O Cardeal Parolin vende para Pequim

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Por Christopher A. Ferrara

Já há muito tempo que a figura do Secretário de Estado do Vaticano, elevada a uma proeminência sem precedentes através das reformas pós-Vaticano II conduzidas pelo Cardeal Villot, tem colocado em perigo a integridade da Fé, a fim de servir as regras mundanas da diplomacia do Vaticano. Assim aconteceu com a Mensagem de Fátima e o Terceiro Segredo em particular, que ninguém menos que o Secretário de Estado do Vaticano (Cardeal Sodano e seu sucessor Cardeal Bertone) reduziu a uma genérica prescrição para oração e penitência, amputando a Consagração da Rússia e reduzindo o segredo a uma mera descrição de eventos do séc. XX.

E assim acontece com o destino dos católicos da Igreja clandestina na China, que recusam aliar-se à “Associação Patriótica Católica (APC),” a pseudoigreja criada pelo regime vermelho chinês na década de 1950 em Pequim, como a Igreja Católica “oficial”, a fim de impor o controlo governamental sobre a seleção e consagração de bispos chineses, iniciando, deste modo, uma hierarquia chinesa descaradamente cismática.

Agora ouvimos o atual Secretário de Estado do Vaticano, o Cardeal Pietro Parolin, afirmar que não existe realmente diferença entre os bispos clandestinos e fiéis que recusam aderir à cismática APC, sofrendo por causa disso uma perseguição implacável, e os militantes da APC, clérigos e leigos, que obedecem a homens e não a Deus pois professam um culto religioso condicionado às diretrizes de um regime comunista ateu que obriga as mulheres a abortar seus próprios filhos.

Como o Cardeal Parolin declarou numa recente entrevista ao Avvenire, o jornal da conferência episcopal italiana: “A alegação de que existem duas Igrejas diferentes na China não corresponde à realidade histórica, nem vida de fé dos católicos chineses. Existem, de facto, duas comunidades, ambas ansiosas por viverem em plena comunhão com o Sucessor de Pedro. Cada uma delas acarreta a bagagem histórica de momentos de grande testemunho e sofrimento, que nos dizem algo sobre a complexidade e as contradições que existem dentro deste vasto país.”

Lixo, absolutamente, e, ao mesmo tempo, uma traição total à Igreja Católica Chinesa Clandestina. Em primeiro lugar, os fiéis católicos que se recusam a submeter à APC não estão “ansiosos por viver em plena comunhão com o Sucessor de Pedro”, pelo contrário, estão em plena comunhão com ele, como sempre estiveram desde o momento em que recusaram submeter-se a Pequim, obedecendo a Deus e não a homens.

Em segundo lugar, a APC não é “uma comunidade… ansiosa para viver em plena comunhão com o Sucessor de Pedro”, mas antes uma criação maléfica dos ditadores comunistas que feriu o Corpo Místico de Cristo com uma hedionda invenção humana que pretende ser a “Igreja oficial “.

Em terceiro lugar, não há qualquer equivalência moral entre a Igreja subterrânea em união com Roma e a maléfica e cismática APC. Sugerir que estas “duas comunidades” deve ser “reconciliados, abraçando-se mutuamente, é algo de monstruoso…” Os fiéis católicos perseguidos na China jamais poderão “abraçar” uma organização que jura fidelidade a uma ditadura comunista.

A situação na China só tem uma solução: a APC tem ser abolida e todos os católicos chineses devem ser autorizados a professar a religião abertamente, em união com Roma e sem interferência governamental.

Mas agora os rumores abundam, e Sandro Magister confirma que Roma está prestes a concordar em permitir que o regime comunista chinês em Pequim selecione bispos para a aprovação do Vaticano – um grotesco regresso ao mal do Cesaropapismo, segundo a qual, o soberano civil é o chefe da Igreja no seu território e pode designar bispos. Mas, infinitamente pior, neste caso, é que o soberano civil não seria um rei católico mas antes um ditador comunista.

A cada dia que passa, a crise da Igreja, que perdura há meio século, acelera em direção ao que só pode ser uma conclusão calamitosa. O Terceiro Segredo de Fátima desenrola-se diante dos nossos olhos, enquanto os guias cegos da hierarquia superior da Igreja se encaminham rapidamente para caírem numa vala. Não podemos segui-los. Podemos apenas rezar pela intervenção final do Céu e o fim desta crise com o triunfo do Imaculado Coração de Maria – seguindo, finalmente, a Consagração da Rússia que, como se pode ver, continua no centro de acontecimentos mundiais potencialmente explosivos.

A edição original deste texto foi publicada pelo Fatima Center no dia 29 de agosto de 2016. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

 

Basto 8/2016

Negócio da China

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Bandeira da República Popular da China

O jornal South China Morning Post, de Hong Kong, noticiou esta semana que Pequim e a Santa Sé terão chegado a um acordo inicial sobre a questão da ordenação de bispos. O jornal cita o Cardeal John Tong Hon, bispo de Hong Kong, para explicar em que consiste esse acordo.

A Sé Apostólica tem o direito de escolher, a partir da lista recomendada, os candidatos que considera como mais adequados e o direito de rejeitar os candidatos recomendados por uma conferência de bispos da China e pelos bispos das províncias sob a sua administração.


(in SCMP, 05/08/2016)

Isto não dá para entender ainda muito bem o que se passa, mas parece um verdadeiro negócio da China. Se não estivermos enganados na nossa interpretação – mas oxalá que sim – o Vaticano está disposto a aceitar escolher os bispos a partir de um catálogo de candidatos propostos ou aprovados pela ditadura marxista chinesa? Esta questão da ordenação dos bispos foi sempre um dos principais pontos de desentendimento entre a República Popular da China e a Santa Sé.

A República Popular da China é um dos países onde a Igreja Católica é mais perseguida em todo o mundo. Exceptuam-se desta provação apenas as regiões administrativas de Macau e Hong-Kong, antigas colónias portuguesa e britânica respetivamente, cuja atual autonomia foi negociada antes da devolução da sua soberania à China. No restante território chinês, a Igreja Católica Romana vive na clandestinidade, os seus crentes são fortemente perseguidos pelo regime tirano comunista.

Para além da verdadeira Igreja, a clandestina, a existe também a igreja católica oficial. Esta encontra-se sob o controlo governamental da Associação Patriótica Católica Chinesa. Esta associação é um organismo do regime não reconhecido pela Santa Sé, pelo menos até agora.

O alerta face à notícia em epígrafe foi levantado pelo Cardeal Joseph Zen Ze-kiu, bispo emérito de Hong Kong.

Permitir oficialmente [o governo chinês] gerir a igreja? Isso significaria rendição.

A relação fica estabelecida, e depois? Quando o Papa visitar a China e o governo selecionar apenas as pessoas obedientes para se encontrarem com Papa, o que será daqueles que pertencem às igrejas clandestinas?

(in HKFP, 09/08/2016)

Este cardeal teme, já há algum tempo, um desfecho semelhante a este da atual diplomacia do Vaticano, receando agora que a Igreja Católica da China possa morrer às mãos do Santo Padre, depois de ter resistido tantos anos aos seus inimigos.

Que a Nossa Senhora Imperatriz da China proteja o seu povo.

 

Basto 8/2016