Um papa, dois papas, três…

dois papas

 

De cada vez que o Papa Francisco entra num avião para regressar a Roma parece que a Terra treme, é como se as forças celestes que regem o universo fossem momentaneamente abaladas a partir do interior de um avião da Alitalia. As suas excêntricas entrevistas aeronáuticas fazem abanar a “nave petrina” que, depois, lá acaba sempre por aterrar em segurança, com maior ou menor dificuldade. Um vez no chão, o staff é logo chamado a entrar para limpar alguma eventual sujidade e reparar possíveis danos na engrenagem do aparelho como, de resto, acontece com todos os aviões, em qualquer aeroporto.

Logo de seguida, retoma-se a festa na cidade eterna!

É difícil ter uma noção do real impacto deste tráfego aéreo em todo o universo católico, nomeadamente, nas paróquias, conventos, universidades, casas episcopais, nas famílias, nas almas… Já não é de todo absurdo imaginar piedosos anciãos, nas aldeias mais remotas do Portugal profundo, queimarem um pequeno ramo de oliveira benzida, do Domingo de Ramos, antes do Santo Padre passar pelo Check-in do aeroporto e dizerem: “Que Deus o acompanhe!”.

Os dias, os meses e os anos que se seguem às aterragens papais são – e desta vez não será exceção – marcados pela impressão de milhares de páginas de jornais, cartazes, guarda-chuvas ou camisolas, tanto no mundo católico como no profano, citando as “piedosas” respostas e afirmações improvisadas a bordo. Quase toda a gente gosta! A principal característica do atual discurso papal é a de servir a quase todos os gostos.

Nos meandros doutrinários mais profundos, teólogos e filósofos, com a ajuda dos filólogos, têm com que se entreter durante muito tempo, refletindo sobre o que se disse, o que não se disse e o que se queria dizer, para depois se analisar se tais conclusões pertencem, ou não, ao magistério eclesial. No final, os resultados nunca são conclusivos mas, pelo menos, ajudam-nos a estudar e a meditar sobre a verdadeira doutrina de Cristo, o que já não é mau de todo.

Há outros aspetos merecedores de atenção na última entrevista papal, porém, por agora, centremo-nos apenas num deles.

 

Um tigre, dois tigres, três tigres

Se é difícil de dizer em relação aos felinos, mais difícil se torna com os Papas…

Quantos são afinal, hoje, os Papas da Igreja Católica?

Há quem diga dois, há quem diga um e ainda há aqueles que dizem nenhum.

Bento XVI resignou no dia 11 de fevereiro de 2013. Nesse mesmo dia, caiu um poderoso raio sobre a cúpula da Basílica de São Pedro, um sinal no céu. Para uns, a alegria de Deus pelo gesto humilde do 265º Vigário de Cristo na Terra, para outros, o sinal da Ira Divina pela situação que a humanidade acabara de provocar e, ainda para outros, pura meteorologia.

No dia 13 de março de 2013, é eleito o atual pontífice romano, Francisco I, que, desde cedo, se viria a revelar, para a maior parte da humanidade (e não apenas os católicos), como o “Santo Padre” esperado e ansiado durante tanto tempo. Não obstante, eleito o novo Bispo de Roma, o anterior continua vivo, não abandonou a Santa Sé, não abdicou do título petrino e não guardou a indumentária papal. Bento XVI continua à frente da Igreja, orando e sofrendo, ainda que, por vezes, o barulho do circo nos faça esquecer a realidade. Esta situação criou um paradoxo histórico, e também canónico, inédito em dois milénios de cristianismo, que consiste na coexistência de dois Papas em simultâneo. O paradoxo é tanto maior quanto verificamos que os seus perfis, práticas e ensinamentos são radicalmente diferentes.

O Arcebispo Dom Georg Ganswein, Prefeito da Casa Pontifícia, é quem melhor entende como funciona este novo figurino do Papado Romano, uma vez que trabalha simultaneamente com os dois Papas e, como tal, deve entender, melhor do que ninguém, como é que tudo isto funciona. Há poucos dias, saiu-se com estas polémicas afirmações durante um discurso proferido na Pontifícia Universidade Gregoriana:

“Desde a eleição de seu sucessor, Papa Francisco – no dia 13 de março de 2013 -, não há, portanto, dois Papas, mas na verdade um ministério expandido com um membro ativo e um outro contemplativo. Por este motivo, Bento não renunciou nem ao seu nome e nem à sua batina branca. Por isso, o título próprio pelo qual devemos nos dirigir a ele ainda é “santidade”. Além disso, ele não se retirou para um mosteiro isolado, mas continua dentro do Vaticano, como se tivesse apenas se afastado de lado para dar espaço para seu sucessor e para uma nova etapa na história do Papado que ele, com esse passo, enriqueceu com a centralidade da oração e da compaixão feitas nos jardins do Vaticano.”

(Cardeal Georg Ganswein, 20/05/2016)

Perante uma tentativa do arcebispo de explicar um incoerente conceito de bicefalia papal, Francisco contesta categoricamente essa ideia descabida, durante a sua última entrevista aeronáutica, referindo-se a si próprio, deste modo:

“Existe apenas um Papa!”

(Papa Francisco, 26/06/2016)

O Papa Francisco explicou que Bento XVI não passa de um simples “Papa Emérito” que, no seu entendimento, quer dizer apenas “um avô sábio”, mas não “Papa”. Lembrou ainda que Bento XVI lhe prometeu “obediência e cumpriu”.

“Então ouvi, mas não sei se é verdade – insisto, talvez sejam boatos, mas combinam com o seu carácter – que alguns foram vê-lo e lamentar-se deste novo Papa. E ele despachou-os, com o melhor estilo bávaro, educado, mas despachou-os”.

(Papa Francisco, 26/06/2016)

Esta questão está ainda longe de ser definitivamente esclarecia e talvez só venha a resolver-se completamente após um sinal claro da Divina Providência.

Em relação a nós, os últimos elos desta hierarquia que começa lá em cima, no Céu, temos apenas de seguir humildemente a nossa viagem, mantendo-nos na faixa de rodagem mais segura, a da doutrina de sempre, e avançando com prudência porque os sinais indicam perigo na viagem que temos pela frente. Com um ou com dois Papas ao volante, o mesmo Jesus Cristo de ontem, de hoje e de sempre, continuará a ser o nosso único destino.

 

Basto 6/2016

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