Palavras de um narcisista assassino depois de uma humilhação na Ucrânia: não é “bluff”!

Mas como é que alguém ainda pode achar que isto é “bluff”? Vladimir Putin é um falso cristão que já mostrou claramente que não tem moral nem escrúpulos, um covarde diabólico que manda atacar populações indefesas, incluindo crianças.

Putin arde no inferno, desde 2017, numa igreja católica da Ucrânia

Entre os belas pinturas que preenchem os tetos e as paredes da Igreja de São Josafá, em Chervonograd, região de Lviv, na Ucrânia, encontra-se uma impressionante representação mural do Juízo Final, na qual, uma figura semelhante a Vladimir Putin personifica o último dos flagelos dos cristãos ucranianos.

A personagem em causa, atormentada pelas penas do Inferno, surge em grande destaque, juntamente com outros líderes políticos e religiosos de várias épocas históricas, assim como os símbolos do nazismo e do comunismo soviético.

A admiração e até alguma idolatria que a figura sinistra de Vladimir Putin suscita entre em alguns setores conservadores menos informados da sociedade ocidental contrastam fortemente com o pavor e a repugnância que sentem os nossos irmãos católicos da Europa do Leste. Um sentimento bastante anterior à atual fase de agressão russa iniciada a 24 de fevereiro de 2022.

Dugin, Putin e os cenários de caos

Por Roberto de Mattei

Há seis meses, na madrugada de 24 de fevereiro de 2022, Vladimir Putin anunciou uma “operação militar especial” no leste da Ucrânia. Poucas horas depois, toda a Ucrânia, incluindo a capital, Kiev, foi atingida por ataques aéreos e de mísseis quando as forças terrestres russas cruzaram as fronteiras. A Europa se viu em guerra.

A guerra russo-ucraniana, promovendo um conflito que começou em 2014, não foi a blitzkrieg que Putin havia imaginado. O presidente da Federação Soviética subestimou a determinação de luta dos ucranianos, a começar pelo presidente Zelensky, que se mostrou um líder resoluto e sobretudo capaz de usar os media num conflito “híbrido” travado a diferentes níveis: militar, económico e propagandístico. Parte dessa “guerra híbrida” foi o ataque de 21 de agosto que reivindicou como vítima Darya Dugina, filha do filósofo e cientista político russo Aleksandr Dugin. Uma bomba foi colocada sob o banco do motorista e o carro explodiu nos arredores de Moscovo. Não se sabe ao certo se o alvo dos agressores era a jovem ou o seu pai, que no último momento decidiu viajar em outro veículo.

Um grupo de partidários anti-regime na Rússia reivindicou a responsabilidade pelo ataque, mas os serviços secretos russos identificaram como o suposto autor do assassinato a cidadã ucraniana Natalia Vokv, que mais tarde fugiria para a Estónia. O governo de Kiev, por sua vez, negou qualquer responsabilidade no assunto. Nos meandros obscuros de uma luta envolvendo sabotadores russos e ocidentais, agentes provocadores e espiões, os verdadeiros culpados podem nunca ser identificados com absoluta certeza, mas o certo é que o alvo do ato terrorista foi simbólico, visto que Dugin é o Intelectual russo que demonstrou o maior apoio a Putin, pedindo uma “guerra santa” da Rússia contra o Ocidente.

Aleksander Dugin não é o único ideólogo de Putin, mas é certamente a figura a quem o presidente da Federação Russa confiou a missão de se infiltrar na direita conservadora europeia e atrair para o Russkiy Mir , o “universo russo”, todos aqueles que veem a Rússia como uma “resistência moral” contra a depravação do Ocidente. De qualquer forma, a sua influência na Rússia é profunda e nenhum outro intelectual russo vivo é tão conhecido quanto ele. De acordo com o eslavista Bengt Jangfeldt, o livro de Dugin, Osnovy geopolitiki (Fundamentos da geopolítica) teve um impacto maior no desenvolvimento ideológico na Rússia do que qualquer outra publicação política posterior à queda da União Soviética (L’idea russa. Da Dostoevskij a Putin, Neri Pozza, Vicenza 2022, p. 140), enquanto Elena Kostioukovitch, no seu ensaio Nella mente di Vladimir Putin (e-book, La Nave di Teseo, 2022), afirma que as obras de Dugin são lidas por todos os colegas de Putin, além de estarem nos currículos de muitas universidades.

Aleksandr Gelyevich Dugin nasceu em Moscovo em 1962, filho de um oficial de inteligência soviético. Após a queda da URSS, trabalhou com Gennady Zyuganov no programa político do Partido Comunista da Federação Russa e, em 1993, fundou, com Eduard Limonov (1943-2020), o Partido Nacional Bolchevique. O objetivo do nacional-bolchevismo era a criação de um grande império antiamericano, de Gibraltar a Vladivostok, segundo a utopia do nacionalista revolucionário belga Jean-François Thiriart (1922-1992).

Na sua evolução intelectual, o cientista político russo sofreu outras influências, desde a de Lev Nikolayevich Gumilyov (1912-1992), de quem tirou a ideia de “Eurásia”, até a de Alain de Benoist, fundador da neopagã Nouvelle Droite. O seu principal ponto de referência, no entanto, continua a ser o filósofo-esotérico Julius Evola (1899-19744), cujas obras revisitou numa veia eurasiana. Isso explica o sucesso que Dugin teve em certos círculos do neotradicionalismo italiano. O neopaganismo de Evola e de Benoist ofereceu uma contribuição decisiva ao pensamento de Dugin, que considera a Igreja Católica um arqui-inimigo. Dugin, por outro lado, tem em alta consideração o Patriarcado Ortodoxo de Moscovo e o seu chamado para apoiar a missão imperial da Rússia contra o Ocidente e contra a reivindicação universalista da Igreja Católica.

Luca Gori, um diplomata italiano bem versado na cultura russa, definiu o pensamento de Dugin como a ideologia da “ortodoxia atómica”, ou seja, uma doutrina baseada na capacidade de unir o “vermelho” (o escudo atómico forjado na era soviética) e o “branco” (o escudo da Igreja Ortodoxa), a fim de garantir a soberania do país (La Russia eternal. Origini e costruzione dell’ideologia post sovietica, Luiss University Press, Roma 2021, p. 112). Segundo Gori, esse conceito messiânico do “duplo escudo” ortodoxo-atómico também permeia a narrativa de Putin.

A geopolítica do caos que ouvimos de muitos analistas é o que Dugin considera como um fogo regenerador que verá o fim do Ocidente e o renascimento da Grande Rússia e a sua missão no mundo. A Rússia deve semear o caos geopolítico no Ocidente, incentivando conflitos étnicos e sociais e usando armas como gás e petróleo. Incursões militares, atos de sabotagem e ataques fazem parte desse trabalho de desestabilização. Para Dugin, como para Evola, é apenas na anarquia que “a escuridão gradualmente se torna clara e do abismo da necessidade surge a terrível flor do indivíduo absoluto” (J. Evola, Teoria dell’individuo assoluto , Bocca, Turin 1927, pág. 304).

O autor que mergulhou mais profundamente no pensamento de Dugin é o Pe. Paolo Siano, num estudo conciso que resume a sua ideologia na fórmula efetiva da “metafísica do caos”. De facto, Dugin teoriza a necessária e irreversível descida ao abismo do mal e a reavaliação do Caos como o princípio primordial e eterno do universo. Esses princípios básicos fundamentam a visão geopolítica do ideólogo russo (Pe. Paolo Siano, La metafisica del caos di Aleksandr Dugin, Edizioni Fiducia, Roma 2022).

No seu manifesto A Grande Guerra dos Continentes (1991), Dugin contrasta a Roma Eterna (significando a Rússia Ortodoxa) com a Cartago Eterna (os Estados Unidos e o Ocidente). Tomando emprestada do filósofo alemão Karl Schmitt (1888-1985) a ideia de Katéchon, a força que resiste ao Anticristo, Dugin afirma que a Rússia de Putin, herdeira de Stalin e Genghis Khan, tem a missão de “ ser a Katéchon”, “aquela que resiste”, bloqueando a chegada do Mal final ao mundo ” (https://nemicidelsistema.blogspot.com/2021/03/alexander-dugin-il-grande-risveglio.html).

No plano eurasiano de Dugin, os países ortodoxos do norte dos Balcãs, em particular a historicamente pró-russa Sérvia e a Bulgária, constituem o sul da Rússia, que se destina a se estender às repúblicas caucasianas e de língua turca até a Mongólia. A Europa terá que passar do controlo estratégico americano para o do Kremlin, que também contará com o apoio do Irão e da China.

Tudo isso não é ficção política. De facto, Moscovo procura aumentar a sua influência nos Balcãs por meio dos seus aliados Sérvia e Republika Srpska, uma das duas entidades em que a Bósnia foi dividida pelos Acordos de Dayton. A Sérvia, que não perdoou a OTAN pelos bombardeios sofridos na guerra de Kosovo, recusou-se a participar das sanções ocidentais contra a Rússia, e o seu presidente, Aleksandar Vučić, ameaçou com uma intervenção militar para defender a minoria sérvia em Kosovo. A Bósnia, por sua vez, está exposta ao risco de uma secessão dos sérvios do seu território. Na guerra híbrida em curso, os Balcãs representam um possível novo teatro de guerra, sobre o qual a qualquer momento a cortina pode ser levantada dramaticamente. A força explosiva do ataque de 21 de agosto situa-se neste cenário.

Fonte: Lepanto Foundation in patreon.com em 25 de agosto de 2022 (tradução nossa).