Filósofo ateu censura o Papa Francisco

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Por Jules Gomes

ROMA (ChurchMilitant.com) – O notável filósofo italiano e amigo pessoal de Bento XVI critica o Papa Francisco por “ir contra a tradição, a doutrina e introduzir inovações, comportamentos e gestos inexplicáveis”.

O professor Marcello Pera, ateu e opositor assumido do pós-modernismo e relativismo cultural, classificou o pontificado de Francisco como “um escândalo no sentido bíblico”, pois “confunde e faz cair o fiel, não dá frutos e, pelo contrário, diminui-os.”

De acordo com o ex-presidente do Senado Italiano, em comentários à La Fede Quotidiana na última quinta-feira, as vocações e a participação nas missas caíram, a recolha de fundos está sempre baixa e o público no Angelus, na Praça de São Pedro, diminuiu consideravelmente sob o pontificado de Francisco, como mostram as imagens desses eventos papais.

“Quanto aos fundamentos da fé católica, este pontificado é um ultraje à razão”, lamentou o ex-professor de filosofia da Universidade de Pisa. “Mas ninguém, fiel ou bispo, diz alguma coisa, ninguém tem coragem de protestar, mas muitos duvidam [das realizações deste pontificado]”.

“Digamos claramente que o que está a acontecer é muito sério. Por esta altura, uma grande parte dos católicos está resignada, não tem consciência e não tem entusiasmo, não reage com a determinação que seria necessária”, comentou Pera, falando em italiano.

Referindo-se à crise que a cultura ocidental enfrenta e ao precário futuro da Europa, o influente intelectual apontou o dedo aos líderes e os média católicos, como estão “silenciosos ou falam suavemente” enquanto o catolicismo está a ser atacado, mas como teriam “defendido ardentemente muçulmanos e judeus”.

“Isso não é tolerância, mas render-se”, afirmou, “baixar as calças perante o secularismo e o relativismo”.

“O catolicismo há muito se degradou; está a perder a sua batalha cultural e religiosa”, continuou. “As autoridades católicas têm medo e são uma triste visão. O espelho fiel dessa situação está no topo”.

O senador Pera, que admite ser “um admirador dos escritos do Papa Bento XVI”, foi co-autor do livro Without Roots: Europe, Relativism, Christianity, Islam [Sem Raízes: Europa, Relativismo, Cristanismo, Islão] em 2004, com o então cardeal D. Joseph Ratzinger.

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Encontro de Marcello Pera com Bento XVI.

Considerando o ex-pontífice “um profundo teólogo e um pensador original”, Pera previu a islamização da Europa, caso “prosseguisse com a sua cultura relativista, com a rejeição da sua tradição, com as suas baixas taxas de natalidade e com a imigração indiscriminada”.

“Talvez já tenhamos dado um golpe no coração e não percebemos. O que o Papa Ratzinger diz em Without Roots vem à mente: A impressão hoje é que a Europa se assemelha ao Império Romano no seu outono”, enfatizou.

“O problema é que a Igreja está reduzida a uma espécie de ONG, cuida sobretudo do social, transformou Greta [Thunberg] num ídolo, corre atrás de solidariedade, visões políticas e sociais em favor do bem-estar, mas os pastores muitas vezes esquecem a salvação das almas, que é sua principal tarefa”, reclamou o ateu.

Amigo íntimo do Papa Emérito, Pera disse que não conversa com Bento XVI há algum tempo, mas pode “especular que está arrependido e alarmado”. No entanto, Bento XVI não quis e não pôde intervir, pois “ele escolheu o silêncio e mantém corretamente o seu compromisso”.

Por outro lado, o Papa Francisco parece não ter problemas com a crise que envolve a Europa: “Ele é alguém que quer agradar, gosta de pessoas que gostam dele, segue o politicamente correto”, afirmou Pera.

Ele transformou o catolicismo “numa igreja tão em saída que não pode mais ser encontrada em lugar algum”, acrescentou.

O filósofo, que repetidamente alertara contra o avanço do Islão no Ocidente, reiterou a sua crença de que “o Islão não é um credo de paz e misericórdia, como eles querem que acreditemos, mas exige opressão”.

“Com essa crença, o diálogo torna-se problemático, sem que antes se esclareçam os conceitos fundamentais de respeito mútuo e de obediência às leis do estado e dos valores ocidentais”, explicou.

Numa entrevista de 2017 ao Il Mattino , Pera criticou fortemente a política de fronteiras abertas de Francisco:

Francamente, não entendo este Papa, o que ele diz está para além de qualquer entendimento racional. Eu questiono-me: porque diz ele isso? Qual é a verdadeira finalidade das suas palavras? Porque não tem ele um mínimo de realismo, aquele mínimo que é exigido a alguém? A resposta que posso me dar é apenas uma: o Papa faz isso porque odeia o Ocidente, aspira a destruí-lo e faz todo o possível para alcançar esse objetivo. E ele aspira a destruir a tradição cristã, o cristianismo como se realizou historicamente.

E concluiu: “Bergoglio só quer fazer política, o evangelho não importa.”

O Gabinete de Imprensa da Santa Sé não respondeu à entrevista.

A edição original deste texto foi publicada pelo Church Militant a 28 de dezembro de 2019. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do texto acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. A presente edição destina-se exclusivamente à sua divulgação. Sempre que possível, o texto deve ser lido na sua edição original.

Basto 12/2019

Exclusivo Church Militant: Autor de “O Papa Ditador” falou

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Pela equipa do Church Militant

O recém-lançado livro O Papa Ditador chamou a atenção internacional pelas suas afirmações sobre o atual pontificado e algumas informações dizem que o Vaticano está ansioso por apanhar o autor, que é conhecido como Marcantonio Colonna (um aristocrata italiano do séc. XVI que serviu como almirante da frota papal na Batalha de Lepanto). O Church Militant conversou com o autor por e-mail para discutir as suas expectativas relativas à publicação do livro e os seus pensamentos sobre o atual regime.

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Church Militant: Porque escreveu o livro e o que espera dos católicos com essa informação sobre o Papa Francisco?

Marcantonio Colonna: O meu objetivo com a publicação do livro foi mostrar a imensa lacuna existente entre a atual imagem do Papa Francisco nos média e a realidade. O que os católicos podem fazer com a informação poderá variar: na melhor das hipóteses, pode encorajar os líderes da Igreja (e sei que muitos cardeais e outras figuras importantes leram o livro e captaram a sua mensagem) a confrontarem o Papa Francisco e a detê-lo na atual direção do seu governo. Se isso for impossível, espero que pelo menos sirva de lição para os cardeais no próximo conclave, para não cometerem o mesmo erro de eleger um cardeal pouco conhecido que se revela muito diferente do que se pensava ser.

Church Militant: Fontes internas disseram ao Church Militant que a atmosfera no Vaticano sob o Papa Francisco é “como a Coreia do Norte” – significando que reina o medo, especialmente entre os clérigos mais ortodoxos. Nós também lemos comentários de vários prelados de que muitos telefones/computadores têm sido grampeados. Isso é verdade? E em caso afirmativo, pode explicar?

Marcantonio Colonna: A espionagem no Vaticano é exatamente como diz e eu apresento detalhes no meu livro. Clérigos e leigos que trabalham lá acham que os seus escritórios, automóveis e até casas particulares são seguidos e os seus telefones escutados. Todos aqueles com quem falamos no Vaticano, um pouco por todo o lado, dizem que a atmosfera é de um medo profundo, um estado de coisas completamente diferente de qualquer outra de que há memória.

Church Militant: Como obtém tais informações internas sobre o Papa e como pode público saber que essa informação é confiável?

Marcantonio Colonna: Vivo em Roma há mais de quatro anos e tenho falado com muitos sacerdotes e leigos que trabalham no Vaticano. Relativamente a algumas das informações mais sensíveis é impossível divulgar as fontes, mas uma grande parte do conteúdo do meu livro foi já publicado por jornalistas como Sandro Magister ou Philip Lawler, que conhecem bem o Vaticano. O seu testemunho foi amplamente ignorado pelos média convencionais, pelo que um dos objetivos do meu livro é dar-lhes mais impacto, reunindo tudo num só lugar.

Church Militant: O Papa Francisco tem feito comentários públicos contraditórios em relação ao “lobby gay”. Por um lado, reconhece sua existência; por outro, parece tolerar e, em alguns casos, promover o clero pró-gay. O Papa Bento XVI reconheceu que enfrentou e tentou demover o lobby gay no Vaticano. Acha que Papa Francisco está, de algum modo, a lutar contra essa rede homossexual?

Marcantonio Colonna: A tentativa de Bento XVI de limpar o lobby homossexual do Vaticano (e do clero em geral) foi de facto completamente subvertida pelo atual Papa. Ele deu continuidade à estratégia pela qual era bem conhecido enquanto Arcebispo de Buenos Aires, que consiste em servir-se deliberadamente de subordinados moralmente fracos por causa do poder que isso lhe garante sobre eles. Os prelados de caráter escandaloso foram não apenas promovidos pelo Papa Francisco como também obtiveram uma plataforma para promover o seu programa de mudança do ensinamento da Igreja a respeito da moral sexual, como tentaram fazê-lo, e com considerável sucesso, nos dois Sínodos da Família.

Church Militant: Roma parece determinada a descobrir sua identidade. O que acha que acontecerá consigo se Roma descobrir quem é?

Marcantonio Colonna: Se o Vaticano descobrir quem eu sou e optar por divulgar a minha identidade, o principal efeito provavelmente será dar-me nova publicidade. O que mais me preocupa é o possível afastamento de pessoas que o Vaticano possa achar que me estão associadas, porque castigar a menor dissidência é a marca do atual pontificado e a máquina de propaganda é implacável em denegrir a reputação daqueles que são identificados como estando “do outro lado”.

Church Militant: Quais são os seus pensamentos a respeito do decreto papal [que declara a interpretação dos bispos de Buenos Aires como “autêntico magistério”]? Acha que esta é a maneira do Papa Francisco responder aos “dubia”?

Marcantonio Colonna: No meu livro, evitei tomar partido em relação à doutrina e, no que diz respeito à Amoris Laetitia, preocupei-me principalmente em mostrar o quão indireto e ambíguo é o modo do Papa Francisco ensinar a Igreja. O decreto que menciona é um bom exemplo. Porque é que a interpretação autorizada de um documento como a Amoris Laetitia tem de ser transmitida através de uma carta aos bispos argentinos? Se o Papa Francisco tem um novo ensinamento para dar à Igreja, se ele procura, como afirma, trazer o verdadeiro espírito de Cristo para derrotar uma tradição de legalismo clerical, porque é que ele não o proclama com ousadia e clareza como os grandes mestres da doutrina cristã sempre o fizeram? Sob o pontificado atual, passámos de um regime de ensinamento através do dogma claro para insinuar através de manobras políticas.

Church Militant: Há mais alguma coisa que gostaria de dizer?

Marcantonio Colonna: Eu gostaria apenas de fazer uma observação em relação a reações de alguns jornalistas ao meu livro. Alguns deles parece terem ficado tão surpreendidos por uma história desconhecida que supõem que o meu propósito, ao escrever isso, seria mostrar uma visão particular e pessoal sobre o Papa Francisco. Na verdade, quase tudo o que eu digo no livro é citado, quer de coisas que já foram publicadas ou de fontes privadas. O meu objetivo era deixar os factos em aberto, esperando que o meu livro encoraje o avanço no trabalho investigativo sobre o Papa Francisco e seu pontificado. Ainda ontem, o Papa proferiu um discurso aos jornalistas em que (concebivelmente inspirado por alguns desenvolvimentos das últimas semanas) ele apelou a uma informação mais “completa e precisa” na profissão jornalística. Esse é um desejo relativamente ao qual estou feliz por estar absolutamente do lado do Papa.

A edição original deste texto foi publicada pelo Church Militant a 17 de dezembro de 2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do artigo acima é da inteira responsabilidade dos seus autores, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 12/2017