Fátima e Ourique: duas profecias, dois milagres, um povo

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Painel de Jorge Colaço, 1933 (vista parcial) – imagem de Joseolgon, adaptado

 

Por Pedro Sinde

A Portugal foi atribuído um papel fundamental neste tempo do fim; Fátima é a espantosa explanação dessa missão hoje. No entanto, Fátima é “apenas” o culminar de um processo que tem origem rigorosamente na fundação de Portugal; se olharmos para trás a partir do que se passou em Fátima, poderemos entrever melhor o que aconteceu em Ourique, na aparição de Cristo a D. Afonso Henriques. A missão com que Cristo sagrou o nosso País, manifestou-se desde logo pela definição da sua fronteira, por tal modo que é inequivocamente uma das mais antigas do mundo. Esta definição das fronteiras não é um elemento menor, porque é um dos sinais exteriores da forte identidade e, portanto, da homogeneidade da alma portuguesa. As palavras que Cristo dirige a D. Afonso Henriques são, como veremos, o programa da razão de ser da existência de Portugal; programa que vem a ser explicado, aprofundado e completado com a mensagem de Fátima: em Ourique, a aparição de Cristo ao Fundador, àquele que viria a ser o primeiro rei deste povo; em Fátima, a aparição da Virgem a três crianças, os mais puros representantes do povo português.

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Visão de D. Afonso Henriques na Batalha de Ourique (Frei Manuel dos Reis, 1665)

I. Portugal nos Evangelhos

Entre os vários sinais que, segundo os Evangelhos, devem acontecer antes do fim dos tempos, alguns são difíceis de definir (como guerras, fomes, pestes, terramotos – Mt, 24, 6-7) dado que na história sempre encontrámos vários destes elementos; no entanto, há três eventos absolutamente inequívocos; assim, sabemos que o fi m dos tempos não chegará sem que se cumpram estas três condições:

1) o anúncio do cristianismo deve ter chegado a todo o mundo (Mt, 24, 14);

2) deve aparecer o “homem do pecado”, o Anticristo, e, com ele, a apostasia global (2 Tess 2, 2-4): dir-se-ia que, tal como no primeiro se espalha a fé de Cristo, neste se espalha a ‘fé’ do Anticristo);

3) os judeus converter-se-ão, reconhecendo Jesus, na Sua segunda vinda, como o Messias de que sempre estiveram à espera (Rom 11, 11-15 e 25).

Relendo o ponto 1), logo vemos que a Portugal em particular – e à Península Ibérica em geral – coube a espantosa missão de dar o maior contributo para a realização do primeiro destes eventos. No tempo de D. Manuel, o cronista Duarte Galvão estava completamente consciente disto. Esta consciência de estar a desempenhar um papel sagrado, anunciado por Cristo, dá uma dimensão impressionante à acção dos Descobrimentos; diz o cronista que o Redentor ordenou que por mãos dos portugueses se espalhasse “pelo mundo quase outra segunda pregação dos apóstolos para notificação da nossa fé” e essa “universal manifestação” seria para assim se “cumprir o que nosso Senhor disse: «que seu Evangelho havia de ser notificado por o mundo universo antes da fi m, em testemunho a todalas gentes»” (Galvão, p. 6). Mas Duarte Galvão projecta esta consciência mesmo para o tempo do Fundador; é bastante impressionante ver o modo pelo qual ele interpreta a eleição do bispo negro, por parte de D. Afonso Henriques, como um sinal antecipador da missão evangelizadora universal que viria a ser a de Portugal. Explicando que se tratou, pois, de uma eleição desejada por Deus, para que “as gentes tintas das Etiópias e Índias, e outras terras novamente pela sua navegação e conquista achadas, viessem entrar e ser metidas na fé de Cristo” (idem, p. 82). Vemos assim como logo na história do nosso primeiro rei, estava latente, segundo a vibrante hermenêutica de Duarte Galvão, a nossa primeira missão, que foi a de protagonizarmos a expansão da fé, levando-a nas caravelas às “sete partidas do mundo” e cumprindo assim esta primeira imensa missão referida nos Evangelhos. Vemos, pois, Portugal – sagrado por Cristo – a realizar o que Cristo mesmo anunciou nos Evangelhos: Portugal nos Evangelhos.

II. Um Só Milagre: de Ourique a Fátima

Os Céus falaram em Portugal, marcando o início da nossa monarquia e o seu fi m, altura em que os Céus se manifestam novamente em plena catástrofe política, ódio à religião, ateísmo militante, violência contra os crentes, consagrados e sacerdotes. Assim, pela aparição da Virgem, os Céus vieram salvar o povo que ainda devia cumprir uma parte da sua missão.

Vejamos agora algumas curiosas coincidências entre a promessa profética contida no texto de Duarte Galvão e a mensagem de Fátima, isto é, entre a aparição de Cristo a D. Afonso Henriques e a aparição da Virgem em Fátima, para assim ilustrarmos a unidade ou a continuidade dos dois milagres que são, na verdade, um só, por assim dizer.

Diz Duarte Galvão que “nesta aparição [de Cristo] foi o Príncipe dom Afonso Henriques certificado por Deus de sempre Portugal haver de ser conservado em reino” (idem, pp. 58-59). Com estas palavras, pois, promete Cristo que Portugal sempre existirá. Isto é o que diz Cristo em Ourique; e o que diz a Virgem em Fátima?

“Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé”. Não é interessante que os termos (que assinalei), pelos quais Cristo se dirige a D. Afonso Henriques, segundo Duarte Galvão, sejam os mesmos pelos quais a Virgem se dirige às três crianças? E tanto mais que em ambos os casos se trata de profecias sobre o destino de Portugal: na primeira, Cristo assegura que Portugal se conservará sempre como nação, como “reino”; na segunda, a Virgem assinala que em Portugal o dogma da fé se conservará sempre.

Mas as semelhanças não ficam por aqui. Vejamos agora as palavras de D. Afonso Henriques a Cristo no momento mesmo da aparição, sempre segundo as inspiradas palavras de Duarte Galvão:

“Senhor, aos hereges, aos hereges é que é preciso que apareças, porque eu sem nenhuma dúvida creio e espero em ti firmemente.” (idem, p. 58). O que vemos aqui, não é o germe, diria mesmo, o próprio espírito da primeira oração do anjo? Recordemos essa primeira oração que o anjo de Portugal ensinou às três crianças: “Meu Deus eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam.” As palavras de D. Afonso Henriques são compostas de duas partes: a primeira, é um pedido e, a segunda, uma afirmação; um pedido de conversão para os hereges e uma afirmação da sua própria fé e esperança. Aí encontramos rigorosamente os mesmos traços que encontramos, como já vimos noutro artigo, na primeira oração que o anjo de Portugal viria a ensinar aos pastorinhos e, através deles, a todos os portugueses e a todos os católicos e a todos os homens. Também nesta última oração (ver Fulgores de Fátima, III, no Diário do Minho de 16 de Dez. de 2015), temos duas partes: uma é justamente um pedido de perdão, de conversão para que os que “não crêem” venham a crer (tal como o rei fundador vem pedir a Cristo que apareça aos hereges, para que creiam!) e a outra é uma afirmação de fé e de esperança, os dois elementos coincidentes em ambas as orações. A de Fátima vem apenas a ser aperfeiçoada ou, melhor, explicitada, como o crescimento de uma mesma planta, que vem dos primórdios da fundação da nacionalidade até aos nossos dias. Podemos dizer também que Fátima vem, surpreendentemente, iluminar e confirmar sobrenaturalmente o milagre de Ourique.

III. História de Portugal: Ciclo Crístico e Ciclo Mariano

Podemos, com base nesta perspectiva, olhar para a história de Portugal e decifrar, então, dois grandes ciclos nítidos. O primeiro, a que podemos chamar o Ciclo de Cristo ou crístico e o segundo, o Ciclo da Virgem ou mariano. O primeiro vai da fundação até à perda da independência (1580) e o segundo começa com a Restauração (1640):

  • Ciclo crístico: é o de expansão, de exteriorização, e também da guerra, e termina com a “paixão” de Portugal em Alcácer Quibir com D. Sebastião – figura, aliás, bem crística, onde o consciente português projectou justamente a fi gura de Cristo: Cristo tendo morrido às mãos dos judeus, D. Sebastião, tendo morrido às mãos dos mouros. Ocorre-me aqui o belo título do poema de Vasco da Gama Rodrigues, descrevendo Portugal como O Cristo das Nações.
  • Ciclo mariano: é o da interiorização, da paz, e começa com a Restauração, aliás, começa rigorosamente com a entrega do nosso reino à Virgem por D. João IV.

Terminada aquela primeira missão, de que o último arremedo foi D. Sebastião, a missão de Portugal passou para um domínio da alma: o “Quinto Império” seria o do espírito, o regresso do D. Sebastião, seria o regresso do Messias. Tendo levado o cristianismo às “sete partidas do mundo”, ficou-lhe, no entanto, o amargor da missão por cumprir, a nostalgia, a saudade daquilo que sabe que virá a acontecer no tempo, mas que ainda não aconteceu no espaço. Os portugueses, depois de séculos voltados para a acção, quando lhes foi pedida a contemplação ficaram como que perdidos – e ainda não saíram desse torpor: só o povo, praticamente, cumpre a missão que lhe foi pedida pela Virgem em Fátima – os intelectuais divorciaram-se de Portugal ou, se se mantiveram fieis a Portugal, divorciaram-se, mesmo que parcialmente, do povo, não o acompanhando nesta missão.

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Local da 4.ª aparição de Fátima que aconteceu nos Valinhos no dia 19 de agosto de 1917 – imagem de János Korom Dr., adaptada

Não ouvimos nós hoje os Céus clamarem aos portugueses, como antes o anjo clamou aos pastorinhos quando estes brincavam, já depois de se terem comprometido com a tremenda missão que lhes coube? «Que fazeis? Orai, orai muito. Os corações santíssimos de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia.» De Alcácer Quibir até Fátima acontece a Restauração e a entrega do Reino à Virgem, nossa Rainha verdadeira, com o espantoso voto, de cavalaria espiritual, de defender a Imaculada Conceição nem que seja com o nosso sangue!

Termina, por assim dizer, o ciclo de Cristo ali e inicia-se o ciclo da Virgem, culminando na teofania (angelofania e mariofania) de Fátima. A missão de Portugal subtilizou-se: depois de levar a possibilidade de conversão a todo o mundo, devia agora rezar pela conversão de todo o mundo, tornando-se o “altar do mundo”. Os poetas da Renascença Portuguesa tiveram uma certa intuição, uma notável intuição, mas não era o tempo de terem a intuição certa, pois isso só com o conhecimento integral da mensagem de Fátima poderiam ter visto. Em Ourique, Portugal recebeu, por Cristo, a missão evangelizadora, para ser sobretudo ele o impulsionador no mundo da realização daquele primeiro profético ponto dos Evangelhos que referimos acima; em Fátima, cumprida essa missão, foi ainda digno de receber a missão de anunciar ao mundo o segundo daqueles três eventos, acima referidos: a vinda do Anticristo, referindo-se à apostasia generalizada. Encontramos este anúncio noutras aparições anteriores da Virgem (como em Quito, no Equador, e depois em La Sallette); não posso aqui deter-me agora naquelas aparições. Em todo o caso, Fátima vem reiterar aquelas mensagens de forma conclusiva. Quando a Virgem anuncia que “Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé”, está a dizer-nos que pelo menos em alguns outros locais não se conservará de todo; se juntarmos, como fizemos no último artigo, a mensagem de Fátima ao Catecismo e agora ao Evangelho, veremos facilmente que Fátima, nesta afirmação, vem já avisar-nos para o problema da apostasia generalizada a que se refere S. Paulo, obra do Anticristo nestes tempos a que a Irmã Lúcia intitulava, de forma muito significativa, expressiva e impressionante de “desorientação diabólica”. Devemos procurar estar à altura daquilo que a promessa da Virgem nos exige, isto é, devemos procurar estar, com todas as nossas forças, entre quantos se situam ao lado daqueles que lutam para conservar o dogma da fé e contra quantos procuram alterá-lo.

Não esqueçamos que o “dia do Senhor virá como o ladrão de noite; nesse dia os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra e as obras que nela há se queimarão” (II Pedro 3, 10). Sejamos nós, pois, daqueles que segundo S. Pedro, nesta mesma carta: “aguardando estas coisas, procurai que dele sejais achados imaculados e irrepreensíveis, em paz.” Em Paz; naquela Paz que Cristo dá, mas não como a dá o mundo: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; eu não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.” (Jo, 14, 27)

Este texto foi publicado no jornal Diário do Minho no dia 16 de outubro de 2016.

Nota da edição: o artigo acima faz parte da série “Fulgores de Fátima”, uma rubrica assinada pelo filósofo português Pedro Sinde no jornal Diário do Minho. As imagens e as ligações externas foram adicionadas na presente edição, não fazem parte da publicação original.

Basto 8/2017

Portugal e o depósito da Fé

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Por Pedro Sinde

Os portugueses têm uma imagem de si próprios, espiritualmente, muito menorizada; não é demais, no entanto, insistir que eles têm uma missão; uma missão que os uniu durante séculos e que foram cumprindo quase sem pensar nisso. É verdade que no “interregno”, entre 1580 e 1640, os portugueses pareciam pensar já ter perdido a razão de existir como País, pois, na verdade, a primeira parte da sua missão universal se cumprira já: levar a todo o mundo o cristianismo. Esse período de sessenta anos equivaleu à manifestação exterior de uma mudança de ciclo no interior da alma portuguesa – como o pousio para um campo, assim foi a sua breve reintegração peninsular. A Restauração viria a ser o sinal de que ainda havia sentido para a sua existência.

Em 1646, quando D. João IV entrega Portugal, com a coroa, à Imaculada, semeia uma semente do mundo espiritual nesta nossa terra; semente que permaneceu debaixo da terra, da terra da alma portuguesa, até 1917, altura em que veio a florescer em Fátima. O santuário do Sameiro (1890), dedicado também à Imaculada, foi um primeiro rebento, que veio preparar aquela eclosão de Fátima, situada, curiosamente, em termos geográficos, entre os dois prestigiados santuários à Imaculada que o precederam: Sameiro e Vila Viçosa; e também praticamente coincidindo, de modo bastante significativo, com o centro geográfico de Portugal.

Em 1917, a Virgem veio, pois, dizer aos portugueses que a sua missão se transformara, se subtilizara, mas que iria continuar. Deus quis assim ensinar a três crianças humildes, aquilo que aos doutores quis esconder. E esses mesmos doutores ainda hoje riem pirronicamente das três crianças, ignorando que a sabedoria de Deus é loucura para os homens

No contexto deste artigo, interessa-nos destacar dois aspectos da mensagem de Fátima, ligados à missão de Portugal:

  1. A Virgem diz, em 13 de julho, que em Portugal se conservará sempre o dogma da fé, e isso apesar dos tempos de generalizada apostasia em que temos vivido. Este ponto é o centro a partir do qual tudo o resto se ordenará: a fidelidade dos portugueses ao depósito da fé (se pudermos identificar “dogma da fé” com “depósito da fé”). A ideia de que haverá uma apostasia generalizada está, de resto, perfeitamente de acordo com o que diz o próprio Catecismo sobre o fim dos tempos (§ 675, onde se fala de uma “impostura religiosa” e de uma prova que “abalará a fé de numerosos crentes”) e, naturalmente, o Evangelho, nas tremendas palavras do Filho de Deus: “Quando, porém, voltar o Filho do Homem encontrará fé sobre a terra?” (Lc XVIII, 8). Se se conservará sempre, então, podemos pensar num papel espiritual análogo ao de um barco, uma barca, uma arca – uma arca de Noé –, enquanto durar o dilúvio espiritual da apostasia; foi em barcos que noutros tempos Portugal levou ao mundo inteiro a boa nova de Cristo, seria agora num barco, mas de outra natureza, que ajudaria a conservação do depósito da fé.
  2. A Virgem veio também dizer que é vontade do seu Filho que o culto ao Coração Imaculado de Maria se difunda em todo o mundo: “para salvar as almas, Deus quer estabelecer no mundo a Devoção ao Meu Imaculado Coração”; estas são as palavras da Virgem logo depois de ter mostrado às três crianças a terrífica visão do Inferno. Ora, é muito evidente que isso não aconteceu ainda e que o culto ao Coração Imaculado não tem dentro da Igreja o lugar digno que corresponda ao desejo de Deus: o de o estabelecer no mundo! O que têm feito os portugueses para este fim? A Igreja portuguesa tem aqui uma função essencial, pedida expressamente pela Santa Virgem. Não seria pequeno o seu contributo se ajudasse a estabelecer no mundo esta devoção, que, na verdade, se vai estabelecendo, muitas vezes apesar da hierarquia. Mesmo em Fátima, esta devoção (penso por exemplo na prática dos Cinco Primeiros Sábados) está muito longe de ter o papel central que devia ter. E aqui se vê que o povo, que acorre a Fátima nos primeiros sábados, fá-lo normalmente por sua própria iniciativa; e esta é a nossa grande esperança, na verdade, a de que no seu sensus fidei, no seu sentido da fé, saiba sempre o povo reconhecer onde está a verdade, mantendo-se fiel; vox populi, vox Dei, voz do povo, voz de Deus.

Temos de nos recordar que a Virgem não pode ter dito em vão aquelas importantes palavras sobre o papel de Portugal na conservação do dogma; seguramente, quis que os portugueses tomassem consciência do que lhes estava reservado, para se prepararem. Lembremo-nos que as seis aparições da Virgem em 1917, foram precedidas pelas três aparições do anjo; este anjo identificou-se dizendo ser o Anjo de Portugal. Isto é absolutamente inusitado nas aparições marianas de todo o mundo e, por isso, devemos ver aí um sinal claro de que estas aparições se ligam intrinsecamente ao ser mais íntimo da identidade portuguesa. O essencial desta missão, ensinaram o Anjo e a Virgem, cumpri-la-á Portugal colaborando com os Céus pela intenção de reparação que deve presidir à sua oração e aos seus sacrifícios, segundo a amorosa doutrina do corpo místico.

Dir-se-ia, no entanto, que Portugal parece tanto à deriva como qualquer outro País para aparecer com uma missão tão grandiosa; também à deriva parecia estar a Arca no dilúvio, no entanto, como antes à Arca, também agora a Divina Providência o conduz, pelas mãos da Virgem: lembremos de novo que desde 1646 é ela quem tem a coroa e, por isso, o poder de reinar. O leme deste barco não está nas mãos dos homens, embora Deus se possa servir circunstancialmente deles. E é aqui que o primeiro ponto se cruza com o segundo, pois onde encontrará refúgio a doutrina, para se conservar, senão no Coração da Mãe? “Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração” (Lc II, 19)… Não é ela, afinal, a Sede da Sabedoria? Não é ela, afinal, a verdadeira Arca da Aliança? E não foi esta senão a prefiguração sua? A consagração de Portugal à Imaculada tem, certamente, relação com a manifestação do Coração Imaculado em Fátima e Balasar (sobre que esperamos escrever noutra ocasião); é no Coração da Mãe que encontraremos, sempre preservadas, as palavras do Filho. Se nos lembrarmos que o depósito da fé se conservará no Coração Imaculado, então será mais fácil de entender porque é que em Portugal, mais do que noutros lugares, se conservará, pois o nosso povo, desde a origem da nacionalidade, praticamente, é de uma fidelidade impressionante à Imaculada. E o povo que permanecer católico, vai perseverar nessa fé. E será dentro da nova Arca de Noé – agora Arca de Maria – que encontrará preservada a Palavra do Senhor: a doutrina, o dogma da fé, o depósito da fé. Porque ali, ainda hoje, a Imaculada medita o profundo mistério do seu Filho na imensidão amorável da Trindade. Assim, será a Imaculada, ela mesma, quem conservará, de novo, a palavra sagrada. Talvez a esta luz já não nos pareça tão inusitada a afirmação da Virgem em torno da conservação do dogma da fé em Portugal, porque aos portugueses caberá manter a fidelidade à Imaculada; e será à Imaculada que caberá a conservação do dogma, coisa que faz, como sua função, vencedora de todas as heresias, desde que meditava, no seu coração, como vimos, os eventos e as palavras do Filho.

Fátima é de uma coerência espantosa, não me canso de o constatar e sempre fico perplexo.

Este texto foi publicado no jornal Diário do Minho no dia 15 de fevereiro de 2017.

Nota da edição: o artigo acima faz parte da série “Fulgores de Fátima”, uma rubrica assinada pelo filósofo português Pedro Sinde no jornal Diário do Minho. A imagem foi adicionada na presente edição, não faz parte da publicação original.

Basto 07/2017