A nova pastoral do críquete

Há dias, meio a brincar, admitimos aqui a possibilidade de tentar aprender a jogar críquete, mas, neste dias, a realidade ultrapassa os nossos próprios devaneios… A Santa Sé já possui uma equipa masculina de críquete para “enfrentar muçulmanos, hindus e também anglicanos” e pretende atrair ainda freiras para esta missão.

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“Equipa de São Pedro” (clube de críquete da Santa Sé) – AFP 2013

O objetivo destes padres e seminaristas de Roma, uma espécie de missionários modernos, não é bem levar a Boa Nova aos gentios, mas antes proporcionar o “encontro” com eles, mais concretamente, encontros de críquete. Nestes encontros, Jesus Cristo, o nosso Deus, é tão respeitado como todas as outras divindades pagãs ali representadas, acabando por funcionar como mero fator de diferenciação emblemática entre todos os que adoram o críquete.

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Intenções de oração do Santo Padre em janeiro de 2016 – Vídeo do Papa

Como estamos na celebração do Centenário das Aparições, esta gente, movida por uma espiritualidade moderníssima, resolveu associar-se às celebrações de Fátima através da realização de um torneio de críquete inter-religioso…

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Rádio Renascença, 19/04/2016

Já tivemos outras iniciativas pastorais semelhantes e, honestamente, isto até podia ter sido bem pior…

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TVI24, 22/04/2017

Talvez estes padres e seminaristas, amantes do críquete, não tenham reparado que a mensagem de Fátima é, na verdade, um apelo urgente à conversão. Mas conversão a quê? O “encontrismo”, ao desvalorizar Jesus Cristo, o único caminho de salvação, não pode ser um fé muito fiável.

Basto 4/2017

2017, e agora?

2017

O ano de 2017 chegou finalmente e vai já adiantado. As expectativas criadas em torno deste ano aumentam à medida que ele avança em direção às datas celebrativas dos grandes centenários. De facto, este não é um ano qualquer, é aquele em que o ciclo dos séculos se renova face a um conjunto de acontecimentos históricos que, em épocas diferentes, marcaram fortemente a Igreja e o mundo, deixando consequências profundas e persistentes que se estenderam no tempo até à atualidade.

É como se estivéssemos num ano em que diversas rodas dentadas de tamanhos diferentes, engrenadas no complicado mecanismo do relógio do devir universal, ficassem momentaneamente sincronizadas para depois continuarem a contagem do tempo por mais uma nova série de anos ou de séculos até à eternidade. Faz lembrar a singularidade daqueles instantes cósmicos, tão raros, nos quais vários planetas do sistema solar, com órbitas e velocidades de translação diferentes, ficam momentaneamente alinhados durante o movimento perpétuo.

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100 anos das aparições de Fátima

Os católicos celebram o primeiro centenário das aparições de Nossa Senhora do Rosário de Fátima que tiveram lugar de 13 de maio a 13 de outubro de 1917. A maior epifania mariana dos últimos séculos, onde a humanidade recebeu uma mensagem de aviso relativamente à aproximação de grandes tribulações para a Igreja e para o mundo. Mas a mensagem de Fátima é também de esperança e de certeza.

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Fátima, 1917

Quase um século depois, as profecias de Fátima ainda não foram completamente cumpridas, conforme confirmou o Santo Padre Bento XVI, e à medida que o tempo passa, aproxima-se do anunciado “triunfo do Imaculado Coração de Maria”. O Santo Padre Bento XVI espera que isso aconteça para breve, tendo confessado publicamente esse desejo junto aos pés de Nossa Senhora.

Possam os sete anos que nos separam do centenário das Aparições apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima Trindade.

(Sua Santidade Bento XVI, em Fátima, a 13 de maio de 2010)

Neste ano de 2017, o Santuário de Fátima, localizado no mesmo sítio onde os pastorinhos perceberam o valor da Eucaristia e ouviram falar da natureza dos pecados que mais almas conduzem ao inferno, prepara-se para receber, em clima de festa, um Papa que não se cansa de promover a comunhão de adúlteros, desvaloriza os comportamentos homossexuais e rejeita a necessidade de conversão à Fé Católica. Deus tenha piedade de nós.

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300 anos da Nossa Senhora da Conceição Aparecida

A imagem da padroeira da maior nação católica do mundo, cuja festa litúrgica se celebra a 12 de outubro, foi encontrada em 1717 no rio Paraíba, no atual estado de São Paulo.

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Nossa Senhora da Conceição Aparecia – Santuário Nacional

O facto de as aparições de Fátima terem ocorrido durante o segundo centenário de Nossa Senhora da Conceição Aparecida – para quem acredita em variáveis aleatórias – é uma coincidência notável.

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100 anos da Revolução Russa

O ano de 1917 foi também o ano das revoluções russas. A Revolução de Fevereiro (ocorrida a 8 de março, no calendário ocidental) destruiu a monarquia dos czares e a Revolução de Outubro (a 8 de novembro, no calendário ocidental) instalou o regime comunista e materialista sanguinário, inaugurando um período de revoluções semelhantes por todo o mundo, cujas consequências, em tantas nações, persistem ainda hoje.

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Cartaz comunista de Vladimir Lenin

Ninguém percebe muito bem qual é a natureza do regime político que governa hoje a Rússia, ou para onde ele caminha. Atendendo às profecias de Fátima, a única certeza que temos hoje é a de que a Rússia ainda não se converteu à Fé Católica, mas dá-se ao luxo de criticar agora – e com alguma razão – a rejeição generalizada dos valores religiosos nos países tradicionalmente católicos.

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100 anos do reaparecimento do ícone de Derzhavnaya

No dia 2 de março 1917 (15 de março no calendário ocidental), depois da Revolução de Fevereiro, no dia em que o czar Nicolau II abdicou do trono russo, Evdokia Adrianova, uma mulher humilde da localidade de Pererva, na região de Moscovo, viu e ouviu Nossa Senhora durante um sonho. Foi-lhe dito para se deslocar até à aldeia de  Kolomenskoye onde iria encontrar um velho ícone na igreja local (esse ícone parava em parte incerta desde o período da Invasões Francesas).

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Ícone de Nossa Senhora Derzhavnaya

A simbologia deste acontecimento é muito forte. No dia em que o monarca foi forçado a abdicar do trono russo, uma revelação mística leva à recuperação do importante ícone da Nossa Senhora Soberana. A Rainha aparece para tomar o lugar do destituído monarca daquela nação. Está sentada no trono com o Menino ao colo, segurando o ceptro na mão direita, o globo terrestre na esquerda e ostenta uma coroa e um manto imperiais.

Esta “aparição” de Maria a uma devota ortodoxa russa regista-se no mesmo ano em que, precisamente no outro extremo do Continente Europeu, acontecem as aparições de Fátima onde as frequentes referências à Rússia revestem-se de uma urgência inusitada.

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500 anos da Reforma Protestante

A publicação das 95 Teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg, na Alemanha, no dia 31 de outubro de 1517, marca o início de uma das mais persistentes, violentas e dilacerantes investidas para destruir a Igreja Católica. A Reforma Protestante separou milhões e milhões de fiéis da Igreja Católica, levando a que várias gerações de nações inteiras se afastassem da Fé verdadeira de Jesus Cristo. Hoje, as suas heresias e heterodoxias persistem, tendo-se até agravado nas últimas décadas.

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Lutero 2017

Cinco séculos depois, a Igreja Católica, para além de ter deixado de apelar à conversão dos Protestantes, celebra efusivamente a sua separação. É o próprio Papa que, unindo-se àqueles sacerdotes e sacerdotisas, bispos e bispas ilegítimos, incita os católicos a participarem na grande festa de aniversário do cisma, rasgando-se em elogios ao heresiarca Martinho Lutero e ao seu legado.

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Papa Francisco no encontro ecuménico de luteranos e católicos alemães em Roma a 13/10/2016 – Rome Reports

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300 anos da fundação da maçonaria

A fundação da Grande Loja de Londres e Westminster (mais tarde chamada Grande Loja de Inglaterra), no dia 24 de junho de 1717, dia de São João Batista, corresponde ao estabelecimento institucional da franco-maçonaria. Foi na taverna Goose and Gridiron, junto à igreja de São Paulo, na cidade de Londres, que quatro lojas maçónicas se reuniram para se constituírem numa Grande Loja.

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A maçonaria foi condenada por vários Papas. Os seus princípios e valores são incompatíveis com a Fé Católica, os seus desígnios para a humanidade são inconciliáveis com os desígnios de Deus.

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100 anos da Declaração de Balfour

A declaração de Balfour, assinada a 2 de novembro de 1917 pelo Secretário dos Assuntos Estrangeiros britânico, Arthur James Balfour, dirigida ao Barão Rothschild, líder da comunidade judaica do Reino Unido, lançou as bases para a legitimação do movimento sionista e para a criação de um estado judaico na Palestina. Mais tarde seria fundado o Estado de Israel.

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Declaração de Balfour e o respetivo signatário

Ao longo de todo o séc. XX, este território recebeu várias vagas migratórias de população judaica proveniente de diversas origens geográficas. Algo como um retorno às origens.

Este território não é um lugar indiferente, é a Terra Santa, o berço do Cristianismo.

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60 anos do Tratado de Roma

No dia 25 de maio de 1957, seis países da Europa assinaram, em Roma (na mesma cidade onde se localiza sede da Igreja Católica), o tratado que fundou a Comunidade Económica Europeia, hoje União Europeia. A União Europeia é uma comunidade internacional laica e materialista que promoveu, durante 60 anos, ideologias e políticas não cristãs e anti-cristãs nos seus estados-membros, em substituição dos valores cristãos. A Europa fora outrora o grande bastião da Cristandade.

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Assinatura do Tratado de Roma

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50 anos da primeira visita de um Papa a Fátima

No dia 13 de maio de 1967, o Papa Paulo VI era o primeiro pontífice romano a pisar o solo de Fátima, por ocasião da celebração do meio centenário das aparições. Este era o Papa que sentiu, de algum modo, a presença do “fumo de Satanás no templo de Deus”.

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Papa Paulo VI em Fátima a 13 de maio de 1967

Passados mais 50 anos, Portugal prepara-se agora para receber no Santuário de Fátima o Papa que afirma transportar consigo “a história do fracasso de Deus“.

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E muito mais…

Por todos estes aspetos e mais alguns, 2017 promete ser um ano memorável nesta espiral contínua do tempo que avança a um ritmo alucinante. Ainda agora o ano começou e já deu tanto que falar, quem sabe o que mais estará para vir? O futuro a Deus pertence, portanto sigamos o Seu conselho e continuemos a olhar para a figueira…

Nestes tempos loucos em que vivemos, têm acontecido tantas coisas em catadupa na Igreja e o mundo que se tornam praticamente impossíveis de assimilar, mas dá sempre para perceber a orientação das correntes, para onde se encaminham.

Basto 1/2017

Celebrar a desgraça

Autor desconhecido, 1524, destruição de estátuas de santos em Zurique (Alemanha)
Autor desconhecido, 1524 – Destruição de imagens de santos durante os tumultos da reforma protestante em Zurique, Suíça

Atenção, isto não é uma brincadeira de mau gosto, nem resultou de uma frase infeliz proferida involuntariamente a bordo de um avião. Isto é a sério, é oficial, e já está a ser preparado há bastante tempo. A Igreja Católica resolveu associar-se institucionalmente às Celebrações dos 500 anos da Reforma Protestante. Uma iniciativa paradoxal que deve surpreender até as mentes mais abertas do mundo protestante.

Muito poderia ser dito sobre o absurdo que esta festa, em si, representa, sendo única em 500 anos. Por agora, fiquemos apenas com a resposta do Cardeal Gerhard Muller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que, relativamente a este assunto, afirmou recentemente o seguinte:

“Objetivamente falando, nós, os Católicos não temos razões para celebrar o 31 de outubro de 1517, a data que é considerada o início da reforma que levaria à rutura da Cristandade Ocidental.”

Este comentário surgiu a respeito da notícia que informa que o Papa Francisco visitará a Suécia para a comemoração dos 500 Anos da Reforma Protestante adiantada, entre outros, pelo próprio “L’Osservatore Romano”.

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Agência noticiosa do Vaticano                          Sítio oficial da Santa Sé na Internet

O ano das celebrações conjuntas – de protestantes e católicos – dos cinco séculos da Reforma Protestante, coincide curiosamente com o da celebração dos 100 anos das aparições de Fátima. Com efeito, apesar do clima de festa que já se vive na Cova da Iria, em boa análise, o Santo Padre ainda não confirmou a sua presença para a celebração do 1º Centenário das Aparições. No entanto, o Vaticano tem vindo a preparar, com tempo, uma ambiciosa agenda celebrativa do 5º Centenário da Reforma Protestante. Esperemos que, até lá, não se lembrem de beatificar Martinho Lutero ou João Calvino porque – aqui entre nós – já pareceu mais impossível.

A Santa Sé vai, no fundo, participar na celebração do grande aniversário da maior revolta interna da Igreja Ocidental, que afastou nações inteiras da verdadeira Igreja fundada por Cristo, as quais ainda hoje continuam afastadas. Pior, as seitas protestantes estão hoje mais rebeldes, heterodoxas e heréticas do que nunca. Nós, os católicos romanos, estamos então oficialmente convidados a comemorar. Mas o que há então para comemorar? A nossa memória coletiva não transporta coisas propriamente dignas de comemoração, tais como:

  • a contestação ao Magistério da Igreja, à sua doutrina;
  • a rebelião contra a Autoridade Papal, contra a supremacia de Roma;
  • a descrença nos Sacramentos;
  • a abolição do sacrifício da Eucaristia e a descrença na transubstanciação;
  • a eliminação dos sacrários das igrejas;
  • a perseguição aos católicos;
  • a destruição da ordem hierárquica estabelecida;
  • o combate feroz à moral católica;
  • o combate aos dogmas católicos;
  • a abertura à interpretação subjetiva dos textos sagrados.
  • a desvalorização da Virgem Maria e a sua expulsão das igrejas;
  • a destruição de magníficos dos altares que honravam a realeza do nosso Deus;
  • a destruição das estátuas dos santos e mártires cristãos que foram queimadas;
  • a abolição do celibato sacerdotal;
  • o aparecimento de sacerdotisas e bispas;
  • a desvalorização da divindade de Jesus Cristo;
  • a aceitação da homossexualidade como uma virtude moral;
  • a legalização religiosa do divórcio;
  • o desaparecimento de ordens religiosas;
  • a secularização do clero;
  • a banalização do Sagrado;
  • a introdução da cultura Pop e Rock nas celebrações religiosas;
  • a revolução constante das práticas e crenças religiosas;
  • o modernismo contra a Tradição;
  • a aceitação da maçonaria;
  • revolta, revolução;
  • etc;
  • etc;
  • etc…

Mais do que uma desolação, isto parece loucura… É como se, de repente, um soldado, que tinha sido amputado em combate, se lembrasse de festejar, com os seus inimigos, a data em que lhe cortaram a perna, o braço e as orelhas. Está tudo doido!

 

Basto 4/2016