Portugal e o depósito da Fé

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Por Pedro Sinde

Os portugueses têm uma imagem de si próprios, espiritualmente, muito menorizada; não é demais, no entanto, insistir que eles têm uma missão; uma missão que os uniu durante séculos e que foram cumprindo quase sem pensar nisso. É verdade que no “interregno”, entre 1580 e 1640, os portugueses pareciam pensar já ter perdido a razão de existir como País, pois, na verdade, a primeira parte da sua missão universal se cumprira já: levar a todo o mundo o cristianismo. Esse período de sessenta anos equivaleu à manifestação exterior de uma mudança de ciclo no interior da alma portuguesa – como o pousio para um campo, assim foi a sua breve reintegração peninsular. A Restauração viria a ser o sinal de que ainda havia sentido para a sua existência.

Em 1646, quando D. João IV entrega Portugal, com a coroa, à Imaculada, semeia uma semente do mundo espiritual nesta nossa terra; semente que permaneceu debaixo da terra, da terra da alma portuguesa, até 1917, altura em que veio a florescer em Fátima. O santuário do Sameiro (1890), dedicado também à Imaculada, foi um primeiro rebento, que veio preparar aquela eclosão de Fátima, situada, curiosamente, em termos geográficos, entre os dois prestigiados santuários à Imaculada que o precederam: Sameiro e Vila Viçosa; e também praticamente coincidindo, de modo bastante significativo, com o centro geográfico de Portugal.

Em 1917, a Virgem veio, pois, dizer aos portugueses que a sua missão se transformara, se subtilizara, mas que iria continuar. Deus quis assim ensinar a três crianças humildes, aquilo que aos doutores quis esconder. E esses mesmos doutores ainda hoje riem pirronicamente das três crianças, ignorando que a sabedoria de Deus é loucura para os homens

No contexto deste artigo, interessa-nos destacar dois aspectos da mensagem de Fátima, ligados à missão de Portugal:

1. A Virgem diz, em 13 de julho, que em Portugal se conservará sempre o dogma da fé, e isso apesar dos tempos de generalizada apostasia em que temos vivido. Este ponto é o centro a partir do qual tudo o resto se ordenará: a fidelidade dos portugueses ao depósito da fé (se pudermos identificar “dogma da fé” com “depósito da fé”). A ideia de que haverá uma apostasia generalizada está, de resto, perfeitamente de acordo com o que diz o próprio Catecismo sobre o fim dos tempos (§ 675, onde se fala de uma “impostura religiosa” e de uma prova que “abalará a fé de numerosos crentes”) e, naturalmente, o Evangelho, nas tremendas palavras do Filho de Deus: “Quando, porém, voltar o Filho do Homem encontrará fé sobre a terra?” (Lc XVIII, 8). Se se conservará sempre, então, podemos pensar num papel espiritual análogo ao de um barco, uma barca, uma arca – uma arca de Noé –, enquanto durar o dilúvio espiritual da apostasia; foi em barcos que noutros tempos Portugal levou ao mundo inteiro a boa nova de Cristo, seria agora num barco, mas de outra natureza, que ajudaria a conservação do depósito da fé.

2. A Virgem veio também dizer que é vontade do seu Filho que o culto ao Coração Imaculado de Maria se difunda em todo o mundo: “para salvar as almas, Deus quer estabelecer no mundo a Devoção ao Meu Imaculado Coração”; estas são as palavras da Virgem logo depois de ter mostrado às três crianças a terrífica visão do Inferno. Ora, é muito evidente que isso não aconteceu ainda e que o culto ao Coração Imaculado não tem dentro da Igreja o lugar digno que corresponda ao desejo de Deus: o de o estabelecer no mundo! O que têm feito os portugueses para este fim? A Igreja portuguesa tem aqui uma função essencial, pedida expressamente pela Santa Virgem. Não seria pequeno o seu contributo se ajudasse a estabelecer no mundo esta devoção, que, na verdade, se vai estabelecendo, muitas vezes apesar da hierarquia. Mesmo em Fátima, esta devoção (penso por exemplo na prática dos Cinco Primeiros Sábados) está muito longe de ter o papel central que devia ter. E aqui se vê que o povo, que acorre a Fátima nos primeiros sábados, fá-lo normalmente por sua própria iniciativa; e esta é a nossa grande esperança, na verdade, a de que no seu sensus fidei, no seu sentido da fé, saiba sempre o povo reconhecer onde está a verdade, mantendo-se fiel; vox populi, vox Dei, voz do povo, voz de Deus.

Temos de nos recordar que a Virgem não pode ter dito em vão aquelas importantes palavras sobre o papel de Portugal na conservação do dogma; seguramente, quis que os portugueses tomassem consciência do que lhes estava reservado, para se prepararem. Lembremo-nos que as seis aparições da Virgem em 1917, foram precedidas pelas três aparições do anjo; este anjo identificou-se dizendo ser o Anjo de Portugal. Isto é absolutamente inusitado nas aparições marianas de todo o mundo e, por isso, devemos ver aí um sinal claro de que estas aparições se ligam intrinsecamente ao ser mais íntimo da identidade portuguesa. O essencial desta missão, ensinaram o Anjo e a Virgem, cumpri-la-á Portugal colaborando com os Céus pela intenção de reparação que deve presidir à sua oração e aos seus sacrifícios, segundo a amorosa doutrina do corpo místico.

Dir-se-ia, no entanto, que Portugal parece tanto à deriva como qualquer outro País para aparecer com uma missão tão grandiosa; também à deriva parecia estar a Arca no dilúvio, no entanto, como antes à Arca, também agora a Divina Providência o conduz, pelas mãos da Virgem: lembremos de novo que desde 1646 é ela quem tem a coroa e, por isso, o poder de reinar. O leme deste barco não está nas mãos dos homens, embora Deus se possa servir circunstancialmente deles. E é aqui que o primeiro ponto se cruza com o segundo, pois onde encontrará refúgio a doutrina, para se conservar, senão no Coração da Mãe? “Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração” (Lc II, 19)… Não é ela, afinal, a Sede da Sabedoria? Não é ela, afinal, a verdadeira Arca da Aliança? E não foi esta senão a prefiguração sua? A consagração de Portugal à Imaculada tem, certamente, relação com a manifestação do Coração Imaculado em Fátima e Balasar (sobre que esperamos escrever noutra ocasião); é no Coração da Mãe que encontraremos, sempre preservadas, as palavras do Filho. Se nos lembrarmos que o depósito da fé se conservará no Coração Imaculado, então será mais fácil de entender porque é que em Portugal, mais do que noutros lugares, se conservará, pois o nosso povo, desde a origem da nacionalidade, praticamente, é de uma fidelidade impressionante à Imaculada. E o povo que permanecer católico, vai perseverar nessa fé. E será dentro da nova Arca de Noé – agora Arca de Maria – que encontrará preservada a Palavra do Senhor: a doutrina, o dogma da fé, o depósito da fé. Porque ali, ainda hoje, a Imaculada medita o profundo mistério do seu Filho na imensidão amorável da Trindade. Assim, será a Imaculada, ela mesma, quem conservará, de novo, a palavra sagrada. Talvez a esta luz já não nos pareça tão inusitada a afirmação da Virgem em torno da conservação do dogma da fé em Portugal, porque aos portugueses caberá manter a fidelidade à Imaculada; e será à Imaculada que caberá a conservação do dogma, coisa que faz, como sua função, vencedora de todas as heresias, desde que meditava, no seu coração, como vimos, os eventos e as palavras do Filho.

Fátima é de uma coerência espantosa, não me canso de o constatar e sempre fico perplexo.

Este texto foi publicado no jornal Diário do Minho no dia 15 de fevereiro de 2017.

Nota da edição: o artigo acima faz parte da série “Fulgores de Fátima”, uma rubrica assinada pelo filósofo português Pedro Sinde no jornal Diário do Minho. A imagem foi adicionada na presente edição, não faz parte da publicação original.

Basto 7/2017

A 27ª pergunta, e a resposta…

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Faz hoje precisamente 100 anos que Nossa Senhora revelou o Segredo de Fátima a três crianças portuguesas, na Cova da Iria.

No manuscrito da sua IV Memória, concluído em Tuy, a 8 de dezembro de 1941, a Ir. Lúcia acrescentou uma informação sobre a Portugal a tudo o que já tinha dito e escrito anteriormente a respeito do Segredo ou da aparição de 13 de julho. Trata-se da famosa meia-frase que abre o Segredo de Fátima.

Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé, etc. Isto não o digais a ninguém.

(in IV Memória da Ir. Lúcia, 1941)

Então, faz também precisamente hoje 100 anos que Nossa Senhora disse que a Fé se conservaria em Portugal. Essa informação – assim como todas as outras contidas no famoso “etc” – destinava-se exclusivamente ao Bispo de Leiria ou ao Patriarca de Lisboa. Falta saber se era apenas uma simples profecia circunscrita a um espaço geográfico ou também uma ordem dirigida ao clero e ao povo português.

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Vista parcial do manuscrito da IV Memória da Ir. Lúcia, concluído 8 de dezembro de 1941

Mas terá Nossa Senhora mesmo afirmado que a Fé se conservará sempre em Portugal, ou isso foi entretanto “inventado” pela Ir. Lúcia?

Perante esta ridícula questão, subtilmente sugerida ou respondida por alguns dos famosos especialistas em “fatimologia”, temos duas opções, damos crédito ao que a Ir. Lúcia escreveu ou, em alternativa, acreditamos naqueles que gostam de falar por ela – um grupo eruditos em franco crescimento.

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Ir. Lúcia na sua visita à Capelinha das Aparições em 22 de maio de 1946

De entre todos os questionários dirigidos à Ir. Lúcia, em forma de carta, com o objetivo de aclarar informações e detalhes relativos às aparições – só no ano de 1946 teve de responder a três, pelo menos – um deles, bastante exaustivo nas suas 65 perguntas, foi endereçado pelo advogado francês, residente em Marrocos, J. Goulven. Na resposta a este questionário, que terá sido firmada a 30 de junho de 1946, Lúcia respondeu a todas as questões, assinalando-as com o respetivo número ordinal, seguido da palavra “pergunta”…

27ª pergunta e respetiva resposta:

27 – Foi de facto dito que a Rússia se há-de converter, e que Portugal conservará a Fé? Quais as palavras exactas pronunciadas por Nossa Senhora nessa aparição?

27ª pergunta – Sim; é verdade.

(in Novos Documentos de Fátima, 1984, p. 348, reportando para os manuscritos da Ir. Lúcia do Arq. Sebastião Martins dos Reis, PC, 69-86)

No livro Novos Documentos de Fátima, no final da reposta da Ir. Lúcia à 27ª pergunta, aparece uma nota de rodapé nestes termos: “Como se vê, a Irmã Lúcia não respondeu à 2ª parte da pergunta”. Contudo, como podemos constatar, ela respondeu, de forma clara, à primeira parte, referente à conversão da Rússia e à conservação da Fé em Portugal.

Faz hoje também 100 anos que Nossa Senhora prometeu a conversão da Rússia. Sem entrarmos na fastidiosa discussão em torno da validade das consagrações realizadas pelos vários Papas durante o séc. XX, temos de questionar, mais uma vez, aqueles que festejam a conversão da Rússia: a Rússia converteu-se a quê? O verbo “converter” pertence à classe dos verbos transitivos, implica a existência de um complemento, ainda que possa não ser referido de forma explícita.

Esta questão faz ainda mais sentido no dia de hoje, quando as celebrações da peregrinação aniversária do 13 de julho, em Fátima, foram presididas pelo arcebispo de Moscovo, D. Paolo Pezzi, em representação de uma parca minoria de católicos atualmente existente na Rússia.

Basto 7/2017