Uma reação católica ucraniana ao novo tradicionalismo “Z” do Ocidente

Abaixo reproduzimos na íntegra uma entrevista realizada pela página The Okie Traditionalist a um sacerdote da Fraternidade Sacerdotal São Josafá-Koncévitch (FSSJK). A FSSJK é uma fraternidade de vida apostólica de cariz tradicionalista, aliada da FSSPX, que atua no catolicismo de rito oriental. Esta entrevista foi posteriormente publicada também na página da FSSPX nos EUA.

Massacre de Bucha, Ucrânia.

Caro Joseph,

quero agradecer mais uma vez por nos ter solicitado esta entrevista. As suas perguntas direcionadas à nossa sociedade, como sacerdotes ucranianos tradicionais, mostram a sua posição aberta: tentar avaliar a presente guerra, objetivamente relacionada com os seus eventos (de diferentes pontos de vista). Entendo a sua preocupação com o risco de uma Terceira Guerra Mundial, mas para o povo ucraniano uma grande e terrível guerra já está a acontecer há mais de dois meses. 

O nosso povo está a morrer, as nossas cidades estão a ser destruídas, cerca de 10 milhões de pessoas deixaram as suas casas e mudaram-se para [outros lugares] dentro do nosso país e para o exterior. Civis nos territórios ocupados estão a ser vítimas de abusos sexuais e tortura. Esta é a nossa realidade atual e a única coisa que podemos fazer, como pessoas normais, é defender-nos. Isso é normal também segundo a Lei de Deus e a lei natural. E o nosso povo está pronto para o fazer, com ou sem ajuda externa. A única questão é quantas pessoas mais morrerão na guerra se não formos ajudados.

Agora vou tentar responder às suas perguntas.

1. Pode dar-nos alguns detalhes sobre como é para vós, os sacerdotes, as irmãs e os fiéis ligados a vós, o que estão a sentir “no terreno”, no meio desta guerra? Em termos de risco de vida, propriedade, escassez de alimentos, medo de guerra mundial, etc. Ou seja, pode descrever-nos o que está a presenciar nestes últimos dois meses na sua localidade?

A maioria dos centros da nossa fraternidade, como o seminário, casas de padres, conventos de freiras e paróquias onde exercemos o nosso apostolado, estão localizados nas regiões ocidentais da Ucrânia. Nessas áreas, graças a Deus, não houve ações regulares de guerra, exceto disparos periódicos de rockets. Felizmente, as casas das pessoas na nossa região não foram destruídas e os ataques com mísseis foram direcionados a instalações ou infraestruturas militares. Mas há sempre há alguma preocupação durante os ataques aéreos, já que os mísseis geralmente atingem casas em outras partes da Ucrânia.

As regiões ocidentais do nosso país tornaram-se o refúgio de um grande número de refugiados. Um número significativo deles vive em escolas, dormitórios de instituições de ensino e em vários edifícios da igreja. A nossa fraternidade também os recebeu nas nossas casas sacerdotais, mosteiros e locais vagos. Alguns dos nossos paroquianos recebem famílias de refugiados em suas casas. Os nossos fiéis fazem doações financeiras e trazem roupas ou alimentos para ajudar os refugiados.

Também temos uma pequena missão no leste do nosso país, bem perto da linha da frente. Dois padres tiveram de ser evacuados devido ao perigo. Alguns dos nossos fiéis desses territórios de missão vieram até nós no oeste, alguns decidiram ficar.

Muitos dos nossos fiéis estão a defender a Pátria no exército, alguns já morreram. Infelizmente, isso faz parte da guerra. Os nossos padres celebram constantemente missas e devoções adicionais pelo povo, pelo exército, por todos aqueles que sofreram com a guerra e por todos os que os ajudam.

Até agora, não há problemas alimentares nas regiões ocidentais. Tais problemas existem em locais na linha da frente, porque há problemas com as entregas. Quanto aos alimentos, o nosso país tem outro problema: possui grandes reservas de cereais que a Ucrânia não pode exportar pelo Mar Negro, que é controlado pelos russos.

Isso não é apenas um problema económico para nós, mas também um perigo de fome para alguns países da África e do Oriente Médio, que compram até 80% de seus grãos na Ucrânia. Essa ameaça é provavelmente mais crível do que o perigo de uma guerra mundial. Além disso, os russos roubaram parte dos cereais e exportaram-nos ilegalmente dos territórios ocupados. Parte das terras agrícolas nas regiões orientais está inapta para o cultivo devido à ação militar. Há problemas com o combustível dos motores.

A situação é difícil, é uma guerra, mas Deus está connosco e devemos confiar Nele. Agradecemos a todas as pessoas de boa vontade que apoiam o nosso povo e rezam pela paz na Ucrânia.

2. Quais são as necessidades materiais sérias que a sua comunidade tem agora, com as quais os leitores podem ajudar, fazendo doações?

Como já mencionei, a nossa sociedade tem recebido refugiados das regiões orientais nas suas casas. No total são cerca de 80 pessoas. O Estado fornece uma assistência financeira mínima aos refugiados, mas devido a várias dificuldades, os pagamentos às vezes são atrasados. Nós fornecemos-lhes alojamento e ajudamos com comida. Algumas pessoas precisam de tratamentos ou alguma roupa. Estas são as nossas principais necessidades relacionadas com a guerra nas regiões ocidentais.

Além disso, na nossa missão no Leste, uma capela recém-construída foi danificada pelos bombardeamentos, assim como algumas casas dos nossos fiéis. Quando as ações de guerra terminarem, a capela precisará de ser renovada. Algumas famílias podem precisar de ajuda para restaurar suas casas. 

Também nestes territórios de missão temos constantes dificuldades financeiras, aí permanecem apenas algumas dezenas de fiéis e estão divididos por diferentes territórios. O sacerdote celebra cinco missas por semana em diferentes aldeias. Além da capela acima mencionada, as missas são celebradas em casas antigas transformadas em capelas. Os fiéis locais têm apenas essas capelas e não têm padres suficientes.

Estamos gratos a todas as pessoas de boa vontade que nos ajudam. Agradecemos toda a ajuda, material e espiritual: cada doação e cada oração, cada terço e Sagrada Comunhão pela intenção de paz na Ucrânia.

3. Têm algum link para onde os leitores possam enviar dinheiro?

Temos uma conta bancária para a qual os fundos podem ser transferidos. Mas tal decisão não é conveniente para pequenos doadores, pois cada doador será obrigado a pagar uma comissão pelas transferências internacionais. Ainda não encontrei um sistema de pagamento adequado que funcione com bancos ucranianos.

4. Você acredita que Francisco finalmente consagrou devidamente a Rússia, no mês passado, com os bispos, atendendo ao pedido de Nossa Senhora de Fátima? A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) fez uma declaração positiva sobre isso, mas o The Fatima Center fundado pelo Pe. Gruner, com quem a própria FSSPX colaborou, afirmou não acreditar que foi feita corretamente. Disseram também que é preciso haver antes mais devoção à penitência dos Primeiros Sábados e a divulgação do 3.º Segredo completo, antes que possamos esperar que o “período de paz” seja concedido por Deus. A sua comunidade ainda tem alguma posição a este respeito?

É muito importante para nós que esta consagração tenha ocorrido. É claro que não afirmamos que tudo neste ato atendeu plenamente aos pedidos de Nossa Senhora. Não podemos saber exatamente quantos bispos realizaram esse ato com o Papa, vemos que o texto enfatiza que a maior culpa das pessoas diante de Deus é que as pessoas não podem viver entre si sem guerra. O texto também não menciona o pedido de conversão da Rússia. Os padres da FSSPX também chamam a atenção para todos esses aspetos nos seus comentários.

Mas este ato, ao contrário dos anteriores, contém uma clara menção da Rússia e pelo menos o apelo do Papa à participação de todos os bispos. Ouvimos que muitos deles responderam ao seu apelo. Portanto, esperamos uma resposta do Céu. Essa resposta pode não ser tão clara quanto seria se tudo tivesse sido feito corretamente.  

É possível que a conversão da Rússia não aconteça num futuro próximo. Pessoalmente, acho que o nosso povo ucraniano já recebeu o primeiro sinal do cuidado de Maria. No dia seguinte à consagração, 26 de março, a Rússia anunciou a retirada de suas tropas de três locais: Kiev, Chernihiv e Sumy. E depois que os crimes dos russos perto de Kiev se tornaram conhecidos, os países ocidentais mudaram a sua posição e começaram a fornecer armas pesadas à Ucrânia. Quem sabe, talvez a derrota da Rússia nesta guerra seja o gatilho para sua conversão.

Continuamos a rezar o rosário pelo nosso povo e pela conversão da Rússia para responder ao pedido de Maria.

5. Além do terço, devoção dos Primeiros Sábado, confissão e comunhão, pode dar-nos alguns conselhos espirituais sobre como os fiéis devem preparar-se espiritual, mental e mesmo materialmente, colocando sua fé em ação prática para uma possível guerra mundial? 

A melhor maneira, é claro, é evitar uma guerra mundial. Nossa Senhora disse em Fátima que a paz surgirá após a conversão da Rússia. O que podemos fazer para que isso aconteça? Podemos colocar tal desejo como a intenção das nossas orações, principalmente dos nossos rosários. É importante fazer tal intenção.

Como podem preparar-se espiritualmente para a guerra? Não tenho certeza se é possível dar uma resposta exata a essa pergunta. Nunca podemos saber de antemão em que condições nos encontraremos quando a guerra chegar: na linha de fogo ou na retaguarda, voluntários ou refugiados, etc. Participar numa guerra justa significa defender juntos o bem comum. Pode ser defender a Pátria ou ajudar um aliado mais fraco contra um agressor injusto. 

Acho que “preparar-se para a guerra” significa dar uma resposta honesta à pergunta: “Que benefícios posso trazer para os outros nessas circunstâncias e o que estou disposto a sacrificar por isso?” E para isso precisamos de ver como agimos no passado, quais os motivos que me guiaram ao tomar decisões sobre questões de bem comum.

Acho que precisamos de nos lembrar que a vida espiritual de um católico é uma guerra espiritual constante. Devemos vencer inimigos como o egoísmo, a preguiça, a indiferença a Deus e ao próximo todos os dias. Esses exercícios são a melhor preparação, preparam o terreno para a graça de Deus.

Também devemos sempre lembrar que é nosso Senhor quem governa o mundo. E se a Providência nos permite uma provação, a cruz, ao mesmo tempo envia-nos uma graça que ajuda a sobreviver. Mas para que a graça de Deus seja eficaz, devemos cooperar com ela, ou seja, devemos preparar a alma através da prática das virtudes.

Deus dará coragem a um guerreiro que serviu fielmente e não se esquivou do dever em tempos de paz. Deus ajudará a tomar a melhor decisão para um líder que sempre buscou o bem comum do povo, não o seu próprio benefício. Deus ajudará a tornar-se bons voluntários apenas àquelas pessoas que antes reparavam nas necessidades dos outros e os ajudavam. Deus aumentará as orações de reparação daqueles que as praticavam antes.

(A discussão torna-se agora mais política. Tenho certeza de que haverá opiniões variadas de católicos tradicionais em todo o mundo.)

6. Leu a declaração do Arcebispo Viganò a respeito da guerra na Ucrânia? Concorda com tudo que é dito? Ele critica as elites globalistas ocidentais por terem provocado a guerra com a Rússia, por terem instalado um governo fantoche liberal na Ucrânia para alargar a Nova Ordem Mundial, que essa guerra realmente remonta a 2014, etc., enquanto invoca papas do passado, pedindo paz e diplomacia. Descreve essencialmente como o estado profundo e a igreja profunda têm promovido uma agenda modernista em toda a Europa em direção ao Leste.

Antes do seu pedido, só ouvi falar da posição do Arcebispo Viganò, mas não li o artigo por si mencionado. Agora li com atenção. O conteúdo do texto do Arcebispo Viganò é simplesmente chocante e inaceitável para os ucranianos. E a principal razão disso é a posição absolutamente pró-russa do autor.

Alguns eventos da vida da Ucrânia descritos no artigo não correspondem à realidade, apenas repetem as narrativas da propaganda russa. Não quero julgar as intenções do arcebispo e acho que ele pode ter cometido um grande erro: ao procurar as fontes alternativas de informação aos media ocidentais, aceitou totalmente o ponto de vista russo. Parece que ao evitar um extremo, cai no outro. É muito estranho que o autor não esteja interessado na opinião dos ucranianos como outra fonte alternativa de informação. 

Por exemplo, ele poderia analisar a posição dos bispos católicos da Ucrânia. Em vez disso, ele considera os ucranianos apenas um objeto de manipulações dos globalistas ocidentais e isso é ofensivo para nós. O nosso país não é apenas um campo de batalha entre os EUA e a Rússia, é um país soberano com uma população de cerca de 40 milhões de pessoas, com uma das maiores áreas da Europa. É o nosso país que foi atacado pela Rússia e é o nosso exército que trava uma guerra pela liberdade do nosso povo.

O artigo do Arcebispo Viganò tem cerca de 20 páginas e não posso dar um comentário completo e adequado aqui. Além disso, não sou político e não conheço muitos detalhes sobre as questões abordadas, mas quero esclarecer alguns pontos-chave da posição do Arcebispo.

Não nego que os globalistas tentem influenciar a política ucraniana de várias maneiras. Mas a Rússia está a fazer o mesmo. A política de expansão russa não é melhor do que o globalismo americano para nós. Os media russos espalharam desinformação no seu país e no mundo inteiro a respeito da vida na Ucrânia.

Esta guerra, na verdade, começou em 2014 e foi iniciada pela Rússia, que ocupou a Crimeia, depois provocou ações separatistas nas regiões de Donetsk e Luhansk, apoiadas pelo exército russo. Não há justificativa para a intervenção militar russa no nosso país. Se eles queriam evitar qualquer perigo dos EUA ou da NATO, por que razão atacaram a Ucrânia e não o Alasca, por exemplo?

O confronto russo-ucraniano não começou em 2014. Temos uma longa história de conflitos, há séculos. Lembremos, por exemplo, o ato de genocídio contra o nosso povo em 1932-1933, quando milhões de ucranianos morreram na fome artificial. 

A Igreja Greco-Católica Ucraniana também passou por várias fases de liquidação e perseguição sangrenta dirigidas pelo Império Russo e pelo regime comunista. A último delas perdurou, no oeste da Ucrânia, desde 1946 até 1989, quando a nossa Igreja existia em condições subterrâneas profundas. 

Existem muitas outras manifestações desse tipo de chauvinismo russo. A Rússia declara brutalmente que tem direito histórico às terras ucranianas. A sua propaganda, muitas vezes, soa como teses de que ucranianos e russos são um povo, que a língua ucraniana é um dialeto do russo, etc.

Porque é que o Arcebispo Viganò não menciona a declaração de Putin em Munique, em 2008, de que considera o colapso da União Soviética a maior catástrofe mundial do século XX? Essa declaração significa que ele quer restaurar a União Soviética, colocar a Ucrânia novamente sob o controlo da Rússia.

Eu só quero mostrar aqui a razão profunda da agressão russa à Ucrânia. Ninguém pode dizer que é apenas um confronto entre a Rússia e o Ocidente globalista, e que a Ucrânia é apenas um campo de batalha.

O maior insulto ao nosso povo é a acusação de espalhar o nazismo. Não vou refutar aqui as acusações russas repetidas pelo Arcebispo Viganò porque não é possível fazê-lo no âmbito desta entrevista. Mas os factos desta guerra mostram que foram as tropas russas que agiram como nazis.

Após a liberação da ocupação russa de cidades como Bucha, Irpin e Gostomel, centenas de cadáveres de civis foram encontrados ali com vestígios de tortura, corpos de mulheres violadas e assassinadas que tentaram queimar.

Em várias ocasiões, os russos não permitiram que missões humanitárias entrassem em Mariupol ou em outras cidades ocupadas para entregar alimentos ou evacuar civis. Esse exército, que veio “para salvar a população de língua russa”, praticamente destruiu Mariupol, uma cidade de mais de quatrocentas mil pessoas, cuja maioria é de língua russa.

Obrigado novamente pelo seu pedido.
Deixe Deus te abençoe!

Pe. Bogdan Vytrykush

(Fim da entrevista)

Fonte: okietraditionalist.blogspot.com, em 21 de maio de 2022 (tradução nossa; a foto e os sublinhados/negritos não fazem parte da publicação original)

Francisco, Kirill e a guerra russa na Ucrânia


Por Roberto de Mattei

Entre os muitos sucessos atribuídos pelos meios de comunicação ao Papa Francisco está o “encontro histórico” que aconteceu, a 12 de fevereiro de 2016, em Havana, com o Patriarca Kirill de Moscovo. Um evento, escreveu-se na época, que viu o colapso do muro religioso que durante mil anos dividiu a Igreja de Roma da do Oriente (La Repubblica, 5 de fevereiro de 2016).

O projeto ecuménico do Papa Francisco encalhou, porém, na tempestade da guerra na Ucrânia, abençoada pelo próprio Patriarca Kirill, que, a 9 de maio, foi um dos convidados de honra no desfile militar da Praça Vermelha, em Moscovo.

Kirill, nascido Vladimir Mikhailovich Gundyayev, 16.º patriarca de Moscovo e de todos os russos, é o líder da Igreja Ortodoxa Russa, que conta com 165 milhões de fiéis espalhados por todo o mundo. Nascido em 1946, em Leningrado (atual São Petersburgo), foi consagrado bispo em 1976 e eleito patriarca em 2009. De acordo com documentos do arquivos de Moscovo tornados públicos, em particular do Arquivo Mitrokhin, ele foi um agente da KGB desde o início dos anos 1970. Em parte por causa dessa experiência comum ao serviço da Rússia soviética, Kirill foi apelidado de “o poder brando do poder duro de Putin” (Huffington Post, 14 de abril de 2022).

Na realidade, as origens da estreita relação que liga o altar de Kirill ao trono de Putin remontam à ideologia do Império Bizantino, cujo herdeiro a Rússia afirma ser. Enquanto o cristianismo ocidental manteve a distinção entre autoridade religiosa e poder político, em Constantinopla nasceu o chamado “cesaropapismo”, a subordinação de facto da Igreja ao imperador, sendo este considerado o seu chefe, tanto no campo eclesiástico como no secular. Os patriarcas de Constantinopla foram na verdade reduzidos a funcionários do Império Bizantino, como acontece hoje na Rússia com Kirill, não incorretamente definido pelo Papa Francisco, na sua entrevista de 3 de maio ao  Corriere della Sera,  como “acólito de Putin.” Esta expressão despertou a ira de Kirill e levou a um comunicado de imprensa do Departamento de Relações Exteriores da Igreja do Patriarcado de Moscovo, segundo o qual “é improvável que tais declarações contribuam para o estabelecimento de um diálogo construtivo entre as Igrejas Católica Romana e Ortodoxa Russa, especialmente necessário no momento.

A única maneira de o Patriarcado de Moscovo sair do isolamento em que se encontra hoje, após a guerra na Ucrânia, foi justamente o relançamento do diálogo com o Vaticano, mas o segundo encontro entre o Papa Francisco e Kirill, que deveria ter lugar em Jerusalém, no próximo dia 14 de junho, foi cancelado pela Santa Sé.

O patriarca ortodoxo de Constantinopla, Bartolomeu, por sua vez, numa entrevista concedida, a 2 de maio de 2022, ao jornal Kathimerini Chipre, condenou abertamente Kirill, com estas palavras: “Não podes reivindicar ser irmão de outro povo e abençoar a guerra que o teu país está a travar contra o teu irmão. (…) Não podes manter que a Ucrânia te pertence eclesiasticamente e deixar que os fiéis pertencentes à entidade eclesiástica com sede em Moscovo sejam mortos e as suas igrejas destruídas pelos bombardeamentos russos.” Estas críticas são compartilhadas até mesmo pelos fiéis da Igreja Ortodoxa Ucraniana que estão sob a jurisdição de Moscovo. Quatrocentos sacerdotes desta igreja apelaram ao Conselho dos Primazes das Antigas Igrejas Orientais, apresentando a acusação de que “Kirill prega a doutrina do ‘Mundo Russo’, a qual não corresponde ao ensinamento ortodoxo e deve ser condenada como heresia”.  Se o conselho chegasse a um acordo, deveria “privá-lo do direito de ocupar o trono patriarcal”.

Além disso, Kirill ainda não era patriarca quando, em 2002, Vladimir Putin, presidente da Federação Russa por dois anos, iniciou a expulsão de missionários católicos da Rússia, em nome do “mundo russo”. Um especialista em assuntos da Rússia, Pe. Stefano Caprio, lembra que a Ortodoxia já havia sido elevada acima de todas as outras confissões, como a “religião de Estado”, na lei de liberdade religiosa revista em 1997 e inspirada no patriarcado de Moscovo. “No preâmbulo dessa lei”,  explica o Pe. Caprio, “proclamou-se que a religião histórica da Rússia era precisamente a Ortodoxia, enquanto quatro outras religiões eram reconhecidas como ‘tradicionalmente secundárias’: Islamismo, Judaísmo, Budismo e… Cristianismo, obviamente significando católicos e protestantes, há séculos presentes na Rússia mas distintos dos ortodoxos como outra religião. Isso não foi uma questão de descuido e, de facto, essa expressão nunca foi corrigida: a Ortodoxia Russa é, na verdade, uma dimensão espiritual distinta na qual os dogmas cristãos são misturados com os remanescentes do paganismo numa extensão muito maior do que em outros ramos do cristianismo, sendo, acima de tudo, são reformulados em ideais nacionais universalistas que apontam para a Rússia como o ‘povo salvífico’ para a humanidade como um todo.”

Os primeiros a pagar o preço por esta conceção político-religiosa na Rússia são os católicos, que para o Patriarcado de Moscovo continuam como “inimigos” temidos por causa de seu “proselitismo”, apesar de serem uma pequena minoria da população. São acusados ​​de minar a unidade religiosa e política da Rússia, à qual Putin faz referência constante. Portanto, observa o Pe. Caprio, “ quando houve a revolta anti-russa de Maidan, em 2014, os círculos patriarcais apontaram o dedo aos Uniatas  (nota do editor: Greco-Católicos) como os verdadeiros inspiradores dos motins, chegando até a atribuir-lhes a paternidade espiritual dos grupos mais agressivos da extrema direita ucraniana, os ‘neonazis’ que Putin acusou de inimigos do ‘mundo russo’, contra quem era necessário empreender a ‘operação militar especial’ defensiva para libertar russos e ucranianos da influência ocidental”.

A invasão russa da Ucrânia trouxe à tona as contradições da Igreja Ortodoxa Russa, representada hoje por Kirill. A importância do encontro ecuménico de 2016, segundo o Papa Francisco, está na possibilidade de criar uma ponte religiosa entre as Igrejas Católica e Ortodoxa, em nome do princípio da sinodalidade. No entanto, é esse mesmo princípio que justifica a posição de Kirill, cujo nacionalismo surge da natureza autocéfala do patriarcado de Moscovo e da sua simbiose com o poder político.

A diferença fundamental é esta. A Igreja de Moscovo é nacional, enquanto a de Roma é universal, chamada “católica” justamente porque não se identifica com nenhum povo ou cultura e anuncia o Evangelho a todas as nações, até os confins da terra (Atos 1:8). A Igreja Católica Romana não conhece limites de tempo e espaço e está destinada a unir numa família todos os povos da terra. É a única que pode lançar um apelo por uma paz que transcenda os interesses, as ambições de nações individuais. O seu centro de unidade é o Romano Pontífice, que exerce pleno poder sobre a Igreja universal. A Igreja Católica pode tolerar um mau papa, como muitos o foram ao longo da história, mas sem a pedra de Pedro o mundo estaria mergulhado no caos. E hoje, infelizmente, o Patriarca Kirill apoia o caos causado por Vladimir Putin no coração da Europa.

Fonte: rorate-caeli.blogspot.com, em 12 de maio de 2022 (tradução nossa).

Vladimir Putin, o grande defensor do cristianismo… e do comunismo!

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À esquerda, soldados russos veneram ícone de Vladimir Putin. À direita, o ícone de Josef Stalin é utilizado por um sacerdote da Igreja Ortodoxa Russa para benzer bombardeiros estratégicos. Fonte: Euromaiden Press, 16/08/2016.

Entrevistado para um documentário sobre o mosteiro de Valaam, produzido e apresentado por Andrey Kondrashov e transmitido no passado mês de janeiro pelo canal Rossiya 1, o presidente russo Vladimir Putin fala das semelhanças entre o comunismo e o cristianismo.

Basto 2/2018

A lenda de São Putin…

…ou do todo-poderoso que pediu a consagração da Rússia a Imaculado Coração de Maria!

Este mito urbano, que correu a web, teve origem num pequeno vídeo amador do Pe. Paul Kramer, divulgado nas redes sociais.

Este padre, que esteve durante muitos anos ligado ao Fatima Center, é um dos grandes investigadores da integral mensagem de Fátima, pelo que foi autor de alguns livros importantes sobre o tema e orador em várias conferências. Em 2013, surpreendeu toda a gente ao rejeitar publicamente o papado de Francisco através da sua página do facebook. Desde então, deixou de ter atividade no apostolado fundado pelo Pe. Gruner, pelo menos de forma visível.

Neste vídeo, o Pe. Kramer afirma ter tido conhecimento, através de canais de informação privados, no Vaticano, que Vladimir Putin pedira, ao Papa Francisco, a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria e, face a este pedido, o Santo Padre ter-lhe-á negado categoricamente nestes termos: “nós não discutiremos Fátima”. Este vídeo alega ainda que um dos cardeais mais próximos de Francisco prometera, junto à estátua da Senhora do Rosário, que iriam “destruir Fátima”. No resto do vídeo, o padre rasga-se em elogios à liderança de Putin…

É evidente que esta informação não passa de uma ‘história da carochinha’, incapaz de convencer sequer a audiência do Canal Panda. Não pela parte que toca a Francisco, de quem, infelizmente, já nos habituamos a ficar surpreendidos apenas quando pára momentaneamente de nos surpreender, mas antes, e principalmente, pela parte que se refere ao presidente russo.

É mais do que provável que o Presidente da Rússia tenha falado sobre Fátima com o Bispo de Roma. Um assunto que já deve ter estado em cima da mesa antes, durante outros encontros diplomáticos entre chefes de estado da Rússia e do Vaticano anteriores. O resto é fantasia…

Este conto não tem a mínima credibilidade. Se essa fosse mesmo a vontade de Vladimir Putin, Bento XVI ter-lhe-ia feito a vontade de imediato. E não foi por falta de oportunidade que não lhe pedira.

A devoção ao Imaculado Coração de Maria é intrinsecamente católica, constituindo um fator de diferenciação identitária e confessional face ao mundo ortodoxo. Um líder altivo como Putin, tão próximo da Igreja Ortodoxa, num país em que o nacionalismo russo se confunde tantas vezes com o proselitismo religioso, jamais aceitaria tal possibilidade e muito menos suplicaria por ela. Na prática, tal hipótese absurda significaria um requerimento ao Santo Padre, pedindo que aceite a subordinação da Rússia ao Bispo de Roma, ou seja, que aceite a conversão da Rússia ao catolicismo.

Um conto de fadas! E é uma pena que não passe disso mesmo porque seria ótimo ter o, cada vez mais poderoso, Vladimir Putin do nosso lado.

A Rússia nunca precisou de um Papa para poder realizar a sua consagração ao Imaculado Coração de Maria. Pode fazê-lo quando quiser, do mesmo modo que outras nações o fizeram sem a necessidade de qualquer favor papal. Portugal já o fez mais do que uma vez.

A lenda de São Putin tem outras variantes, umas mais infantis do que outras. Há quem diga que o pobre homem sofria de uma doença incurável e então obteve uma graça de Nª Sª de Fátima, a quem deseja agora agradecer. No entanto, como ninguém o viu internado ou convalescente, se calhar a doença era caspa! Mas o mais grave disto tudo é que a(s) lenda(s) de São Putin, em alguns meios tradicionalistas, está a alimentar o mito do “Grande Monarca” que virá salvar o Ocidente dos seus líderes infiéis… Aonde isto chegou!

O Ocidente secularizado pode estar muito mal – e está mesmo – mas mal de nós se estamos à espera que venha o São Putin, a cavalo, para salvar a nossa Fé. Mas se vier, que traga boas sardinhas como o São João. Na conjuntura atual, é como esperar que venha o Dr. Jivago trazer o remédio para a nossa própria caspa! Mais vale esperar pelos extra-terrestres, mas sentados.

Nota Final: Com este texto, não se pretende, de modo algum, diminuir o excelente contributo do Pe. Kramer para o entendimento global e integral da mensagem de Fátima. Pelo contrário, vários dos seus trabalhos escritos e apresentações gravadas em congressos ao longo das últimas décadas são imprescindíveis. Todos nós andamos algo confusos desde há três anos e tal para cá, uns mais do que outros.

Basto 06/2016