com o segundo, pois onde encontrará refúgio a doutrina, para se conservar, senão no Coração da Mãe? “Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração” (Lc II, 19)… Não é ela, afinal, a Sede da Sabedoria? Não é ela, afinal, a verdadeira Arca da Aliança? E não foi esta senão a prefiguração sua? A consagração de Portugal à Imaculada tem, certamente, relação com a manifestação do Coração Imaculado em Fátima e Balasar (sobre que esperamos escrever noutra ocasião); é no Coração da Mãe que encontraremos, sempre preservadas, as palavras do Filho. Se nos lembrarmos que o depósito da fé se conservará no Coração Imaculado, então será mais fácil de entender porque é que em Portugal, mais do que noutros lugares, se conservará, pois o nosso povo, desde a origem da nacionalidade, praticamente, é de uma fidelidade impressionante à Imaculada. E o povo que permanecer católico, vai perseverar nessa fé. E será dentro da nova Arca de Noé – agora Arca de Maria – que encontrará preservada a Palavra do Senhor: a doutrina, o dogma da fé, o depósito da fé. Porque ali, ainda hoje, a Imaculada medita o profundo mistério do seu Filho na imensidão amorável da Trindade. Assim, será a Imaculada, ela mesma, quem conservará, de novo, a palavra sagrada. Talvez a esta luz já não nos pareça tão inusitada a afirmação da Virgem em torno da conservação do dogma da fé em Portugal, porque aos portugueses caberá manter a fidelidade à Imaculada; e será à Imaculada que caberá a conservação do dogma, coisa que faz, como sua função, vencedora de todas as heresias, desde que meditava, no seu coração, como vimos, os eventos e as palavras do Filho.

Fátima é de uma coerência espantosa, não me canso de o constatar e sempre fico perplexo.

Este texto foi publicado no jornal Diário do Minho no dia 15 de fevereiro de 2017.

Nota da edição: o artigo acima faz parte da série “Fulgores de Fátima”, uma rubrica assinada pelo filósofo português Pedro Sinde no jornal Diário do Minho. A imagem foi adicionada na presente edição, não faz parte da publicação original.

Basto 07/2017