“Silêncio e oração” enquanto a casa se desmorona

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Por Nikko Lane

Esta segunda-feira, como resposta às críticas dirigidas ao Vaticano, o Papa Francisco incitou a Igreja de Cristo a lutar com “silêncio e oração” contra aqueles que causam divisão.

Silêncio e oração. Vejamos o que o Papa Francisco poderia ganhar com silêncio e oração.

Em primeiro lugar, ele pede silêncio. Porquê? De facto, há momentos destinados ao silêncio. Perante o Santíssimo Sacramento. Quando alguém se senta na beleza do silêncio no mistério em que se oferece o Senhor Jesus Cristo durante a Santa Missa, o silêncio em solene lembrança de um ente querido que faleceu na esperança do abraço da Paz de Nosso Senhor.

Mas será o silêncio realmente necessário neste momento em que a Igreja está em crise? Enquanto os membros da Igreja não conseguirem perceber o que se tem passado durante último mês do pontificado do Papa Francisco, a maioria dos católicos de todo o mundo quer respostas. Santo Padre, o senhor está a dizer a verdade? Santo Padre, Viganò está a dizer a verdade? O Santo Padre sabia alguma coisa daquilo?

Até agora, a resposta do Papa às vítimas do escândalo de abuso sexual por parte de elementos do clero dos Estados Unidos incluiu (parafraseando):

  1. Somos todos os culpados e, como leigos, devemos todos trabalhar para melhorar as coisas na nossa Igreja.
  2. Se leram a carta de Carlo Maria Viganò que me acusa e às pessoas a quem sou leal, decidam por vocês  mesmos.

Foram feitas acusações graves e estão em jogo grandes implicações. No entanto, o sucessor de São Pedro não faz mais do que permanecer em silêncio e em oração.

O Papa Francisco pede silêncio. Aqueles que acreditam nele dizem que a causa deste escândalo de abuso sexual, o encobrimento e a crise que dele resulta é uma questão de clericalismo (a “cortina de fumo” mais comum do Papa e das pessoas que lhe são próximas). Eu diria que o Santo Padre nem sequer se referiu ao assunto em concreto.

Pede silêncio, mas porquê? A carta de Viganò implica o Papa Francisco em crimes graves contra o seu povo. O silêncio seria apropriado. A ironia é que, se há divisão na Igreja, é somente porque o Papa Francisco, culpado ou inocente, não tratou do assunto em questão. De todas as vezes que Francisco coloca o ónus deste escândalo nos leigos da Igreja, em vez de o colocar em si mesmo (e nos bispos e arcebispos que ele conscientemente designou, apesar dos conselhos que lhe propunha melhores candidatos), ele prejudica ainda mais as pessoas que realmente sofrem: as crianças, os estudantes, jovens adultos e seminaristas que foram abusados física e sexualmente pelos McCarricks e clérigos dos Estados Unidos. Ele causa sofrimento e volta a causar, institucionalmente, pelas suas ações ou pela falta delas.

Porque faz ele isto?  E continuamente?

Isto leva-nos à sua próxima proposta para combater a “divisão”: a oração. João Vianney disse: “A oração é o banho interior de amor no qual a alma mergulha”. A oração do Papa Francisco tem sido pública e em frente das câmaras, no Instagram e no Twitter, desde o primeiro dia do seu pontificado. Aqui está uma observação importante: o Papa Francisco faz questão de ser visto pelos média. Ele faz com que se conheça bem o facto de que ele não permanece nas instalações a que, como Papa, tem direito. Ele vive uma vida de “pobreza visual”, tentando ser como o grande Francisco de Assis, seu homónimo. Mas Francisco de Assis mantinha uma pobreza espiritual e interior. Ele abandonou os seus bens materiais para ser pobre, sim, mas a sua espiritualidade de negação de si mesmo na exultação do Senhor era a missão desse querido santo. São Francisco nunca subverteria a doutrina católica sobre o casamento, a santidade da vida, a sexualidade, a Santa Eucaristia e, mais importante, o papel da família no plano de Deus como o Papa Francisco tem subvertido. O Papa Francisco reescreveu a doutrina da Igreja quando subverteu o ensinamento sobre a atração pelo mesmo sexo; permitiu que pessoas que viviam em adultério recebam a comunhão; e ridicularizou as famílias católicas por serem muito “parecidas com coelhos” na procriação de filhos.

Por que razão sugeriria ele oração? Evidentemente, poderia pedir-nos a todos para orar pela paz e pelo fim do sofrimento. Ou poderia pedir para enterramos as nossas cabeças na areia, tapar as nossas bocas e esquecer tudo o que D. Carlo Maria Viganò acusara a ele e aos seus colaboradores. Será que ele quer afastar a atenção de si mesmo, dos McCarricks, dos Wuerls e dos Tobins, enquanto nós, o rebanho, estamos em silêncio e oração?

Silêncio é o que o Papa agora nos pede. Silêncio e oração.

Continuarei a orar pela Santa Sé e pela Igreja que São Pedro recebeu do próprio Jesus Cristo para liderá-la. Orarei pelas inúmeras vítimas de abusos do clero e pelas suas famílias e ainda para que elas encontrem a cura no divino amor de Deus. Também orarei pelos maravilhosos sacerdotes que se têm manifestado, chocados com este escândalo e com a falta de resposta do Papa, para que eles continuem a ter coragem apesar da covardia do seu líder. E, por último, continuarei a orar pelos leigos fiéis, que, segundo todos os relatos, têm fortalecido a sua fé, apesar da falta de honestidade e de liderança nos mais altos postos da hierarquia da nossa Igreja.

Mas eu não permanecerei em silêncio. O silêncio apenas implica a culpa do Papa. Não me calarei enquanto a Igreja de Cristo necessitar que os líderes chamem a heresia e a injustiça pelo nome. Continuarei a falar. Irei dizer a verdade. Irei proclamar a Boa Nova. A Palavra da Vida Eterna sobreviveu no passado a muitos papas corruptos e a muita adversidade e continuará muito para além do seu silêncio, Papa Francisco.

A edição original deste texto foi publicada pelo One Peter Five a 7 de setembro de 2018. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do texto acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 9/2018

Declaração Final da Conferência de Roma reafirma a doutrina católica e responde aos “dubia”

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Por Maike Hickson

Hoje, dia 7 de abril, teve lugar em Roma a tão aguardada conferência “Igreja Católica, para onde vais?”. A conferência foi inspirada pelo falecido Cardeal Carlo Caffarra – um dos quatro cardeais dos dubia – que morreu em setembro passado. No final da conferência, foi emitida uma Declaração Final em nome dos participantes, clérigos e leigos, que reafirma a infalível doutrina da Igreja a respeito de questões morais como o casamento e atos intrinsecamente maus, respondendo, deste modo, aos cinco dubia iniciais que, 18 meses depois de terem sido submetidos pela primeira vez ao Papa Francisco, nunca obtiveram resposta.

A importância da Declaração Final está no facto de ter sido divulgada na presença e com o apoio dos quatro principais prelados que levantaram as suas fortes vozes de resistência católica contra a confusão e o erro propagados pelo Papa Francisco, a saber: o Cardeal Walter Brandmüller , o cardeal Raymond Burke, o cardeal Joseph Zen e o bispo Athanasius Schneider. Foi também ali apresentada uma breve mensagem em vídeo do cardeal Carlo Caffarra. Nos próximos dias publicaremos um relatório mais extenso sobre o conteúdo de toda a conferência. Por hoje, apenas apresentamos aos nossos leitores esta histórica Declaração Final intitulada “Portanto, damos testemunho e confessamos…”, que é sucinta e clara.

A Declaração Final começa com a referência à exortação apostólica do Papa Francisco Amoris Laetitia e ao seu efeito de confusão sobre os fiéis. Assinala que nem o Apelo Filial de quase um milhão de signatários, nem a Correção Filial de 250 académicos, nem os dubia dos quatro cardeais receberam uma resposta do Papa Francisco. Portanto, dizem os autores, “nós, membros do Povo de Deus batizamos e confirmamos, somos chamados a reafirmar nossa fé católica”. Assinala também “a importância de os leigos darem testemunho da fé”. De seguida, os autores reafirmam, em seis pontos, o ensinamento da Igreja sobre a indissolubilidade do casamento, o adultério, a questão de uma consciência subjetiva defeituosa, as normas morais absolutas, a necessidade de uma forte intenção de mudar o modo de vida para receber uma absolvição sacramental válida e ainda o facto de que os divorciados “recasados” que não pretendem viver em continência não podem receber a Sagrada Comunhão.

Eis o texto completo da declaração:

“Portanto, damos testemunho e confessamos…”

Declaração final da conferência “Igreja Católica, para onde vais?”

Roma, 7 de abril de 2018

Devido a interpretações contraditórias da Exortação Apostólica Amoris laetitia, tem alastrado o descontentamento e a confusão entre os fiéis do mundo inteiro.

O pedido urgente de esclarecimento apresentado ao Santo Padre por cerca de um milhão de fiéis, mais de 250 académicos e vários cardeais, não obteve resposta.

No meio do grave perigo que se levantou para a fé e para a unidade da Igreja, nós, membros do Povo de Deus batizamos e confirmamos, somos chamados a reafirmar nossa fé católica.

O Concílio Vaticano II nos autoriza e encoraja a fazê-lo, afirmando em Lumen Gentium n. 33: “Deste modo, todo e qualquer leigo, pelos dons que lhe foram concedidos, é ao mesmo tempo testemunha e instrumento vivo da missão da própria Igreja, «segundo a medida concedida por Cristo» (Ef. 4,7)”.

O beato John Henry Newman também nos encoraja a fazê-lo. No seu ensaio profético “On consulting the faithful in matters of doctrine [Sobre a consulta aos fiéis em assuntos de doutrina]”, de 1859, falou da importância dos leigos darem testemunho da fé.

Portanto, de acordo com a tradição autêntica da Igreja, damos testemunho e confessamos que:


1) Um casamento ratificado e consumado entre duas pessoas batizadas só pode ser dissolvido pela morte.

2) Por consequência, os cristãos unidos por um casamento válido que se juntam a outra pessoa enquanto o seu cônjuge continua vivo cometem o grave pecado do adultério.

3) Estamos convictos de que este é um mandamento moral absoluto que obriga sempre e sem exceção.

4) Estamos também convictos de que nenhum julgamento de consciência subjetivo pode fazer bom e lícito um ato intrinsecamente mau.

5) Estamos convictos de que o julgamento sobre a possibilidade de administrar a absolvição sacramental não se baseia na imputabilidade do pecado cometido, mas na intenção do penitente de abandonar um modo de vida que é contrário aos mandamentos divinos.

6) Estamos convictos de que as pessoas divorciadas e civilmente recasadas, que não estão dispostas a viver em continência, estão a viver numa situação objetivamente contrária à lei de Deus e, portanto, não podem receber a Comunhão Eucarística.

 

Nosso Senhor Jesus Cristo diz: «Se permanecerdes fiéis à minha mensagem, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres.» (Jo 8, 31-32).

Com esta confiança, confessamos a nossa fé diante do supremo pastor e mestre da Igreja juntamente com os bispos e lhes pedimos que nos confirmem na fé.

(tradução livre a partir do texto publicado em inglês no 1P5)

A edição original deste texto foi publicada pelo One Peter Five a 7 de abril de 2018. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do texto acima é da inteira responsabilidade da sua autora, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

 

Cardeal Carlo Caffarra, em Roma, a 19 de maio de 2017:

Basto 4/2018

Próximo passo dos restantes cardeais dos “dubia” em direção à correção formal

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Por Steve Skojec

Há um ano, neste dia, 14 de novembro de 2016, quatro cardeais deram o passo formal de publicar um conjunto de cinco dubia – perguntas sobre proposições teológicas duvidosas – que dirigiram diretamente ao Papa Francisco dois meses antes. Os dubia dizem respeito às diretrizes pastorais para os católicos divorciados “recasados ” que vivem more uxorio (envolvidos em relações sexuais), como delineado no magnum opus papal de 264 páginas e quase 60.000 palavras, a exortação apostólica pós-sinodal Amoris Laetitia (AL). Hoje, depois de um ano de esforços sem uma única resposta ou audiência concedida – um ano em que dois dos quatro cardeais dos dubia morreram – o cardeal Burke referiu numa nova entrevista que o silêncio do Papa é uma resposta insuficiente à grave confusão e preocupação que a sua exortação causou.

Numa entrevista dada, a 14 de novembro, ao National Catholic Register, o Cardeal Burke fez um “último apelo” ao Papa Francisco, mencionando a “cada vez pior” situação que se seguiu posteriormente à exortação.

Burke diz que a preocupação dos cardeais dos dubia sempre foi a de “determinar com precisão o que o Papa queria ensinar como Sucessor de Pedro” e reiterou a sua análise inicial do documento, dizendo que “pela sua própria natureza, afirmações que não têm essa clareza não podem ser qualificadas como expressões do magistério”. Burke continua:

É evidente que algumas das indicações da Amoris Laetitia sobre aspetos essenciais da fé e da prática da vida cristã receberam várias interpretações divergentes e às vezes incompatíveis entre si. Este facto incontestável confirma que essas indicações são ambivalentes, permitindo uma variedade de leituras, muitas das quais estão em contradição com a doutrina católica. As questões que nós cardeais levantámos dizem respeito ao que o Santo Padre ensinou exatamente e como o seu ensino se harmoniza com o depósito da fé, dado que o magistério “não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente, haurindo deste depósito único da fé tudo quanto propõe à fé como divinamente revelado. “(Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Dei Verbum, nº 10).

Referindo-se aparentemente à análise do professor Josef Seifert de que a consequência lógica da aplicação de certos princípios sugeridos na AL seria uma destruição de todo o edifício do ensinamento moral católico, Burke disse que “para entender o alcance dessas mudanças propostas, basta pensar no que aconteceria se esse raciocínio fosse aplicado a outros casos, como o de um médico que realizava abortos, de um político pertencente a uma rede de corrupção, de uma pessoa que sofre e decide pedir o suicídio assistido…”

Ao dizer que o “sentido da prática sacramental eclesial está cada vez mais em erosão na Igreja”, Burke admitiu que estava a fazer, como o entrevistador Edward Pentin lhe perguntou, um “apelo final” ao Papa, talvez dando a entender que o próximo passo não seria simplesmente outro aviso:

Sim, por estas graves razões, um ano depois de publicar os dubia, volto-me novamente para o Santo Padre e para toda a Igreja, enfatizando o quão urgente é que, no exercício do ministério que recebeu do Senhor, o Papa deva confirmar os seus irmãos na fé com uma expressão clara do ensinamento sobre a moral cristã e o significado da prática sacramental da Igreja.

Desde a sua publicação em abril de 2016, como uma reflexão dos dois sínodos sobre o casamento e a família realizados em 2014 e 2015, respetivamente, a AL provocou mais controvérsia entre teólogos, bispos e pastores do que qualquer outra ação papal existente na nossa memória.

Muitos marcos aconteceram desde que a AL se estreou publicamente no ano passado – são demais para contar. Entre os mais significativos, por ordem cronológica:

  • A 29 de junho de 2016, um grupo internacional de 45 teólogos, pastores e académicos católicos emitiu uma carta e uma análise teológica ao colégio de cardeais acerca da Amoris Laetitia. Os signatários descreveram 19 censuras teológicas – 11 das quais foram rotuladas como heréticas – com base numa “leitura natural” da AL. Em 26 de julho de 2016, o seu documento e a carta com suas assinaturas foram publicados depois de serem divulgados à imprensa, presumivelmente por um dos destinatários.
  • A 19 de setembro de 2016 – dez dias após a carta do Papa que apoiava a sacrílega interpretação da Amoris Laetitia dos bispos da região de Buenos Aires – quatro cardeais católicos – Walter Brandmüller, Raymond Burke, Carlo Caffarra e Joachim Meisner – enviaram uma carta ao Papa referindo “a grave desorientação e a grande confusão de muitos fiéis em questões extremamente importantes para a vida da Igreja”. A carta incluiu cinco dubia – o procedimento formal pelo qual teólogos e prelados podem pedir a Roma esclarecimentos sobre questões relativas ao ensinamento da Igreja.
  • Em 14 de novembro de 2016, depois de não terem recebido resposta papal, os quatro “cardeais dos dubiapublicaram a sua carta, incluindo os cinco dubia referentes às várias proposições da Amoris Laetitia.
  • Em 7 de dezembro de 2016, o bispo Athanasius Schneider de Astana, Cazaquistão, – uma das vozes ortodoxas mais abertas na Igreja – afirmou numa entrevista a uma estação de televisão francesa que, se os dubia permanecessem sem resposta, haveria “não só um risco de cisma” mas que “existe já um certo tipo de cisma na Igreja”. “Estamos hoje a testemunhar”, afirmou o bispo Schneider, “uma forma bizarra de cisma. Externamente, numerosos clérigos salvaguardam a unidade formal com o Papa, às vezes pelo bem das suas próprias carreiras ou por uma espécie de papolatria. Simultaneamente, quebraram laços com Cristo, a Verdade, e com Cristo, o verdadeiro Chefe da Igreja”.
  • Em 13 de dezembro de 2016, eu delineei as cinco respostas simples de uma palavra que poderiam pôr fim à controvérsia dos dubia de uma vez por todas.
  • Em 19 de dezembro de 2016, o cardeal Burke – o cardeal dos dubia com maior destaque no mundo anglófono – disse numa entrevista com Lisa Bourne, do Life Site News, que os dubia “precisam de obter uma resposta porque têm a ver com os próprios fundamentos da vida moral e o ensinamento constante da Igreja em relação ao bem e ao mal”. Questionado sobre o calendário para uma eventual “correção formal” ao Papa na ausência de uma resposta aos dubia, Burke indicou que, se tal ação for necessária, provavelmente ocorreria algum tempo depois da Epifania, em 2017.
  • Também em 19 de dezembro de 2016, o cardeal Burke explicou, numa entrevista ao Catholic World Report, que havia uma base bíblica para corrigir um Papa (Gal 2:11) e indicou que existiam mais prelados do que os quatro cardeais que apoiavam os dubia. Quando perguntado se era possível para o Papa “separar-se da comunhão com a Igreja” por “cisma ou heresia”, Burke respondeu: “Se um Papa professasse formalmente heresia, ele deixaria, por esse ato, de ser o Papa. É automático. Então isso poderia acontecer.”
  • Em 24 de dezembro de 2016, o importante jornal alemão Der Spiegel publicou um artigo em que se afirmava que, entre um “círculo muito pequeno” de pessoas próximas ao Papa, Francisco explicou que era possível ele “entrar na história como aquele que dividiu a Igreja Católica”.
  • Em 11 de janeiro de 2017, John F. Salza, coautor do livro “Verdadeiro ou Falso Papa”, delineou, num artigo para o The Remnant (mais tarde republicado no 1P5), o que poderia acontecer, juridicamente falando, se o Papa Francisco continuasse a recusar responder aos dubia.
  • Em 17 de janeiro de 2017, três dos bispos do Cazaqusitão – Tomash Peta, arcebispo metropolitano da arquidiocese de Santa Maria de Astana, Jan Pawel Lenga, arcebispo-bispo emérito de Karaganda e Athanasius Schneider, bispo auxiliar da arquidiocese de Santa Maria de Astana – emitiu uma declaração conjunta solicitando orações aos fiéis para que o Papa Francisco “confirmasse a práxis imutável da Igreja em relação à verdade sobre a indissolubilidade do casamento”. Os bispos deram exemplos específicos de como a Amoris Laetitia contém “diretrizes pastorais” que contradizem “na prática” certas “verdades e doutrinas que a Igreja Católica continuamente ensinou como sendo seguras”.
  • Em 25 de março de 2017, o Cardeal Burke deu uma palestra numa paróquia em Springfield, na Virgínia, na qual falou sobre a disseminação de uma “confusão muito prejudicial na Igreja” e a necessidade de resposta aos dubia. Questionado sobre o que aconteceria se o Papa não respondesse, o cardeal Burke respondeu: “simplesmente teremos que corrigir novamente a situação, de forma respeitosa […] traçar a resposta às questões [dubia] a partir dos ensinamentos constantes da Igreja e dá-las a conhecer para o bem das almas”.
  • Em 8 de junho de 2017, a Conferência Episcopal da Polónia completou a sua assembleia geral, depois da qual o seu porta-voz, Pawel Rytel-Andrianik, disse que “o ensinamento da Igreja em relação à Sagrada Comunhão para as pessoas que vivem em relações não sacramentais” não mudou “após o documento papal Amoris Laetitia“.
  • Em 19 de junho de 2017, o veterano vaticanista Sandro Magister publicou uma carta do cardeal dos dubia Carlo Caffarra, escrita em 25 de abril de 2017, na qual pedia “que fosse concedida uma audiência papal para que pudessem discutir os dubia que ainda não foram respondidos.” À data da publicação da carta já tinham passado dois meses sem, novamente, qualquer resposta do Papa ao pedido de audiência.
  • Em 5 de julho de 2017, o cardeal Joachim Meisner, um dos quatro cardeais dos dubia, faleceu durante as férias em Bad Füssing, na Alemanha, aos 83 anos. No momento da sua morte, ainda não havia resposta ao pedido de audiência solicitado. Numa mensagem lida no funeral de Meisner, o Papa Emérito Bento XVI lembrou aos que lamentavam o seu amigo que “O Senhor não abandona a Igreja”.
  • Em 31 de agosto de 2017, o eminente filósofo católico austríaco, o professor Josef Seifert, foi forçosamente “aposentado”, pelo seu arcebispo, da sua posição na cadeira de Dietrich von Hildebrand, da Academia Internacional de Filosofia de Granada, Espanha, em resposta à sua segunda crítica à Amoris Laetitia. Académicos católicos e até mesmo um bispo reagiram imediatamente à injustiça desta ação.
  • Em 6 de setembro de 2017, quase dois meses depois da morte do cardeal Meisner, o cardeal Carlo Caffarra, outro dos quatro cardeais dos dubia, faleceu aos 79 anos. Nenhuma mensagem do Papa Emérito foi lida no funeral de Caffarra.
  • Em 12 de setembro de 2017, Gabriel Ariza, da publicação de língua espanhola Infovaticana, revelou que o falecido Cardeal Caffarra havia confirmado, poucos meses antes de sua morte, que sabia que os cardeais dos dubia estavam a ser “vigiados” e que eles “tinham suas comunicações sob escuta” e que podiam “fazer pouco mais do que procurar alguma forma de comunicação mais segura”.
  • Em 27 de setembro de 2017, um grupo de clérigos católicos e académicos leigos tornaram pública uma “Correção Filial” que fora entregue primeiramente ao Papa no dia 11 de agosto, depois do que, também eles, não receberam resposta. A sua carta deu um passo sem precedentes ao usar a palavra “heresia” em referência não apenas a possíveis interpretações da exortação apostólica Amoris Laetitia, mas também a outras “palavras, ações e omissões” recentes do Papa. Desde a sua publicação, a lista de clérigos e académicos signatários cresceu para 250, enquanto duas petições (aqui e aqui) de apoio à Correção Filial obtiveram mais de 20 mil assinaturas adicionais de leigos.
  • Em 29 de setembro de 2017, o cardeal Gerhard Müller, antigo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, afirmou, numa entrevista com Edward Pentin, que “as pessoas que trabalham na Cúria vivem com grande medo: se eles proferem uma crítica pequena ou inofensiva, alguns espiões passarão os comentários diretamente ao Santo Padre e as pessoas, falsamente acusadas, não têm possibilidade de defesa.” Quando perguntado por Pentin sobre a expressão “reino de terror”, que havia sido usada por um respeitável elemento da Igreja, Müller respondeu: “Acontece o mesmo em algumas faculdades teológicas – se alguém tiver alguma observação ou pergunta sobre Amoris Laetitia, serão expulsos e outras coisas mais.”
  • No dia 1 de novembro, o Pe. Thomas Weinandy – um frade capuchinho que antes exercera como chefe de gabinete do Comité de Doutrina dos Bispos dos EUA, sendo também atualmente membro da Comissão Teológica Internacional no Vaticano, publicou uma carta que enviou ao Papa – que também não recebeu nenhuma resposta – descrevendo as preocupações que teve a respeito da “confusão crónica” que ele acredita que marca “este pontificado”. A primeira das suas cinco críticas foi dirigida à Amoris Laetitia, sobre a qual ele afirma que a orientação do Papa às vezes parece intencionalmente ambígua, convidando a uma interpretação tradicional do ensino católico sobre casamento e divórcio, bem como a uma que possa implicar uma mudança nesse ensinamento.” Ele falou mais tarde de um clima de medo na Igreja, dizendo que “muitos temem que se dizem o que pensam” no que concerne à preocupação sobre o que está a acontecer na Igreja, “eles serão marginalizados ou pior”. Após a publicação da sua carta,  ficou provado que o Pe. Weinandy estava correto quando foi convidado a renunciar à sua posição na Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos – um pedido com o qual ele cumpriu.

A ausência de uma correção formal em outubro – marcando o 100º aniversário da última aparição de Fátima – deixou muitos católicos a questionar se a ação será mesmo tomada. A revelação de hoje deixa, no entanto, claro que o esforço dos dubia – bem como a correção formal que necessariamente deverá dar-lhe seguimento – está no caminho e em andamento.

A edição original deste texto foi publicada pelo One Peter Five a 14 de novembro de 2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do texto acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 11/2017

Cardeal Brandmüller: defensores do adultério estão excomungados

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Por Maike Hickson

Um dos dois restantes cardeais dos dubia, o cardeal Walter Brandmüller, acaba de dar uma entrevista ao proeminente jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ), que foi publicada hoje, 28 de outubro. Nessa longa entrevista, o prelado alemão de 88 anos explica mais uma vez o ensinamento fundamental da Igreja Católica a respeito do casamento no seu caráter sacramental e indissolúvel, tal como foi apresentado pelo próprio Jesus Cristo. O cardeal Brandmüller – que é conhecido pela sua corajosa franqueza – fez algumas observações que podem ser de especial interesse para os nossos leitores. Ou seja, ele deixou claro que esse ensinamento sobre o casamento não pode ser alterado:

Ou seja, aquele que afirma que alguém pode iniciar um novo relacionamento enquanto a própria esposa legítima ainda está viva está excomungado porque esse é um ensinamento erróneo, uma heresia. Quem faz essa afirmação [está excomungado]. E aquele que simplesmente o pratica [adultério] está a pecar gravemente. E então acrescenta-se que quem é consciente de um pecado grave só pode ir à comunhão se já fez penitência, confessou seus pecados e foi absolvido. Portanto, se alguém pensa que pode contrariar o dogma definido num Concílio Geral [Concílio de Trento], então isso é realmente bastante veemente. Isso é exatamente o que se chama heresia – o que significa exclusão da Igreja – porque se abandonou o fundamento comum da Fé. [ênfase adicionada]

Quando questionado relativamente a um teólogo progressista alemão – Magnus Striet – que recentemente afirmou que o documento papal Amoris Laetitia muda efetivamente o ensinamento da Igreja e não, como alguns afirmam, se limita a aprofundá-lo, o Cardeal Brandmüller confirma essa opinião e argumentação, dizendo:

Ele está certo, claro. De facto, ainda há pessoas que podem raciocinar. Tenho a grande preocupação de que algo vai explodir. As pessoas não são estúpidas. O facto, por si só, de que um pedido de esclarecimento dirigido ao Papa, com 870.000 assinaturas, [e também] de que 50 académicos de reputação internacional ficaram sem resposta, levanta realmente algumas questões. Isso é verdadeiramente difícil de entender.

Os jornalistas do Frankfurter Allgemeine Zeitung levantam também a questão da atmosfera alterada e um tanto de temor em Roma sob o Papado Francisco (como foi recentemente discutido pelo próprio Cardeal Gerhard Müller), incluindo a tensa atmosfera durante os “manipulados” sínodos da família . O próprio Cardeal Brandmüller também confirma indiretamente tais questões quando afirma: “Sim, essa crítica está a ser cada vez mais manifestada – até nos artigos de Ross Douthat no New York Times“. E o prelado alemão continua deste modo:

Há jornalistas que dizem que a atmosfera mudou totalmente no Vaticano. Só se fala com os amigos mais próximos. Se alguém fala ao telefone, prefere usar o telemóvel. Que posso eu dizer sobre isso?

O cardeal alemão é também, mais uma vez, chamado a explicar as principais preocupações dos dubia, dado que foram apresentadas ao Papa por ele próprio conjuntamente com os outros três cardeais dos dubia. Ele explica que, em caso de falta de clareza, colocar esses dubia é um processo normal dentro da Igreja Católica. O cardeal Brandmüller acrescenta algumas palavras específicas sobre os atuais dubia em relação à Amoris Laetitia:

Simplificando, é aqui que se coloca a questão: pode ser hoje bom algo que tenha sido ontem um pecado? Além disso, a questão está a ser colocada sobre se existem verdadeiramente – como diz o ensinamento constante – atos sempre e sob todas as circunstâncias moralmente reprováveis? Tal como no caso da morte de uma pessoa inocente – ou também do adultério, por exemplo? É para aí que isto se encaminha. Poderia a primeira questão ser agora efetivamente respondida com “sim” e a segunda com um “não”, então isso seria uma heresia e, consequentemente, um cisma. A divisão da Igreja. [ênfase adicionada]

Quando questionado se um cisma é agora realmente imaginável ou provável, o cardeal alemão responde: “Que Deus o proíba”.

Essas declarações penetrantes do Cardeal Brandmüller chegam até nós na sequência de outra entrevista alemã, na qual o teólogo protestante e secretário geral da Aliança Evangélica Mundial – Professor Thomas Schirrmacher – que é amigo do Papa Francisco, anunciou que o grupo de católicos que resiste às reformas papais “não é uma minoria”. Como Schirrmacher disse à publicação do jornal alemão Die Zeit, Christ & Welt, em 26 de outubro, sobre o papa Francisco:

Ele criou imensos inimigos no Vaticano e está a correr um grande risco. Vozes sonantes na sua Igreja estão já a negar que ele ainda é Papa. […] Hoje, há conversas abertas sobre quais os tipos de meios existentes de resistência contra o Papa. Para um protestante, isso deixou de soar muito católico. O Vaticano ainda faz de conta, como se essa fosse apenas uma pequena minoria que procura o confronto. Mas essa [resistência] deixou de ser uma minoria. [ênfase adicionada]

A edição original deste texto foi publicada pelo One Peter Five a 28 de outubro de 2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do texto acima é da inteira responsabilidade da sua autora, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 11/2017