A nova Igreja Ortodoxa da Ucrânia e o grande cisma na igreja cismática

Presidente Petro Poroshenko no Conselho da Unidade Ortodoxa de Toda a Ucrânia; in página oficial da Presidência da Ucraniana, 15/12/2018.

Há uma semana, foi dado por concluído o processo de criação da nova Igreja Ortodoxa da Ucrânia, que resultou da fusão de duas denominações ortodoxas dissidentes do Patriarcado de Moscovo. O estabelecimento de uma igreja ortodoxa nacional unificada contou com o forte apoio e empenho das autoridades políticas da Ucrânia, que assumiram este projeto como um desígnio nacional e como mais um passo na autodeterminação do país perante a Rússia.

A Rússia, por seu lado, que vê em Kiev o berço histórico da sua cristianização, já tinha avisado que jamais reconhecerá a independência religiosa da Ucrânia face ao Patriarcado de Moscovo. Com efeito, o facto de Bartolomeu I, Patriarca de Constantinopla, ter recentemente reconhecido a independência da Igreja Ortodoxa da Ucrânia levou o Patriarcado de Moscovo a cortar formalmente relações com Constantinopla, efetivando, deste modo, a maior rutura na cristandade oriental desde o Grande Cisma de 1054. Os dois patriarcados, de forma mais ou menos assumida, disputam a liderança do mundo ortodoxo, Constantinopla por razões históricas e simbólicas, Moscovo por razões de facto.

Temem-se agora as repercussões que os recentes desenvolvimentos na geografia religiosa da Ucrânia possam vir a ter na complexa situação político-militar existente entre a Ucrânia e a Rússia, como se comprova pela atenção que a NATO tem dado a esta questão.

Basto 12/2018

Presidente ucraniano foi ao Santuário de Fátima rezar pela paz

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Petro Poroshenko e a sua esposa Maryna Poroshenko no Santuário de Fátima no dia 18 de dezembro de 2017 in Página Oficial da Presidência Ucraniana, 18/12/2018.

Enquanto alguns conservadores, desiludidos com os excessos da era moderna ocidental, continuam a acreditar nas fábulas do bem-aventurado Vladimir Putin, à espera que o “grande monarca” eslavo venha salvá-los da podridão civilizacional, o presidente ucraniano, à margem da sua visita oficial a Portugal, deslocou-se discretamente a Fátima para rezar pela paz no seu país. Veio acompanhado pela esposa e por vários elementos do seu governo.

Petro Peroshenko deixou uma mensagem forte no livro de honra do Santuário:

Estou profundamente impressionado com a mensagem de Fátima, em particular sobre o aviso de uma ameaça para a humanidade por parte da Rússia, a qual, caso não se arrependa, espalhará os seus erros pelo mundo, provocando guerras e o perecimento massivo de povosescreveu o Chefe de Estado da Ucrânia lembrando que o seu país “tem sentido na própria pele a veracidade dessas profecias”.

(in Santuário de Fátima, 18/12/2017)

Para o Ocidente, em geral, as profecias de Fátima são um assunto arrumado, pertencem ao passado, a Rússia já se converteu (embora ninguém saiba dizer exatamente a quê), mas a Ucrânia continua a recordar-nos que essas profecias são hoje mais atuais do que nunca e que o pior poderá ainda estar por vir.

A península ucraniana da Crimeia está sob ocupação estrangeira desde fevereiro de 2014, ao mesmo tempo que algumas regiões do leste da Ucrânia continuam longe de alcançar a normalidade devido às interferências russas.

A presente visita de um dirigente ucraniano a Fátima não foi um ato isolado. Em junho de 2008, o Santuário recebeu o ex-presidente Victor Yushchenko e, alguns meses depois, o deputado Petro Yushchenko (irmão do presidente), acompanhado pelo Embaixador da Ucrânia em Portugal, Rostyslav Tronenko. Ainda no ano de 2008, recebeu uma nova delegação de dirigentes ucranianos.

Basto 12/2017

A Igreja que Stalin não conseguiu matar: a Igreja Greco-Católica Ucraniana prospera setenta anos depois da reunificação forçada

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O arcebispo Sviatoslav Shevchuk (ao centro) participa numa cerimónia, na Catedral Patriarcal da Ressurreição de Cristo, em Kiev, onde foi entronizado como líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, a 27 de março de 2011. Estima-se que a Igreja Greco-Católica Ucraniana tenha mais de 5 milhões de fiéis. REUTERS/Kinstantin Chernichkin

Por Nadia M. Diuk

24 de março de 2016 (Atlantic Council) – Há setenta anos, de 8 a 10 de março de 1946, sob as ordens de Josef Stalin, realizou-se um “sínodo” ilegal, do clero controlado pelo Kremlin, em Lviv,  depois de esta cidade ter sido absorvida pela União Soviética como parte do assentamento da Segunda Guerra Mundial. O objetivo do encontro era acabar com a existência independente da Igreja Católica Greco-Católica Ucraniana, ou melhor, “reuni-la” com a Igreja Ortodoxa Russa. Na base do astuto estratagema estava a origem desta Igreja, a qual resultou da união de Brest, em 1595, quando milhares de fiéis juntamente com os seus clérigos – a circunscrição metropolitana de Kiev-Halych – separaram-se da ortodoxia oriental para se submeterem à autoridade e à proteção pastoral do Papa católico latino de Roma.

Os três séculos e meio que se seguiram fizeram desta Igreja um próspero centro espiritual, intimamente ligado aos crescentes movimentos sociais e intelectuais que tentavam definir uma identidade para as emergentes populações ucranianas que viveram sob a sucessiva dominação de impérios e estados naquela região.

Em meados do século XX, a Igreja Católica Greco-Católica Ucraniana (IGCU) incluía mais de 3.000 paróquias, 4.440 igrejas, 5 seminários e 127 mosteiros. Mais de três milhões de crentes eram atendidos por 3.000 sacerdotes, 10 bispos e o metropolita [equivalente a arcebispo] que liderava a Igreja. Mas como o regime de Stalin pretendia subjugar e absorver os ucranianos ocidentais, era óbvio que esta grande e vibrante instituição, que respondia a uma autoridade exterior ao Estado, continuaria a cultivar o mesmo patriotismo e espírito de independência que tinha sido tão problemático durante a primeira ocupação soviética entre 1939-1941. Além disso, durante a II Guerra Mundial, embora o regime comunista soviético se tivesse afastado do ateísmo rígido, depois de perceber que a religião poderia desempenhar um papel no apoio ao esforço de guerra, o imperativo de controlar todas as instituições religiosas manteve-se. A “reunificação” da IGCU com a Igreja Ortodoxa Russa surgiu como a solução. Reuniu-se um “sínodo” sem a participação dos bispos da IGCU; os que foram forçados a participar, votaram e a Igreja foi oficialmente absorvida pela Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Moscovo, juntamente com a maior parte dos seus pertences. Num movimento cínico que reforçou a decisão, o anúncio foi feito no primeiro domingo de Quaresma, no 350º aniversário da União de Brest. Como resultado, a IGCU tornou-se a maior igreja clandestina do mundo.

Seguiram-se severas repressões. Sacerdotes católicos ucranianos foram espancados, torturados e condenados a longas penas de prisão. Dezenas de milhares de leigos tiveram o mesmo destino. O metropolita da IGCU, Josef Slipiy, foi enviado para um campo de trabalhos forçados na Sibéria. A igreja desceu às catacumbas: realizavam-se celebrações nas florestas ou, havendo coragem, em habitações particulares. As crianças eram batizadas em segredo e os ritos religiosos realizavam-se na clandestinidade, enquanto o Estado soviético continuava o seu ataque aos sacerdotes, monges, freiras e fiéis católicos, oferecendo refúgio na Igreja Ortodoxa Russa ou, em alternativa, repressão como preço para a recusa no corte da ligação ao bispo de Roma.

Ainda assim, a chama da resistência resistiu e forneceu inspiração com histórias de brutalidade e coragem partilhadas entre os membros confiáveis da família e transmitidas de geração em geração. A Ucrânia Ocidental, com suas aspirações e apoio a uma Ucrânia independente, manteve-se como um viveiro de sentimentos anti-soviéticos e de diversidade religiosa. Quando a longa luta da igreja clandestina terminou finalmente, em 1989, sobravam apenas trezentos idosos sacerdotes.

A vitalidade da igreja reafirmou-se rapidamente com o apoio da diáspora, os milhares de ucranianos que tinham fugido da sua terra natal durante a guerra rumo à América do Norte, à América Latina, à Europa e até à Austrália.

Hoje, com um centro espiritual em Roma, com a recentemente reestabelecida Universidade Católica Ucraniana em Lviv e a com recém-construída catedral em Kiev, a Igreja tem 33 eparquias e exarcados e 53 bispos em quatro continentes, com mais de 3.000 sacerdotes cuja idade média ronda os 38 anos.

A influência desta Igreja na vida social e política da Ucrânia tem sido evidente desde a independência. Estudantes da Universidade Católica Ucraniana de Lviv foram alguns dos primeiros a deslocar-se até Kiev, em 2004, para apoiar as ideias e aspirações da Revolução Laranja contra um regime autoritário. E em 2013-14, a Revolução da Dignidade da Ucrânia foi impregnada com os valores morais e atitudes tolerantes propostos pela Igreja. O seu clero foi uma presença diária em Maidan durante os três meses de luta. Juntamente com as outras igrejas e denominações religiosas da Ucrânia, a IGCU ajudou a criar um ambiente ecuménico e diversificado para os movimentos sociais na Ucrânia. Como um baluarte contra o autoritarismo, este espírito de ecuménico da Ucrânia continua a ser o melhor instrumento na luta para se tornar um estado próspero e democrático.

A edição original deste texto foi publicada pelo Atlantic Council no dia 8 de março de 2016. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do texto acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 3/2017

A nova guerra fria continua a aquecer

A Nato reforça a sua posição no Nordeste e no Sudeste do Continente Europeu, colocando militares na Estónia, Letónia, Lituânia, Polónia, Roménia, Bulgária e Turquia.

A Rússia transfere parte da sua Frota do Norte para o Mar Mediterrâneo para apoiar as operações na Síria.

Vladimir Putin mostra ao mundo o seu último “brinquedo”, o Satan 2, um míssil intercontinental capaz de destruir uma área equivalente a um país do tamanho da França. Para além deste “brinquedo”, a agência noticiosa de propaganda do regime, a Spuniknews, nunca se cansa de mostrar diariamente todos os outros.

São também de assinalar as movimentações de arsenal bélico rumo ao enclave de Kaliningrado, mesmo “dentro” do território da União Europeia. Primeiro chegaram os mísseis balísticos Iskander-M, com aptidão nuclear e um raio de alcance de cerca de 700kms, capazes de atingir várias capitais europeias, como é o caso de Berlim. Depois vieram navios com capacidade de lançamento de mísseis nucleares.

Para além de todas as notícias referidas, merece também destaque a informação de uma alegada ordem de Putin para que os cidadãos residentes no estrangeiro, nomeadamente os familiares dos oficiais russos, regressem a casa devido ao perigo eminente de guerra. Ou ainda as recentes informações sobre a suposta rede de bunkers de Moscovo à prova de ataques nucleares.

Todas estas e outras atitudes de Moscovo, ao nível militar e na política internacional, têm sido, de um modo geral, desvalorizadas pela imprensa que as considera como mero bluff político para afirmar uma determinada posição. E, se calhar, não passam mesmo disso, no entanto, merecem a máxima atenção das partes porque, a este nível, até um erro humano ou uma desobediência hierárquica pode ter consequências imprevisíveis.

Há dois anos atrás, poucos acreditavam que a península da Crimeia pudesse ser conquistada à moda antiga… Vladimir Putin surpreendeu muita gente.

Em termos de futuro, as previsões não são mesmo nada animadoras. Dentro de uma semana, as eleições dos EUA irão colocar à frente da maior superpotência mundial um presidente que admira Vladimir Putin ou, em alternativa, uma presidente que não receia a confrontação com ele. Qual das duas hipóteses será a melhor?

Com perfis tão medíocres, é difícil perceber qual dos dois pode ser o pior para os EUA e para o mundo em geral.

Seja o que Deus quiser!

Basto 11/2016

Guerra na Ucrânia (agosto 2016)

As relações entre a Rússia e a Ucrânia voltam a complicar-se nos últimos dias.

Enquanto o Céu aguarda pacientemente pela completa consagração conversão da Rússia que conduzirá ao triunfo do Imaculado Coração de Maria, a Santa Sé continua a investir todas as suas energias na cultura del encuentro. O encontro “misericordioso” com protestantes, pessoas de outras religiões, ateus, gays, transsexuais, divorciados recasados, comunistas, abortistas… Não para lhes indicar claramente o caminho da conversão, do arrependimento, da contrição e da necessidade de acreditar verdadeiramente em Jesus Cristo, mas antes para lhes levar não se sabe bem o quê, mas que toda a gente gosta.

A Nova Ordem Mundial não foi ainda completamente construída mas a Rússia já começou a substituí-la por outra ainda mais nova…

Basto 8/2016