Navalni, a ameaça do regime de Putin

Acabando por sobreviver a uma tentativa de envenenamento no ano passado (um método frequentemente utilizado pelos Serviços Secretos da Rússia para demover os opositores do regime), Alexei Navalny regressou ao ativismo político contra o regime putinista, através da publicação de um documentário intitulado “O Palácio de Putin“, produzido a partir de vários meses de investigação. De forma não surpreendente, Navalny foi preso no seu primeiro regresso à Rússia após a tentativa falhada de envenenamento.

Basto 02/2021

Igreja Ortodoxa Russa constrói megacatedral onde glorifica as vitórias do exército comunista soviético e a conquista da Crimeia à Ucrânia

O novo templo dedicado às forças armadas russas localiza-se nos  arredores de Moscovo e a sua inauguração estava programada para este mês de maio, para assinalar os 75 anos da vitória do Exército Vermelho na II Guerra Mundial. A sua decoração, aparentemente, mistura elementos cristãos da arte bizantina com um misto de nacionalismo russo, comunismo soviético e putinismo… Entre as várias gravuras murais, encontram-se dois mosaicos que glorificam, respetivamente, as figuras-chave do regime putinista envolvidas na ocupação ilegal da península ucraniana da Crimeia e o assassino em massa Josef Stalin, ao mesmo tempo que associam a Mãe de Deus às referidas barbaridades.

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O ícone da esquerda exibe faixas com os slogans “A CRIMEIA É NOSSA” e “PARA SEMPRE COM A RÚSSIA”, o da direita ostenta um cartaz do ditador comunista soviético e perseguidor dos cristãos russos, Josef Stalin.

Os símbolos do exército soviético, ainda hoje usados pelas forças armadas russas, decoram os vitrais e misturam-se com os símbolos cristãos.

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Símbolos do regime comunista soviético nos vitrais no teto da nova catedral da Igreja Ortodoxa Russa.

O elemento que gerou, porém, mais interesse mediático foi a intenção de se incluir, num desses murais de culto, a própria figura de Vladimir Putin, uma ideia que talvez já não chegue a concretizar-se

Como diz o admirado líder “cristão” Vladimir Putin, durante aqueles tempos de ditadura soviética, “uma nova religião era criada”, vendo no comunismo uma coisa mais ou menos semelhante ao cristianismo.

Basto 05/2020

Vladimir Putin apresenta novo míssil nuclear “invencível”

A pouco mais de duas semanas das eleições presidenciais na Rússia, Vladimir Putin apresentou, perante o Parlamento Russo, um conjunto de novas armas estratégicas, com destaque para um novo míssil nuclear alegadamente “invencível”.

Basto 3/2018

Vladimir Putin, o grande defensor do cristianismo… e do comunismo!

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À esquerda, soldados russos veneram ícone de Vladimir Putin. À direita, o ícone de Josef Stalin é utilizado por um sacerdote da Igreja Ortodoxa Russa para benzer bombardeiros estratégicos. Fonte: Euromaiden Press, 16/08/2016.

Entrevistado para um documentário sobre o mosteiro de Valaam, produzido e apresentado por Andrey Kondrashov e transmitido no passado mês de janeiro pelo canal Rossiya 1, o presidente russo Vladimir Putin fala das semelhanças entre o comunismo e o cristianismo.

Basto 2/2018

Vladimir Putin compara o culto da múmia do ditador comunista Lenin à veneração das relíquias dos santos cristãos

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Vladimir Putin recebe a comunhão das mãos de um sacerdote da Igreja Ortodoxa Russa no Mosteiro de Valaam; in Youtube, 11/07/2016

Vladimir Putin, falando para um documentário sobre o Mosteiro de Valaam, produzido para o canal de televisão Rossiya 1, voltou a comparar a ideologia comunista à doutrina cristã, apontando semelhanças entre as duas forças antagónicas não só ao nível das crenças, mas também nas formas de culto. Segundo Vladimir Putin, os comunistas não inventaram a sua própria ideologia, mas adaptaram a ortodoxia cristã às suas necessidades.

“[O corpo de] Lenin foi colocado dentro do Mausoléu. Como é isso diferente de qualquer relíquia dos santos para os cristãos ortodoxos ou cristãos em geral? Têm-me dito: «Não, não existe tal tradição no mundo cristão». Como não? E então [o Monte] Atos? Vão lá e vejam. Há lá relíquias de santos. E aqui também, há as relíquias sagradas de [São] Sérgio e [São] Herman. Por outras palavras, as autoridades de então não sonharam nada de novo. Elas apenas adaptaram aquilo que a humanidade inventou há muito tempo à sua própria ideologia.”

(Vladimir Putin in Interfax, 15/01/2018 – tradução livre)

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Cadáver mumificado do revolucionário e ditador sanguinário Vladimir Lenin em exposição no mausoléu da Praça Vermelha, em Moscovo.

Tal como em 2015, Putin voltou a defender que o “Código Moral do Construtor do Comunismo“, o “catecismo” da propaganda comunista soviética da década de 1960, é semelhante à Sagrada Escritura.

“Havia aqueles anos de ateísmo militante em que os sacerdotes foram erradicados, as igrejas destruídas, mas, ao mesmo tempo, uma nova religião estava a ser criada. A ideologia comunista é muito semelhante ao cristianismo, na verdade: liberdade, igualdade, fraternidade, justiça – tudo está presente na Sagrada Escritura, está tudo ali. E o Código [Moral] do Construtor do Comunismo? Isso é elevação, é apenas um excerto ancestral da Bíblia, nada de novo foi inventado”.

(Vladimir Putin in Interfax, 15/01/2018 – tradução livre)

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Postais alusivos aos 12 “mandamentos” do Código Moral do Construtor do Comunismo difundidos pela propaganda do regime soviético.

Depois destes sinais que continuam a vir da Rússia, e tendo em conta a centralidade desta nação nas profecias de Fátima, voltamos a perguntar: mas, afinal, a Rússia converteu-se a quê?

Basto 1/2018

Vaticano prepara visita do Papa Francisco à Rússia

A poucos dias da visita do cardeal Pietro Parolin a Moscovo, o Secretário de Estado do Vaticano admite o seu empenho na preparação de uma possível visita do Papa Francisco à Rússia. O número dois da hierarquia do Vaticano estará na Rússia de 20 a 24 de agosto, tendo agendado encontros com o presidente Vladimir Putin e com o patriarca Kirill, líder da Igreja Ortodoxa Russa.

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in The Local, 09/08/2017

Numa recente entrevista ao jornal italiano Corriere Della Sera, Pietro Parolin foi questionado se será possível uma visita de Francisco à Rússia e se esta sua viagem se relaciona de algum modo com a sua preparação.

O cardeal respondeu nestes termos:

Os propósitos da minha visita estão além da preparação de uma eventual viagem do Santo Padre Francisco à Rússia. Espero, no entanto, que ela, com a ajuda de Deus, possa oferecer alguma contribuição também nessa direção.

(Cardeal Pietro Parolin, in Corriere Della Sera, 08/08/2017 – tradução)

Do lado russo, nunca antes houve tanta abertura e benevolência para com a Igreja Católica e o Sumo Pontífice. Ainda há poucos dias, o patriarca de Moscovo voltou a confirmar a recente aproximação entre as duas igrejas.

Devo dizer que, desde aquela a reunião [cimeira cubana, de 12 de fevereiro de 2016], as nossas relações bilaterais tornaram-se mais intensas.

Não estamos inclinados a minimizar as diferenças existentes, mas também entendemos que os cristãos, especialmente na América Latina, têm o potencial para uma cooperação que seja capaz de galvanizar as forças cristãs para enfrentar as muitas questões que preocupam a humanidade hoje.

(Patriarca Kirill, in Interfax, 08/06/2017 – tradução)

Será isto uma evidência do “triunfo” do Imaculado Coração de Maria? Porque é que Vladimir Putin e o patriarca Kirill não vêm até Fátima, durante este centenário, para celebrar a conversão da Rússia por intermédio do Imaculado Coração do Maria.

Na verdade, apesar de as relações entre a Federação Russa e o Vaticano estarem normalizadas desde há vários anos, o relacionamento entre as duas Igrejas continuou muito difícil até à eleição de Francisco I. Havia várias razões para isso, das quais já aqui tínhamos destacado três principais.

Este é um assunto que suscita o maior interesse, sobretudo neste ano em que se celebra o centenário das aparições da Cova da Iria, dada a centralidade da palavra “Rússia” na mensagem de Fátima. A Santíssima Virgem prometera, precisamente há 100 anos, a conversão da Rússia através do Seu Imaculado Coração, que a levará “por fim” a aceitar a Fé Católica. Não obstante todo o otimismo reinante no catolicismo ocidental no que concerne aos resultados obtidos na “conversão da Rússia”, por vezes parece mais que foi a Igreja Católica quem se converteu naquilo que a Rússia sempre quis.

Mas já que estamos numa onda de otimismo, caso o Santo Padre realize mesmo essa viagem, pode ser que alguma “surpresa do Espírito Santo” faça com que ele leve consigo a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima e lhe consagre a Rússia a partir de Moscovo. Um ato solene que certamente atrairia todas as graças necessárias para a plena conversão da Rússia à Fé Católica. Mas será alguém põe as mãos no fogo por essa possibilidade? Não, não, não…

Basto 8/2017

Ucrânia não desiste da sua pretensão de aderir à NATO

A Ucrânia, a mais importante das ex-repúblicas soviéticas, não desistiu do seu firme propósito de aderir à Aliança Atlântica, apesar de todas as ameaças de Vladimir Putin.

Simultaneamente, a Estónia, uma ex-república soviética que já é membro da NATO, depois de assumir, no passado mês de junho, a presidência rotativa da União Europeia, defendeu o reforço militar dos estados-membro perante a ameaça russa e uma maior aproximação da UE aos países que se encontram sob a esfera de influência da Rússia.

Basto 7/2017

Líder da oposição é preso na Rússia

A polícia russa prendeu o ativista Alexei Navalny, líder da oposição ao regime de Vladimir Putin, juntamente com centenas de outros contestatários, em resultado das grandes manifestações populares que acusam os dirigentes russos de corrupção, em particular o atual primeiro-ministro Dmitri Medvedev.

A contestação nas ruas regressa à Rússia 100 depois das grandes manifestações que desencadearam a revolução comunista naquele país.

Basto 3/2017

Mais cinco perturbadores regressos ao passado soviético na Rússia de Putin

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A placa sobre a vedação russa diz: “A Sociedade Livre” (Political Cartoon: social media)

Por Paul Globe

Mesmo que Vladimir Putin afirme que a Rússia está destinada a ter um grande futuro, o líder do Kremlin tem feito pouco para acabar com o empobrecimento e a repressão dos russos de hoje e cada vez mais para restaurar muitas das piores características do negro passado soviético. Esta semana trouxe mais cinco exemplos dessa tendência retrógrada.

1. “Novilíngua” orwelliana na prática jurídica russa

A novilíngua orwelliana está a voltar à prática jurídica russa, a níveis alarmantes. Questionado pelo portal de notícias regionais 7 × 7 sobre a crescente utilização de termos pelos magistrados como “pseudo-religiosos”, “organizações destrutivas” e “grupos antissociais”, o diretor do Centro SOVA, Aleksandr Verkhovsky, afirmou que isso é extremamente perigoso.

“Não nenhuma definição legal” de tais termos e, consequentemente, eles representam uma tentativa de expansão por analogia uma tática privilegiada da prática soviética com termos que existem tais como “organizações extremistas.” E isso significa – afirma o ativista dos direitos – que “o magistrado pode escolher” como alvo “qualquer um que não encaixa no seu gosto.”

“Isso é a novilíngua“, diz Verkhovsky, usando o termo introduzido por George Orwell no seu romance “1984” sobre sistemas totalitários. E embora, ao nível das discussões informais, esses termos possam ter utilidade para apontar as áreas problemáticas, a sua utilização como categoria jurídica é “má e muitas vezes perigosa.”

2. As filas regressaram

Filas, a desgraça da existência dos russos na era soviética, estão de regresso à Rússia de Putin, mesmo que ninguém deva falar sobre isso. O bloguista russo Nikolay Yurenev afirma que “toda a gente diz que sob Putin não existem filas nas lojas”, mas todos sabem que não é verdade.

Não regressaram as filas como também aquilo que poderia ser chamado a cultura política das filas, com pessoas horas à espera, lamentando sua existência, mas que depois vão para casa e, ao assistirem à televisão de Moscovo, concluem que as coisas, mesmo se estão tão más, elas estão muito piores no odiado Ocidente, em relação ao qual lhes é dito para culparem pelos seus problemas.

Yurenev o seguinte exemplo: “Numa determinada cidade X com perto de um milhão de habitantes, uma fila numa loja de carne todas as segundas, quartas e sextas-feiras, quando a carne sai a menos de metade do preço habitual, e a fila diz eleestende-se em torno do quarteirão, desde o momento da abertura da loja até ao seu encerramento.

Mesmo antes da abertura da loja, a fila começa a formar-se com “patriotas desempregados e pensionistas que compõem uma boa metade da população dessa cidade X”, sendo o seu elemento predominante. E a fila inteira, apesar da espera e do frio, “apoia fraternalmente a sábia política do destacado líder político e governamental, o flamejante batalhador pela paz no mundo inteiro, Vladimir Vladimirovich Putin”.

Aqueles que estão na fila “expressam confiança ilimitada e profunda gratidão pela sua incessante preocupação com o bem-estar das pessoas e o florescimento da Grande Pátria” – prossegue Yurenev. Aqueles que conseguem chegar à dianteira da fila, de seguida, regressam a casa para prepararem o jantar e assistirem à televisão de Moscovo.

É então que sua participação na “grande política” se torna clara – continua o bloguista russo. Eles aprendem como a Ucrânia e o Ocidente são os culpados pelas suas baixas pensões e “como, nos EUA, os inimigos de Trump tentam desencaminhar a sua política amigável para com a Rússia e Putin”.

“Como é horrível viver nesse mundo estrangeiro louco, louco e louco”, dizem eles “nos seus corações”, e “como são belas as coisas na nossa Pátria”. Naquele mundo, as filas para carne barata não são problema algum: elas são apenas um indicador de como os bons russos as aceitam sob a sábia liderança de Putin.

3. Apoio fictício da população às ações governamentais

As autoridades russas justificam aquilo que querem fazer dizendo que a população exige tais ações, quer isso seja ou não verdade. A TASS, agência de notícias russa, é novamente chamada, como se fosse na era soviética, e relata que o ministério da cultura congratula-se com os apelos dos ativistas russos para criar um Dia do Patriotismo.

Na URSS, os altos funcionários declaravam frequentemente que tomavam esta ou aquela atitude porque “os trabalhadores e os camponeses” a exigiam. Agora, Moscovo usa a mesma tática, dizendo que a população deseja esse feriado, o qual estará cronometrado para coincidir com a imposição de sanções ou talvez contra-sanções, mesmo que estas impeçam os alimentos de chegar até eles.

4. Documentos públicos com assinaturas falsificadas

As autoridades russas têm afirmado que determinados documentos foram assinados por pessoas que nunca os assinaram ou sequer os viram, desde que seja o documento que o regime deseja. No início desta semana, os partidários da entrega da Catedral de Santo Isaac à Igreja Ortodoxa Russa entregaram o que eles classificaram como um apelo de 26 reitores de instituições de ensino superior que apoiam essa ação.

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Catedral de Santo Isaac em São Petersburgo, Rússia, 2017 (Imagem: Wikimedia)

Mas agora constatou-se que essa informação é uma “notícia falsa”, ou talvez  “um facto alternativo”, porque dois dos reitores cujas assinaturas constam do documento afirmam que não o assinaram e um deles disse que nem sequer tinha ouvido falar disso.

Na era soviética, os funcionários do partido comunista colocavam frequentemente os nomes das pessoas sem pedirem a respetiva permissão ou acordo, a fim de apoiar a linha oficial. A grande diferença, agora, é que alguns daqueles que são vítimas dessa prática queixam-se, ainda que isso possa ser demonstração de vontade de progressão nas suas carreiras.

5. O assassínio de importantes testemunhas dos crimes de guerra de Putin na Ucrânia

Quanto ao quinto e mais sinistro, Putin está a livrar-se das testemunhas dos seus próprios crimes na Ucrânia. Zoryan Shkiryak, conselheiro do ministro ucraniano do interior, afirma que o assassinato do líder miliciano pró-Moscovo, com o nome de guerra Givi, é apenas o último exemplo de algo que Kiev vem alertando desde há dois anos.

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A explosão que matou Givi destruiu completamente o quarto onde ele se encontrava (Imagem: captura de vídeo)

Ele acusa “Putin” de “estar constantemente a destruir testemunhas importantes dos seus próprios crimes militares” na Ucrânia, um programa que lançou após o derrube do avião de passageiros MH-17 da Malásia, mas que afetou os que participam nas suas ações “terroristas” em Mariupol, Volnovakha e também Debaltseve. No caso da “liquidação de Givi” – continua Shkiryak – é claro que Moscovo controla todos os participantes nesta ação e, com efeito, ninguém teria agido sem a bênção ou, mais provavelmente, sem a ordem direta das autoridades da capital russa. Essas coisas não são estranhas nem inovadoras – afirma. Elas “fazem parte das melhores tradições dos serviços especiais russos” e são efetivamente “todos os elos de uma única cadeia”.

A edição original deste artigo foi publicada pela Euromaiden Press no dia 10/02/2017. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do testo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 3/2017

Regresso rápido da Rússia ao passado soviético – datas-chave sob Vladimir Putin

Военный парад на Красной площади 7 ноября 1990 года
Parada militar na Praça Vermelha, em Moscovo, na celebração do aniversário da Revolução Comunista de Outubro, 07/11/1990 (Imagem: TASS)

Por Paul Globe

A recuperação de muitos aspetos da vida soviética levada a cabo por Vladimir Putin não é apenas óbvia mas cada vez mais rápida, como é claramente demonstrado no jornal “Perfil”, quando publicou uma tabela cronológica com algumas, mas longe de serem todas, das suas mais importantes decisões que restauraram símbolos soviéticos.

  • 25 de julho de 2000 – Restauração do hino soviético como hino nacional.
  • 4 de julho de 2003 – As estrelas vermelhas regressam aos estandartes das Forças Armadas Russas.
  • 19 de junho de 2007 – As bandeiras vermelhas de com a foice e o martelo são restabelecidas para presenças nas paradas históricas.
  • 9 de maio de 2008 – Paradas militares com tanques e artilharia pesada regressam à Praça Vermelha.
  • 25 de janeiro de 2012 – As estrelas vermelhas são novamente colocadas nos aviões militares.
  • 31 de janeiro de 2013 – A cidade de Volgogrado passa a chamar-se novamente “Stalinegrado” durante os feriados.
  • 29 de janeiro de 2013 – A condecoração “Herói do Trabalho” é restabelecida.
  • 24 de março de 2014 – A Organização Pronto para o Trabalho e para a Defesa (“GTO”) é restaurada.
  • 14 de maio de 2014 – O Centro Panrusso de Exposições recupera o seu antigo nome da era soviética (VDNKh)
  • 4 de junho de 2014 – São reintroduzidos os uniformes escolares.
  • 29 de outubro de 2015 – É criado o Movimento de Estudantes Russos como uma versão atualizada do Movimento dos Pioneiros de Vladimir Lenin.

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Marcha de um ramo local do Movimento dos Pioneiros de Vladimir Lenin numa das escolas de Moscovo (Imagem: TASS)

A edição original deste texto foi publicada pela Euromaiden Press no dia 14/11/2015. Tradução: odogmadafe.wordpress.com

Nota da edição: o conteúdo do artigo acima é da inteira responsabilidade do seu autor, salvo algum eventual erro de tradução. Sempre que possível, deve ser lido na sua edição original.

Basto 9/2016

Putin vs. Obama: quem é o bom?

O jornal católico tradicionalista norte-americano The Remnant lançou, este fim de semana, um vídeo onde enaltece a liderança pro-cristã de Vladimir Putin em contraste com laicismo da governação de Barak Obama. O vídeo intercala imagens do “religioso” Putin com repetições de uma curta gravação de Obama:

Não somos mais uma nação cristã…

(Barack Hussein Obama)

No final, o vídeo conclui com as seguintes frases:

Faz-nos pensar…

Quem são os maus?

(The Remnant TV)

Enfim, quando se vê um órgão de comunicação social com a qualidade editorial e a responsabilidade social que tem o The Remnant a enaltecer um antigo agente do KGB como modelo de liderança política, é inevitável que surja uma certa azia nos estômagos daqueles que ainda se lembram da perseguição que os católicos sofreram durante os anos negros da URSS.

Vladimir Putin, apesar de elogiar frequentemente a cultura cristã, não condena o comunismo, antes pelo contrário, e considera que o colapso da URSS foi uma enorme catástrofe. No entanto, é mesmo verdade que Obama, tal como a maioria dos líderes ocidentais, governa de forma hostil ao cristianismo.

O momento atual é bastante confuso e o futuro imediato é muito incerto.

 

Basto 8/2016

A lenda de São Putin…

…ou do todo-poderoso que pediu a consagração da Rússia a Imaculado Coração de Maria!

Este mito urbano, que correu a web, teve origem num pequeno vídeo amador do Pe. Paul Kramer, divulgado nas redes sociais.

Este padre, que esteve durante muitos anos ligado ao Fatima Center, é um dos grandes investigadores da integral mensagem de Fátima, pelo que foi autor de alguns livros importantes sobre o tema e orador em várias conferências. Em 2013, surpreendeu toda a gente ao rejeitar publicamente o papado de Francisco através da sua página do facebook. Desde então, deixou de ter atividade no apostolado fundado pelo Pe. Gruner, pelo menos de forma visível.

Neste vídeo, o Pe. Kramer afirma ter tido conhecimento, através de canais de informação privados, no Vaticano, que Vladimir Putin pedira, ao Papa Francisco, a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria e, face a este pedido, o Santo Padre ter-lhe-á negado categoricamente nestes termos: “nós não discutiremos Fátima”. Este vídeo alega ainda que um dos cardeais mais próximos de Francisco prometera, junto à estátua da Senhora do Rosário, que iriam “destruir Fátima”. No resto do vídeo, o padre rasga-se em elogios à liderança de Putin…

É evidente que esta informação não passa de uma ‘história da carochinha’, incapaz de convencer sequer a audiência do Canal Panda. Não pela parte que toca a Francisco, de quem, infelizmente, já nos habituamos a ficar surpreendidos apenas quando pára momentaneamente de nos surpreender, mas antes, e principalmente, pela parte que se refere ao presidente russo.

É mais do que provável que o Presidente da Rússia tenha falado sobre Fátima com o Bispo de Roma. Um assunto que já deve ter estado em cima da mesa antes, durante outros encontros diplomáticos entre chefes de estado da Rússia e do Vaticano anteriores. O resto é fantasia…

Este conto não tem a mínima credibilidade. Se essa fosse mesmo a vontade de Vladimir Putin, Bento XVI ter-lhe-ia feito a vontade de imediato. E não foi por falta de oportunidade que não lhe pedira.

A devoção ao Imaculado Coração de Maria é intrinsecamente católica, constituindo um fator de diferenciação identitária e confessional face ao mundo ortodoxo. Um líder altivo como Putin, tão próximo da Igreja Ortodoxa, num país em que o nacionalismo russo se confunde tantas vezes com o proselitismo religioso, jamais aceitaria tal possibilidade e muito menos suplicaria por ela. Na prática, tal hipótese absurda significaria um requerimento ao Santo Padre, pedindo que aceite a subordinação da Rússia ao Bispo de Roma, ou seja, que aceite a conversão da Rússia ao catolicismo.

Um conto de fadas! E é uma pena que não passe disso mesmo porque seria ótimo ter o, cada vez mais poderoso, Vladimir Putin do nosso lado.

A Rússia nunca precisou de um Papa para poder realizar a sua consagração ao Imaculado Coração de Maria. Pode fazê-lo quando quiser, do mesmo modo que outras nações o fizeram sem a necessidade de qualquer favor papal. Portugal já o fez mais do que uma vez.

A lenda de São Putin tem outras variantes, umas mais infantis do que outras. Há quem diga que o pobre homem sofria de uma doença incurável e então obteve uma graça de Nª Sª de Fátima, a quem deseja agora agradecer. No entanto, como ninguém o viu internado ou convalescente, se calhar a doença era caspa! Mas o mais grave disto tudo é que a(s) lenda(s) de São Putin, em alguns meios tradicionalistas, está a alimentar o mito do “Grande Monarca” que virá salvar o Ocidente dos seus líderes infiéis… Aonde isto chegou!

O Ocidente secularizado pode estar muito mal – e está mesmo – mas mal de nós se estamos à espera que venha o São Putin, a cavalo, para salvar a nossa Fé. Mas se vier, que traga boas sardinhas como o São João. Na conjuntura atual, é como esperar que venha o Dr. Jivago trazer o remédio para a nossa própria caspa! Mais vale esperar pelos extra-terrestres, mas sentados.

Nota Final: Com este texto, não se pretende, de modo algum, diminuir o excelente contributo do Pe. Kramer para o entendimento global e integral da mensagem de Fátima. Pelo contrário, vários dos seus trabalhos escritos e apresentações gravadas em congressos ao longo das últimas décadas são imprescindíveis. Todos nós andamos algo confusos desde há três anos e tal para cá, uns mais do que outros.

Basto 06/2016

Conversão da Rússia, a quê?

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Logotipo oficial das comemorações

A hermenêutica dominante – ou talvez imposta – na Igreja Católica acerca da mensagem de Fátima é a de que estamos perante um facto consumado que vale a pena recordar e celebrar.

Quase um século depois de Nossa Senhora ter profetizado a conversão da Rússia, na Cova da Iria, em Fátima, e dado o clima de festa que agora se vive em torno do centenário das aparições, talvez seja o momento para analisar o alcance dessa conversão.

A Rússia converteu-se a quê?

Já aqui se falou antes sobre este assunto, em particular sobre algumas consequências dessa anunciada conversão, ou da falta dela. Em síntese, o que nós podemos atualmente constatar é que as duas Igrejas, Católica e Ortodoxa Russa, continuam separadas, quer no campo institucional, quer no doutrinal. O paradoxo é tanto maior quanto mais reparamos que se alguma Igreja se converteu em algo radicalmente diferente daquilo que era em 1960 – data indicada por Nª Sª para a abertura do envelope do 3º Segredo de Fátima -, essa Igreja não foi a Ortodoxa Russa. Se a nação russa mudou alguma coisa ao nível religioso, as nações ocidentais, tradicionalmente católicas, parecem ter mudado muito mais…

Deixemos, por agora, a questão religiosa e centremo-nos na sucessão de paradigmas políticos e ideológicos nessa nação à qual se exigia a conversão.

Fátima, mesmo na hermenêutica oficial, visava derrotar o  comunismo, em especial na Rússia, tida como principal origem dessa onda revolucionária contrária à Fé. O comunismo, bem como outras ideologias que lhe eram associadas (socialismo, marxismo, ateísmo, materialismo, coletivismo, etc.), opunha-se à religião e à ordem social estabelecida, visando destruí-las, substituí-las.

Se fizermos uma análise social puramente dialética, os padrões da sociedade russa do início do séc. XX, intrinsecamente religiosa, seriam a tese que a revolução comunista, a antítese, visava destruir.

O comunismo na União Soviética foi, durante décadas, um regime hostil à religião, tentando aniquilá-la definitivamente. Proibiu o culto, fechou e destruiu igrejas, perseguiu os religiosos e promoveu o materialismo ateu. Durante as primeiras décadas da era Soviética, a culto religioso foi completamente interditado. No entanto, mais tarde, acabaria por ser legalizado, mas sempre fortemente condicionado e controlado pelo regime.

Toda a gente reconhece que, após o colapso da União Soviética, a religiosidade aumentou exponencialmente na Rússia. Abrem-se novas igrejas, reconstroem-se as que tinham sido devastadas pelo regime comunista e a religião vive novos dias naquele território. Mais do que isso, ao contrário das modernas democracias laicas ocidentais, na Rússia existe hoje uma ligação estreita entre o poder político e o clero. Chegou-se ao absurdo, impensável em 1960, de ser o líder político da Rússia quem dá lições de moral e religião aos líderes políticos ateístas dos países ocidentais…

Muitos cristãos tradicionais, no mundo ocidental, chegam mesmo a considerar Vladimir Putin como o último governante cristão, alimentando a crença num mítico “grande monarca” esperado para os últimos tempos bíblicos!

O que se sucedeu então? A Rússia abandonou o comunismo ateu e converteu-se ao cristianismo, enquanto que o Ocidente se converteu ao materialismo ateu? Talvez, mas algumas coisas continuam a não bater certo no meio disto tudo. Não seria de esperar, hoje, que uma Rússia convertida condenasse veemente o regime comunista sanguinário do passado soviético?

A Igreja Ortodoxa Russa elogia frequentemente o passado comunista

Por exemplo, a 22 de janeiro de 2015, época natalícia no calendário ortodoxo, o Patriarca Kirill, perante a Duma do Estado, afirmou o seguinte:

Quando se começa a falar dos tempos soviéticos, alguns idealizam-os, outros demonizam-os. Contudo, nessa época, havia algo que gerou esses tempos, e será que podemos aceitar isso claramente, incorporando-o na nossa filosofia de vida? Isso era: solidariedade.

E aqueles membros Komsomol (jovens comunistas) que uniram plantações, construíram a BAM (principal linha ferroviária Baikal – Amur) sem receberem qualquer recompensa ou privilégio em retorno? Isso é o sentido de trabalho em equipa, o sentido de  querer fazer algo de bom pelo país.

(Patriarca Kirill in RISU, 26/01/2015)

Apelou ainda, nesse mesmo discurso, a uma “cooperação entre as forças políticas” em prol de uma ideia de unidade e continuidade histórica, contra as tendenciosas desinterpretações do passado.

O líder da nação lamenta o colapso da URSS e reafirma-se comunista:

Por exemplo, no dia 25 de abril de 2005, perante a Assembleia Parlamentar Russa, no seu discurso anual dirigido à nação, transmitido em direto pela televisão, Vladimir Putin afirmou categoricamente o seguinte:

Deixem-me lembrá-los de como começou a história da Rússia moderna. Em primeiro lugar, deve ser reconhecido – e eu já disse isso antes – que o colapso da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século.

E, para o povo russo, isso tornou-se num verdadeiro drama. Dezenas de milhões de cidadãos nossos e companheiros russos viram-se fora da Federação Russa.

(Vladimir Putin in BBC Brasil, 25/01/2015)

Existem muitas outras intervenções sugestivas da parte dos atuais líderes políticos russos e, em particular, do presidente Putin. Entre outras, no dia 26 de janeiro de 2016, em Stavropol, o todo poderoso Vladimir Putin confessou descaradamente o seguinte:

Gostava e ainda gosto das ideias comunistas e socialistas. Se olharmos o “Código [Moral] do Construtor do Comunismo”, que circulou largamente pela União Soviética, ele é bastante similar à Bíblia.

Ao contrário de muitos funcionários – e eu não era um -, do ponto de vista do Partido, eu era um membro ativo, eu não deitei fora o meu cartão de membro partidário, não o queimei. O Partido Comunista da União Soviética colapsou, mas a minha identificação está lá em algum sítio.

(Vladimir Putin in Russia Beyond the Headlines, 25/01/2015)

O Código Moral do Construtor do Comunismo foi um compêndio de princípios morais aprovado pelo Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1961, amplamente difundido na propaganda do regime. Uma espécie de “catecismo” com os 12 “mandamentos” comunistas.

Para além de não ter nada de “bíblico” nem de cristão, este manual foi contemporâneo de uma das maiores campanhas de perseguição religiosa levadas a cabo em toda a era soviética, liderada por Nikita Khrushchev.

PRINCÍPIOS DO “CÓDIGO MORAL DO CONSTRUTOR DO COMUNISMO”

  1. Lealdade à causa comunista, amor à pátria socialista e aos países socialistas.
  2. Trabalho consciente para o benefício da sociedade. Quem não trabalha, não come.
  3. Todos têm o dever de se preocupar com a preservação e com o crescimento do domínio público.
  4. Elevado sentido de dever público, intolerância ao desinteresse público.
  5. Coletivismo e ajuda mútua. A camaradagem é: um por todos e todos por um.
  6. Respeito mútuo entre as pessoas: o homem é um amigo, companheiro e irmão para o homem.
  7. Honestidade, veracidade, pureza moral, simplicidade e modéstia na vida pública e privada.
  8. Respeito mútuo na família. Preocupação com a educação das crianças.
  9. Atitude intransigente perante a injustiça, o parasitismo, a desonestidade e a especulação.
  10. Amizade e irmandade entre todos os povos da URSS. Intolerância ao ódio nacional e racial.
  11. Intolerância com os inimigos do comunismo. Paz e liberdade das nações.
  12. Solidariedade fraterna com os trabalhadores de todos os países em todas as nações.

(in Wikipedia – tradução livre)

código moral do construtor do comunismo
Postais elucidativos de alguns dos princípios definidos no Código Moral do Construtor do Comunismo

Independentemente das opiniões que cada um possa ter, qualquer análise objetiva da evolução histórica e conjuntural da nação russa no último século deve ter sempre presente os princípios básicos que fundamentam o comunismo. Neste sentido, seria erróneo esperar que um eventual renascimento futuro do comunismo na Rússia, ou em qualquer outro lugar, viesse para hostilizar a religião. Numa ótica de entendimento dialético comunista, será mais lógico esperar que o eventual reaparecimento do comunismo resulte da síntese entre as duas teses antagónicas do passado. Um comunismo de cara lavada, de discurso aprazível, capaz de integrar a própria Igreja institucional na sua rede de influência, subjugando-a e servindo-se das suas enormes potencialidades.

A aproximação entre a doutrina cristã e o comunismo já foi experimentada anteriormente. No passado soviético mais tardio, muitos clérigos influentes da Igreja Ortodoxa, entretanto legalizada, eram membros do Partido Comunista. Na América Latina, a luta de classes é, desde há muito tempo, fomentada pelos padres e teólogos da Teologia da Libertação.

esquivel
Pérez Esquivel, 1992

Que esperar do comunismo moderno?

A cor vermelha foi muito estigmatizada no passado, se calhar é melhor optar por outra, ou por outras, quanto mais colorido melhor! Os arcos-íris estão na moda e o verde ecológico também.

Agora fala-se menos de luta armada, de ditadura do proletariado, de comités centrais, de Marx, de Lenin, ou de Mao, para se falar mais do ambiente, da Terra, dos agricultores, das mulheres, dos males do capitalismo e até de Jesus Cristo. A própria Igreja Católica, de forma mais ou menos inconsciente, acaba por entrar na onda e, quando nos damos conta, estamos todos a cantar a mesma música…

O comunismo, fortemente condenado por sucessivos Papas, é completamente incompatível com o cristianismo, qualquer tentativa de aproximação das duas coisas resulta na adulteração da Verdade cristã.

Basto 6/2016