A bofetada de Francisco ao cardeal Sarah. Nos bastidores

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Por Sandro Magister

ROMA, 26 de outubro, 2017 (Settimo Cielo – L’Espresso) – A carta com que Francisco corrigiu e humilhou recentemente o cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, é a enésima prova de como este Papa exerce o seu magistério.

Quando Francisco quer introduzir uma inovação, nunca o faz através de palavras claras e compreensíveis. Ele prefere abrir discussões, pôr “processos” em andamento, nos quais as inovações são afirmadas gradualmente.

O exemplo mais evidente é a Amoris Laetitia, em relação à qual são dadas interpretações e aplicações contrastantes, com episcopados inteiros que se alinham de um ou do outro lado.

E quando lhe pedem esclarecimentos, ele recusa. Como no caso dos cinco dubia que lhe foram submetidos por quatro cardeais aos quais não se dignou a responder.

Mas quando um cardeal como Sarah, com a autoridade do cargo e competência, intervém, em relação a um motu proprio papal que diz respeito à liturgia, para dar a única interpretação que considera correta e que, portanto, é a única que deve seguir a congregação de que é prefeito, Francisco não permanece em silêncio, mas reage com dureza, em defesa dessas passagens do motu prorio – efetivamente nada claras – que contêm as liberalizações que lhe são queridas.

É exatamente isto o que aconteceu nos últimos dias.

Recapitulemos. No dia 9 de setembro, Francisco publica o motu proprio Magnum Principium sobre as adaptações e traduções para as línguas vernaculares dos textos litúrgicos da Igreja Latina.

Ao definir o papel da congregação para o culto divino no que diz respeito a adaptações e traduções dos textos litúrgicos preparados pelas conferências episcopais nacionais e submetidos à aprovação da Santa Sé, o motu proprio distingue entre “recognitio” e “confirmatio”, entre revisão e confirmação.

Mas esta distinção não está explicada de forma clara. E, na verdade, formaram-se imediatamente duas frentes entre os especialistas.

Há quem considere que o “recognitio”, que significa a revisão antecipada de Roma, diz respeito somente às adaptações, enquanto que, para as traduções, a Santa Sé precisa simplesmente dar uma “confirmatio”, ou seja, a sua aprovação.

E por outro lado, há quem mantenha isso também nas traduções, que Roma deve realizar uma revisão cuidadosa, antes de aprová-las.

Efetivamente, isso é o que era feito anteriormente e é por isso que várias novas traduções dos missais tiveram uma vida problemática – como as dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Irlanda – ou ainda estão à espera de aprovação de Roma, como as de França, Itália e Alemanha.

Em particular, a nova tradução do missal para alemão foi criticada pelo próprio Bento XVI, que em 2012 escreveu uma carta aos bispos, seus compatriotas, para convencê-los a traduzir de modo mais fiel as palavras de Jesus na última ceia, no momento da consagração:

> Diário do Vaticano / “Por muitos” ou “por todos”? A resposta certa é a primeira

Voltando ao motu proprio “Magnum Principium”, deve notar-se que foi redigido sem que o cardeal Sarah, prefeito de um dicastério cuja administração intermédia há muito remava contra si, tivesse conhecimento.

Em 30 de setembro, Sarah escreveu ao Papa Francisco uma carta de agradecimento acompanhada de um detalhado Commentaire, cuja finalidade era uma correta interpretação e aplicação do motu proprio, bem mais restritiva quanto às suas formulações polivalentes.

Segundo Sarah, “recognitio” e “confirmatio” são, na realidade, “sinónimos” ou, em qualquer caso, “intercambiáveis ​​ao nível da responsabilidade da Santa Sé”, cuja obrigação de rever as traduções antes de aprová-las continua intacta.

Doze dias depois, o “Commentaire” do cardeal apareceu em várias páginas da internet, levando à conclusão – dada função do autor do “Commentaire” – que em Roma a congregação para o culto divino atuaria de acordo com as suas diretrizes.

Isto irritou muito o Papa Francisco que, no dia 15 de outubro, assinou uma carta muito dura para desmentir o Cardeal Sarah.

Uma carta na qual o Papa atribui às conferências episcopais nacionais a liberdade e a autoridade para decidir sobre as próprias traduções, sob a única condição da “confirmatio” final da congregação do Vaticano.

E em qualquer caso – escreve o Papa – sem nenhum “espírito de «imposição» sobre as conferências episcopais de uma determinada tradução feita pelo dicastério” romano, também para “textos litúrgicos” significativos como as “fórmulas sacramentais, o Credo, o Pater noster.”

A conclusão da carta do Papa ao cardeal é venenosa:

Observando que a nota “Commentaire” foi publicada por alguns sites da internet e erroneamente atribuída à sua pessoa, eu peço gentilmente que o senhor providencie para que esta minha resposta seja divulgada nos mesmos sites, além de enviar a mesma a todas as Conferências Episcopais, aos membros e consultores do Dicastério.

Há um abismo entre esta carta de Francisco e as calorosas palavras de estima expressadas por escrito ao cardeal Sarah, há alguns meses, pelo “Papa emérito” Bento XVI. Que dizia que tinha a certeza de que com Sarah “a liturgia está em boas mãos” e, portanto, “devemos estar gratos ao Papa Francisco por ter nomeado um mestre espiritual à frente da Congregação que é responsável pela celebração da liturgia na Igreja”.

Escusado será dizer que o objeto do choque entre Francisco e Cardeal Sarah não é marginal, mas toca os alicerces da vida da Igreja, de acordo com a máxima antiga: “Lex orandi, lex credendi”.

Porque o “processo” que Francisco quer pôr em andamento é precisamente o de mudar – através de uma descentralização que devolve as traduções e as adaptações litúrgicas às Igrejas nacionais – toda a estrutura da Igreja Católica, transformando-a numa federação de Igrejas nacionais dotadas de extensa autonomia,”incluindo alguma autêntica autoridade doutrinal”.

Estas últimas palavras são da Evangelii gaudium, o texto programático do pontificado de Francisco.

Essas palavras eram enigmáticas quando foram publicadas em 2013. Hoje não são tanto.

A edição original deste texto foi publicada no Settimo Cielo a 26 de outubro de 2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 10/2017

Igrejas do Leste, um espinho no flanco do Papa

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Por Sandro Magister

ROMA, 3 de agosto, 2017 (Settimo Cielo – L’Espresso) – A Europa do Leste é um espinho no flanco do pontificado de Francisco e são muitos e variados os elementos que o comprovam.

No duplo sínodo da família, os bispos da Europa Oriental estiveram entre os mais decididos defensores da tradição, começando pelo relator geral da primeira sessão, o cardeal húngaro Péter Erdõ, autor de, entre outras coisas, uma clamorosa condenação pública das violações cometidas pela fação reformista, que era claramente apoiada pelo Papa.

Depois do sínodo, a Europa do Leste voltou a ser, mais uma vez, a fonte das interpretações mais restritivas do documento papal Amoris Laetitia. Os bispos da Polónia foram particularmente unânimes em pedir uma aplicação do documento em perfeita continuidade com o antigo ensinamento que a Igreja desde a sua origem até João Paulo II e Bento XVI.

Os bispos da Ucrânia – onde 10 por cento da população são católicos – também estão entre os mais dedicados na oposição a ruturas no que concerne à tradição nas áreas do casamento, penitência e Eucaristia. Mas, para além disso, não se abstiveram de criticar fortemente as posições pró-russas do Papa Francisco e da Santa Sé em relação à guerra em curso no seu país, uma guerra que eles sentem como a agressão de mais ninguém a não ser a da Rússia de Vladimir Putin.

O abraço entre o Papa e o patriarca Kirill de Moscovo, no aeroporto de Havana, em 12 de fevereiro de 2016, com o documento associado assinado por ambos, foi também um poderoso elemento de fricção entre Jorge Mario Bergoglio e a Igreja Católica Ucraniana, que se vê injustamente sacrificada no altar desta reconciliação entre Roma e Moscovo.

A morte, no passado dia 31 de maio, do cardeal Lubomyr Husar, o anterior arcebispo-maior da Igreja Greco-Católica Ucraniana, voltou a dirigir a atenção para esta personalidade de elevadíssimo perfil, capaz de reconstruir espiritualmente uma Igreja que emergiu de décadas de perseguição sem qualquer tipo de concessão perante os cálculos diplomáticos – em função de Moscovo e do seu patriarcado – que, ao invés, durante o pontificado de Francisco voltaram a prevalecer.

O sucessor de Husar, o jovem Sviatoslav Shevchuck, é bem conhecido de Bergoglio pela sua anterior atividade pastoral na Argentina. Mas ele também é uma dos críticos mais diretos às tendências do atual pontificado, tanto no campo político como no doutrinal e pastoral.

E “certamente não foi por acaso”, escreveu há três semanas o Papa Emérito Bento XVI aquando da morte do seu amigo o cardeal Joachim Meisner, o indomável arcebispo de Berlim durante o regime comunista, “que a última visita da sua vida foi a um confessor da fé”, o bispo da Lituânia cuja beatificação estava a ser celebrada, um dos inúmeros mártires do comunismo na Europa do Leste que hoje corre o risco de cair no esquecimento.

*

Neste contexto emerge naturalmente a questão: nesta região da Europa, qual é o estado de saúde do catolicismo que se sabe estar em sério declínio em outras partes do mundo e particularmente na vizinha Europa Ocidental?

Esta questão recebeu uma resposta exaustiva – ainda que em termos puramente sociológicos – numa pesquisa abrangente realizada pelo Pew Research Center em Washington, que é talvez o barómetro mais confiável do mundo no que diz respeito à presença de religião na cena pública:

> Crença Religiosa e Pertença Nacional na Europa Central e do Leste:

O estudo incidiu precisamente sobre os países da Europa Oriental, quase todos submetidos no passado a regimes comunistas ateístas. E o primeiro facto impressionante neles constatado é o renascimento, em quase todos os lugares, de um sentimento forte e generalizado de pertença religiosa, que para os ortodoxos – uma reconhecida maioria em toda a área – coexiste com uma rara participação nas liturgias dominicais, enquanto que para os católicos é acompanhada de uma participação semanal bastante significativa na Missa: enquanto, por exemplo, na Polónia, 45% dos batizados e, na Ucrânia, 43% marcam presença na liturgia dominical, na Rússia, apenas comparecem 6% dos fiéis da confissão ortodoxa.

A República Checa suportou o peso do ateísmo de Estado, que adicionado a uma hostilidade anti-católica antiga que remonta ao protestantismo “hussita” e a uma posterior recatolicização imposta pelos Habsburgos, fez com que, neste país, 72% da população declare não ser afiliada em qualquer tipo de fé religiosa. Mas também aqui, entre os católicos que representam um quinto da população, a frequência dominical é, mesmo assim, de 22%, mais ou menos tanto como na Itália e muito mais do que na Alemanha, na França ou na Espanha, sem mencionar a Bélgica e a Holanda.

E o mesmo vale para a Bósnia, onde há poucos católicos, apenas 8%, mas o seu comparecimento dominical atinge um robusto valor de 54%.

Vale a pena ler todo o estudo do Pew Research Center  pela riqueza da informação que fornece. Mas aqui basta destacar que os católicos da Europa do Leste se distinguem dos ortodoxos, não apenas pelos seus muito mais elevados índices de prática religiosa, mas também por uma visão geopolítica antagónica.

Enquanto a Rússia ortodoxa é vista como o bastião natural contra o Ocidente, recebendo a aprovação de grandes maiorias, entre os católicos existe uma muito maior frieza para com a Rússia, em especial na Ucrânia e na Polónia, que se inclinam muito mais para uma aliança com os Estados Unidos e o Ocidente.

Uma divergência adicional pode ser ainda encontrada no campo ortodoxo entre aqueles que, como na Rússia, reconhecem o patriarca de Moscovo como a mais alta autoridade hierárquica da ortodoxia e aqueles que optam mais pelo patriarca de Constantinopla do que pelo de Moscovo, como acontece na Ucrânia, com 46% dos ortodoxos pelo primeiro e apenas 17% pelo segundo.

Sobre o casamento, a família, a homossexualidade e temas afins, pelo menos metade dos católicos apoiam as posições tradicionais da Igreja. E uma grande maioria da população total – com a única exceção na República Checa – é contra o reconhecimento legal das uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Mas, agrupando os dados por faixas etárias, é fácil constatar que os jovens adotam cada vez mais a mentalidade permissiva que, na Europa Ocidental – incluindo na Igreja Católica – é já desenfreada.

Uma mentalidade que certamente não encontra qualquer resistência no pontificado de Francisco.

A edição original deste texto foi publicada no blogue Settimo Cielo a 3 de agosto de 2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 8/2017

“Sim” ou “Não”, para mim é tudo igual. Em Florença, a “Amoris Laetitia” funciona assim

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Por Sandro Magister

ROMA, 19 de janeiro, 2017 (Settimo Cielo – L’Espresso) – As dos bispos de Malta são as mais recentes das instruções que alguns bispos têm dado nas suas dioceses sobre a forma de interpretar e implementar a Amoris Letitia.

Instruções que muitas vezes se contradizem, de modo que numa diocese a comunhão para os divorciados recasados que vivem more uxorio é permitida, enquanto noutra diocese, talvez até mesmo numa vizinha, não é.

Mas há mais. Acontece mesmo que em algumas dioceses o “sim” e o “não” são oficialmente permitidos, os dois juntos.

É o caso, por exemplo, da Arquidiocese de Florença.

Aqui o arcebispo, o cardeal Giuseppe Betori, iniciou um “perurso de formação diocesano” para instruir sacerdotes e fiéis sobre a interpretação correta da Amoris Laetitia.

Na primeira etapa da formação, no dia 8 de outubro passado, para uma introdução geral ao documento do Papa Francisco, Betori trouxe o cardeal Ennio Antonelli, seu predecessor como arcebispo de Florença e então presidente, de 2008 a 2012, do Pontifício Conselho para a Família, uma autoridade na matéria.

Antonelli estabeleceu instruções em perfeita continuidade com o magistério dos papas anteriores e, portanto, descartou a comunhão para os divorciados e recasados que vivem more uxorio. E manteve esta firme proibição apesar de, alguns dias antes, na diocese de Roma, o cardeal vigário Agostino Vallini ter dado o sinal verde para a comunhão com a aprovação de Francisco:

Em Roma sim, em Florença não. Eis como a Amoris Leritia está a dividir a Igreja

Depois disto, uma vez por mês, Betori traz outros oradores para explicar, um após o outro, os vários capítulos da Amoris Laetitia.

Mas a quem deverá ser confiada, a 25 de março, a tarefa de estabelecer as diretrizes para a interpretação do oitavo capítulo, o mais controverso?

Ao monsenhor Basílio Petrà, presidente dos teólogos moralistas italianos, que é um dos mais fervorosos defensores da abertura da comunhão aos divorciados recasados.

Num extenso comentário sobre a exortação sinodal publicada em abril passado na revista “Il Regno“, Petrà até declarou “desnecessário” consultar um sacerdote e o foro interno sacramental, ou seja, a confissão, para “discernir” se uma pessoa divorciada que voltou a casar pode receber a comunhão.

Escreveu o seguinte:

“De facto, é possível que uma pessoa não tenha a consciência moral adequada e/ou não tenha a liberdade de agir de forma diferente e que, apesar de fazer algo considerado objetivamente grave, pode não estar cometendo um pecado grave no sentido moral e, portanto, não tem o dever confessar-se para receber a Eucaristia. A Amoris Laetitia, no nº 301, alude claramente a esta doutrina.”

É como dizer: toda a gente é livre de agir por si mesmo, seja ele “iluminado” ou inconsciente.

O dia 25 de março está apenas a dois meses de distância. E até lá, por enquanto, tanto para os clérigos como para os fiéis, o que deve continuar a ser aplicado é o “não” ditado e fundamentado pelo cardeal Antonelli.

Mas depois de 25 de março, o “sim” terá também valor oficial. Na mesma diocese. E depois fica-se surpreendido quando surgem os “dubia” sobre a claridade da Amoris Laetitia?

A edição original deste texto foi publicada no blogue Settimo Cielo a 19 de janeiro de 2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 1/2017