Igrejas do Leste, um espinho no flanco do Papa

pew.research.jpg

 

Por Sandro Magister

ROMA, 3 de agosto, 2017 (Settimo Cielo – L’Espresso) – A Europa do Leste é um espinho no flanco do pontificado de Francisco e são muitos e variados os elementos que o comprovam.

No duplo sínodo da família, os bispos da Europa Oriental estiveram entre os mais decididos defensores da tradição, começando pelo relator geral da primeira sessão, o cardeal húngaro Péter Erdõ, autor de, entre outras coisas, uma clamorosa condenação pública das violações cometidas pela fação reformista, que era claramente apoiada pelo Papa.

Depois do sínodo, a Europa do Leste voltou a ser, mais uma vez, a fonte das interpretações mais restritivas do documento papal Amoris Laetitia. Os bispos da Polónia foram particularmente unânimes em pedir uma aplicação do documento em perfeita continuidade com o antigo ensinamento que a Igreja desde a sua origem até João Paulo II e Bento XVI.

Os bispos da Ucrânia – onde 10 por cento da população são católicos – também estão entre os mais dedicados na oposição a ruturas no que concerne à tradição nas áreas do casamento, penitência e Eucaristia. Mas, para além disso, não se abstiveram de criticar fortemente as posições pró-russas do Papa Francisco e da Santa Sé em relação à guerra em curso no seu país, uma guerra que eles sentem como a agressão de mais ninguém a não ser a da Rússia de Vladimir Putin.

O abraço entre o Papa e o patriarca Kirill de Moscovo, no aeroporto de Havana, em 12 de fevereiro de 2016, com o documento associado assinado por ambos, foi também um poderoso elemento de fricção entre Jorge Mario Bergoglio e a Igreja Católica Ucraniana, que se vê injustamente sacrificada no altar desta reconciliação entre Roma e Moscovo.

A morte, no passado dia 31 de maio, do cardeal Lubomyr Husar, o anterior arcebispo-maior da Igreja Greco-Católica Ucraniana, voltou a dirigir a atenção para esta personalidade de elevadíssimo perfil, capaz de reconstruir espiritualmente uma Igreja que emergiu de décadas de perseguição sem qualquer tipo de concessão perante os cálculos diplomáticos – em função de Moscovo e do seu patriarcado – que, ao invés, durante o pontificado de Francisco voltaram a prevalecer.

O sucessor de Husar, o jovem Sviatoslav Shevchuck, é bem conhecido de Bergoglio pela sua anterior atividade pastoral na Argentina. Mas ele também é uma dos críticos mais diretos às tendências do atual pontificado, tanto no campo político como no doutrinal e pastoral.

E “certamente não foi por acaso”, escreveu há três semanas o Papa Emérito Bento XVI aquando da morte do seu amigo o cardeal Joachim Meisner, o indomável arcebispo de Berlim durante o regime comunista, “que a última visita da sua vida foi a um confessor da fé”, o bispo da Lituânia cuja beatificação estava a ser celebrada, um dos inúmeros mártires do comunismo na Europa do Leste que hoje corre o risco de cair no esquecimento.

*

Neste contexto emerge naturalmente a questão: nesta região da Europa, qual é o estado de saúde do catolicismo que se sabe estar em sério declínio em outras partes do mundo e particularmente na vizinha Europa Ocidental?

Esta questão recebeu uma resposta exaustiva – ainda que em termos puramente sociológicos – numa pesquisa abrangente realizada pelo Pew Research Center em Washington, que é talvez o barómetro mais confiável do mundo no que diz respeito à presença de religião na cena pública:

> Crença Religiosa e Pertença Nacional na Europa Central e do Leste:

O estudo incidiu precisamente sobre os países da Europa Oriental, quase todos submetidos no passado a regimes comunistas ateístas. E o primeiro facto impressionante neles constatado é o renascimento, em quase todos os lugares, de um sentimento forte e generalizado de pertença religiosa, que para os ortodoxos – uma reconhecida maioria em toda a área – coexiste com uma rara participação nas liturgias dominicais, enquanto que para os católicos é acompanhada de uma participação semanal bastante significativa na Missa: enquanto, por exemplo, na Polónia, 45% dos batizados e, na Ucrânia, 43% marcam presença na liturgia dominical, na Rússia, apenas comparecem 6% dos fiéis da confissão ortodoxa.

A República Checa suportou o peso do ateísmo de Estado, que adicionado a uma hostilidade anti-católica antiga que remonta ao protestantismo “hussita” e a uma posterior recatolicização imposta pelos Habsburgos, fez com que, neste país, 72% da população declare não ser afiliada em qualquer tipo de fé religiosa. Mas também aqui, entre os católicos que representam um quinto da população, a frequência dominical é, mesmo assim, de 22%, mais ou menos tanto como na Itália e muito mais do que na Alemanha, na França ou na Espanha, sem mencionar a Bélgica e a Holanda.

E o mesmo vale para a Bósnia, onde há poucos católicos, apenas 8%, mas o seu comparecimento dominical atinge um robusto valor de 54%.

Vale a pena ler todo o estudo do Pew Research Center  pela riqueza da informação que fornece. Mas aqui basta destacar que os católicos da Europa do Leste se distinguem dos ortodoxos, não apenas pelos seus muito mais elevados índices de prática religiosa, mas também por uma visão geopolítica antagónica.

Enquanto a Rússia ortodoxa é vista como o bastião natural contra o Ocidente, recebendo a aprovação de grandes maiorias, entre os católicos existe uma muito maior frieza para com a Rússia, em especial na Ucrânia e na Polónia, que se inclinam muito mais para uma aliança com os Estados Unidos e o Ocidente.

Uma divergência adicional pode ser ainda encontrada no campo ortodoxo entre aqueles que, como na Rússia, reconhecem o patriarca de Moscovo como a mais alta autoridade hierárquica da ortodoxia e aqueles que optam mais pelo patriarca de Constantinopla do que pelo de Moscovo, como acontece na Ucrânia, com 46% dos ortodoxos pelo primeiro e apenas 17% pelo segundo.

Sobre o casamento, a família, a homossexualidade e temas afins, pelo menos metade dos católicos apoiam as posições tradicionais da Igreja. E uma grande maioria da população total – com a única exceção na República Checa – é contra o reconhecimento legal das uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Mas, agrupando os dados por faixas etárias, é fácil constatar que os jovens adotam cada vez mais a mentalidade permissiva que, na Europa Ocidental – incluindo na Igreja Católica – é já desenfreada.

Uma mentalidade que certamente não encontra qualquer resistência no pontificado de Francisco.

A edição original deste texto foi publicada no blogue Settimo Cielo a 3 de agosto de 2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 8/2017

Santo Padre retoma as audiências gerais com uma palavra forte: contaminação!

Talvez não seja tão forte quanto a “história do fracasso de Deus” ou o Cristo “que se fez diabo“, mas ainda assim, e como o próprio Papa avisou, é “uma palavra um pouco forte” para caracterizar a vida da Igreja.

E nessa mesma linha catequética, o Santo Padre exorta-nos a recordar a data em que cada um de nós foi “contaminado” pelo Batismo.

A tarefa de hoje é aprender a recordar a data do Batismo, que é a data do renascimento, é a data da luz, é a data em que – se eu me puder permitir usar a palavra – a data em que fomos contaminados pela luz de Cristo.

(Papa Francisco I in Audiência Geral de 02/08/2017 – tradução)

O Santo Padre tem razão, “contaminação” e “contaminados” são palavras “fortes”; “um pouco” é favor…

Contaminação: substantivo feminino 1. Acto de contaminar; 2. Mancha, impureza; 3. Infecção.

Contaminar: verbo transitivo 1. Sujar, manchar (o que é puro ou respeitável) por contacto vil ou pestilento; 2. Alterar para um estado ética ou moralmente negativo (=CORROMPER, PERVERTER); 3. Infeccionar; 4. Comunicar alguma doença, mal ou vício.

(in Dicionário Priberam, 03/08/2017)

O vídeo completo da Audiência Geral dobrado para português pela Redação Brasileira do Vaticano pode ser visto aqui.

Basto 8/2017

EXCLUSIVO: Missa solene na Argentina para dar a comunhão a casais adúlteros

Por Adelante la Fe

No domingo passado, na Igreja Paroquial de São Roque, em Reconquista, Santa Fé (Argentina), o bispo local, Mons. Macín, nomeado pelo Papa Francisco em 2013, protagonizou um monumental e sacrílego escândalo que revela claramente o que está por trás da Amoris Laetitia.

Organizou, na dita igreja, uma missa solene na qual informou publicamente que, de acordo com as regras enviadas pelo Papa Francisco numa carta há mais de seis meses e no âmbito da integração dos cristãos “marginalizados” por causa sua condição irregular de divorciados que voltaram a casar ou em situação irregular (divorciados que contraíram uma nova união), após a realização de um período de seis meses  de encontros semanais denominado ” período de discernimento”, foi determinado, de acordo com o que se expôs anteriormente (por ordem do Papa), INCLUÍ-LOS EM COMUNHÃO PLENA E SACRAMENTAL, o que aconteceria nessa cerimónia. Em nenhum momento se mencionou que essas pessoas tinham feito qualquer voto de castidade ou de viver “como irmãos”.

Na mesma cerimónia, foi dada a comunhão a todos esses casais (cerca de 30), acompanhados de seus familiares que tiraram fotos em clima festivo. Em nenhum momento se fez qualquer referência às escrituras que condenam o adultério, em alternativa, foram referidos os chavões da Amoris Laetitia onde se diz que os divorciados que voltaram a casar devem ser incluídos em plena comunhão.

Este bispo, assim como todos os que seguem essas indicações e ações, são simplesmente apóstatas, lobos vestidos de ovelhas que não só enviam almas para o inferno, como também profanam a Eucaristia, pelo que prestarão contas diante de Deus.

Esta notícia foi confirmada pelo Adelante la Fe e por testemunhas oculares, mas se ainda restarem dúvidas, pode ser confirmada nos meios de comunicação locais.

A edição original deste texto foi publicada pelo Adelante la Fe a 13 de junho de 2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 7/2017

Dia de Páscoa na catedral de Petrópolis, Brasil

População de Petrópolis, no Estado do Rio de Janeiro, no passado domingo de Páscoa, prestou culto a uma estátua do Papa Francisco na Catedral de São Pedro de Alcântara.

Páscoa em Petrópolis.jpg
Catedral de São Pedro de Alcântara, Brasil, 16/04/2017 – Aciprensa

 

Basto 4/2017

Pelletier medita sobre o “fracasso de Deus”

fracasso3.jpg

Este ano, as meditações da “história do fracasso de Deus” ficaram a cargo da teóloga francesa Anne-Marie Pelletier, vencedora do prémio Ratzinger 2014 e, por coincidência, uma grande defensora da nova pastoral do recasamento. Ela fez também parte do painel de oradores do chamado “Sínodo Sombra”, em maio de 2015, uma conferência organizada por bispos alemães, suíços e franceses, em Roma, onde se anteviu a agenda heterodoxa que acabaria por se impor no Sínodo da Família.

O Santo Padre encarregou-a de escrever as meditações para as 14 estações do tradicional Via Crucis da Sexta-feira Santa que ele mesmo irá presidir no Coliseu de Roma.

via crucis.jpg
O Santo Padre mostra a “história do fracasso de Deus” no Uganda, em 2015 – Rome Reports

fracasso4

Esta é uma daquelas curtas-metragens que marcam o pontificado de Francisco. Deve ser vista várias vezes, em ecrã maximizado e com bom som, mas não é recomendável para pessoas sensíveis.

Da nossa parte, continuaremos a entender a Via Sacra como a história do triunfo de Deus, da vitória de Jesus Cristo sobre o mal, sobre o pecado, sobre Satanás que O tentou até ao último momento na cruz. Foi Satanás quem fracassou!

O que nos dá esperança é sobretudo a certeza da Sua ressurreição no terceiro dia depois de ter sido sepultado.

Basto 4/2017

Cristo “que se fez diabo”?

Duccio di Buoninsegna, cerca de 1308-11
Duccio di Buoninsegna, cerca de 1308-11

No dia 4 de abril, na capela da Casa de Santa Marta, o Santo Padre fez outra daquelas homilias que causam arrepios na espinha. Recorreu mais uma vez à figura da serpente para explicar o seu entender a respeito do verdadeiro significado da cruz, símbolo dos cristãos. Mas desta vez foi longe demais ao sugerir que, por nós, “Cristo tornou-se diabo” na cruz.

diavolo2.jpg
Papa Francisco, Meditação Matutina na Capela da Domus Sactae Marthae, “No Sinal da Cruz” – Santa Sé, 4 de abril de 2017

 

A cruz então, afirmou, «para algumas pessoas é um distintivo de pertença: “Sim, eu trago a cruz para mostrar que eu sou um cristão”». E «está bem» mas «não só como distintivo como se fosse uma equipa, o emblema de uma equipa»; mas, disse Francisco, «como a memória dele [Jesus] que se fez pecado, que se fez diabo, serpente, por nós; ele humilhou-se até ao ponto de aniquilar-se totalmente».

(in News.va, 04/04/2017 – tradução)

Terá sido esta a doutrina que inspirou Antonio Vedele?

O exotismo doutrinal desta afirmação até mereceu destaque de primeira página na imprensa italiana.

diavolo
Capa do jornal Libero Quotidiano de 06/04/2017

 

Basto 4/2017

O ultrajante sentido de humor do Papa Francisco

cuda1
CRUX, 25/03/2017

Num trabalho assinado pelo “talentoso” Mr. Ivereigh, a página Crux dedica um artigo inteiro à Dra. Emilce Cuda, teóloga da Pontifícia Universidade Católica Argentina, autora do livro “Para ler Francisco” e – por coincidência – personalidade próxima de sua eminência D. “Tucho”.

Recentemente, no dia 17 de março, a proeminente teóloga católica sul-americana foi recebida em Roma, pelo Santo Padre, juntamente com um grupo de participantes da reunião da Catholic Theological Ethics in the World Church (CTEWC). Emilce Cuda, de acordo com artigo referido em epígrafe, saiu muito satisfeita do encontro com o Papa, que terá durado cerca de 50 minutos.

Ela diz que Francisco incitou-os a fazer a ética teológica com uma “hermenêutica da unidade na diferença”, uma ideia que a rede [CTEWC] já tinha abraçado antes de sua eleição. É um tema que reaparece nas paixões intelectuais do Papa: criando processos nos quais o Espírito Santo forja nova síntese a partir de disparidades e discordâncias.

(in Crux, 25/03/2017 – tradução)

Aqui entre nós, sabemos que sempre será impossível conciliar algumas coisas, tais como a Verdade e o erro, a Sagrada Comunhão e a permanência no pecado grave, a santidade da família e o adultério, a doutrina cristã e a ideologia comunista, etc… Portanto, é preciso sempre muito cuidado com essa hermenêutica da “síntese” forjada porque a Verdade cristã é pura como a água e jamais se submeterá a qualquer adulteração por racionalidade dialética.

Mas aquilo que verdadeiramente escandaliza no artigo em questão, é o sentido de humor de Francisco quando alegadamente se refere ao mistério da Santíssima Trindade para elucidar a orgânica da tal “hermenêutica da unidade na diferença”.

José de Ribera
José de Ribera, 1635

Na reunião, o Papa comparou isto com o modo como a Santa Trindade funciona. Dentro da Santíssima Trindade todos discutem atrás de portas fechadas“, diz Francisco, de acordo com Cuda, “mas no exterior dão a imagem de unidade“.

(in Crux, 25/03/2017 – tradução)

Inacreditável! Custa-nos imaginar que qualquer um dos 265 Papas anteriores, desde Pedro a Bento XVI, pudesse algum dia ter pronunciado uma piada destas…

Isto, a confirmar-se, não é somente uma inadvertida utilização do nome de Deus em vão, nem sequer apenas uma piada religiosa infeliz pronunciada por aquele que é suposto ser o Vigário de Cristo na Terra. Esta afirmação, independentemente do contexto em que possa ter surgido, é uma blasfémia contra o nome de Deus, um ultraje contra o mistério da Santíssima Trindade.

Que Deus tenha misericórdia do Papa Francisco se isto for mesmo verdade!

Basto 3/2017

65 prelados que têm olhos e veem, ouvidos e ouvem, boca e falaram!

Em Espanhol:

65 prelados que tienes ojos y ven, oídos y oyen, boca y hablaron

O vídeo acima, publicado no dia 14 de março de 2017, é da responsabilidade do canal de televisão católico colombiano Tele Amiga, fazendo parte da série “Un Café con Galat”, produzida e dirigida pelo Dr. José Galat, presidente da Universidade La Gran Colombia.

 

In English:

65 prelates that have eyes and see, ears and hear, mouth and have spoken

The video shown above was aired on March 14th 2017 by the Colombian Catholic television channel Tele Amiga as part of the series “A Coffee with Galat, produced and directed by Dr. José Galat, president of La Gran Colombia University.

Basto 3/2017

Papa contestado em campanha de cartazes clandestinos

Na manhã de 4 de fevereiro, em Roma, havia cartazes de contestação ao Papa Francisco espalhados por vários locais da cidade. A autoria desta campanha clandestina é ainda desconhecida.

Os cartazes apresentavam as seguintes frases escritas em calão local:

Hey Chico (“A France”, no original), tu tomaste posse de congregações, suspendeste padres, decapitaste a Ordem de Malta e os Franciscanos da Imaculada, ignoraste cardeais…

Mas onde está a tua misericórdia?

(Tradução apresentada no semanário Expresso de 05/02/2017)

Ao que isto chegou! A situação em Roma agrava-se de dia para dia…

Basto 2/2017

Para 2017, mais do mesmo: política de esquerda embrulhada em linguagem de piedade católica

Ferrara02

Por Christopher A. Ferrara

Enquanto católicos do mundo inteiro, desde cardeais até aos simples fiéis nos bancos das igrejas, olham para este pontificado com crescente alarme e consternação, não há sinal algum de que Francisco vire uma nova página com o início do novo ano.

Como parte do seu programa de tentar refazer a Igreja à sua própria imagem, Francisco nunca perde uma oportunidade de condenar os católicos ortodoxos nas suas declarações, sermões e observações casuais, os quais, incansavelmente, promovem itens da agenda política e social que nenhum democrata consideraria ofensiva. Tais itens são geralmente transmitidos no contexto de piedosas referências a Nosso Senhor e Sua Mãe.

A véspera de Ano Novo de 2016 não foi exceção. A homilia de Francisco nas Vésperas e Te Deum começa de forma promissora, num tom de boa piedade católica, com uma citação da Sagrada Escritura: “Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob o domínio da Lei, para resgatar os que se encontravam sob o domínio da Lei, a fim de recebermos a adoção de filhos.” (Gl 4, 4-5).

Mas já sabemos o que vem a seguir, depois de quase quatro anos de experiência nessa mistura latino-americana de piedade populista e política de esquerda conhecida como Bergoglianismo: o Evangelho será transformado num manifesto de justiça social e os fiéis católicos que defendem a ortodoxia serão novamente caricaturados. Pois o homem é incansável na busca da sua “visão” da Igreja. Deste modo, lemos nos seguintes parágrafos:

“Em Cristo, Deus não Se mascarou de homem, fez-Se homem e partilhou em tudo a nossa condição. Longe de se encerrar num estado de ideia ou essência abstrata, quis estar perto de todos aqueles que se sentem perdidos, mortificados, feridos, desanimados, abatidos e amedrontados; perto de todos aqueles que, na sua carne, carregam o peso do afastamento e da solidão, para que o pecado, a vergonha, as feridas, o desconforto, a exclusão não tenham a última palavra na vida dos seus filhos.

O presépio convida-nos a assumir esta lógica divina: não uma lógica centrada no privilégio, em favores, no compadrio; mas a lógica do encontro, da aproximação e da proximidade. O presépio convida-nos a abandonar a lógica feita de exceções para uns e exclusões para outros. O próprio Deus veio quebrar a cadeia do privilégio que gera sempre exclusão, para inaugurar a carícia da compaixão que gera a inclusão, que faz resplandecer em cada pessoa a dignidade para que foi criada. Um menino envolto em panos mostra-nos a força de Deus que interpela como dom, como oferta, como fermento e oportunidade para criar uma cultura do encontro.”

Observe-se a transformação subtil do Cristo Redentor, que se tornou homem para libertar a humanidade caída pelo peso do pecado, da vergonha e do desespero, como lemos no primeiro parágrafo, no Cristo ativista social do segundo parágrafo, que veio para “abandonar a lógica feita de exceções para uns e exclusões para outros“, para “quebrar a cadeia do privilégio que gera sempre exclusão, para inaugurar a carícia da compaixão que gera a inclusão” e para criar “uma cultura do encontro”.

Não, Cristo não veio para abolir privilégios, condenar a “exclusão” ou promover a “inclusão” e uma “cultura do encontro”. A sua missão não envolveu nenhum desses slogans de esquerda. Esse é o falso cristo da Teologia da Libertação. O Cristo verdadeiro recusou tal missão de justiça social em favor da Sua vocação divina: redimir, através do Seu sacrifício de valor infinito, o homem caído. Com esse sacrifício, Ele conquistou para os homens a graça de obedecer aos Seus mandamentos para que, conforme São Paulo alertou aos Filipenses, eles pudessem “com temor e tremor trabalhar pela [sua] salvação.” (Fl 2, 12)

Conforme o próprio Nosso Senhor disse aos discípulos que murmuravam contra a mulher que havia gasto um caro perfume nos Seus pés sagrados em vez de vendê-lo e dar o dinheiro aos pobres: “Porque afligis esta mulher? Ela praticou uma boa ação para comigo. Pobres, sempre os tereis convosco; mas a mim nem sempre me tereis. Derramando este perfume sobre o meu corpo, ela preparou a minha sepultura (Mt 26, 10-13).”

É claro que os cristãos têm o dever de ajudar os pobres e aliviar o seu sofrimento; e a Igreja sempre ensinou que os bens desta terra têm um destino universal e não pertencem exclusiva e absolutamente a seus possuidores imediatos. Mas Cristo não veio para extinguir a pobreza – que é inextinguível – para redistribuir a riqueza, ou para promover a “inclusão” – tal como as fronteiras abertas e a sociedade plurirreligiosa que Francisco exige para sua “cultura do encontro”.

Depois, inevitavelmente, vem uma condenação dos católicos ortodoxos, que Francisco agora parece incluir em praticamente todas as declarações sobre qualquer assunto – as quais, de alguma forma, sempre regressam ao mesmo assunto. Diz Francisco:

“Quando chega ao fim mais um ano, paremos diante do presépio para agradecer todos os sinais da generosidade divina na nossa vida e na nossa história, que se manifestou de inúmeras maneiras no testemunho de tantos rostos que anonimamente souberam arriscar. Agradecimento esse, que não quer ser nostalgia estéril nem vã recordação do passado idealizado e desencarnado, mas memória viva que ajude a suscitar a criatividade pessoal e comunitária, pois sabemos que Deus está connosco. Deus está connosco!”

Nostalgia estéril e recordações vazias de um passado idealizado e desencarnado – é assim que Francisco caracteriza incessantemente os defensores da ortodoxia católica e a tradicional disciplina que protege a verdade salvadora de Cristo perante os compromissos que condenam almas. E quem serão aqueles que “anonimamente souberam arriscar” para promover a “criatividade comunitária”, os quais, segundo Francisco, são aqueles cujo “testemunho” é verdadeiramente cristão? Como se nós não soubéssemos: são aqueles que, com ele, aceitam que adúlteros públicos em “segundos casamentos” recebam a Sagrada Comunhão – a grande obsessão deste bizarro pontificado.

Virando-se para os jovens, Francisco conclui com mais do “Evangelho social” que ignora o bem-estar eterno das almas:

“Criamos uma cultura que por um lado idolatra a juventude procurando torná-la eterna, mas por outro, paradoxalmente, condenamos os nossos jovens a não possuir um espaço de real inserção, porque lentamente os fomos marginalizando da vida pública, obrigando-os a emigrar ou a mendigar ocupação que não existe ou que não lhes permite projetar o amanhã. Privilegiamos a especulação em vez de trabalhos dignos e genuínos que lhes permitam ser protagonistas ativos na vida da nossa sociedade. Esperamos deles e exigimos que sejam fermento de futuro, mas discriminamo-los e «condenamo-los» a bater a portas que, na maioria delas, permanecem fechadas.”

Esta é então  a esperança de Francisco para os jovens durante o próximo ano: não que sejam libertados, pela graça de Deus, de uma cultura corrompida e voltem as costas ao pecado, olhando para o seu destino eterno, mas antes que encontrem bons empregos. Cristo não estabeleceu a Sua Igreja sob a liderança terrena do Vigário de Cristo para que o Papa pudesse exigir o pleno emprego dos jovens, a “inclusão” e a “cultura do encontro”. O ofício petrino é a pedra sobre a qual a fé e a moral assentam e através da qual são preservados – como tem sido transmitido através dos séculos – para a salvação das almas. Mas Francisco – e isto deve ser dito – não parece muito interessado nos atributos desse ofício.

E parece que podemos esperar mais da mesma propaganda vazia de justiça social em 2017. A não ser que aconteça uma milagrosa mudança de coração, Francisco continuará a empregar a linguagem da piedade católica e os nomes de Cristo e de Sua Santíssima Mãe para promover os mesmos objetivos sociopolíticos que seriam agradáveis a Hillary Clinton, enquanto condena os católicos que procuram perseverar na fé integral dos seus antepassados.

É arriscado fazer previsões, contudo, mesmo a partir de uma perspetiva humana falível, este absurdo não pode continuar por muito mais tempo sem uma correção dramática proveniente do alto. O Ano de Nosso Senhor 2017 promete ser preenchido com esse tipo de drama.

Nossa Senhora de Fátima, defendei a Vossa Igreja!

A edição original deste texto foi publicada pelo Fatima Center a 3 de janeiro de 2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com (citações na tradução oficial do Vaticano)

Nota da edição: o conteúdo do artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

 

Basto 1/2017

ALERTA: O desastre dos dubia mostra que a Igreja atravessa uma “guerra civil religiosa”, afirma o famoso historiador católico

de-mattei-lifesitenews
Roberto de Mattei – LifeSiteNews

Por Pete Baklinski

ROMA, 5 de dezembro, 2016 (LifeSiteNews) – O historiador católico italiano Roberto de Mattei afirmou que a recusa do Papa Francisco em responder às perguntas dos quatro Cardeais, que questionam se a Amoris Laetitia está em conformidade com a doutrina católica, é em si “já uma resposta”, cujas implicações, refere ele, mostram que a Igreja Católica atravessa uma “guerra civil religiosa”.

“Esta situação é tão grave que uma posição neutra não é mais possível. Hoje estamos em guerra, uma guerra civil religiosa”, disse Mattei em entrevista exclusiva à LifeSiteNews, no mês passado, em Roma.

“É importante compreender que hoje há uma escolha clara entre a fidelidade à Igreja, ao perene Magistério, ou a infidelidade, que significa erros, heresia e apostasia”, disse ele.

De Mattei, professor da Universidade Europeia de Roma e presidente da Fundação Lepanto, advertiu que há uma “tremenda confusão dentro da Igreja” causada pelo ambíguo ensinamento moral do Papa, especialmente na sua exortação de abril, Amoris Laetitia, sobre a qual afirma que causou “divisão” e “fragmentação” entre bispos, sacerdotes e os fiéis.

A exortação foi especificamente criticada por fiéis católicos porque compromete a indissolubilidade do casamento, abrindo uma porta para casais em relações adulteras receberem a Sagrada Comunhão, e por fazer da consciência o árbitro final da moralidade. Como alguns críticos temiam, a exortação está já a ser utilizada por alguns bispos liberais para acolher abertamente, nas paróquias, as “famílias” homossexuais e para autorizar casais adúlteros a receber a Sagrada Comunhão em certos casos.

Quando, em setembro, os quatro cardeais perguntaram em privado ao Papa – seguindo um procedimento normal na Igreja – se a exortação está em conformidade com os ensinamentos católicos sobre o casamento, os sacramentos e a consciência, o papa não respondeu às suas perguntas.

Concretamente, os cardeais perguntaram: 1) se os adúlteros podem receber a Sagrada Comunhão; 2) se existem normas morais absolutas que devem ser seguidas “sem exceções”; 3) se o adultério habitual é uma “situação objetiva de pecado grave habitual”; 4) se um ato intrinsecamente mau pode ser transformado em ato “subjetivamente bom” em função das “circunstâncias ou intenções”; e 5) se, em função da “consciência”, se pode agir contrariamente às conhecidas “normas morais absolutas que proíbem atos intrinsecamente maus”.

Depois os cardeais divulgaram publicamente as suas perguntas, no mês passado, apenas para receberem duras críticas de prelados de elevado estatuto, incluindo dois que foram recentemente nomeados cardeais pelo Papa Francisco. Os quatro têm sido acusados de serem “agitadores”, necessitados de “conversão”, de “apostasia” e “escândalo”, de darem ao Papa uma “bofetada na cara” e de criarem “obstáculo e divisão”.

De Mattei argumentou, contudo, que não foram os quatro cardeais que criaram o problema, mas o Papa.

“A causa desta confusão, a autoria desta confusão não está nos quatro cardeais, é claro. Eu penso que o principal autor da confusão é o Papa Francisco, porque é desde o seu pontificado que as coisas avançam tão rapidamente, tão depressa”, disse ele. – “Por vezes parece que ele gosta de criar essa confusão.”

De Mattei disse que os cardeais, quando submeteram as suas cinco perguntas (dubia) ao Papa, agiram de um “modo perfeito, de um ponto de vista canónico”.

“Considero muito grave o facto de o Papa, que é o chefe supremo da congregação, não ter querido responder. De facto, isso já é uma resposta”, disse ele.

De Mattei considerou “muito oportuno” que os cardeais prossigam com o que um deles – Cardeal Burke – chamou de “ato formal de correção” dos erros encontrados na exortação papal.

“A importância desta iniciativa não é apenas avisar o Papa sobre os erros encontrados na Amoris Laetitia, mas também advertir os fiéis, informar os fiéis, porque há confusão entre os fiéis, mas há também ignorância. E eu acho que temos o dever de consciencializar os fiéis da gravidade desta situação”, disse ele.

“Esta situação é tão grave que uma posição neutral não é mais possível. Hoje estamos em guerra, uma guerra civil religiosa, infelizmente. Eu não gosto desta guerra, mas estamos nela envolvidos contra a nossa vontade. Não criámos a situação, mas esta situação obriga-nos a todos a adotar uma posição clara. E para isso, acho que temos de agradecer aos quatro cardeais pela sua coragem e instigá-los a continuarem a sua ação e seu testemunho”, acrescentou.

A edição original deste texto foi publicada pelo LifeSiteNews a 5 de dezembro de 2016. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

 

Basto 12/2016

Como pensam os comunistas?

 

Perguntem ao Santo Padre.

“São os comunistas que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade em que os pobres, os débeis e os excluídos é que decidem. Não os demagogos, os Barrabás, mas o povo, os pobres, tenham fé em Deus ou não, mas são eles que temos de ajudar a obter a igualdade e a liberdade.”

“[Espero portanto que os movimentos cívicos entrem na política] Não na politiquice, nas lutas de poder, no egoísmo, na demagogia, no dinheiro, mas na alta política, criativa e de grandes visões.”

“E para isso é necessário derrubar muros e construir pontes que permitam diminuir as desigualdades e dar mais liberdade de direitos.”

(Sua Santidade o Papa Francisco I ao jornal italiano La Repubblica, in Expresso, 11/11/2016)

esquivel
Pérez Esquivel, 1992 (Via Crucis Latinoamericano)

Apesar de abominar o proselitismo religioso, o Santo Padre aproveitou esta entrevista para, mais uma vez, pedir perdão em nome dos cristãos – desta vez – aos pobres.

 

Basto 11/2016