Manifesto Contra a Televisão ou Como um só Demónio Conquistou Toda a Humanidade

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Imagem capturada da curta metragem “I, Pet Goat II” (2012).
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Por Pedro Sinde

Queria contar um conto, mas um conto para levar a sério. Agora mesmo, nesta hora em que vos escrevo, ela está ali, pendurada num suporte fixo à parede num lugar alto, para obrigar as gentes a olhar para cima. Ali, precisamente naquele lugar, esteve já a imagem de Santo António, agora desaparecida. Estou num café antigo, o leitor já terá adivinhado talvez, pois terá reparado que onde nas lojas antigas estava um pequeno nicho, elevado, com alguns santos, agora está uma televisão.

Estamos no fim dos tempos, pode-se dizer assim com brusquidão. Os homens não acreditam, porque estão em geral tão fechados ao mundo real que nem se lembram que a sua vida tem os dias literalmente contados. E têm medo, muito medo de pensar nisso. E fazem bem; é bom que tenham medo, pois há muitas razões para tal.

Nos tempos do fim, o mundo, os homens, os animais, as plantas e até as pedras, estão cansados; a criação está farta de sofrimento, está farta de mudança, pressente no ar que qualquer coisa está para acontecer. E está. E geme toda a criação, como diz São Paulo (Rom 8, 22), como em dores de parto…

Nestes tempos, como em nenhum antes, andam os demónios à solta. Não, não se trata de uma metáfora. Os demónios andam mesmo à solta, possuíram já uma boa parte dos homens; quando não de um modo constante, pelo menos com intermitências.

É para vos contar a história de um desses demónios que este manifesto é escrito. Estou certo de que só os loucos e as crianças perceberão do que se trata, mas isso também é um sinal dos tempos, como diz São Paulo, “a sabedoria deste mundo é loucura aos olhos de Deus” e diz mais: “está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios e rejeitarei a inteligência dos homens cultos” (1Cor 1, 19).

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São vários os demónios que procuram, por este ou aquele meio, possuir a humanidade. Hoje, isso é relativamente fácil; antes havia vários obstáculos: havia religião, havia tradição, havia a vida natural e sóbria e os homens eram dotados de uma certa percepção sobrenatural. Hoje, estão embrutecidos, isto é, já não são dotados do sentido sobrenatural.

Um dos demónios que mais sucesso teve e, ao que parece, terá é o que inventou aqueles aparelhos que formam imagens e as põem em movimento: as máquinas projectoras de filmes, as televisões, os computadores e depois as diminuiu em tamanho até caberem num bolso e as podermos levar para todo o lado, em todo o tempo; na verdade, o que acontece é que elas nos levam a nós para todo o lado e em todo o tempo, mas como cabem no nosso bolso, temos a ilusão de que nós é que as levamos…

O chefe dos demónios dá-lhes como missão virem à Terra para procurarem dominar o maior número possível de homens.

E eles procuram cumprir esta missão exemplarmente. Há demónios mais empenhados, há demónios menos empenhados; a burocracia e a obrigatoriedade do trabalho são obra de um demónio genial; e fez tanto sucesso este modelo que foi até adoptado entre os próprios demónios, para sua desgraça; mas, enfim, a desgraça ou falta de graça é o que é próprio do mundo infernal.

Em todo o caso, o demónio de que vos quero falar é um daqueles que gosta do que faz e quer desempenhar o seu trabalho o melhor que puder. Realmente gosta do que faz, quase poderia dizer que ama o que faz, se fosse possível a um demónio amar.

Estava ele a cogitar como é que podia deixar o rame-rame do dia-a-dia, as pequenas conquistas e realizar uma coisa maior, uma coisa em grande. Para isso observava o comportamento dos homens e o modo como os seus colegas, os outros demónios, agiam para os conquistar.

Rapidamente se apercebeu que quase todos caíam num erro: um dedicava-se, por exemplo, a procurar convencer os homens de que não havia Deus, outro, mais arguto, procurava convencê-los de que não havia diabo, outro, de que não havia moral. Tudo isto eram coisas exteriores ao homem porque agiam sobre a sua razão com argumentos e, é certo, produziam os seus efeitos, mas não eram duradouros; era preciso chegar ao cerne, era preciso actuar no seu íntimo, era preciso roubar-lhe alguma coisa, adormecer qualquer coisa nele. Pensou, pensou… era difícil. Tudo aquilo estava a ser feito por demónios com pouca imaginação, pensou. E foi aí que lhe ocorreu: a imaginação! É isso mesmo!

Era por ali, porque a imaginação, ao contrário da razão, tem uma ligação directa ao corpo e às emoções e assim poderia tomar conta do homem inteiro, pois dominada a imaginação, tomando conta das emoções e do corpo, a razão, como uma vela que se apaga, simplesmente adormeceria e deixaria de iluminar a alma; a ninguém se convence com argumentos, tudo se passa, na verdade, nas emoções e na imaginação (que é a porta para a emoção). Era preciso, pois, de algum modo, separar a razão da imaginação. Fechou-se na sua cela luxuriosa, queimou um pouco de enxofre e começou a maquinar – digo maquinar porque os demónios não meditam, maquinam.

Magicou (para além de maquinar, os demónios também magicam) em torno da imaginação e percebeu que, realmente, se tratava de uma força tremenda; dominando-a poderia fazer o que quisesse com os homens. Enquanto pudessem imaginar, teriam esperança, mas era necessário levá-los ao desespero, sem que eles sequer percebessem que estavam desesperados ou sem esperança; era preciso adormecer, pois, gradualmente a imaginação aos homens, activando-a a partir de fora, de forma tão gradual que eles nem reparassem.

Notando que imaginar era criar imagens, ocorreu-lhe que uma boa forma, se isso fosse possível, seria dar-lhes, as imagens prontas, em vez de os deixar imaginar ou criar as imagens. Já sabia quais eram os fins, mas ainda não via os meios. Foi dormir com isto em mente. Foi num sonho que obteve a sua resposta. Quando acordou já sabia que era preciso inventar uma máquina de fazer imagens, de tal modo poderosa que prendesse a si hipnoticamente os homens: ocorreu-lhe que um filósofo dissera que nada está no intelecto que não tenha estado primeiro nos sentidos e, embora deformando o sentido da frase, isso deu-lhe a chave que procurava; deformar é, de resto, a obra demoníaca propriamente dita. Os demónios só procuram deformar o que já existe, são parasitas de Deus.

Não disse nada a ninguém, pois sabia que seria alvo de chacota. O seu trabalho agora era apenas lançar esta ideia de uma máquina que construísse imagens em movimento e algum homem a captaria, a agarraria e, quando isso acontecesse, ficaria sob as suas garras.

Pode o leitor estar a interrogar-se por que razão não procurou o próprio demónio criar uma tal máquina. Ora, é que os demónios não criam, estão proibidos de criar, como disse, a sua missão é apenas “descriar”, isto é, destruir, incitar o homem à destruição ou deformar e macaquear a obra grandiosa de Deus. Está então visto que um demónio não pode criar sequer uma máquina que sirva para destruir. Pode, isso sim, instigar os homens, sugerindo-lhes algumas ideias.

Adormeceu novamente e enquanto dormia dormiam também dois irmãos simpáticos e bastante criativos; por ironia, esses irmãos tinham o apelido “Lumière”. Digo por ironia, porque o novo invento iria manipular a luz para fazer imagens. Foi nesse sono que os dois irmãos receberam a ideia de dar movimento a imagens estáticas; é claro que não davam movimento, mas tudo se passava por um acto de ilusionismo: manipular as imagens, na verdade estáticas, com a velocidade, trocando uma pela outra numa rápida sucessão que, ludibriando aquele que vê, enganando-o, mentindo-lhe, fazia-o “ver com os olhos” as imagens, realmente paradas, como se estivessem em movimento numa sequência. Os irmãos eram bem-intencionados, nem podiam imaginar que seriam alvo eles mesmos de um ludíbrio e que estariam com este aparelho a servir o Inimigo…

Certo é que o demónio viu o que iria acontecer, viu que tinha encontrado a solução: o invento que iria “desanimar” ou tirar a alma e o ânimo aos humanos estava mesmo ali; um aparelho de destruição massiva. Foi um momento sublime, tanto quanto se pode falar assim de um demónio. A humanidade estava perdida, desta vez era possível com um só aparelho manipular a humanidade inteira; “já não era necessária uma legião, como nos tempos de Cristo, pensou maravilhado – basta um só, basto… eu!” E o luciferino orgulho perpassava-lhe o olhar sinistro, enquanto o seu chefe se orgulhava dos sentimentos do seu subordinado, seguindo o modelo do patrão…

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E o resto é a história que todos conhecemos; tudo começou gradualmente, tal como o demónio planeara: primeiro o cinema, depois a televisão (um cinema caseiro e em miniatura) e, finalmente, um telefone de trazer no bolso e que já ninguém larga. Agora já chegou a uns óculos que dão toda a informação do lugar onde se está e depois será mesmo um implante. A isto já chamam “realidade aumentada”, com toda a ironia ou antes todo o cinismo possível, porque, naturalmente, a realidade é, ao contrário, diminuída de si mesma, para ser canalizada apenas para as informações que os fabricantes destes óculos escolhem dar. Etc. Seria cansativo explicar toda esta fastidiosa parafernália, infernália, que todos hoje têm em casa e que é como que o melhor lugar da casa, ali onde antes tinham um pequeno altar com um santo ou um anjo a quem dirigiam orações de paz e luz, abrindo a sua alma ao sobrenatural. Hoje, abriram-na ao infranatural e prestam culto ao monitor rectangular e negro, que torna a sua alma negra e rectangular; todas as almas iguais, pensando o mesmo, vendo o mesmo, comentando o mesmo. E se alguém pensa de outra forma, tornam-se raivosos e odientos ou simplesmente gozões, ridicularizando aquele que pense de outra forma.

Foi assim que, de mentira em mentira, este demónio conquistou a humanidade. E ele já viu o final desta sua obra destruidora num sonho; será assim: um adolescente, que representava no sonho toda a humanidade, jogando um jogo no seu telemóvel, alheio a tudo o que o rodeia e a si mesmo, naturalmente, vai ouvir de repente uma voz que diz: game over. Espantar-se-á primeiro, pois sabe que não perdeu o jogo que está a jogar; reparará, então, que essa voz não vem do seu aparelho, mas do seu interior. E que o jogo real terminou; e aquela pobre alma, como milhões de outras, hipnotizadas, ainda nem tinham começado a jogar, quer dizer, a viver.

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Sim, como primeira medida, destruam o vosso aparelho de televisão.

 

O texto acima foi publicado na plataforma Academia.edu em maio de 2020.

Nota da edição: o artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, neste caso o filósofo português Pedro Sinde, a presente edição visa apenas a sua divulgação. A imagem do topo não faz parte da publicação original.

Basto 05/2020