Misericórdia – a boa e a má moeda

A lei de Gresham é um princípio económico que diz que “a má moeda tende a expulsar do mercado a boa moeda”. Que Deus nos perdoe pela utilização desta analogia, mas ela faz-nos lembrar a confusão que se vive hoje, na Igreja Católica, em relação à verdadeira Misericórdia de Deus, onde as ideias erradas se espalham e tendem a substituir a Verdade.

Deus é infinitamente misericordioso, mas também é infinitamente justo. Estas duas características de Deus estão intimamente ligadas, pelo que é impossível isolar uma da outra. Acreditar que a Misericórdia do Pai elimina a sua própria Justiça é, não só, um erro doutrinal, como também um condenável ato de orgulho humano, uma iniquidade. Assim, pensar que não há necessidade de corrigir a nossa condição de pecadores porque Deus perdoará sempre, não é mais do que tentar a paciência do próprio Deus. É não temer a Deus e pecar contra o Espírito Santo, sendo este o único tipo de pecado para o qual não há Perdão.

O Ano Santo da Misericórdia, que teve início a 8 de dezembro de 2015 e se estenderá até ao dia 20 de novembro deste ano, é uma iniciativa louvável, um momento único para nos reconciliarmos com Deus. Mas para podermos beneficiar das abundantes graças de Deus durante este ano jubilar, é necessário, antes de mais, percebermos em que consiste o Sacramento da Reconciliação.

A Reconciliação com Deus implica que a pessoa esteja arrependida dos seus pecados, que sinta a dor espiritual, vergonha por O ter ofendido. Nestas condições, deve dirigir-se a um padre, a um ministro de Deus, para fazer a remissão desses pecados através de uma confissão, após a qual, o padre confessor, se assim o entender, decreta a absolvição desses pecados e a respetiva penitência. Dentro desta penitência, o mais importante é a necessidade de reparação e a intenção de não voltar a pecar. Deste modo, se não há arrependimento na pessoa, ou se não existe um propósito de correcção de uma condição pecaminosa em que aquela vive, então não há lugar ao Perdão de Deus. E não é porque Deus não seja infinitamente misericordioso, mas antes porque a pessoa não quis verdadeiramente aceder à sua Misericórdia. Tal situação significa que a pessoa ainda não estava em condições para  se reconciliar com Deus, ou então, pior, ela não teme a Sua Justiça. Em qualquer dos casos, os pecados não ficam absolvidos, podendo inclusivamente incorrer numa situação de pecado ainda mais grave, admitindo o segundo caso. A Misericórdia de Deus é abundante mas apenas sobre aqueles que temem a Sua Justiça.

Não deve ter sido por acaso que este Ano Santo da Misericórdia começou no dia em que os católicos festejam a Solenidade da Imaculada Conceição de Maria. Maria é Mãe de Misericórdia.

A minha alma glorifica o Senhor
E o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.

Porque pôs os olhos na humildade da sua Serva:
De hoje em diante me chamarão bem aventurada todas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas:
Santo é o seu nome.

A sua misericórdia se estende de geração em geração
Sobre aqueles que O temem.
Manifestou o poder do seu braço
E dispersou os soberbos.

Derrubou os poderosos de seus tronos
E exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens
E aos ricos despediu de mãos vazias.

Acolheu a Israel, seu servo,
Lembrado da sua misericórdia,
Como tinha prometido a nossos pais,
A Abraão e à sua descendência para sempre

Glória ao Pai e ao Filho
E ao Espírito Santo,
Como era no princípio,
Agora e sempre. Amen.

(Lucas 1:46-55)

Não existe Misericórdia sem Justiça, não nos deixemos enganar.

 

Basto 3/2016

Os vendilhões do Templo

Bernardino Mei
Bernardino Mei, 1655

 

O grafismo associado ao lema Misericordes sicut Pater, escolhido pela Santa Sé para identificar a documentação oficial alusiva ao Jubileu Extraordinário da Misericórdia, bem como para o reconhecimento das igrejas jubilares onde os fieis passam as “Portas da Misericórdia” para irem orar e reconciliar-se com Deus, está a sofrer uma utilização comercial.

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Como se de um evento lúdico ou desportivo se tratasse, parece que o Jubileu da Misericórdia também tem uma carteira de produtos oficiais que ostentam o mesmo logótipo que vemos nas  “Portas da Misericórdia”. À semelhança do que acontece nos jogos olímpicos ou no futebol, este logótipo está a ser usado como uma imagem de marca que acrescenta valor comercial a determinados produtos disponibilizados no mercado pelas empresas patrocinadoras da celebração jubilar. É incrível, vergonhoso, mas é verdade.

De acordo com a imprensa italiana, a responsabilidade destes contratos é atribuída ao Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização. A confirmarem-se as alegações, este departamento da Santa Sé está a gerir comercialmente o lema e o símbolo Misericordiosos como o Pai.

 

Azeite jubilar

A empresa Morettini terá ganho o contrato para produzir o azeite oficial do Jubileu da Misericórdia. O rótulo das garrafas, para além de ostentar o logótipo oficial do Ano Jubilar, possui ainda um grafismo de um pseudocrucifixo relacionado com a olivicultura.

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Está tudo doido!  Os homens deixaram de temer a Deus.

Água mineral natural jubilar, com e sem gás

De acordo com outras notícias, foram também escolhidas duas marcas de água oficiais do grupo italiano Norda.

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Destaca-se ainda todo o merchandising associado ao evento, que inclui uma vasta lista de produtos oficiais com a chancela da celebração do perdão de Deus. Estes vão desde porta-chaves, canetas, guarda-chuvas, peças de vestuário, canecas ou aplicações informáticas, entre outros.

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Qual será o limite para a paciência de Deus?

Basto 2/2016