Bispo ucraniano diz que seria um “desastre” se o Papa visitasse Moscovo antes de Kiev

Fumo a sair de um prédio destruído após um ataque aéreo militar russo em Lysychansk, Ucrânia, 17 de junho de 2022. (Crédito: foto CNS/Oleksandr Ratushniak, Reuters.)

Por Inês San Martin

ROMA – Não seria apenas um “desastre” se o Papa Francisco visitar a Rússia antes de ir à Ucrânia, como o pontífice disse que gostaria de fazer, mas se isso acontecer, as fronteiras ucranianas poderão ser fechadas ao Papa, de acordo com o arcebispo latino de Lviv.

“Não só os fiéis greco-católicos, mas também nós, não concordamos com todos os gestos do Santo Padre em relação à Rússia; mas talvez não entendamos bem suas intenções e políticas”, afirmou o arcebispo D. Mieczysław Mokrzycki, que lidera a comunidade de 1,5 milhões de fiéis de rito latino na Ucrânia.

“Vamos torcer para que o Papa tenha boas intenções e, com sua maneira de agir, em breve traga paz à Ucrânia”, disse Mokrzycki.

Mesmo antes da invasão da Ucrânia ordenada pelo presidente russo Vladimir Putin em 24 de fevereiro, Francisco já falava sobre uma possível viagem à “Ucrânia martirizada”. Ultimamente, porém, ele expressou o desejo de ir primeiro a Moscovo, para ajudar no processo de diálogo.

Em declarações ao semanário alemão Die Tagespost , Mokrzycki afirmou que “os nossos fiéis dizem que é preciso primeiro dirigir-se à vítima, a quem está em sofrimento, e só depois a quem o causou”.

O prelado também disse que, embora os ucranianos estejam muito gratos ao Papa “por ter estado próximo do povo desde o início com suas orações e muitos apelos”, eles não esqueceram que, até agora, Francisco nunca disse claramente que a Rússia está a levar a cabo uma invasão da Ucrânia.

Mokrzycki disse que os fiéis da Igreja Greco-Católica Ucraniana e outros ucranianos estão intrigados com o que consideram uma atitude ambígua do Papa e as suas ações destinadas a manter abertas as portas do diálogo com a Rússia.

Em março passado, o Papa Francisco revelou em entrevista ao jornal Corriere della Sera que pediu para viajar a Moscovo para encontrar-se com Putin, para pedir-lhe que parasse a guerra na Ucrânia, no entanto, ainda não recebeu resposta.

No entanto, falando à Reuters este mês, Francisco revelou que o Kremlin havia fechado a porta a essa possibilidade, quando a Santa Sé a propôs pela primeira vez há alguns meses, mas agora algo pode ter mudado.

“Eu gostaria de ir (à Ucrânia) e queria ir para Moscovo primeiro”, disse ele. “Trocamos mensagens sobre isso, porque pensei que se o presidente russo me desse uma pequena janela para servir a causa da paz” [vale a pena tentar].

“Agora é possível, depois de voltar do Canadá, é possível que eu vá à Ucrânia”, disse ele. “A primeira coisa é ir à Rússia para tentar ajudar de alguma forma, mas gostaria de ir às duas capitais.”

Francisco estará no Canadá de 24 a 29 de julho.

O arcebispo D. Paul Gallagher, ministro das Relações Exteriores do Vaticano, disse numa entrevista recente que a deslocação de Francisco à Ucrânia pode estar iminente, não descartando uma viagem em setembro.

“O Papa Francisco definitivamente irá à Ucrânia”, disse ele, acrescentando que o Papa está “muito convencido” de que tal visita pode ter resultados positivos.

Além do Canadá, a única viagem papal na programação oficial é o Cazaquistão, de 14 a 15 de setembro. O Papa irá para participar de um encontro inter-religioso. Embora o Vaticano ainda não tenha anunciado oficialmente, Francisco disse à emissora de notícias mexicana Televisa que espera encontrar-se com o patriarca ortodoxo russo Kirill durante esta visita.

Apesar das suas reservas quanto à ida do Papa Francisco a Moscovo, Mokrzycki afirmou que o pontífice é bem-vindo na Ucrânia e que os bispos locais – dos ritos latino e greco-católico – o convidam para uma visita há vários anos.

“Com o início da guerra, este convite tornou-se ainda mais ardente, porque acreditamos que Pedro do nosso tempo tem um dom e uma bênção especial que recebeu de Deus”, disse o presidente dos bispos católicos romanos ucranianos, em comunicado publicado no página da Arquidiocese de Lviv durante o fim de semana.

“Se ele veio à Ucrânia, se ele entrou na terra deste mártir ensanguentado e a abençoou, o Senhor nos concederá graça e fará um milagre, e a paz chegará à nossa pátria”, disse Mokrzycki. “Estamos felizes que o Santo Padre já expressou a sua vontade de vir à Ucrânia”.

Andrii Yurash, principal diplomata da Ucrânia no Vaticano, disse que seu governo está atualmente a trabalhar para tornar realidade o sinal de apoio do Papa, o que seria amplamente apreciado.

Ele disse recentemente ao Crux:  “Tenho muitas dúvidas de que isso [vá] acontecer em agosto. Talvez em setembro… no entanto, tudo depende da vontade de Deus.”

“Não é apenas um gesto formal, é um verdadeiro gesto de apoio”, disse ele. “É um verdadeiro gesto de compreensão.”

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Fonte: cruxnow.com em 19 de julho de 2022 (tradução nossa).

Papa Francisco pronto para ir a Moscovo

Foi no final da sua viagem apostólica ao Chipre e à Grécia, realizada no passado mês de dezembro, que o Santo Padre revelou estar disponível para ir à Rússia, dando a entender que tudo está a ser tratado para que essa viagem se possa concretizar dentro de pouco tempo. Francisco referiu-se mais precisamente a uma deslocação à cidade de Moscovo, que é simultaneamente a capital política da Federação Russa e sede da Igreja Ortodoxa Russa (IOR).

Esta informação, que embora não surpreenda, coloca a humanidade perante a iminência de um acontecimento histórico absolutamente extraordinário, por isso tem agitado bastante as redes sociais ao longo das últimas semanas, criando enormes expectativas em todos os cristãos que se interessam pelas aparições marianas e respectivas profecias.

A Rússia, nação tradicionalmente hostil ao catolicismo, ocupa um papel central na mensagem de Fátima, cujas profecias, de acordo com o Bento XVI e tantos outros católicos, ainda não se cumpriram na sua plenitude. Neste sentido, a antevisão de uma visita papal a Moscovo suscita, logo à partida, uma profunda reflexão à luz da mensagem de Fátima.

Não obstante a forte alusão a Fátima que esta notícia possa suscitar, a principal razão pela qual se tem replicado múltiplas vezes nas redes sociais é, porém, a sua associação a uma alegada “profecia” de Garabandal. De acordo com a referida “profecia” (mal documentada), pouco tempo antes do chamado “Aviso” de Garabandal, um Papa fará uma viagem a Moscovo, depois da qual rebentarão hostilidades em diversas partes da Europa, logo após o seu regresso…

No passado dia 22 de dezembro, o metropolita Hilarion (Alfeyev, no seu nome secular), responsável pelo Departamento de Relações Externas da IOR, reuniu-se com o Papa, na Santa Sé, onde terão acertado pormenores relativos a um novo encontro entre o Francisco e o patriarca Kirill (ou Cirilo), líder da IOR.

Basto 01/2022

Vaticano prepara visita do Papa Francisco à Rússia

A poucos dias da visita do cardeal Pietro Parolin a Moscovo, o Secretário de Estado do Vaticano admite o seu empenho na preparação de uma possível visita do Papa Francisco à Rússia. O número dois da hierarquia do Vaticano estará na Rússia de 20 a 24 de agosto, tendo agendado encontros com o presidente Vladimir Putin e com o patriarca Kirill, líder da Igreja Ortodoxa Russa.

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in The Local, 09/08/2017

Numa recente entrevista ao jornal italiano Corriere Della Sera, Pietro Parolin foi questionado se será possível uma visita de Francisco à Rússia e se esta sua viagem se relaciona de algum modo com a sua preparação.

O cardeal respondeu nestes termos:

Os propósitos da minha visita estão além da preparação de uma eventual viagem do Santo Padre Francisco à Rússia. Espero, no entanto, que ela, com a ajuda de Deus, possa oferecer alguma contribuição também nessa direção.

(Cardeal Pietro Parolin, in Corriere Della Sera, 08/08/2017 – tradução)

Do lado russo, nunca antes houve tanta abertura e benevolência para com a Igreja Católica e o Sumo Pontífice. Ainda há poucos dias, o patriarca de Moscovo voltou a confirmar a recente aproximação entre as duas igrejas.

Devo dizer que, desde aquela a reunião [cimeira cubana, de 12 de fevereiro de 2016], as nossas relações bilaterais tornaram-se mais intensas.

Não estamos inclinados a minimizar as diferenças existentes, mas também entendemos que os cristãos, especialmente na América Latina, têm o potencial para uma cooperação que seja capaz de galvanizar as forças cristãs para enfrentar as muitas questões que preocupam a humanidade hoje.

(Patriarca Kirill, in Interfax, 08/06/2017 – tradução)

Será isto uma evidência do “triunfo” do Imaculado Coração de Maria? Porque é que Vladimir Putin e o patriarca Kirill não vêm até Fátima, durante este centenário, para celebrar a conversão da Rússia por intermédio do Imaculado Coração do Maria.

Na verdade, apesar de as relações entre a Federação Russa e o Vaticano estarem normalizadas desde há vários anos, o relacionamento entre as duas Igrejas continuou muito difícil até à eleição de Francisco I. Havia várias razões para isso, das quais já aqui tínhamos destacado três principais.

Este é um assunto que suscita o maior interesse, sobretudo neste ano em que se celebra o centenário das aparições da Cova da Iria, dada a centralidade da palavra “Rússia” na mensagem de Fátima. A Santíssima Virgem prometera, precisamente há 100 anos, a conversão da Rússia através do Seu Imaculado Coração, que a levará “por fim” a aceitar a Fé Católica. Não obstante todo o otimismo reinante no catolicismo ocidental no que concerne aos resultados obtidos na “conversão da Rússia”, por vezes parece mais que foi a Igreja Católica quem se converteu naquilo que a Rússia sempre quis.

Mas já que estamos numa onda de otimismo, caso o Santo Padre realize mesmo essa viagem, pode ser que alguma “surpresa do Espírito Santo” faça com que ele leve consigo a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima e lhe consagre a Rússia a partir de Moscovo. Um ato solene que certamente atrairia todas as graças necessárias para a plena conversão da Rússia à Fé Católica. Mas será alguém põe as mãos no fogo por essa possibilidade? Não, não, não…

Basto 8/2017

Papa poderá visitar Moscovo, é uma questão de tempo

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Como tínhamos já aqui referido e analisado, uma eventual visita papal à Rússia parece cada vez mais possível e até bastante provável. Existe mesmo a possibilidade de tal viagem estar já a ser planeada à porta fecha, uma vez que este é um assunto em relação ao qual o Papa Francisco prefere manter descrição. Assim aconteceu também quando preparou o inédito encontro com o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, em Havana, em Fevereiro do ano transato.

Em maio do ano passado, o proeminente cardeal francês Jean-Louis Tauran, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso e camerlengo da Câmara Apostólica, afirmava que Francisco poderia vir a ser o primeiro pontífice romano a visitar a Rússia e a China.

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Crux Now em 28/05/2016

“Sim… talvez, mas há várias nuances a considerar.”

(Cardeal Jean-Louis Tauran in Crux Now, 28/05/2016)

A principal “nuance” é reconhecidamente o “problema” dos Greco-Católicos da Ucrânia…

Praticamente um ano depois da cimeira cubana, quem nos dá agora razão é o arcebispo de Moscovo, D. Paolo Pezzi, que é também o presidente da Conferência de Bispos Católicos da Federação Russa. Este arcebispo italiano, em entrevista à agência noticiosa católica italiana SIR, considera que a viagem papal é agora possível devido ao encontro de Havana e às suas consequências no relacionamento entre as duas igrejas, embora não se sinta capaz de arriscar uma data.

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Servizio Informazione Religiosa em 11/01/2017

“Eu não posso dizer quanto tempo levará. Mas isso não é mais visto como uma questão problemática.”

“Eu penso que depois de Cuba, nomeadamente das suas consequências, que tiveram um impacto na Igreja Ortodoxa da Rússia, hoje é possível dizer que a visita do Papa à Rússia deixou de ser um problema.”

(Declarações do Mons. Paolo Pezzi ao SIR em 11/01/2017)

As relações entre o Vaticano e as autoridades políticas e religiosas russas nunca estiveram tão boas. Através dos vários encontros realizados em Roma ou nas Caraíbas, as cartas enviadas, os presentes trocados ou as permutas de arte, Francisco é de facto um Papa que parece agradar às autoridades do gigante eslavo.

Talvez Francisco consiga fazer aquilo que os papas anteriores desejaram e não conseguiram. Contudo, se um Papa acabar mesmo por visitar a Rússia, este ou outro, nessa altura teremos inevitavelmente de avaliar as razões que tornaram isso possível. Será esse evento a derradeira e esperada evidência da anunciada “conversão da Rússia” profetizada em Fátima? Ou, em alternativa, estaremos perante o apogeu das consequências negativas resultantes da não consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria dentro do prazo indicado por Nossa Senhora?

O Papa Francisco rejeita categoricamente a necessidade de conversão à Religião Católica e, em vez disso, promove incansavelmente a sua “cultura do encontro”, reservando a necessidade de conversão para a Cúria Romana e para os fiéis católicos em geral, mas em especial para aqueles que resistem… Basicamente, a conversão consiste na adesão à Fé Católica, enquanto a “cultura do encontro” pressupõe uma desvalorização da Fé Católica em favor de um consenso mais alargado, ou mesmo universal, onde há lugar para todas as crenças e não crenças… A conversão ocorre naquele que adere à Fé, enquanto a tal “cultura do encontro” implica algum grau de afastamento da Fé por parte daquele que a possui…

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Qual seria o resultado final a esperar de toda esta “cultura do encontro” se algum dia conseguisse uma aceitação universal? Um mundo onde todas as religiões são iguais? Um mundo sem religião? Que paraíso é esse que esta doutrina nos quer vender? Onde é que esse paraíso se encontra, neste mundo ou no Outro? É uma ideologia que não faz o mínimo de sentido à luz da Fé Católica!

Se algum dia um Papa for bem-vindo na Rússia, esperemos que isso seja sinal de conversão generalizada dessa nação, da sua reunião verdadeira à Igreja de Roma e nunca o resultado da conversão da própria Igreja Católica naquilo que a Rússia desejava que Ela fosse. Isso seria o desprezo total da Igreja pela mensagem de Fátima e talvez a gota necessária para fazer transbordar a copo da Paciência Divina.

 

Basto 1/2017

Poderá o Papa Francisco ir à Rússia?

Vários analistas, quer da esfera religiosa, quer da secular, têm avaliado a possibilidade de uma visita papal à Rússia com algum otimismo. A própria Igreja Ortodoxa Russa (IOR) não rejeita, à partida, essa eventualidade, apesar de considerá-la fora da agenda imediata. O Arcebispo Paolo Pezzi, líder dos católicos de rito latino em Moscovo, acredita que essa viagem será possível após um encontro prévio entre o Papa Francisco e o Patriarca Kirill, que entretanto já aconteceu.

A cimeira cubana foi organizada em segredo e ninguém sabe se uma visita papal à Rússia não estará também a ser preparada da mesma maneira ou até talvez já agendada.

Outros papas desejaram ir à Rússia, com particular destaque para João Paulo II, o papa eslavo. Também é do conhecimento público que, nesta era pós-Concílio Vaticano II, esse desejo recebeu a reciprocidade da parte de chefes de estado russos, contudo, por não ter sido aprovada pela IOR, essa viagem apostólica acabou por nunca acontecer.

Os Papas Bento XVI e João Paulo II tinham convites permanentes do governo russo, mas não puderam ir porque não obtiveram um convite correspondente da parte da Igreja Ortodoxa. Francisco teria necessidade de passar pelo mesmo para ir à Rússia. 

(in Reuters, 07/11/2013)

O grande obstáculo à entrada do Sumo Pontífice na Rússia, nestas últimas décadas, não foi portanto o poder político mas sim a hierarquia da IOR.

A Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa Russa não tinham relações de qualquer natureza antes do Concílio Vaticano II de 1962-1965. O falecido Papa João Paulo II foi o primeiro a expressar seu desejo de visitar a Rússia. Ele foi convidado pela primeira vez pelo presidente soviético Mikhail Gorbachev, em seguida, pelo presidente russo Vladimir Putin, mas nunca pelo Primaz da Igreja Ortodoxa Russa.

(in Kommersant, 28/03/2006)

Pela parte do poder político, essa viagem teria sido já realizada há muito tempo, mesmo ainda antes do colapso da União Soviética.

Excerto da conversa entre Mikhail Gorbachev e João Paulo II que teve lugar no dia 1 de dezembro de 1989 na Cidade do Vaticano:

M. Gorbachev: “Espero que depois desta reunião as nossas relações vão ganhar um novo impulso e suponho que em algum momento no futuro possa visitar a URSS. […]”

João Paulo II:Se isso for permitido, eu ficaria muito feliz. […] Estou profundamente grato pelo seu convite. Ficaria feliz com a oportunidade de visitar a União Soviética, a Rússia, para me encontrar com os católicos e não apenas os católicos, para visitar locais sagrados que são para nós, cristãos, uma fonte de inspiração. Obrigado pelo convite.”

(in The National Security Archive, GWU)

Apesar da atitude de grande abertura demonstrada pelos papas pós-conciliares, estes continuavam a não reunir as condições objetivas necessárias para serem bem-vindos na Rússia. Contudo, como o Papa Francisco apresenta um perfil bastante diferente dos anteriores, muita gente acredita que essa viagem poderá finalmente acontecer, o que não quer dizer que isso seja necessariamente um bom sinal.

Admitindo que a eventualidade de uma viagem papal à Rússia possa mesmo vir a concretizar-se durante o atual pontificado, que características aprazíveis encontra então a IOR em Francisco, que não encontrou nos dois papas anteriores? Esta é uma questão complexa que, ainda por cima, parte de um pressuposto meramente especulativo, pois essa hipotética viagem pode acabar por nunca se concretizar. Mas mesmo para os mais incrédulos, que consideram tal viajem impossível no curto ou no médio prazo, podemos apenas tentar interpretar a inédita disponibilidade do líder da IOR, em quase mil anos, para se reunir cordialmente com o Santo Padre e para publicar uma declaração conjunta, conforme aconteceu na cimeira cubana de fevereiro, algo considerado bastante improvável apenas há pouco mais de três anos atrás.

Os maiores entraves à entrada do Santo Padre na Rússia

As maiores questões que opõem a IOR à Igreja Católica Romana, da qual se encontra separada desde o grande cisma de 1054, podem resumir-se a três principais. Que respostas tem o Santo Padre para cada uma delas?

1. A Supremacia Petrina

É inaceitável, do ponto de vista da IOR, que o Pontífice Romano se assuma como o único e verdadeiro vigário de Cristo na Terra legitimado pela sucessão apostólica desde São Pedro até à atualidade. Deste modo, na perspetiva da IOR, a autoridade papal, a sua infalibilidade e outras características da cátedra petrina são apenas presunções inadmissíveis, enquanto para os católicos são uma certeza justificada pela Fé e pela história.

2. O proselitismo católico

Pregar a necessidade de conversão dos cristãos ortodoxos cismáticos ao catolicismo é considerado uma afronta aos olhos da IOR. Nessa perspetiva, as missões católicas em território canónico ortodoxo são vistas como ações insultuosas, do mesmo modo que o crescimento e a proliferação das comunidades católicas nesse espaço – principalmente os católicos orientais, de rito bizantino – são entendidos com perigosos para a religião e cultura locais.

Nós, os católicos, acreditamos na verdade dogmática de que fora da Igreja Católica Romana, una e santa, não há salvação. Não é apenas uma questão de pertença e de obediência, mas também de Fé. Existem diferenças teológicas e doutrinais profundas entre aquilo em que os Católicos e os ortodoxos acreditam, por exemplo, ao nível dos últimos dogmas definidos pela Igreja Católica como o da Imaculada Conceição de Maria.

3. Os uniatas, principalmente a Igreja Greco-Católica Ucraniana

Os católicos orientais são porventura o problema mais quente, o qual se inflamou ainda mais com o conflito ucraniano iniciado em 2014. Os Greco-Católicos Ucranianos, a maior e mais proeminente comunidade católica depois da Igreja Católica Latina, acusam frequentemente a Rússia de Vladimir Putin de ingerência política e militar na Ucrânia. Os uniatas (termo utilizado com conotação negativa), como são ortodoxos que obedecem a Roma e partilham a Fé Católica, são indesejados pela Rússia, principalmente quando se trata de uma comunidade tão viva, ativa e promissora como é a Igreja Uniata Ucraniana.

O “método de uniatismo do passado” consiste na conversão dos ortodoxos cismáticos à Fé Católica, representando – no caso da Igreja Uniata – uma fidelidade de várias centenas de anos, por vezes paga com o sangue dos mártires católicos orientais. As igrejas orientais são tão legítimas e verdadeiras quanto a Igreja Católica Latina, sendo-lhe estatutariamente equivalentes dentro da unidade institucional da Igreja Católica. Estão em comunhão com os restantes católicos e com o Papa, merecendo todo o seu apoio. Não poderão, em circunstância alguma, ser usadas como moeda de troca no diálogo ecuménico com a IOR.

E se essa viagem vier mesmo a acontecer…

Se algum dia, nas próximas semanas ou meses, ouvirmos a Santa Sé anunciar uma viagem apostólica do Santo Padre à Rússia, de uma maneira ou de outra, aquela famosa aldeia da diocese de Santander despertará novamente um grande interesse popular.

A autenticidade e a relevância da mensagem de Garabandal dependem da necessidade de conversão da Rússia. Se aceitarmos que a conversão da Rússia, anunciada em Fátima, já teve lugar, em resultado de uma das consagrações realizadas pelos papas anteriores, então Garabandal não faz sentido, uma vez que o anunciado “milagre” destina-se a converter a Rússia e o mundo. Deste modo, a lógica de Garabandal só pode enquadrar-se num contexto de crise resultante do desvio da Igreja em relação à proposta de Fátima. É uma espécie de plano de emergência…

As aparições de Garabandal não foram contudo ainda aprovadas pela Igreja, portanto devem ser tratadas com alguma precaução. Sendo assim, e partindo simplesmente da mensagem de Fátima, se o Santo Padre visitar finalmente a Rússia, duas questões terão de ser levantadas:

  • Será que a tal “cultura del encuentro” corresponde à “conversão da Rússia” pedida e anunciada em Fátima? Fará essa “cultura” parte do triunfo do Imaculado Coração de Maria?
  • Em solo russo, quem irá beijar o anel de quem?

Logo veremos!

Basto 08/2016