As “revelações surpreendentes” da Irmã Lúcia na reportagem da SIC

Muitos de nós ainda se lembram de, na década de noventa do século passado, a então recém-criada estação portuguesa de televisão privada SIC ter aberto um telejornal com a notícia de alegadas “revelações surpreendentes” da Ir. Lúcia a respeito da mensagem de Fátima. Desde então, várias gravações editadas dessa reportagem têm corrido o mundo para justificar diversas interpretações da mensagem de Fátima, umas mais otimistas do que outras.

Uma observação mais atenta da referida reportagem suscita alguma prudência na sua utilização como prova material de algumas das alegadas “revelações surpreendentes” da vidente de Fátima.

Todos nós desejamos que as “revelações” anunciadas na referida reportagem estejam completamente corretas e que as fontes aí citadas não tenham, de forma involuntária,  interpretado mal a vidente de Fátima, uma vez que elas são bem mais favoráveis do que a realidade parece evidenciar… Mas a verdade é que, se tais “revelações” eram de facto “surpreendentes” na altura da sua publicação, principalmente quando confrontadas com outras declarações da mesma vidente, elas tornam-se ainda mais surpreendentes à medida que o tempo passa e avaliamos, à luz da mensagem de Fátima, o estado a que chegou o mundo (Rússia incluída) e principalmente a Igreja. Não deve ser por acaso que esta reportagem é hoje utilizada para justificar a normalidade do momento insólito que a Igreja vive desde 2013 para cá…

Esperemos que, num futuro próximo, publiquem os vídeos integrais da entrevista e, de preferência, com algum tipo de correção técnica, dada a má qualidade das gravações apresentadas, para que não restem a mínima dúvida em relação à informação em causa.

Basto 8/2017

Fatalidade do Segredo de Fátima

 

Tui
Tui (Espanha) vista da fortaleza abaluartada de Valença (Portugal)

De toda a mensagem de Fátima oficialmente publicada até hoje, a profecia mais dramática e assustadora foi a que a Ir. Lúcia recebeu durante a sua permanência na Galiza, em Espanha. Foi-lhe comunicado que a Rússia não seria consagrada ao Imaculado Coração de Maria a tempo de travar a propagação dos seus erros pelo mundo e evitar os castigos anunciados sobre a Igreja e o Santo Padre.

A fatalidade desta profecia é tal que até tem cabimento nas teses mais otimistas, que defendem que a consagração da Rússia já foi realizada nos termos que Deus desejava. Se fizermos um esforço para tentar aceitar alguma dessas teses como um facto adquirido, apesar de todas as evidências em sentido contrário, ainda assim, tal consagração teria ocorrido muitos anos depois do prazo indicado pela Virgem de Fátima.

Por outras palavras, de uma maneira ou de outra, não obedecemos às ordens do Céu que exigiam uma condenação categórica dos erros da Rússia e a sua solene consagração ao Imaculado Coração de Maria, o mais tardar, em 1960. Com efeito, neste momento, já não é possível impedir os castigos anunciados em Fátima – aliás, grande parte deles já ocorreram ou estão a ocorrer, basta estar atento para perceber isso. As orações e os sacrifícios devem, portanto, ser destinados a mitigar esses castigos, uma vez que, na sua globalidade, eles já não podem ser evitados.

Nas palavras da Ir. Lúcia:

[Aparição de Tui, a 13/06/1929] Depois Nossa Senhora disse-me: «É chegado o momento em que Deus pede para o Santo Padre fazer, em união com todos os Bispos do mundo, a consagração da Rússia ao Meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio. São tantas as almas que a Justiça de Deus condena por pecados contra Mim cometidos, que venho pedir reparação: sacrifica-te por esta intenção e ora».
Mais tarde, por meio de uma comunicação íntima, Nosso Senhor queixou-
se-me: «Não quiseram atender ao Meu pedido!… Como o rei da França, arrepender-se-ão e fá-la-ão, mas será tarde. A Rússia terá já espalhado os seus erros pelo mundo, provocando guerras, perseguições à igreja: O Santo Padre terá muito que sofrer.»
( Apêndice II, in Memórias da Ir. Lúcia, 1976)
Noutra ocasião:

Intimamente, tenho falado ao Nosso Senhor do assunto; e há pouco perguntava-Lhe porque não convertia a Rússia sem que Sua Santidade fizesse essa consagração. «Porque quero que toda a Minha Igreja reconheça essa consagração como um triunfo do Coração Imaculado de Maria, para depois estender o Seu culto e pôr, ao lado da devoção do Meu Divino Coração, a devoção deste Imaculado Coração». Mas, meu Deus, o Santo Padre não me há-de crer se Vós mesmo o não moveis com uma inspiração especial. «O Santo Padre! Ora muito pelo Santo Padre. Ele há-de fazê-la, mas será tarde! No entanto, o Imaculado Coração de Maria, há-de salvar a Rússia. Está-Lhe confiada».

(Carta da Ir. Lúcia ao Pe. Gonçalves em 18/05/1936 in Novos Documentos de Fátima, 1984)

Estas profecias, cruzadas com a análise da situação atual da Igreja, do mundo e da Rússia, remetem-nos para uma temível interpretação do Segredo de Fátima, bem mais enternecedora do que aquela que nos tem sido oferecida pelo Vaticano.
Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas.
(Parte do 2º Segredo de Fátima, Quarta Memória da Ir. Lúcia, 1941)
De facto, na visão do 3º Segredo de Fátima descrita pela Ir. Lúcia, o Santo Padre foi executado e morreu, do mesmo modo que morreram muitos outros elementos da Igreja Católica, leigos e clérigos.

[O Santo Padre] prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos Sacerdotes, religiosos e religiosas e varias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de varias classes e posições.

(Parte do 3º Segredo de Fátima publicado no ano 2000)

O exemplo da Monarquia Francesa

Luis-XVI
Georg Sieveking, 1793

A 17 de junho de 1689, Santa Margarida Maria Alacoque redigiu o pedido de Deus para que o rei de França consagrasse publicamente a sua nação ao Sagrado Coração de Jesus. Este desígnio divino foi recusado pelo monarca D. Luís XIV e, mais tarde, pelos seus filho e neto, D. Luís XV e D. Luís XVI, respetivamente. Se o monarca tivesse obedecido, a consagração da França, tê-la-ia salvo dos ataques revolucionários de índole protestante e liberal franco-maçónica.

A 17 de junho de 1789, dia da festa do Sagrado Coração, exatamente 100 anos depois, o Terceiro Estado revoltou-se e proclamou-se em Assembleia Nacional, retirando o poder legislativo ao monarca francês. A 21 de Janeiro de 1793, o rei católico D. Luís XVI, acabaria decapitado, como um criminoso, na praça pública.

Esta analogia faz-nos temer pela vida do Santo Padre – Dos dois? De algum deles? – e da Igreja em geral.

Se Cristo triunfou na cruz, não é muito lógico esperar que a vitória da Sua Igreja seja conquistada através da popularidade mediática ou de alguma nova ideia de misericórdia barata. Por muito que nos custe admitir e aceitar, aquilo que o 3º Segredo de Fátima mostrou aos pastorinhos de Aljustrel, no dia 13 de julho de 1917, foi o caminho do calvário da Igreja até à cruz.

Foi na cruz que Cristo renovou todas as coisas.

Para evitar cair na tentação de julgar um ou mais Papas, por não terem correspondido aos pedidos de Nª Sª de Fátima, o melhor será avaliar, acima de tudo, o nosso próprio estado de consagração individual ao Imaculado Coração de Maria. O pedido de consagração da Rússia era dirigido ao Santo Padre, é verdade. Porém, juntamente com esse pedido, feito em Tui, Nossa Senhora pediu também a prática da devoção dos Cinco Primeiros Sábados.

Talvez os católicos não tenham rezado o suficiente para obterem de Deus, através do Santo Padre, a Graça de consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria.

 

Basto 6/2016

Guardar

Guardar

Direito de não acreditar

Foi espantosa a rapidez, o pragmatismo, a disponibilidade e a clareza com que o Vaticano se prontificou a contrariar a informação de que haveria mais sobre o Segredo de Fátima do que aquilo que fora publicado no ano 2000. Face a esta resposta, o blogue One Peter Five, responsável pelo reacender desta questão, confrontou novamente a sua fonte e recebeu a confirmação da informação inicial, que aliás converge com outras fontes credíveis.

comunicato
Bollettino – Sala Stampa della Santa Sede

Este comunicado anónimo, emitido através do gabinete de imprensa da Santa Sé, mostra pelo menos três coisas:

  • Apesar de todas as ambiguidades da “nova pastoral da família”, as altas autoridades eclesiásticas em Roma sabem falar de forma curta, clara e direta, quando querem.
  • Apesar de bons padres e bispos católicos, como D. Athanasius Schneider, não terem ainda recebido a resposta aos urgentes pedidos de clarificação da Amoris Laetitia para evitar o sacrilégio em massa, uma informação lateral publicada num órgão de comunicação quase irrelevante dá origem a um rápido desmentido oficial do Vaticano.
  • Fátima ainda provoca calafrios a muita gente importante dentro do Vaticano.

Já passaram mais de três anos desde a resignação de Bento XVI, período durante o qual assistimos, quase diariamente, pelas notícias, a uma sucessão de escândalos no topo da hierarquia católica, face aos quais, o Papa Emérito praticamente nunca quebrou os seus votos de recolhimento, silêncio, humildade e obediência. No entanto, agora querem que acreditemos que ele interrompeu a sua vida de clausura para chamar mentiroso a um amigo ou, em alternativa, para chamar mentiroso a um irrelevante desconhecido que afirma ter falado com um amigo seu?

Certo…

Da nossa parte, temos o direito de não acreditar nisso! Pelo menos até vermos a gravação dessas declarações ou outro documento mais credível.

Que Deus proteja o Santo Padre Bento XVI.

 

Basto 5/2016