Donald Trump responde a Pyongyang com termos semelhantes aos de Truman aquando de Hiroshima

Depois de mais uma ameaça histérica dos norte-coreanos aos EUA, o presidente dos Trump respondeu com termos que fazem lembrar a declaração proferida pelo presidente Harry Truman quando a força aérea americana tinha acabado de lançar a bomba atómica sobre Hiroshima.

Se eles [os japoneses] não aceitarem os nossos termos [de rendição] agora, podem esperar uma chuva de ruína vinda do ar como nunca se viu nesta Terra.

(Harry Truman, em 6 de agosto de 1945, in Footage Farm – tradução)

A diferença nas duas declarações, conforme reparou o Washington Examiner, é que, enquanto Truman contextualizou a ameaça num discurso elaborado que se estendeu por mais de 1100 palavras, Trump disse-o em menos de 100 palavras. Uma declaração curta e seca, feita de improviso, ao estilo imprevisível de Donald Trump. Mas em ambos os casos a mensagem foi clara, a persistência na mesma atitude encontrará uma resposta militar dos EUA de escala inédita.

Basto 8/2017

Renasce a ameaça nuclear

A crescente tensão entre a NATO e a Rússia, que se agudizou desde 2014 com o conflito ucraniano, reacende os temores de um conflito nuclear, mas apenas para alguns… A aceitação desta possibilidade, por parte da opinião pública ocidental, é hoje muito reduzida, face ao que acontecia no auge da Guerra Fria.

O longo período de paz, resultante da ordem estabelecida após a II Guerra Mundial, criou uma habituação psicológica geral que, de forma lógica e automática, rejeita qualquer ideia que inclua a possibilidade de um novo grande conflito internacional de grande escala. É como se tivéssemos já atingido a última fase da evolução civilizacional, a partir da qual só podemos aspirar à perfeição do paraíso terrestre, inerentemente pacífico.

Esta ideia de paz inquebrável, para além de ser extremamente ingénua, não nos atribui qualquer imunidade. Pelo contrário, conduziu-nos a uma situação de impreparação geral, quer dos estados, quer das pessoas, para poder reagir perante uma situação de crise, se ela algum dia acabar por acontecer

A possibilidade de um novo conflito internacional de larga escala não é de todo descabida e deve, portanto, estar na consciência das pessoas. É um cenário a evitar por todos os meios, incluindo o mais importante: a oração. É que, ao contrário do que aconteceu em outros grandes conflitos, o potencial do armamento hoje disponível poderia criar uma situação verdadeiramente apocalítica.

Em março de 2014, enquanto a grande multidão de gatos gordos ocidentais consumia lixo mediático, a televisão russa abria o telejornal com a ameaça de reduzir os EUA a cinzas radioativas. Uma manchete televisiva que seria depois transformada numa notícia redundante, desvalorizada pela população do lado de cá.

Quem tem a curiosidade de seguir as notícias nos principais órgãos noticiosos russos de projeção internacional, como a RT, a Interfax, a Sputnik ou a Tass, só pode ficar estupefacto face à excessiva cobertura jornalística dada a tudo o que se relaciona com armamento, manobras militares e geoestratégia. Estes órgãos de comunicação social – cuja obetividade é muitas vezes questionada – obedecem a critérios editoriais que convergem com a agenda do poder político russo e com a maioria da população que o suporta. Portanto, este desinteresse pelas questões de defesa e de segurança nacional é uma realidade meramente ocidental. Ainda assim, de vez em quando, por aqui, lá vai surgido uma ou outra abordagem mais a sério sobre o assunto.

Por exemplo, em fevereiro deste ano, a BBC realizou um excelente programa documental onde simulou um plausível cenário de guerra entre a Nato e a Rússia com recurso a armas nucleares. Colocou-se então a hipótese de surgir uma situação de instabilidade nas repúblicas do Báltico idêntica à que se criou recentemente na Ucrânia, onde o envolvimento da Rússia seria semelhante. As três repúblicas do Báltico (Estónia, Letónia e Lituânia) fizeram parte da União Soviética e hoje são estados-membro na NATO.

Este trabalho feito pela televisão britânica intitula-se “III Guerra Mundial: dentro do gabinete de guerra” pode ser visto integralmente aqui. O seu argumento foi elaborado com base no contributo de especialistas em defesa militar, os quais foram convidados a refletir sobre uma eventual decisão política, problemática, face à necessidade e inevitabilidade do recurso às armas nucleares no conflito.

Este documentário foi duramente criticado pelo Kremlin, de onde recebeu a classificação de “lixo”.

Para além dos esporádicos trabalhos dos jornalistas, hoje existe também uma ferramenta informática que permite avaliar as consequências de um eventual ataque nuclear sobre uma determinada localidade. Nesta aplicação, elaborada a partir da base cartográfica do Google Earth, o utilizador escolhe um alvo (uma localização), define a potência da bomba a detonar e, de seguida, obtém a simulação da explosão e o cálculo das baixas estimadas.

simulador nuclear
Simulador de ataques nucleares

Enquanto andarmos apenas pelo domínio das simulações estaremos nós bem. Que Deus nos livre dos perigos reais.

 

Basto 7/2016