Carta Pastoral do Sínodo dos Bispos da Igreja Greco-Católica Ucraniana em 2022

“Vencer o mal com o bem!” (Romanos 12:21) Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos. (João 15:13).

Amados em Cristo!

Pelo quinto mês, uma guerra brutal e em larga escala está a ser travada em solo ucraniano. Veio em 2014 sem ser convidada, insidiosa e, a partir de 24 de fevereiro, o inimigo deixou cair todas as suas máscaras anteriores e para abertamente destruir a Ucrânia.

O exército russo mata inocentes e viola os indefesos, sequestra crianças e deporta os habitantes dos territórios ocupados, tortura prisioneiros e faz passar fome os sitiados, rouba os cereais que plantamos e saqueia nossas casas, anexa terras e destrói empreendimentos confiscados, incendeia cidades pacíficas e aterroriza moradores. A liderança russa procura destruir o Estado Ucraniano e despojar-nos do nosso nome. “Os teus olhos e o teu coração apenas procuram satisfazer a tua cobiça, derramar sangue inocente
e exercer a opressão e a violência. (Jr 22:17). Como no século XX, o território da nossa Pátria transformou-se novamente em “terras sangrentas”.

Condenamos veementemente esta guerra! Porque “o Senhor abomina a conduta do ímpio” (Pv 15:9). O mundo tem a obrigação moral de reverter essa agressão contra a Ucrânia!

As intenções do agressor são claramente genocidas: desde os primeiros dias, as táticas de guerra mostram que ele não está a lutar contra o exército, mas contra o povo. A Rússia está a tentar satisfazer os seus apetites imperiais: a sua liderança considera a Ucrânia uma colónia, um não-estado que não merece um lugar no mapa político do mundo. Para ser grande, um império precisa de colónias – terras escravizadas, conquistadas, recursos, escravos. A lógica genocida colonial dita estratégias de terra queimada, que não poupam nada nem ninguém. Não há nada sagrado – nem o idoso, nem a mulher grávida, nem o bebé na maternidade, nem as crianças escondidas no teatro. Não reconhece valor a um monumento histórico ou a uma cidade industrial, a um edifício residencial com centenas de moradores ou a hectares de terra com cereais maduros. Tudo e todos podem ser destruídos “por causa das ações operacionais.” Todos os dias, como se estivesse em transe, o mundo inteiro contempla a barbárie, a decadência moral e a vilania dos agressores. A Ucrânia, por outro lado, defende-se, porque o seu povo, de uma vez por todas, recusou tornar-se escravo, tentando simplesmente viver em liberdade a vida e a dignidade que Deus lhe deu. Ninguém ouse a tirar-lhe isso – assim diz o Senhor.

A Ucrânia não quer conquistar ou humilhar a Rússia. A Ucrânia quer que o vizinho agressor – com um território 28 vezes maior, que se estende por 11 fusos horários e uma população quase quatro vezes maior – pare com as suas tentativas seculares de escravizar e destruir a Ucrânia, libertando-se da patologia do imperialismo e tornando-se um estado de direito que respeita os direitos dos outros. O ladrão tem de sair de nossa casa! A Igreja Ortodoxa Russa deve parar de promover ideologicamente a heresia do “mundo russo”! Num momento em que várias Igrejas cristãs repensam com arrependimento o seu papel histórico na política do colonialismo e na prática da escravidão, a Igreja Ortodoxa Russa está a levar os seus fiéis às trevas morais da violência, agressão e crimes de guerra. O sal perdeu o sabor e a luz deixou de brilhar (cf. Mt. 5:13-16).

A guerra do invasor causou uma catástrofe humanitária e ecológica, uma crise económica e demográfica no nosso país. Em cinco meses, cerca de nove milhões de residentes deixaram a Ucrânia, em particular, dois milhões de adultos e crianças foram deportados à força para a Rússia pelo invasor e cerca de sete milhões foram forçados deslocar-se internamente, 15,6 milhões carecem de apoio humanitário. Milhares de famílias estão separadas por quilómetros e fronteiras. O número de viúvas e órfãos aumenta diariamente. O agressor está a fazer de tudo para tornar nossa Pátria um território inabitável, cidades e regiões estão desertas. A escala dessa enorme alteração demográfica está para além da nossa compreensão, mas sentiremos seus efeitos por décadas.

A tragédia da guerra feriu direta e profundamente a nossa Igreja. Algumas das nossas paróquias foram ocupadas e saqueadas. Afinal, ao longo dos séculos passados, cada vez que a bota do invasor russo – seja ele czarista, soviético ou putinista – pisou em nossa terra, a Igreja Greco-Católica Ucraniana foi perseguida e destruída. No entanto, em todas as vezes, dando testemunho da sua fé e mostrando perseverança na perseguição, pela vontade do Senhor, ela foi restaurada com uma nova força. Acreditamos e sabemos que desta vez também será assim. Expressamos solidariedade e apoio aos nossos bispos, sacerdotes, pessoas consagradas e leigos que estão na linha da frente e nos territórios ocupados, ou foram forçados a deixar suas casas e paróquias. Acreditamos que regressarão às suas casas, e as nossas paróquias irão reviver e desenvolver-se. Expressamos palavras de fraternidade e solidariedade aos católicos romanos, ortodoxos, protestantes, judeus e muçulmanos da Ucrânia que estão sob ameaça mortal, não menos do que nós. Permaneceremos juntos!

A coragem e a unidade do nosso povo na defesa de sua independência foram surpreendentes até mesmo para muitos ucranianos, para não mencionar os outros países. Heroica resistência militar, dedicação e sacrifício de voluntários, unidade e unanimidade das comunidades religiosas, que se tornaram importantes centros de ajuda mútua e amor ao próximo, provam que tal povo não pode ser escravizado.

Eles queriam enterrar-nos, mas não sabiam que somos sementes. Este ditado tornou-se um slogan da indomabilidade, resiliência e força de resistência às dificuldades que os ucranianos estão a demonstrar. Ecoa o ditado do escritor cristão Tertuliano: “O sangue dos mártires é a semente da Igreja”. Nós inclinamos nossas cabeças perante todos aqueles que se sacrificaram e estão a sacrificar-se para proteger os inocentes, para defender a verdade, para defender nossa sagrada dignidade humana dada por Deus.

Um sacrifício tremendo e doloroso, porque é autêntico e pascal, gera frutos abundantes e vivificantes. No meio da morte que o inimigo semeia por toda parte com todo o seu arsenal de malícia e ódio, brotam rebentos de força e nobreza imensuráveis. Deus acendeu as almas dos ucranianos com fé na vitória da verdade de Deus. Numa era de ditadura relativista, os ucranianos claramente chamam as coisas pelo nome: há verdade, bondade, princípios e valores pelos quais se deve viver e pelos quais se pode até morrer, assim como há mentiras e maldade insidiosa. A Ucrânia uniu a Europa, curou as suas fissuras e inspirou pessoas de boa vontade em todo o mundo. As Sagradas Escrituras ganham vida diante dos olhos da humanidade e o Senhor da história manifesta um milagre: David confronta Golias. Soldados ucranianos que protegem do ataque as suas cidades natais, a vida de familiares e entes queridos, a liberdade e a dignidade do povo, juntamente com David dizem: “Tu vens a mim com uma espada, uma lança e um dardo, mas eu irei a ti em nome do Senhor dos exércitos… a quem desafiaste” (1 Sam. 17:45). Expressamos o nosso sincero reconhecimento a todos aqueles que abnegadamente defendem a verdade e a justiça.

Agradecemos aos sacerdotes-capelães que, arriscando suas vidas, estão ao lado de nossos defensores, rezam com eles, levam Cristo até eles e prestam apoio humanitário.

Através do seu sofrimento e luta desesperada pela existência, a Ucrânia tornou-se o epicentro das mudanças globais. Muitas pessoas e nações estão a perder os seus antolhos: torna-se claro que os recursos baratos não valem o custo de capacitar ditadores; que o sistema de segurança mundial está enfraquecido e a paz ameaçada se, em nome da prosperidade, não for dada atenção aos princípios divinos e o comportamento dos violadores for ignorado; que nenhum homem ou país é uma ilha distante, mas que toda a humanidade está interligada em diferentes níveis, e se a injustiça é feita a um país, os outros não podem ficar indiferentes. “Nunca mais” passa de slogan histórico a um imperativo moral.

Pela vontade de Deus, a verdade tornou-se clara e a mentira desapareceu, porque “nenhuma mentira é da verdade” (1 João 2:21). O próprio facto da agressão não provocada da Rússia, reforçada pelos crimes de guerra dos invasores russos, causou uma enorme onda de apoio aos ucranianos no mundo. O nível sem precedentes de assistência humanitária aos refugiados e deslocados temporários é um testemunho autêntico do amor cristão: “Era refugiado e vós me recebestes; Estava em aflição e vós viestes em meu auxílio” (cf. Mt. 25:35-36). Por esta hospitalidade e generosidade de vários povos, Igrejas, bispos, sacerdotes, monges e freiras, fiéis leigos e pessoas de boa vontade em vários países de vários continentes, expressamos a nossa profunda gratidão. Também expressamos os nossos sinceros agradecimentos aos conventos, ordens religiosas e congregações, na Ucrânia e no exterior, que acolheram milhares de pessoas deslocadas à força e partilham com elas tudo o que têm. Como nos tempos das primeiras comunidades cristãs, a abundância alguns superou a necessidade de outros (cf. 2 Cor. 8:14).

Nos dias de hoje, perguntamo-nos: o que nos dá força para lutar e resistir a um inimigo que nos supera dez vezes em poder militar? Se reformularmos a pergunta para “quem” nos dá força, então a resposta torna-se óbvia. Deus dá-nos força porque Ele é o Senhor dos poderes. Porquê? Porque nós amamos! O poder dos ucranianos é o poder do amor. Os nossos soldados são guiados pelo princípio, não de odiar os outros, mas de amar os próprios – filhos, entes queridos, pais, amigos, terra, ruas onde nasceram, amanheceres, neblinas… O amor manifesta-se no trabalho incansável dos voluntários, nas generosas doações de milhões, na sincera oração silenciosa. E através deste amor já vencemos.

Este terreno moral elevado deve ser preservado. Só venceremos se continuarmos a amar, se não desviarmos nem um pingo da fórmula bíblica para esta vitória: “Sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte” (1 João 3:14). O amor gera heróis mas o ódio gera criminosos. A crueldade da guerra desumaniza e, por isso, nós, como nação que se defende e como Igreja que une o povo na família de Cristo, devemos fazer todos os esforços para preservar a nossa dignidade e humanidade, sem nunca nos rebaixarmos à desumanidade e atrocidades do agressor. Protejamos do mal os corações dos nossos soldados, para que permaneçam guerreiros da luz e do bem! Vamos proteger os nossos próprios corações! Transformemos a nossa raiva e o nosso ressentimento em coragem, indomabilidade, verdadeira sabedoria e na vitória da verdade de Deus. São Paulo exorta-nos: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12,21).

Como ser Igreja?

Os princípios que adotamos na Carta Pastoral de 2021, “A esperança a que o Senhor nos chama”, refletindo sobre o nosso futuro e estabelecendo as prioridades pastorais da nossa Igreja para a próxima década, vêm à superfície e adquirem um significado particular perante o cenário da guerra. Aproveitando a experiência da pandemia, que afetou profundamente os vínculos e as estruturas sociais, enfatizamos a necessidade de conversão pastoral, de construção de redes de comunhão, de cura de feridas e de proximidade e atenção prática aos pobres e marginalizados. Com base na experiência das nossas comunidades, buscamos descrever uma metodologia e a guerra criou um contexto em que cada um de nós pode refletir mais profundamente sobre o que essa metodologia e esses princípios significam e a que conclusões práticas e ações eles levam.

Nossa conversão pastoral significará estar perto de nossos fiéis – no sofrimento, na dor, nas provações, na morte. “Se um membro sofre, todos sofrem juntamente” (1 Coríntios 12:26). A expressão “cheirar a ovelha” retorna ao seu significado cristão original e radical – dar a vida pelo curral confiado. A guerra leva-nos a continuar construindo laços de solidariedade entre pessoas, paróquias e países com novo fervor e resiliência; feridas novas, até agora inéditas, exigirão de todos a oração persistente e o trabalho generoso, para que, com o óleo da misericórdia divina e da compaixão humana, sejam curadas e transformadas em fontes de esperança; enquanto ajudar os pobres e marginalizados exigirá de nós novas abordagens e criatividade no amor.

Em outubro de 2021, na abertura do Sínodo dos Bispos da Igreja Católica, o Papa Francisco enfatizou que somos chamados à unidade, à comunhão, à fraternidade, que aparecem justamente quando percebemos que somos todos igualmente abraçados pelo amor de Deus. Por outras palavras, a nossa unidade ou solidariedade não é uma construção social, mas a nossa identidade em resposta ao amor de Deus. “Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1 Jo. 4:8).

A guerra ensina-nos de forma radical, através da dor, dos sacrifícios e do sofrimento que traz a cada dia, a ser a Igreja de Cristo: acreditar inabalavelmente no poder do bem e viver com amor ativo. “Pois quem não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 Jo 4:20).

Somos chamados a ser uma Igreja próxima

Na Ucrânia e no exterior, as nossas paróquias criam redes de oração e apoio. Junto com as orações pela paz, resgate, feridos e caídos, ressoam apelos para recolha de doações, encontrar voluntários ou embalar e desembalar recursos materiais. O trabalho difícil e meticuloso continua. Através do testemunho da Igreja e dos nossos fiéis em vários países do mundo, a verdade está a ser difundida e cresce a consciência do que as pessoas na Ucrânia estão a viver. Uma igreja que está próxima do sofrimento, da dor humana, está viva e não se tornará um museu.

Somos chamados a ser uma Igreja que escuta

Capelães e padres, representantes do monaquismo ou fiéis leigos, que trabalharam com aqueles que sobreviveram à ocupação, bombardeio, mutilação ou perda de familiares, notam que as palavras de consolo mais importantes são “eu estou contigo!” Contacto, atenção, humanidade, oração – estas são as principais ferramentas para o cuidado pastoral em tempo de guerra. Ouvir o outro, ouvir a sua história, aceitar a sua dor – nas nossas circunstâncias, isso é o que significa ser Igreja.

Somos chamados a ser uma Igreja que cura as feridas

Durante a sua missão terrena, Cristo curou os cegos, aleijados, possessos, a fim de finalmente curar a humanidade e todo ser humano da doença, da morte e do pecado. Cristo entregou à Igreja o seu ministério de curar feridas, de reabilitar o outro. Em tempo de guerra, a cura de feridas espirituais, lidar com traumas e angústias, é uma das tarefas primordiais da Igreja e dos seus ministros. “Carregais os fardos uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6:2). As feridas e traumas das pessoas a quem somos chamados a servir são, na sua maioria, visíveis e evidentes, mas às vezes estão escondidos ou envoltos em bandagens de raiva, medo ou desapego fingido.

A Igreja, ela mesma ferida pelo sofrimento e pela dor do desastre da guerra, é chamada a levar a todos os necessitados e feridos a graça medicinal do Espírito Santo nos Santos Mistérios (Sacramentos) e no acompanhamento espiritual, o remédio da consolação e amor misericordioso. Nas feridas humanas reconhecemos as feridas do nosso Salvador e, ao tocar o sofrimento humano, redescobrimos o contacto com Cristo ressuscitado, cujas feridas se tornaram um sinal da vitória final de Deus sobre as forças obscuras e destrutivas do pecado.

Assim, em Seu Filho, crucificado pelos pecados de todos os homens e ressuscitado dos mortos pelo poder do Espírito Santo, o próprio Deus Pai vem ao encontro de Seus filhos que sofrem e transforma a paciência humana em fonte de esperança e vida eterna. A palavra de Deus, pela boca do apóstolo São Paulo, assegura-nos isso: “Mas, se morremos com Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos. Sabemos que Cristo, ressuscitado de entre os mortos, já não morrerá; a morte não tem mais domínio sobre Ele. Pois, na morte que teve, morreu para o pecado de uma vez para sempre; e, na vida que tem, vive para Deus.” (Romanos 6:8-10)

Somos chamados a ser uma Igreja que reza pela paz e busca a justiça

“Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou.” (João 14:27) A paz é um dos dons do Espírito Santo e, no meio da dor das notícias angustiantes diárias, a Igreja suplica incessantemente ao Senhor a paz para a sofrida Ucrânia e trabalha em conjunto com os outros para restaurar a paz e a justiça na nossa terra.

Somos chamados a ser uma Igreja que dá esperança

Nós, cristãos, somos pessoas de esperança, não porque “esperamos algo melhor”, mas porque cremos em Deus e na vida eterna para a qual o Senhor nos convida.  A esperança não nos envergonha, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5:5). Paradoxalmente, é precisamente esta fé que nos permite viver plena e profundamente os acontecimentos terrenos, esta guerra em particular. Na perspetiva da eternidade, a realidade quotidiana não se confunde, mas, pelo contrário, adquire contornos claros, o valor sagrado de cada pessoa vem à superfície.

***

Queridos irmãos e irmãs em Cristo! Por causa da pandemia, nós, os bispos da IGCU, não nos víamos pessoalmente há três anos. A alegria do nosso reencontro fraterno foi, no entanto, ofuscada pelos horrores da guerra. Foi a guerra, o sofrimento que ela inflige ao nosso povo e os últimos desafios causados ​​pela agressão militar russa contra nossa Pátria, que estiveram no centro das nossas orações, conversas e reuniões sinodais. Além disso, durante a sessão do Sínodo deste ano, refletimos sobre o tema “Sinodalidade e comunhão: a experiência da IGCU”. No contexto das atuais circunstâncias, este não é um tema abstrato. Pelo contrário, a calamidade que o nosso Estado e nosso povo estão a viver chamou-nos a redescobrir o poder da unidade e a necessidade de uma solidariedade diária e duradoura para a vitória. “Na unidade está a força do povo. Deus, dai-nos a unidade!” Sentimos ainda mais intensamente que fomos chamados a fortalecer a unidade dentro do país e a apoiar os nossos fiéis e todas as pessoas de boa vontade fora das suas fronteiras.

Que o poder e a ação do Espírito Santo nos deem a unidade e a fé inabaláveis ​​na vitória da verdade de Deus!

Que o Senhor fortaleça e abençoe os nossos defensores, voluntários, médicos, funcionários do Serviço de Emergência do Estado, o governo legítimo da Ucrânia e todos aqueles que protegem e libertam a Ucrânia do agressor!

Que Ele abrace as famílias daqueles que morreram, os órfãos e as viúvas, os presos e os desaparecidos em ação!

Que Ele conceda a recompensa eterna e a plenitude da vida aos caídos!

Que o óleo do amor misericordioso cure as feridas físicas, mentais e espirituais das vítimas!

Pelas orações da Santíssima Theotokos e de todos os santos da terra da Ucrânia, que Ele conceda a Sua paz e bênçãos ao mundo inteiro!

A benção do Senhor venha sobre vós.

Em nome do Sínodo dos Bispos da

Igreja Greco-Católica Ucraniana

† SVIATOSLAV

Dado em Przemyśl,

na Catedral da Natividade de São João Batista,

no Dia da Colocação do Precioso Manto de

Nossa Senhora Santíssima e Theotokos em Blachernae,

em 15 de julho de 2022 AD

Fonte: news.ugcc.ua (tradução nossa)

Nota da edição: o Sínodo dos Bispos da IGCU em 2022 realizou-se fora do país, na Polónia, na cidade de Przemyśl.

O que pensam os católicos ucranianos: “Neste momento, é impossível continuar sem perceber a natureza satânica do regime do Kremlin” e “o paganismo flagrante das declarações do patriarca de Moscovo”. (Carta Aberta)

 A Igreja Greco-Católica Ucraniana é a maior Igreja Oriental individual – isto é, a maior depois da nossa própria Igreja Latina. É verdadeiramente uma Igreja-Mártir: a Rússia tentou destruí-la uma e outra vez, sob o czarismo e sob o comunismo, mas ela permaneceu fiel à catolicidade.

Para os greco-católicos ucranianos, seria “fácil” tornarem-se “ortodoxos”: não há diferenças de rito. Mas o que eles têm é uma lealdade indissolúvel para com a Sé Romana: cada mártir da história sangrenta da Igreja, milhões deles, teve a mesma determinação de São Tomás Muro ou São João Fisher – lealdade à fé católica e à ideia e realidade de Roma, Mãe de todas as Igrejas.

Na passada quarta-feira, a universidade fundada e apoiada pela Igreja Greco-Católica Ucraniana, a Universidade Católica Ucraniana (UCU) divulgou um documento formal do seu Senado e Reitoria, explicando aos cristãos de todo o mundo o que está a acontecer. Eles representam fielmente a visão de todos os católicos ucranianos, em casa e na diáspora.

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Rejeitar as obras das trevas

Carta aberta do Senado e da Reitoria da Universidade Católica Ucraniana às Comunidades Cristãs do Mundo

Quarta-feira, 23 de março de 2022

Com o início de uma nova fase da última guerra russo-ucraniana, os ucranianos invariavelmente reconhecem-se nas páginas das Escrituras nas reviravoltas da história bíblica. Sob o regime de Putin, eles reconhecem: “porque são espíritos demoníacos, que realizam sinais, que vão ao encontro dos reis de todo o mundo, para reuni-los para a batalha no grande dia de Deus, o Todo-Poderoso” (Apocalipse 16:14), e eles encontram esperança na vitória de Davi sobre Golias. (1 Samuel 17: 1–52).

A dor do sofrimento e da morte, a amargura da insensibilidade de alguns políticos mundiais, bem como a gratidão a outros que vieram em nosso auxílio – essas são as emoções que o povo ucraniano sente hoje. Ao mesmo tempo, eles estão convencidos de que a nova Ucrânia será construída sobre o sacrifício pago por soldados e civis ucranianos hoje. Pois isso é o que pode ser deduzido das palavras do Cordeiro sacrificial de Deus: “Eis que faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21:5).

As tensões bíblicas da atual guerra russo-ucraniana estão a mudar a face do planeta. Hoje, toda a estrutura de segurança do mundo que surgiu após a Segunda Guerra Mundial está a explodir. As fissuras espalham-se por todo o corpo de acordos internacionais, instituições de segurança e mecanismos de manutenção da paz. Num instante, a carreira profissional de alguém e as visões habituais do mundo perdem o seu significado. Axiomas inequívocos estão agora perdendo a sua certeza, tornando-se teoremas que precisam ser provados novamente.

O ecumenismo cristão também sentiu todas as rachaduras que percorriam o status quo geopolítico. Todo o corpo de relações inter-eclesiásticas cambaleou pelo flagrante paganismo das declarações do patriarca de Moscovo, que justificou as atrocidades brutais dos militares russos. Todos aqueles ecumenistas “profissionais” que, a pedido de Moscovo, na menor oportunidade, repreenderam a Ucrânia por supostas violações da liberdade religiosa dos ortodoxos que estavam em unidade eucarística com o Patriarcado de Moscovo, perderam o sentido de vergonha. Afinal, agora o próprio chefe da Igreja Ortodoxa Russa (IOR) justificou os assassinatos e as violações dos mesmos ortodoxos de língua russa cujas vidas foram roubadas durante tantos anos.

Obviamente, ouvimos as vozes dos líderes das Igrejas do mundo pedindo o fim do derramamento de sangue e a salvação das almas humanas. Estamos gratos aos teólogos de várias denominações que condenaram os perpetradores da guerra e as atrocidades que cometeram. Ao mesmo tempo, porém, não podemos deixar de notar outras afirmações que são muitas vezes temidas. Medo de chamar o culpado pelo nome. Medo de prejudicar o “diálogo ecuménico”. Tentativas desesperadas de preservar os resquícios do status quo geocristão, onde belas palavras glorificam a amarga verdade da separação e a relutância em se unir. O desejo predominante é reconciliar os “irmãos que brigam” o quanto antes e retornar às matrizes estabelecidas de “diálogo a todo custo”, conexões pessoais habituais, arranjos de bastidores e trocas ostensivas de cortesias. O objetivo é salvar o próprio status hierárquico e carreira, e acalmar a consciência.

Tudo isso pode ser entendido no nível humano, mas no sentido providencial é inútil. O momento atual exige das Igrejas uma voz profética incompatível com o medo e a ideologia. Não queremos ouvir deles sobre estar “profundamente preocupados com a guerra”, porque isso é a linguagem da diplomacia. Procuramos ouvir as palavras ousadas de verdade que Jesus, que nos ensinou por seus conselhos, diria hoje: nos negócios de Deus, a verdade não pode ser evitada por causa do medo. Somente a linguagem da verdade pode ser considerada a linguagem da fé. “Quem quiser encontrar a sua vida perdê-la-á, e quem perder a sua vida por minha causa, encontrá-la-á” (Mateus 10:39).

Igualmente contraditório ao Evangelho é a equalização do sofrimento sofrido pelos militares ucranianos e russos. Os primeiros defendem suas terras, os segundos saqueiam a dos outros. Aqueles criminosos de guerra russos que destroem maternidades, atiram em idosos e crianças, violam mulheres, saqueiam e se gabam de suas “conquistas” não são “pobres”. A ideologia do politicamente correto pode igualar o sofrimento dos militares ucranianos e russos, mas não o sentimento evangélico que sempre fica do lado da vítima.

É por isso que estamos convencidos de que é hora de o mundo tomar uma decisão concreta, tanto política quanto espiritualmente. A essa altura, é impossível continuar sem perceber a natureza satânica do regime do Kremlin, que semeia ódio, mente sem cerimónias e desencadeia guerras terríveis. Este é um novo fruto do poder sobre o qual a Mãe de Deus alertou a humanidade em Fátima – e este poder deve ter responsabilidade legal e moral. A guerra da Rússia contra a Ucrânia não pode terminar com os seus instigadores e todos aqueles que a lideraram e justificaram a continuar a ser considerados membros legítimos da comunidade mundial.

Também é inaceitável que a liderança do Patriarcado de Moscovo não tenha responsabilidade moral e às vezes legal de fornecer apoio moral ao regime de Putin e aprovar a guerra que ele travou. Consagrando as horríveis atrocidades dos soldados russos na Ucrânia, foi o Patriarca de Moscovo quem disse: “Os nossos militares não podem ter dúvidas de que escolheram o caminho certo em suas vidas”. Portanto, a tarefa do ecumenismo cristão é afirmar-lhe claramente que tanto o caminho desses militares quanto o seu caminho pessoal são destrutivos.

Se o mundo cristão quer que a Ortodoxia Russa se recupere moralmente e dê ao mundo tesouros profundos da verdadeira fé e da sua tradição, deve perceber que isso não acontecerá a menos que a hierarquia e os fiéis dessa Igreja passem pelo arrependimento moral. Os ecumenistas do mundo devem admitir que os paralelos entre a ideologia do “mundo russo” e a ideologia nazista tornaram-se hoje bastante justificados. É por isso que a IOR, que também se tornou a Igreja do Reich, deve suportar a sua vergonha da mesma forma que a Igreja Evangélica Alemã. Afinal, a paz de Deus é sempre fruto da renúncia ao mal e da união com Deus.

Portanto, em nome de toda a comunidade da Universidade Católica Ucraniana, pedimos aos líderes cristãos de todo o mundo que falem a sua palavra confessional e profética e parem o mal! É insuportável para nós ver como a escuridão e a morte tentam absorver as gerações de jovens ucranianos que levamos à crença na Bondade, Verdade e Misericórdia. Não vamos deixá-los desesperar desses valores e vamos ajudá-los a ver o amanhecer: “a noite está longe, o dia está próximo. Deixemo-nos, pois, das obras das trevas e vistamo-nos da armadura da luz” (Romanos 13:12). Que o atual sacrifício sangrento da Ucrânia se torne um momento de kairos, a partir do qual começará a renovação de toda a terra!

Fonte: rorate-caeli.blogspot.com, a partir de ucu.edu.ua/en (tradução nossa).

O nosso destino está nas mãos seguras da Mãe

Palavras do líder da Igreja Greco-católica Ucraniana durante a consagração da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria

Os bispos da Igreja Greco-católica Ucraniana (IGCU), que neste dia realizaram uma sessão extraordinária do Sínodo dos Bispos, rezaram juntos na igreja em frente do Ícone Milagroso da Mãe de Deus de Zarvanytsia, em comunhão com o Santo Padre e o mundo inteiro, através de transmissão em direto.

No final do celebração penitencial, o Papa Francisco leu uma oração de consagração da Rússia, Ucrânia e toda a humanidade ao Imaculado Coração de Maria.

O Ato de Consagração em nome da IGCU foi lido simultaneamente por Sua Beatitude D. Sviatoslav Shevchuk, em em Zarvanytsia, em comunhão com o Santo Padre.

Apelando aos fiéis após a consagração, o líder da IGCU enfatizou a historicidade deste momento: “Cada um de vós dirá aos seus filhos, netos e bisnetos que foi um momento de vitória; o momento, em que colocámos o destino da Ucrânia nas mãos da Santíssima Virgem Maria”.

Sua Beatitude D. Sviatoslav acrescentou que a guerra que a Rússia está hoje a travar contra a Ucrânia é uma luta espiritual entre o bem e o mal. E a consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria é o momento em que acreditamos que o bem vencerá através das orações da Mãe de Deus.

O líder da IGCU explicou o que significa consagrar a Rússia e a Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria: “A Rússia foi confiada ao Imaculado Coração de Maria porque a Mãe de Deus pediu que este acto fosse feito, uma vez que daquela terra o mal se espalharia pelo mundo e destruiria nações, traria sofrimento às pessoas. Estamos a rezar pelos nossos inimigos para que o Senhor pare a sua mão assassina”. E aqui, em Zarvanytsia, em comunhão com o Santo Padre, confiamos a nossa Ucrânia à proteção da Santíssima Virgem Maria, ao Seu Imaculado Coração, porque sabemos que hoje Ela, a Mãe de Deus, está com a Ucrânia, com o nosso povo sofredor”.

“Hoje, o nosso destino está nas mãos seguras da Mãe”, acrescentou Sua Beatitude D. Sviatoslav.

O líder religioso agradeceu aos bispos da IGCU que se reuniram em Zarvanytsia para este evento histórico, acrescentando que estavam especialmente unidos com D. Vasyl Tuchapets, arcebispo de Kharkiv, D. Stephan Meniok, bispo de Zaporizhia, e D. Mykhailo Bubniy, arcebispo de Odessa. Estávamos a unir-nos, disse ele, com os nossos bispos em todo o mundo, nas nossas comunidades estabelecidas na Europa Ocidental, América do Norte e do Sul, Austrália, e com bispos católicos em todo o mundo.

“Hoje sentimos que o mundo inteiro está connosco. Obrigado a todos por participarem hoje neste evento histórico… A nossa gratidão flui para com o Santo Padre Francisco, com quem vivemos estes momentos únicos”, disse o Primaz.

Após o Ato de Consagração, o líder da IGCU, juntamente com os bispos do Sínodo dos Bispos, conduziu uma tradicional oração do terço de Zarvanytsia.

Departamento de Informação da IGCU

Fonte: news.ugcc.ua/en/news (a tradução é nossa, assim como as hiperligações)

“Milagre” de São Januário realiza-se nas mãos do líder da maior Igreja Católica Oriental

https://i0.wp.com/tv.ugcc.org.ua/media/gallery/full/d/s/dsc01962_33457.jpg
In Religious Information Service of Ukraine, 21/11/2018.

Durante a visita de D. Sviatoslav Shevechuk a Nápoles, o sangue de São Januário liquefez-se completamente no momento em que o líder dos católicos ucranianos segurava o relicário. O “milagre” aconteceu no dia 18 de novembro, portanto, fora das datas em que costuma ocorrer todos os anos.

“Temos de vos anunciar uma importante mensagem: o sangue de São Januário tornou-se líquido nas mãos de Sua Beatitude D. Sviatoslav”.

(Declaração dos Guardiões das Relíquias em 18 de novembro; in RISU, 21/11/2018)

O fenómeno aconteceu no final da liturgia, quando o arcebispo ucraniano transportava a relíquia, em procissão, para o seu lugar habitual. Sviatoslav confessou que, enquanto transportava o relicário, orou a São Januário “pelo fim da guerra na Ucrânia” e pela “proteção do povo ucraniano”.

Tradicionalmente, o sangue de São Januário liquefaz-se duas vezes por ano, a 16 de maio e a 19 de setembro.

Basto 11/2018

Greco-Católicos Ucranianos: a peça fundamental

Disse-lhes Ele: «Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar.» (Jo 21, 6)

Quem são?

A Igreja Greco-Católica Ucraniana é uma igreja particular oriental, sui juris, em plena comunhão com Roma desde a União de Brest que ocorreu em 1595. Assumem-se ortodoxos, pois pertencem à tradição litúrgica bizantina, mas professam a Fé Católica e obedecem ao Papa. Por outras palavras, são ortodoxos católicos ou católicos orientais. No meio ortodoxo, são normalmente conhecidos como “uniatas” (ou Igreja Uniata), sendo este termo utilizado com conotação negativa.

Os católicos orientais são, infelizmente, bastante desconhecidos da maior parte dos católicos de Rito Latino e o seu papel é muitas vezes subvalorizado porque são menos numerosos e porque, enfim, parece que “não são carne nem são peixe” – um raciocínio que não podia estar mais errado. Apesar da tradição ortodoxa, eles são católicos de pleno direito, pelo que qualquer um dos seus bispos ou cardeais pode ser nomeado para o exercício de cargos de destaque dentro da Cúria Romana, podendo inclusivamente ser eleito Papa. Uma possibilidade que, de resto, já foi ficcionada na literatura e no cinema através do livro “As Sandálias do Pescador”, de Morris West, e posteriormente no filme homónimo.

Mais do que serem católicos de pleno direito histórico e institucional, eles são-no por direito de sangue. Os católicos orientais foram severamente perseguidos e levados quase à extinção, principalmente durante a era soviética, pela simples razão de se terem recusado a cooperar com o regime comunista, ao contrário do que acabaria por acontecer, por exemplo, com a Igreja Ortodoxa Russa. A igreja mártir da Ucrânia, os católicos ucranianos, em especial os de rito oriental, foram dos grupos religiosos mais fustigados em toda a era soviética. A sua valentia e heroísmo, a sua Fé e a sua obediência ao Bispo de Roma, produziram longas listas de mártires durante um dos períodos de maior hostilidade contra a Santa Igreja Católica Apostólica Romana em toda a sua história. O seu sangue derramado foi uma das maiores fontes de Graça Santificadora da Igreja durante o séc. XX.

Nós sentimos que somos o fruto do sangue dos mártires. A frase de Tertuliano “O sangue dos mártires é a semente dos cristãos” tornou-se verdade na nossa Igreja durante a minha própria história.

(D. Sviatoslav Shevchuk, in Salt and Light, 2013)

De todas as 23 igrejas católicas orientais, sui juris, a Igreja Greco-Católica Ucraniana, com uma população estimada que já deve ultrapassar largamente os oito milhões de fieis, é de longe a maior, continuando a crescer a um ritmo entusiasmante, não só dentro da Ucrânia, como também por toda a sua diáspora espalhada pelo mundo. Este crescimento e expansão geográfica provocam uma grande azia dentro da Rússia.

Enquanto a Igreja Católica Latina agoniza, com os seminários e conventos fechados, sem padres para as paróquias, profundamente descaracterizada devido à infiltração do modernismo teológico e de práticas cada vez mais heterodoxas e duvidosas, a Igreja Greco-Católica Ucraniana floresce, conservando a sua Fé Católica e toda a sua tradição bizantina, impermeável às tendências modernistas que devastaram os católicos ocidentais, de Rito Latino. Os seus seminários estão cheios e o número de padres, cerca de 300 no início dos anos 90, ultrapassa hoje os 3000, na sua maioria, jovens.

Todavia, mesmo sendo a segunda maior comunidade católica depois da Igreja Católica Latina e uma das mais promissoras, contrariamente às suas longas e justas expectativas, a Igreja Greco-Católica Ucraniana ainda não foi elevada pela Santa Sé à categoria de Igreja Patriarcal Autocéfala, o que a colocaria, em termos estatutários, ao nível de outras igrejas orientais incomparavelmente menos relevantes pela sua dimensão. E porquê? Para não prejudicar o diálogo ecuménico entre as Igrejas Católica e Ortodoxa Russa ou, com efeito, o relacionamento diplomático entre a Santa Sé e a Federação Russa.

Os católicos orientais da Ucrânia não têm ainda um Patriarca formalmente instituído, no fundo, pelas mesmas razões que levaram João XXIII, tal como os seus sucessores, a não realizar o solene ato de “consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria” nos termos em que fora pedido por Nossa Senhora de Fátima. Ou seja, pelas mesmas razões que fizeram João Paulo II, em 1982 e 1984, optar por consagrar a “humanidade” e o “mundo” ao Imaculado Coração de Maria, evitando sempre a palavra “Rússia” no derradeiro momento.

O líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, D. Sviatoslav Shevchuk, é o Arcebispo-mor (ou Arcebispo-Maior) de Kiev-Halic e toda a Rus. Imagine-se o que representaria, para a Igreja Ortodoxa Russa, a sua elevação à categoria de Patriarca (Católico) de toda uma região de tradição bizantina que é o berço da cristianização de grande parte dos povos eslavos , incluindo a própria nação russa. O líder da Igreja Ortodoxa Russa assume-se como Patriarca de Moscovo e de toda a Rus, o que também inclui a Ucrânia. A palavra “Rus”, referindo-se a uma antiga grande região da Europa do Leste, ou aos seus povos, está na origem etimológica da própria palavra “Rússia”.

Os católicos de rito oriental, em geral, e os Greco-Católicos Ucranianos, em particular, são indesejados, na sua natureza e na sua essência, pelas autoridades religiosas das igrejas ortodoxas separadas de Roma desde o Grande Cisma do Oriente  (1054). Esta hostilidade sente-se particularmente na Rússia, onde habita a maior comunidade ortodoxa a nível mundial e onde o forte nacionalismo passa também pela religião. Aí, os Greco-Católicos são vistos como uma fabricação ocidental, um instrumento subversivo utilizado pelos católicos para se infiltrarem no “território canónico” dos ortodoxos.

No chamado “território canónico” da ortodoxia, cuja liderança é reclamada – de forma mais ou menos assumida – por Moscovo (a “3.ª Roma”), a Ucrânia tem uma importância estratégica fundamental, por diversas razões:

  • É o maior estado europeu (depois da Rússia), tendo sido a segunda república mais importante no seio da União Soviética.
  • Com mais de oito milhões de russos, é o país onde se pode encontrar a maior comunidade de etnia russa fora da Rússia.
  • Os idiomas ucraniano e russo, sendo da mesma família linguística, são mutuamente percetíveis, o que reforça a proximidade étnica e cultural das duas nações.
  • Fez parte – e teoricamente, ainda faz – da área de influência do Patriarcado de Moscovo.
  • Em termos de predominância religiosa e cultural, a Ucrânia encontra-se na linha de charneira entre os “territórios canónicos” católico latino e ortodoxo. Sendo um país maioritariamente ortodoxo, faz fronteira com países onde predomina a tradição católica latina.
  • Kiev, atual capital ucraniana, foi onde ocorreu a conversão de São Vladimir o Grande ao cristianismo, no ano de 988, seguida da conversão em massa das tribos conhecidas como os Rus de Kiev. Ou seja, é o berço da cristianização da Rússia e arredores.

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Fresco da Catedral de Kiev alusivo ao batismo de São Vladimir o Grande (Viktor Vasnetsov, 1890)

Por que razão se sentiram os nossos irmãos Greco-Católicos Ucranianos profundamente desiludidos com a atitude do Santo Padre na Cimeira Cubana?

Durante o pontificado do Papa Francisco, os católicos ucranianos tinham já pedido ao Santo Padre para ser mais incisivo e condenar objetivamente as intromissões da Rússia no seu país, ainda assim, Sua Santidade optou sempre por uma posição equidistante em relação ao conflito ucraniano. Das vezes que se referiu ao assunto, fê-lo como se de uma guerra civil se tratasse, em que a Rússia não tinha nada a ver com aquilo. Este era o ponto de partida…

Depois, para uma comunidade católica cheia de traumas provocados pela ditadura comunista, o lugar escolhido para este encontro não lhes podia criar grandes expectativas. O Bispo de Roma e o Patriarca de Moscovo escolheram Cuba, um país que de “neutro” não tem nada, pois é ainda governado pela ditadura marxista e, historicamente, o principal aliado do URSS fora da Europa. Como se isso não bastasse, a Cimeira Cubana aconteceu praticamente no 70º aniversário do Pseudo-sínodo de Lviv, um esquema montado pelo regime comunista soviético, com a conivência da Igreja Ortodoxa Russa, que quase levou a Igreja Greco-Católica Ucraniana à extinção.

Havia, ainda assim, alguma esperança, todavia, esta transformou-se em pura desilusão e amargura no momento em que foi publicada a declaração conjunta, assinada pelos dois líderes religiosos, e se deram a conhecer os parágrafos que a eles diziam respeito.

25.       Esperamos que o nosso encontro possa contribuir também para a reconciliação, onde existirem tensões entre greco-católicos e ortodoxos. Hoje, é claro que o método do “uniatismo” do passado, entendido como a união de uma comunidade à outra separando-a da sua Igreja, não é uma forma que permita restabelecer a unidade. Contudo, as comunidades eclesiais surgidas nestas circunstâncias históricas têm o direito de existir e de empreender tudo o que é necessário para satisfazer as exigências espirituais dos seus fiéis, procurando ao mesmo tempo viver em paz com os seus vizinhos. Ortodoxos e greco-católicos precisam de reconciliar-se e encontrar formas mutuamente aceitáveis de convivência.

26.       Deploramos o conflito na Ucrânia que já causou muitas vítimas, provocou inúmeras tribulações a gente pacífica e lançou a sociedade em uma grave crise económica e humanitária. Convidamos todas as partes do conflito à prudência, à solidariedade social e à atividade de construir a paz. Convidamos as nossas Igrejas na Ucrânia a trabalhar por se chegar à harmonia social, abster-se de participar no conflito e não apoiar ulteriores desenvolvimentos do mesmo.

27.       Esperamos que o cisma entre os fiéis ortodoxos na Ucrânia possa ser superado com base nas normas canónicas existentes, que todos os cristãos ortodoxos da Ucrânia vivam em paz e harmonia, e que as comunidades católicas do país contribuam para isso de modo que seja visível cada vez mais a nossa fraternidade cristã.

28.       No mundo contemporâneo, multiforme e todavia unido por um destino comum, católicos e ortodoxos são chamados a colaborar fraternalmente no anúncio da Boa Nova da salvação, a testemunhar juntos a dignidade moral e a liberdade autêntica da pessoa, “para que o mundo creia” (Jo 17, 21). Este mundo, onde vão desaparecendo progressivamente os pilares espirituais da existência humana, espera de nós um vigoroso testemunho cristão em todas as áreas da vida pessoal e social. Nestes tempos difíceis, o futuro da humanidade depende em grande parte da nossa capacidade conjunta de darmos testemunho do Espírito de verdade.

(Declaração Conjunta de Havana, in Radio Vaticano, 12/02/2016)

Este documento, para além de rejeitar completamente a necessidade de conversão da Rússia, desvalorizou a fidelidade de mais de 400 anos dos Greco-católicos Ucranianos ao Bispo de Roma, que se separaram da ramo ortodoxo cismático a que pertenciam para se reunirem à Igreja Católica Romana. De certo modo, desaconselhou mesmo o seu exemplo.

O “uniatismo do passado” era entendido como a conversão à Fé Católica e a reunião à única instituição fundada por Cristo que mantém intacta a linha de sucessão que remonta a apóstolo São Pedro, o primeiro Papa. É uma pena que o Santo Padre rejeite, desta forma, o “uniatismo do passado,” uma vez que ele custou muitas vidas na Ucrânia e noutros países da Europa do Leste. A fidelidade a Roma foi paga com o sangue de muitos fiéis na Ucrânia.

Mais curiosa ainda é a ideia obscura de que a Cimeira Cubana outorgou à Igreja Uniata o direito de existir, como se, algum dia, esse direito pudesse vir de Havana…

Não devemos pedir a ninguém o direito de existir, somente Deus estabelece isto e sobretudo faz mal à compreensão da verdade a escassa clareza sobre a questão do uniatismo e o uso genérico do termo “expressões eclesiais”, sem referências precisas à Igreja Greco-católica ucraniana: Porque na terminologia da teologia ecuménica moderna, este termo é usado para as comunidades cristãs que não conservaram a plenitude da sucessão apostólica. Ao invés disto, nós somos uma parte integrante da comunhão católica.

(D. Sviatoslav Shevchuk, in Radio Vaticano, 24/02/2016)

De facto D. Sviatoslav Shevchuk tem razão, se esta Igreja existe dentro da comunhão Católica e da sucessão Apostólica é porque Deus assim o quis. Mais até, conforme foi pedido através de Nª Sª de Fátima, chegou o momento em que Deus quer que também a Rússia retorne definitivamente a esta comunhão.

A mensagem de Fátima fala de “conversão” e não de “cultura del encuentro”. Conversão pressupõe adesão a algo, neste caso a Fé Católica. A “cultura do encontro” rejeita linearmente a necessidade de conversão de alguma das partes, rejeita a reunião e solidifica formalmente a separação em prole de uma mera convivência comum.

D. Sviatoslav Shevchuk, o líder dos católicos ucranianos, nasceu e cresceu sob a ditadura comunista soviética. Com apenas 46 anos de idade, este destemido arcebispo é um dos mais jovens bispos de toda a Igreja Católica. É doutorado em Teologia Moral, fluente em várias línguas e teve um passado pastoral contemporâneo do então Arcebispo Bergoglio na Argentina. Teve uma intervenção brilhante no Sínodo da Família em defesa dos valores morais tradicionais contra a agenda imoral que aí teimou impor-se.

Os cristãos Greco-Católicos da Europa do Leste são uma peça fundamental na compreensão da mensagem de Fátima porque sofreram e resistiram aos horrores do comunismo soviético e são uma pequena amostra daquilo que a conversão da Rússia deverá ser um dia, após a o triunfo do Imaculado Coração de Maria.

Basto 06/2016